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O poder que o homem possui de enunciar
seus pensamentos é um dos elementos mais essenciais de sua civilização.
Se o homem pode pensar sem o recurso de alguma expressão exteriorizadora
é uma questão metafísica que não precisa ser
discutida aqui. Assim, dificilmente seria negado por qualquer pessoa que
o poder de enunciação do homem, que excede em muito qualquer
outro que os animais inferiores possuam, é uma das principais causas
de sua imensa preeminência sobre eles.
Dos meios que o homem tem para enunciar
ou expressar aquilo que está em sua mente, a fala é, de longe,
o mais importante. Tanto que quando falamos sobre enunciar nossos pensamentos,
entende-se com essa frase que queremos dizer expressá-los em palavras.
Mas quando dizemos que o poder de enunciação do homem é
uma das grandes diferenças entre ele e os animais inferiores, devemos
acrescentar à palavra enunciação um sentido mais compatível
com sua etimologia. Como admite Steinthal (1851,
p. 904), o homem surdo-mudo é uma refutação viva da
proposição de que o homem não pode pensar sem a fala
a menos que aceitemos que a conhecida noção de fala, como
a enunciação do pensamento por meio de sons articulados,
seja restrita demais. Enunciar um pensamento é, literalmente, colocá-lo
para fora de nós, assim como expressá-lo significa espremer
para fora. Por mais grosseiras que essas metáforas sejam, elas são
os melhores termos que possuímos para esse processo maravilhoso
através do qual o homem pode, por meio de alguma ação
corporal, não apenas fazer com que as mentes de outros homens reproduzam
com relativa precisão o que se passa em sua própria mente,
mas, também, receber de volta, do signo exterior, uma impressão
similar à deles, ainda que tenha sido realizada por outrem e não
por si próprio.
Além da fala articulada, os
principais recursos por meio dos quais o homem pode expressar o que está
em sua mente são a linguagem gestual, a escrita pictórica
e a escrita por palavras. Se soubéssemos hoje o que esperamos saber
um dia, por exemplo, como a língua emergiu e se desenvolveu no mundo,
nosso conhecimento da condição e da história primitivas
do homem se colocaria numa base muito diferente daquela em que está
agora. Mas sabemos tão pouco sobre a origem da língua, que
até mesmo os grandes filólogos são forçados
ou a evitar a questão completamente, ou se tornarem metafísicos
para poder discuti-la. A linguagem gestual e a escrita pictórica,
contudo, por mais insignificantes que sejam na prática em comparação
com a fala e a escrita fonética, merecem ser seriamente consideradas,
tendo em vista que, realmente, podemos entendê-las de modo tão
pleno quanto entenderíamos qualquer outra coisa e que, ao estudá-las,
podemos nos dar conta em alguma medida da condição da mente
humana que subjaz a tudo que tem sido traçado até agora;
inclusive no dialeto mais inferior da língua, se tomada como um
todo. Embora não possamos dizer nesse momento como é que
o homem chegou a se expressar por meio de palavras - com exceção
de palavras nas quais podemos traçar os efeitos da emoção
direta, como nas interjeições, ou da formação
imitativa, como em “piuí” e “cuco” -, podemos ao menos ver como
ele ainda se expressa por sinais e figuras e, assim, ter uma idéia
sobre a natureza desse grande movimento que nenhum animal inferior parece
ter feito, ou dado qualquer sinal de fazê-lo. A ideia de que a linguagem
gestual representa uma etapa distinta e separada da enunciação
humana pela qual o homem passou antes que viesse a falar não encontra
suporte em fatos. Mas pode-se, plausivelmente, sustentar que nos primeiros
estágios do desenvolvimento da língua, quando o vocabulário
era ainda muito simples e escasso, o gesto tinha uma importância
como elemento de expressão que em uma língua altamente organizada
acabou se perdendo.
