O presente artigo é decorrente
de uma pesquisa de Iniciação Científica realizada
entre agosto de 2006 e julho de 2007, sob orientação do Prof.
Dr. Ronaldo Rômulo Machado de Almeida, do Departamento de Antropologia
da Unicamp, e financiada pelo CNPq; pesquisa a qual levava o título
“Hexis Sagrada: constructos de juventude vocacionada na Fraternidade Toca
de Assis”. Os questionamentos suscitados com esse trabalho forneceram o
sumo para uma monografia, também sob orientação do
Prof. Dr. Ronaldo de Almeida, e uma nova bolsa de Iniciação
Científica, desta feita da FAPESP e iniciada no presente mês
de agosto de 2008, com duração prevista para um ano e cujo
título é “Juventude e Religião: Éticas e Estéticas
para uma Juventude Santa”, pesquisa em que me atenho à temática
da Juventude na formação de novos tipos de religiosidade
no interior do catolicismo e do pentecostalismo evangélico, os quais
atualmente vêm fundando novos modelos de santidade voltados para
o público jovem, diante do qual vem obtendo muito sucesso.
A primeira fase da Iniciação
Científica propôs um estudo sobre a Fraternidade Toca de Assis,
uma comunidade católica constituída por jovens que tomam
os centros das grandes cidades como local privilegiado de sua expressão
religiosa, atuando nos espaços da rua a partir de uma peregrinação
urbana em busca dos moradores de rua, a fim de exercerem uma ação
salvacionista sobre os mesmos. Seus objetivos partiam de uma questão
acerca do desenvolvimento da vocação religiosa em torno destes
jovens e em que medida a Fraternidade obtinha seu sucesso em torno deste
segmento. Já a segunda fase da Iniciação Científica
tem como objeto a Fraternidade Toca de Assis e um contraponto evangélico
com a Crash Church Underground Ministry.
Para a presente apresentação,
atenho-me a elementos do método e da pesquisa de campo realizada
durante o período citado no que concerne ao tema das práticas
do catolicismo da Fraternidade Toca de Assis em relação à
cidade e ao seu alvo de salvação no interior das cidades,
a saber, os moradores de rua. Além disso, me atenho a uma pequena
discussão bibliográfica acerca dos temas juventude, religião
e as dinâmicas da religião no mundo contemporâneo.
Ainda que incipiente, tal artigo traz uma primeira tentativa de demonstração
da aproximação da Fraternidade Toca de Assis enquanto uma
experiência nova e única de catolicismo nos centros das grandes
metrópoles, envolvendo uma religiosidade específica, pautada
nos elementos simbólicos acionados em torno da pobreza urbana e
tendo como seus pertencentes uma juventude de classe média que abandona
seu posicionamento econômico-social em prol de uma “mendicância
sagrada”.
Objeto de Investigação
Eles são jovens, vestem largos
mantos franciscanos marrons, têm seus cabelos raspados e peregrinam pelos
centros das grandes metrópoles com os pés descalços.
São meninos e meninas que decidiram deixar de morar na casa
de seus pais para entrarem em uma vida religiosa cuja missão principal
é viver na pobreza. Eles são pertencentes da Fraternidade
Toca de Assis, uma comunidade católica criada na cidade de Campinas
há 14 anos. Os pertencentes da Toca de Assis já foram meus
interlocutores em uma pesquisa de Iniciação Científica realizada
nos anos de 2006 e 2007, quando, a partir da pesquisa de campo e do recolhimento
de trajetórias de vida, o estudo tinha por objetivo compreender
de que modo uma vida religiosa tão radical e conservadora fazia
sucesso exatamente entre jovens , e como se dava o processo de construção
da vocação entre os mesmos. Essa pesquisa evidenciou
uma lógica de pertença religiosa a operar por um viés
de construção de identidades que extrapolavam o espaço
religioso a partir de um modelo de santidade que possuía eficácia
entre o segmento jovem na medida em que se conectava a ideários
do comportamento juvenil.