A linguagem gestual, ou linguagem
de sinais é, em grande parte, um sistema que representa objetos
e ideias por meio de um esboço gestual simples que imita suas características
mais marcantes. Trata-se de “uma linguagem pictórica”, como foi
bem dito por um homem surdo-mudo. Aqui, a diferença essencial entre
a linguagem gestual e a fala fica evidente. A razão pela qual as
palavras estar e ir significam o que elas significam é uma questão
de cuja resposta ainda não podemos sequer nos aproximar, pois se
tivéssemos sido ensinados a dizer “ficar” no lugar do que agora
chamamos de “ir”, e “ir” no lugar de “ficar”, seria praticamente o mesmo
para nós. Sem dúvida, houve alguma razão para essas
palavras terem recebido os significados que agora possuem, da mesma maneira
que, de fato, há razões para tudo; mas, no que nos diz respeito,
pode também não ter havido qualquer razão, já
que perdemos de vista, consideravelmente, a conexão entre a palavra
e a ideia. Contudo, na linguagem gestual, a relação entre
a ideia e o sinal não apenas existe mas dificilmente pode ser perdida
de vista em qualquer momento. Quando uma criança surda-muda mantém
seus dois primeiros dedos posicionados para baixo como duas pernas e os
faz ficar de pé e andar sobre uma mesa, não precisamos que
nos ensinem o que isso significa e nem por que isso é feito.
Essa definição da linguagem
gestual, contudo, não está completa. Os objetos que, de fato,
estão na presença do falante, ou que poderiam
estar, são trazidos corporalmente à conversação
por meio do toque, do apontamento, do olhar direcionado a eles, para indicar
os próprios objetos ou uma de suas características. Assim,
se um surdo-mudo toca seu lábio inferior com seu dedo indicador,
o contexto deve decidir se ele deseja indicar o próprio lábio
ou a cor “vermelha”, a menos que, como às vezes acontece, ele mostre,
segurando de fato o lábio com o indicador e o polegar, que é
ao próprio lábio, e não à sua qualidade, a
que ele quer se referir. Sendo assim, tanto “desenhos feitos no ar” quanto
coisas que são trazidas à mente pelo apontamento real, constituem
a linguagem de sinais.
É nas Instituições
de Surdos-Mudos que a linguagem gestual pode ser mais convenientemente
estudada. O pequeno conhecimento prático que tenho dessa linguagem
foi conseguido dessa forma, na Alemanha e na Inglaterra. Nessas instituições,
contudo, há sinais gramaticais usados na linguagem gestual que,
na verdade, não pertencem a ela. São sinais na maioria das
vezes adaptados, ou talvez inventados, por professores que faziam uso da
fala, para expressar ideias que não são abarcadas pelo escopo
da gramática natural e do dicionário bastante limitados dos
surdos-mudos. Mas deve ser observado que embora os surdos-mudos tenham
sido ensinados a compreender esses sinais e a usá-los na escola,
eles os ignoram na fala cotidiana e, se pudessem, não fariam qualquer
uso deles.
Por meio da instrução
os surdos-mudos podem ser ensinados a comunicar seus pensamentos e aprender
com os livros e os homens de maneira bastante próxima da que fazemos,
embora num grau mais limitado. Eles aprendem a ler, a escrever, a soletrar
sentenças com o alfabeto manual e a entender palavras soletradas
por outros da mesma maneira. Além disso, eles podem ser ensinados
a falar em língua articulada, embora com uma voz rouca e sem modulações,
e a seguir os movimentos dos lábios quase como se eles pudessem
ouvir as palavras enunciadas quando outra pessoa fala.
Deve ser destacado aqui, de uma vez
por todas, que o público em geral confunde a verdadeira linguagem
de sinais dos surdos-mudos, na qual os objetos e as ações
são expressos por gestos pantomímicos, com o alfabeto manual
dos surdos-mudos, que é um mero substituto para a escrita alfabética.
Não basta dizer que as duas coisas são distintas; elas não
têm absolutamente nada a ver uma com a outra e têm tão
pouca semelhança quanto uma figura teria em relação
à sua descrição escrita. Embora seja de pouco interesse
científico, o alfabeto manual é de grande utilidade prática.
Parece que ele foi inventado na Espanha, país a que o mundo deve
o primeiro ensino sistemático de surdos-mudos, por Juan
Pablo Bonet (1620, p. 123) - em cujo trabalho o alfabeto que utiliza
uma só mão é lançado, diferindo um pouco deste
que agora está em uso na Alemanha -, ou talvez por seu predecessor,
Pedro de Ponce. O alfabeto francês, ou aquele que utiliza as duas
mãos, em geral usado na Inglaterra, é mais recente (Schmalz,
1848, p. 214, 352).