Constatei que para serem aceitos
pela Fraternidade os jovens devem se desfazer de seus bens materiais,
raspar o cabelo (tanto os homens como as mulheres), fazer juramento de
castidade, mudar de nome e mudar-se para a cidade que lhes é destinada,
munidos de apenas alguns itens de vestuário íntimo e duas
peças de roupa fabricadas e entregues pela Fraternidade. Este processo
de desprovimento opera uma composição simbólica que
acaba por conferir aos pertencentes um não-status e uma posição
de marginalidade sagrada construída em oposição
aos elementos bem posicionados da estrutura social e em semelhança
a elementos-páreas da estrutura social (Douglas, 1979). Desse
modo, o sagrado é alcançado através de um desprovimento
material e simbólico que a Fraternidade nomeia com a expressão
tornar-se pobre; e através de uma profunda aproximação
dos pertencentes das pessoas em situação de pobreza
econômica. Na prática, buscam uma ação salvacionista
(Weber, 1982) sobre a população adulta que habita as ruas
dos centros das cidades – conhecidos, no vocabulário mais recorrente,
por moradores de rua, mendigos, esmoleiros e nomeados pela Fraternidade
com a expressão irmãos de rua.
Peregrinos e missionários,
os pertencentes da Toca de Assis utilizam a cidade como espaço de
atuação religiosa por excelência, acionando diariamente
itinerários a pé pelas ruas, praças e viadutos em
busca de seu alvo salvacionista, tais itinerários são
compostos com o objetivo de ir a busca da população adulta
que habita as ruas, por eles referida como “irmãos de rua”, para
fornecer aos mesmos uma espécie peculiar de assistencialismo conectado
à noção de pobreza e salvação
existentes na Fraternidade. Desse modo, os pertencentes da Toca de Assis
acabam por acionar os mesmos itinerários já anteriormente
acionados por estes adultos que fizeram das ruas o lugar de seu cotidiano,
suas relações e sua identidade (Gregori, 2000). Através
destas peregrinações pela cidade, os jovens da Toca de Assis
exercem suas práticas salvacionistas na própria rua: em campo,
foi comum observá-los barbeando e cortando os cabelos de moradores
de rua nas muretas do Terminal Central de Campinas, assim como foi comum
encontrá-los munidos de instrumentos farmacêuticos limpando
feridas e fazendo curativos nos pés e nas pernas de velhos e adultos
que pediam esmola nas calçadas e na Rua 13 de Maio, em Campinas.
Também foi comum acompanhá-los carregando mesas, cadeiras,
pratos e panelas para a Praça do Carmo , em Campinas, onde semanalmente
se constrói um cenário de ‘sala de jantar’ destinado à
população adulta de rua. Assim, diferentemente da tradicional
vida religiosa oferecida pela Igreja Católica através dos
mosteiros e conventos, onde temos um espaço projetado para o isolamento
e o claustro em locais distantes das cidades e envoltos por grandes muros
e muito silêncio, a vida religiosa da Fraternidade Toca de Assis
se pauta pelo espaço da rua, na experiência urbana, no contato
social intenso, no deslocamento e mobilidade constantes por estas ruas
e, por fim, na relação entre espaços e sociabilidades
marginais (Arantes, 2000a).