A língua materna (por assim
dizer) dos surdos-mudos é a linguagem de sinais. A evidência
dos melhores observadores tende a provar que eles são capazes de
desenvolver a linguagem gestual de suas próprias mentes sem a ajuda
dos homens falantes. De fato, os surdos-mudos, em geral, superam o resto
do mundo em sua capacidade de usar e compreender sinais; e é por
essa simples razão que, embora a linguagem gestual seja propriedade
comum de toda a humanidade, ela raramente é desenvolvida e cultivada
em grau tão elevado pelos que fazem uso da fala quanto o é
por aqueles que não podem falar e devem, portanto, recorrer a outros
meios de comunicação. As opiniões de dois ou três
especialistas podem ser citadas para mostrar que a linguagem gestual não
é como o alfabeto manual, uma arte que se aprende no primeiro momento
com um professor. É um processo independente que tem origem na mente
do surdo-mudo e se desenvolve com a expansão de seu conhecimento
e poder de racionalização, através da instrução.
Samuel Heinicke,
fundador do ensino para surdos-mudos na Alemanha, destaca: “Ele (o surdo-mudo)
prefere manter-se fiel à sua pantomima, que é simples e direta
e que para ele é tão natural quanto uma língua materna"
(1778, p. 56). Schmalz (1848, p. 267) diz:
Os muitos sinais que não usamos
no dia-a-dia, mas que uma criança surda-muda usa, não tendo
ela outro meio de comunicação com os outros que não
seja por sinais, não são menos compreensíveis. Esses
sinais consistem, principalmente, em desenhar no ar a forma dos objetos
a serem sugeridos para a mente, indicando a sua qualidade, imitando o movimento
do corpo em uma ação a ser descrita, ou o uso de uma coisa,
sua origem, ou qualquer outra de suas peculiaridades notáveis.
Em relação aos sinais,
diz o Dr. Scott (1844, p. 84) de Exter:
a criança [surda-muda]
já terá provavelmente fixado os sinais pelos quais ela dá
nome à maioria dos objetos citados na lição anterior
(alfinete, chave, etc), e que ela usa na comunicação com
seus amigos. Esses sinais devem ser conservados na memória (pela
família da criança) e se uma palavra não tiver recebido
um sinal é preciso que a criança se empenhe em fixar um.
Ela provavelmente fará isso melhor do que você.
O Abade Sicard,
um dos primeiros e mais eminentes homens a devotar sua vida à educação
e “humanização” dessas criaturas afligidas, tem o mesmo depoimento
a dar. Diz ele:
Não sou eu que devo
inventar esses sinais. Eu tenho apenas que expor a teoria sob a ordem de
seus verdadeiros inventores, aqueles cuja língua consiste nesses
sinais. Cabe aos surdos-mudos fazê-los e, a mim, dizer como são
feitos. Os sinais devem ser formulados a partir da natureza dos objetos
que eles devem representar. São apenas os sinais dados pelo próprio
surdo-mudo para expressar as ações que ele testemunha e os
objetos que estão à sua frente que podem substituir a linguagem
articulada.
Falando do seu célebre pupilo
surdo-mudo, Massieu, ele diz:
Assim, por meio de uma troca
bem-sucedida, eu o ensinei os sinais escritos da nossa língua e
Massieu me ensinou os sinais mímicos da língua dele (...).
Portanto, deve ser dito que nem eu e nem meu admirável professor
- o Abade de L’Epée - somos os inventores da língua de sinais.
Da mesma maneira que não cabe a um estrangeiro ensinar a língua
francesa a um francês, o homem que fala não tem direito de
intervir na invenção de sinais, dando-lhes valores abstratos
(Sicard, 1800, p. xlv 18 c2).
Todas essas afirmações
são modernas, mas muito tempo antes da existência de Instituições
para surdos-mudos, o olhar perspicaz de Rabelais já havia notado
o quão natural e apropriado eram os sinais espontâneos feitos
pelos surdos-mudos de nascença. Quando Panurge quer saber, através
da adivinhação de sinais, como será a sua vida de
casado, Pantagruel o aconselha – “Pourtant, vous fault choisir ung mut
sourd de nature, affin que sés gestes vous soyent naifuement prophetiques,
non faintez, fardez, ne affectez” .