Ao abandonarem a vida escolar
e familiar, os jovens da Fraternidade Toca de Assis passam a morar em casas
que abrigam de 15 a 20 pertencentes da Fraternidade, somando os leitos
móveis destinados ao abrigo da população adulta que
habita as ruas . As casas são divididas de acordo com a função
e missão que é destinada ao grupo de jovens pertencentes,
os quais são separados por gênero em casas onde só
moram meninos e casas onde só moram meninas. São casas comuns,
localizadas em bairros residenciais e no centro das cidades, que não
possuem sequer um indicativo (placas com o nome da Fraternidade ou símbolos
do catolicismo, por exemplo) que as caracterize enquanto uma casa destinada
a vida religiosa. Porém, possuem seus interiores completamente modificados:
os espaços abertos são transformados em refeitório,
barbearia e enfermaria, os cômodos são destituídos
de móveis, sendo alguns transformados em capelas e outros destinados
para local de descanso, para uso tanto dos jovens pertencentes como da
população adulta por eles atendida. Diariamente, abrem suas
portas para servir almoços, local de descanso, banho e serviços
de enfermaria e barbearia à população de rua . Há,
desse modo, uma dinâmica onde a relação dos jovens
pertencentes com a população adulta que habita as ruas começa
no espaço da rua e se direciona ao espaço das casas, em um
movimento de idas e vindas tanto dos jovens pertencentes, ao ir em busca
dos seus “pobres”, como dos adultos que habitam as ruas, que acionam os
serviços oferecidos pela Toca de Assis e depois retornam para as
ruas. Esta mobilidade e a transformação tanto da lógica
do interior das casas como da lógica do uso dos espaços da
rua operam com um embaralhamento das noções de espaço
público e espaço privado, na medida em que se torna difícil
definir uma fronteira de oposição entre a casa e a rua como
dois espaços de condutas sociais distintas (Da Matta, 1991). Nesse
sentido, há uma constante produção de “contra-usos”
de espaços disciplinados para uma certa ordem urbana (Leite, 2004),
ou, de acordo com uma expressão interessante utilizada pela Toca
de Assis para descrever-se, “A Toca nasceu na rua, hoje é uma rua
murada.” .
Atualmente, a Toca de Assis conta
com 150 casas como estas espalhadas pelo país, além de uma
casa em Quito, Equador e outra em Balasar, Portugal ; gerando uma estrutura
de comunidade pulverizada espacialmente – pequenas casas em muitas cidades,
a comportar de 15 a 20 pertencentes em cada casa. Ao mesmo tempo em que
mantém seu senso comunitário homogeneizando certas práticas,
regras e vestimentas, inculcando em seus jovens pertencentes uma hexis
corporal que os deixa semelhantes uns aos outros, a Fraternidade opera
com mecanismos de individuação importantes como a conversão
pessoal, os testemunhos de vida e a ideia de missão individual.
A missão individual parte do pressuposto de que para cada indivíduo
é destinado um dom sagrado específico, e segue uma normativa
onde cada jovem pertencente deve permanecer por no máximo um ano
em uma determinada cidade, ocasionando peregrinações e rupturas
constantes do indivíduo com o grupo comunitário em prol de
um fluxo de pertencentes. Assim, a cada período de um ano é
destinado ao indivíduo uma nova missão em uma casa diferente
e em uma cidade diferente, ocorrendo também neste momento um crescimento
espiritual do sujeito, o qual passa por um ritual religioso onde ocorre
mudança de posição assumida pelo jovem no interior
da Fraternidade . Desse modo, os jovens que decidiram pela vida religiosa
na Toca de Assis não são apenas peregrinos por seus itinerários
diários pelas ruas das cidades; mas estão em uma constante
mobilidade entre-cidades; traçando-se um trajeto de construção
da vida religiosa pautado por rupturas e reconstruções de
laços comunitários; deslocamentos e re-localizações
espaciais urbanas.
Com o recolhimento de algumas trajetórias
de vida, constatei que os jovens pertencentes da Toca de Assis possuem
uma origem sócio-econômica muito boa e que uma das principais
motivações iniciais para a decisão pela vida religiosa
no interior da Fraternidade era a preocupação com a desigualdade
social e o desejo de transformação da mesma. Há,
nesse sentido uma união entre motivação religiosa
e motivação de “militância social”, de maneira que
para se construir a possibilidade de ação sobre aquilo que
se considera uma desigualdade social (no caso, a situação
dos moradores de rua), faz-se necessário, primeiramente, desconstruir
a vida pessoal do jovem pertencente, a partir da ruptura biográfica
onde se abandonam os hábitos anteriores para tornar-se pobre. Em
outras palavras antes de uma ação de transformação
sobre a pobreza das ruas, faz-se necessário uma ação
pessoal onde o jovem primeiramente transforma sua própria vida,
em um movimento onde as “mudanças sociais” são obtidas a
partir de soluções biográficas (Beck, 1997).
A partir dos dados apresentados,
o que chama minha atenção para pesquisar este grupo no presente
momento é a presença da vida religiosa da Fraternidade
Toca de Assis na cidade, enquanto comunidade construtora de uma experiência
religiosa que se dá a partir de uma dinâmica em que a religiosidade
dos fiéis depende da ação sobre o mundo (Weber,
1982), particularmente uma ação salvacionista cujo alvo é
um “problema social”, a pobreza, e um grupo específico, a população
adulta que habita as ruas.
Objetivos
A proposta é compreender o
funcionamento da Fraternidade Toca de Assis em torno do cruzamento entre
a produção de religiosidade e a produção de
uma noção de “exclusão social” e “pobreza urbana”
enquanto um “problema social” a ser solucionado pelo viés do salvacionismo;
articulando, para tal análise, as características fundamentalmente
acionadas pela Fraternidade para a produção desta relação,
a saber, a presença maciça de jovens em seu interior, sua
estrutura pulverizada e de mobilidade, e sua experiência religiosa
urbana de contato intenso. Qual é a noção de pobreza
que está sendo operada pela Fraternidade, e de que forma esta noção
é construída quando se conecta à religião?
Como se dá a relação com a cidade e com os sujeitos
que cruzam estas práticas religiosas urbanas? Como é vivenciada
e acionada esta religiosidade, do ponto de vista dos jovens? Como se opera
a experiência de vida religiosa católica quando a regra é
uma ascese sobre o mundo, ao invés da tradicional fuga e isolamento
do mesmo?
A Pesquisa de Campo
A perspectiva metodológica
deste estudo parte do conceito de campo religioso definido por Pierre Bourdieu
(1990). Segundo o autor, a partir do processo de secularização
os limites do campo religioso tornam-se fluidos e invisíveis, configurando-se
um amplo campo de lutas e de manipulação simbólicas pela
condução da vida e por uma visão de mundo. Dessa forma,
o campo religioso deve ser compreendido enquanto fruto das relações
com os outros campos de domínio da manipulação do
simbólico. A partir desta perspectiva, o problema antropológico
a ser estudado se pauta nas relações que cruzam e gravitam
em torno destes jovens religiosos. O desafio é explorar os variados
e possíveis confrontos de trajetórias, itinerários
e eventos, instâncias sempre situadas relacionalmente, atentando
para a necessidade de se compreender a articulação da diferença,
a negociação do significado e a produção desta
religiosidade entre o segmento jovem e a noção de pobreza
construída a partir desta articulação.
Sendo o processo de deslocamento
e re-localização uma característica essencial para
a estruturação da experiência religiosa desta Fraternidade,
ou melhor dizendo, para a estruturação não só
da experiência religiosa dos sujeitos que dela participam, como também
da própria composição da Toca de Assis enquanto comunidade
religiosa, o campo de observação deixa de ser restrito à
ideia da aldeia nativa isolada que tão bem simbolizou o delineamento
das fronteiras espaciais das pesquisas de campo antropológicas.
A partir do momento em que os processos formadores das fronteiras simbólicas
ultrapassam a territorialidade “ilhada” das paróquias ou conventos,
se espraiando em uma ampla rede de relações a envolver diversos
cenários e agentes, surge o desafio metodológico em que o
olhar do pesquisador torne-se tão móvel e viajante (Clifford,
2000) quanto forem os interlocutores da pesquisa.
Desse modo,
a proposta metodológica
para este estudo foi a de uma pesquisa etnográfica urbana ,
tomando
a cidade de Campinas como campo inicial. Desde quando me mudei para
Campinas
a fim de estudar Ciências Sociais na Unicamp, moro no centro da
cidade onde, no ano de 2005, começou a aparecer, nas ruas em que
eu andava,
um pessoal estranho andando descalço, com umas roupas
engraçadas.