Também não devemos
depender de observações feitas por falantes comuns para compreendermos
como a linguagem gestual se desenvolve na mente dos surdos-mudos. Os surdos-mudos
instruídos podem nos dizer por experiência própria
qual a origem dos sinais gestuais. O relato a seguir é dado por
Kruse, surdo-mudo, bem conhecido professor de surdos-mudos e autor de diversas
obras de grande competência.
Assim, o surdo-mudo precisa ter uma
língua, sem a qual não existe transmissão de ideias.
Mas, aqui, a natureza vem em seu auxílio. O que o impressiona mais,
ou o que o faz distinguir entre uma coisa e outra, esses sinais característicos
de objetos, são ao mesmo tempo os sinais pelos quais ele conhece
esses objetos e os reconhece; eles se tornam símbolos das coisas.
E embora ele elabore, silenciosamente, os sinais que descobriu para objetos
isolados, isto é, embora descreva suas formas para si mesmo no ar
ou as imite em seu pensamento com mãos, dedos e gestos, ele desenvolve
por si mesmo sinais apropriados a representar ideias, que lhe servem como
meio de fixar diferentes tipos de ideias em sua mente e trazê-las
à sua memória. Desse modo, ele faz sua própria linguagem,
a chamada linguagem gestual (Geberden-sprache); e com esses poucos sinais,
escassos e imperfeitos, um caminho para o pensamento se abre; e à
medida que o pensamento se desdobra, a linguagem se desenvolve e se constitui
cada vez mais (Kruse, 1853, p. 51).
Agora vou relatar algumas observações
sobre o dialeto particular (por assim dizer) da linguagem gestual, de uso
comum na Instituição para Surdos-Mudos em Berlim .
Compilei uma lista de 500 sinais com a ajuda de meu professor, Carl Wilke,
que é surdo-mudo. Fala-se na existência de 5.000 sinais mais
usados na Instituição, mas a minha lista contém os
mais importantes. Primeiramente, no que diz respeito aos próprios
sinais, os apresentados a seguir, escolhidos aleatoriamente, darão
uma idéia do princípio geral pelo qual todos são formados.
Para representar os pronomes “eu,
tu, ele”: aponto o meu dedo indicador para a boca do meu estômago,
para “eu”; aponto o meu dedo para a pessoa a quem vou me dirigir, para
"tu"; aponto o meu polegar por cima do meu ombro direito, para “ele” e
assim por diante.
Quando eu mantenho a minha mão
direita aberta com a palma para baixo na altura da minha cintura e levanto-a
até a altura do meu ombro isso significa “grande”; mas se eu abaixar
a mão ao invés de levantá-la, significa “pequeno”.
O sinal para “homem” é o movimento
de tirar o chapéu; o de “mulher” é a mão fechada colocada
sobre o peito; para “criança”, o cotovelo direito é balançado
pela mão esquerda. O advérbio “aqui” e o verbo “vir” têm
o mesmo sinal: mover o dedo em direção a si mesmo, fazendo
um chamado.
Manter o dedo indicador e o do meio
afastados como uma letra V e movê-los dos olhos para fora significa
“ver”. Tocar a orelha e a língua com o dedo indicador são,
respectivamente, “ouvir” e “sentir o gosto”. Qualquer que seja a coisa
a ser apontada, o dedo indicador, como o próprio nome sugere, deve
apontar ou indicar.
... atque ipsa videtur
Protrahere ad gestum pueros infantia
linguae
Cum facit ut digito quae sint praesentia
monstrent (Lucretius, p.1030-1032) .
“Falar” é mover os lábios
como se estivesse falando (todos os surdos-mudos aprendem a articular palavras
no Instituto de Berlim) e, por sua vez, mover os lábios enquanto
o dedo indicador se move da boca para fora é “nome” ou “nomear”,
como se significasse “indicar pela fala”.
O contorno do formato do telhado
e das paredes feito no ar com as duas mãos é “casa”; com
um telhado reto é “quarto”. Cheirar, como se estivesse cheirando
uma flor, e com as duas mãos fazer um círculo horizontal
diante dessa flor é "jardim".
Pinçar um pedaço de
pele do dorso da mão é “carne” (humana e animal). Faça
vapor saindo dela com o dedo indicador e o sinal se torna “carne assada”.
Faça um bico de ave com dois dedos a frente da boca e bata os braços
para "ganso". Se for precedido pelo sinal anterior, teremos “ganso assado”.