Para mim, parecia que acabavam de sair daqueles filmes bíblicos
que retratavam os tempos de Cristo, e comecei a achar que devia ser o
pessoal das Artes Cênicas. Perguntava para as pessoas do bairro,
todos diziam ter visto, mas ninguém sabia o que era aquilo. Um
dia, quando eu estava no ônibus com um amigo da faculdade, ele me
disse que aquele era o pessoal da Toca de Assis.
A
aproximação com o
campo se deu, primeiramente, observando aqueles jovens próximos
ao
local onde eu morava, e certo dia, quando eu caminhava em
direção
à minha casa, um grupo desses jovens caminhava bem à
minha
frente. De modo que desacelerei os passos para ver que caminho eles
seguiriam. Percebi como eles andavam devagar, diferentemente do andar
apressado das cidades
grandes em plena seis da tarde. Atravessaram a rua de minha casa e
continuaram
por mais alguns passos, entrando em uma casa. Percebi então que
aquela casa era um local de encontro, e passei a observá-la
durante
os dias que se seguiram. Bem em frente à casa ficava o bar
Furlan, barzinho universitário que frequento muito, por estar
situado na esquina de minha casa. Passei a frequentar mais esse bar
nos horários de almoço e na parte da noite, por achar que
dali eu podia observar de uma maneira desinteressada a casa em
questão.
Percebi muitas coisas interessantes a partir desta dimensão,
como,
por exemplo, os jovens universitários que frequentavam o bar,
na medida em que ficavam embriagados, enchiam os jovens da Toca de
Assis
de chacotas e mexiam com pertencentes femininas da Fraternidade com
conotações sexuais. Percebi um fluxo constante durante o
dia todo, de pessoas saindo e entrando na casa com suas vestes santas,
e uma movimentação curiosa no período do
almoço,
quando uma população que eu não sabia de onde
vinha,
homens com malas nas costas, roupas simples e um pouco sujas, se
reuniam
em grupos pelas redondezas da casa e depois entravam nela.
Uma noite, criei coragem e bati na
porta da casa. Fui muito bem recebida por uma garota, que me explicou o
que era a Toca de Assis e me mostrou o interior da casa, mostrando o que
elas faziam todos os dias, como dormiam, o que pensavam, etc. Inclusive,
contou que aquela casa tinha sido inaugurada naquela rua fazia dois
meses. A partir desse dia, recolhi um material que eram as revistas divulgadas
pela Toca de Assis e o endereço do site, e descobri mais uma infinidade
de casas como essas espalhadas não só por Campinas, mas, também,
por inúmeras outras cidades do Brasil. Passei a frequentar
o interior da casa e comecei a ser chamada para os eventos da Fraternidade.
Fui, então, pela primeira vez, a um desses eventos, que era uma Missa
com o padre fundador da Fraternidade, o Padre Roberto Lettieri, onde ele
entregaria novas vestes para jovens que haviam alcançado uma nova
etapa na espiritualidade da Toca de Assis. Ali pude fazer diversas apreciações
acerca do universo simbólico, corporal e das crenças. Chegava
em casa e escrevia tudo o que via, ensaiando algumas análises com
os textos que estava lendo em Antropologia, à época. Não
entendia nada dos conceitos teológicos e percebia que aquele catolicismo,
ali vivenciado, era muito diferente do catolicismo que minha família
havia me ensinado. Depois deste primeiro evento, passei a visitar as outras
casas da Fraternidade, tentando compreender a dinâmica de sua espacialização
dentro da cidade de Campinas. Percebi que as casas se concentravam no centro
da cidade e algumas outras se situavam nos bairros, sendo que as mais distantes
eram destinadas ao acolhimento dos moradores de rua, ou seja, eles
passavam a morar nessas casas junto com os jovens, como forma de se
"recuperar" do mundo da rua e entrar no mundo do trabalho.
Nesta época, eu estava particularmente
interessada em compreender os circuitos juvenis que haviam levado aqueles
jovens, em suas trajetórias individuais, à escolha de entrar na
Toca de Assis. Então me concentrei em acionar uma rede de contatos
entre pessoas que estavam querendo entrar na Fraternidade e pessoas que
já tinham saído da Fraternidade, além de conversar
com os pertencentes, ouvindo as histórias de suas vidas. Com isso,
entrei em uma rede de diversos eventos destinados ao público jovem
que a Toca de Assis fomentava em Campinas e em outras cidades, justamente
porque o pessoal que estava querendo entrar na Fraternidade me mostrava
como achava importante e legal participar desses eventos. O intuito de
contar um pouco sobre esta minha trajetória na pesquisa de campo
é mostrar de que modo o campo foi me levando para determinadas questões
e como foi minha primeira entrada na atividade da etnografia; isso para chegar a explanar
um pouco a respeito do momento atual da pesquisa, quando tomo a rua e as
relações contidas entre a Toca de Assis e este espaço
como foco de visão privilegiados.
No discurso
feito nos eventos,
a importância dada à ação da Fraternidade em
torno da pobreza urbana era patente. Porém, o campo feito no
interior
das casas, nas missas e nos eventos me mostrava que esta
ação
tão privilegiada pela Toca de Assis só poderia ser
apreciada
se eu fosse para a rua. Um novo desafio que se mostrou foi o de
conversar
com os moradores de rua que, diariamente, vão até a Toca
que fica perto da minha casa no momento anterior à entrada
deles na casa, quando formam seus grupos nas esquinas e esperam
as portas se abrirem. Quando fiz alguns vínculos de maior
proximidade,
pude começar a andar com alguns desses moradores de rua pela
cidade.
O “andar com” os sujeitos de minha análise me fazia perceber a
cidade
de uma forma que não era a mesma que a minha – o caminhar, os
trajetos percorridos, a descoberta de outras instituições
que oferecem
comida e se transformam em pontos de encontro para esse pessoal. O
desafio
atual está sendo utilizar este mesmo método do “andar
com”
juntamente com os pertencentes da Fraternidade Toca de Assis, o que tem
se mostrado mais difícil pois a recepção
não
é a mesma que a dos moradores de rua. As
apropriações
do espaço urbano pelos pertencentes da Toca de Assis que
primeiramente
pude observar foram o “Sopão”, onde toda as quartas-feiras
transformam
a praça em sala de jantar (descritos no início do texto)
e a “Pastoral de Rua”, que aos sábados de madrugada percorre
pontos
da cidade em busca dos moradores de rua, com violão, café
e cobertores. Porém é acompanhando suas práticas
cotidianas
pelo centro da cidade à tarde que venho encontrando os
“imponderáveis”
da vida social, como a apropriação de novos
espaços,
os primeiros encontros com moradores de rua antes desconhecidos e as
atitudes
insubordinadas dos moradores de rua perante a ação
salvacionista
dos pertencentes da Toca de Assis. Gostaria de discorrer mais a
respeito
da experiência de campo, mas como há um limite de
páginas
a ser respeitado, passarei a alguns apontamentos breves de
questões
que despontaram durante a pesquisa.
Discussão e Questionamentos
Tornar-se pobre e salvar os pobres.
A construção do sagrado no interior da Fraternidade Toca
de Assis gravita em torno da pobreza. Porém, qual é a noção
de pobreza contida em seu interior e em suas práticas? De que modo
esta noção é construída? Mais ainda, como esta
classificação e ação no mundo é recebida
pelo seu alvo de salvação, ou seja, a população
adulta que habita as ruas?