Como são naturais todos esses
sinais imitativos! Eles não requerem nenhuma explicação
elaborada. Apreender o contorno mais notável de um objeto, o movimento
principal de uma ação, esse é o segredo e é
isso que o selvagem mais grosseiro faz sem ser ensinado e, mais ainda:
pode faze-lo melhor e com mais facilidade do que qualquer homem instruído.
Disse o diretor da Instituição:
Nenhum de meus professores que pode
falar tem grande habilidade com a linguagem gestual. É difícil
para um falante instruído ter proficiência naquilo que uma
criança surda-muda atinge quase sem esforço. É verdade
que eu consigo fazê-lo perfeitamente; mas eu estou aqui há
quarenta anos e tive como meta, desde o início, dominar a fundo
essa língua. Saber falar é um empecilho, não uma ajuda,
no aprendizado da linguagem gestual. O hábito de pensar em palavras
e traduzi-las em sinais é difícil de abandonar; mas até
que isso seja feito é praticamente impossível ordenar os
sinais na seqüência lógica em que eles se arranjam na
mente do surdo-mudo.
É claro que, quando coisas
novas são notadas pelos surdos-mudos, novos sinais surgem, imediatamente,
para elas. Desse modo, para expressar “ferrovia” e “locomotiva”, a mão
esquerda faz uma chaminé e o vapor saindo quase que horizontalmente
é imitado com o indicador direito. As pontas dos dedos da mão
parcialmente fechada, indo em direção à própria
pessoa como se fossem raios de luz, significa “fotografia”.
No entanto, um mero observador que
fosse registrar todos os sinais que viu serem usados por mestres e pupilos
nas salas de aula seria levado a ter uma idéia muito errada de sua
natureza. Professores de surdos-mudos consideraram apropriado, para fins
práticos, não apenas usar o desenvolvimento independente
da linguagem de sinais, mas, também, fazer acréscimos a ela
e remendá-la, de modo a torná-la equivalente, de maneira
mais rigorosa, às suas próprias fala e escrita. Para esse
propósito, sinais têm que ser introduzidos para muitas palavras
cujo significado os alunos aprendem principalmente pelo seu uso na escrita,
sendo ensinados a usar um sinal no lugar da palavra. Os punhos fechados
firmemente, direcionados à frente com os polegares levantados, significa
“ainda”. Mover os dedos levemente abertos, saindo da têmpora, significa
“quando”. Mover as mãos fechadas com os polegares para fora, para
cima e para baixo, sobre o colete é “ser/estar”. É verdade
que todos esses sinais podem ser baseados em gestos naturais. Dr. Scott,
por exemplo, explica o sinal “quando” como tendo sido formado dessa maneira.
Mas este tipo de derivação não faz com que esses sinais
mereçam ser incluídos na linguagem gestual pura e, realmente,
não parece que faria muita diferença para as crianças
se o sinal para “quando” fosse usado para “ainda” e assim por diante.
O Abade Sicard deixou-nos um volumoso
relato da linguagem de sinais que usava, a qual pode servir como um exemplo
dos curiosos sistemas híbridos que se desenvolvem dessa maneira,
pela junção da gramática e do dicionário de
inglês, de francês ou alemão, com a linguagem gestual.
Sicard ficou fortemente impressionado com a necessidade de usar os sinais
naturais e, talvez, até mesmo seus sinais mais arbitrários
tenham sido baseados neles. Mas ele se propôs a conseguir que os
gestos fizessem tudo o que uma palavra pode fazer e, por conta disso, era,
frequentemente, levado a elaborar adaptações estranhas. Contudo,
por ter ele se baseado tão diretamente em seus alunos surdos-mudos,
ou mesmo por ter sido bensucedido em aprender a pensar como eles, é
muito difícil dizer onde, exatamente, entra a influência da
linguagem falada ou escrita. Por exemplo: os surdos-mudos tomam emprestado
os sinais de espaço para expressar noções de tempo,
como fazemos com palavras; Sicard, atendo-se a esses sinais reais e usando-os
com um grau de análise que dificilmente foi alcançado a não
ser por meio das palavras, coloca um verbo no presente, indicando “aqui”,
com as duas mãos esticadas para fora e com as palmas para baixo;
no pretérito, com a mão direcionada para trás do ombro,
como em “atrás”; no futuro, colocando a mão à frente,
como em “