Podemos perceber dois grupos distintos
vivenciando duas “pobrezas” distintas: os jovens provenientes de boa condição
econômica, adquirindo uma “pobreza sagrada”; e os adultos que estão
na rua em má situação econômica e por motivos
diversos, possuidores de uma “pobreza-problema”. O modo de aquisição
do sagrado entre os jovens da Toca de Assis é semelhante ao descrito
por Edmund Leach (1983), onde os barbeiros da Índia, enquanto manipuladores
do sujo e do impuro eram considerados detentores de alguma potencialidade
que os colocava à parte como pessoas sagradas. Nos ritos ndembu,
o futuro chefe “...é como um escravo (ndung’u) na noite antes de
subir ao trono” (Turner, 1974 p. 125), entrando em um estado liminar que
lhe concede poder e sacralização. Os pertencentes da Toca
de Assis sacralizam-se a partir do momento em que abandonam um status social
ordenado (decorrente da posição de classe média em
que se encontram antes da entrada na Fraternidade) e entram em contato
com um grupo considerado marginal e liminar no interior da estrutura social.
Enquanto jovens oriundos de uma boa situação econômica,
atingem esta condição liminar e santificada porque negam
um status social pleno de ordem estrutural, gerando uma transposição
biográfica que fornece uma relação onde jovens cuidam
de adultos. Mesmo portando largas e desleixadas vestes marrons e deixando
os pés descalços enquanto elementos simbólicos relacionados
a um status inferior, a imagem que os jovens pertencentes produzem é
a de um grupo juvenil caracterizado pela brancura dos corpos, pela gentileza
no trato, pela alegria nos rostos, pela diplomacia daqueles que ocupam
as melhores posições sociais – características melhor
notadas quando são vistos lado a lado com a população
adulta que habita as ruas, os quais carregam a imagem da dor e do mau-trato
dos que têm fome, o cheiro e a fala desordenada dos que se alcoolizam (Frangella,
2004). Nesse sentido, mesmo ocupando uma posição de “pobreza
sagrada”, os jovens pertencentes da Toca de Assis parecem “estar no lugar”,
estabelecendo enquanto prática a função salvadora
de “colocar no lugar” a população adulta que se encontra
desordenada por habitar o espaço da rua.
Ao agirem
no espaço social
enquanto salvadores de um grupo, os pertencentes da Toca de Assis
produzem
uma categorização deste grupo, os moradores de rua,
enquanto
grupo que passa por uma experiência de exclusão e
isolamento,
uma experiência de marginalidade que ocupa o lugar da desordem,
em
relação a ordem divina. A rua é hoje um universo
cravejado
por aparatos institucionais, técnicas discursivas e
operações
políticas específicas (De Lucca, 2007). A Fraternidade
Toca
de Assis pauta sua vida religiosa em uma experiência urbana em
que seus jovens pertencentes, ao tornarem-se pobres, apesar de
não atingirem
a mesma pobreza das ruas, vivenciam uma experiência liminar que
lhes
é condição para agir em prol de suas
motivações
para uma transformação social daquilo que consideram uma
‘desigualdade social’. Portanto, não se trata apenas de uma
relação
entre o grupo religioso e a pobreza das ruas, mas de uma
relação
que cruza questões de juventude, identidade, pertença,
comunidade,
rupturas biográficas, sentidos, trajetórias,
visões
de mundo. Tais apontamentos nos conduzem à chave interpretativa
proposta por Clifford Geertz (2001), o qual coloca a necessidade de
compreensão
dos movimentos religiosos da atualidade sob o parâmetro
analítico
da tensão entre as esferas sociais a partir da
experiência,
do sentido, da identidade e do poder. Um estudo sobre a Fraternidade
Toca
de Assis pode contribuir para a análise do posicionamento da
religião
na configuração dos espaços públicos e
políticos,
na medida em que sua atuação na cidade esbarra em
diversos
agentes que cruzam a questão do habitar a rua, como os
‘especialistas’
(assistentes sociais, encarregados da prefeitura), os membros de outras
religiões que também atuam na rua e os próprios
moradores
de rua.
Webgrafia
Toca
de Assis
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Notas
A
idade média dos jovens acompanhados durante a pesquisa variava entre
14 a 25 anos.
Nesta
pesquisa, chamei de ‘processo de construção da vocação’
a maneira como se dava a entrada dos jovens na Toca de Assis. Para isso,
optei por investigar os jovens que estavam entrando na fraternidade, os
que já estavam inseridos e os que haviam abandonado a fraternidade.
Desse modo, pude levantar uma rede de relações (entre espaços
religiosos e não-religiosos) que levaram estes jovens a tomar conhecimento
e a se aproximarem da vida religiosa proposta pela Toca de Assis.
Para
uma ótima análise acerca do morador de rua, mendigo ou esmoleiro
enquanto categoria socialmente construída a partir de um jogo de
múltiplos agenciamentos urbanos, conferir De Lucca, 2007.
Essa
praça comporta bares e um espaço ao ar livre muito freqüentado
diariamente por jovens, constituindo um ponto de lazer, música e
bebida. Os dias dos jantares marcam um contraste interessante entre os
dois lados da praça (separados por uma rua), onde vemos jovens namorando
e se embriagando, de um lado; e jovens rezando e cuidando de alimentar
os participantes do jantar, de outro.
A
partir de um discurso muito presente Fraternidade, o qual diz que “a faculdade
da Toca é a rua”, os jovens pertencentes são impelidos a
freqüentarem a escola até o término do ensino médio,
não havendo qualquer incentivo à intelectualidade ou ao ensino
universitário. Há mesmo um certo repúdio ao intelectualismo,
que segundo a Fraternidade faz as pessoas tomarem um tempo desnecessário
com livros ao invés de doarem seu tempo aos que sofrem e precisam
de ajuda. Durante a Iniciação Científica, conheci
muitos jovens que abandonaram cursos universitários a fim de entrarem
para a vida religiosa da Toca de Assis.
Chamo
de “leitos móveis” algumas camas improvisadas que existem nessas
casas, que se tornam leitos temporários para aqueles sujeitos em
situação de rua que decidem morar por um tempo juntamente
com os jovens pertencentes. Normalmente os que ficam por tempos maiores
encontram-se em estado de saúde muito debilitado, e em idade avançada.
Um
dado importante é que nos espaços das casas, a Fraternidade
Toca de Assis atende somente pessoas de idade igual ou superior a 40 anos,
interditando com isso jovens e até mesmo alguns adultos mais novos.
Este dado, entre outros, sugere um tipo específico de classificação
da pobreza que deve ser salva, assim como da pobreza que lhes serve como
alteridade para a construção de uma vida religiosa pautada
no “tornar-se pobre”.
Frase
encontrada nos discursos, no site (www.tocadeassis.org)
e na revista da Toca de Assis (Revista Toca prá Igreja), durante
a pesquisa realizada.
Este
expansionismo internacional é recente, datando de 2007 a abertura
destas duas casas. Este dado me suscita várias perguntas, como por
exemplo, de que modo as classificações de pobreza manipuladas
pela Fraternidade se # adéquam a realidades sociais distintas, como
uma realidade européia e uma realidade latina? Quais são
as redes acionadas para que uma religiosidade de origem brasileira se expanda
desse modo?
Há
um sistema gradativo de crescimento espiritual o qual é inculcado
nos sujeitos em uma dimensão corporal muito forte, através
de inscrições em seus corpos com vestimentas, símbolos
e demarcações. As escalas dessa ‘hierarquia’ são o
“aspirantado”, o “postulantado”, o “noviciado” e a “consagração”.
O significado e os ritos de passagem entre as escalas foram desenvolvidos
em meu relatório final da pesquisa de Iniciação Científica.
Devido
ao limite de 12 páginas proposto para os “papers”, optei por dar
privilégio aos resultados e análises teóricas e interpretativas
decorrentes da pesquisa de campo realizada. Desse modo, a pesquisa de campo
não aparecerá aqui de maneira tão elaborada como eu
desejaria. Porém, optei por esquematizar um recorte, para a apresentação
oral, que enfoque privilegiadamente o campo, às andanças
pela cidade, aos desafios enfrentados e ao processo de inserção
e descobertas. Assim, o “paper” tem o intuito de apresentar o objeto de
investigação e falar um pouco dele; já a apresentação
oral se deterá mais em contar a minha experiência de campo.
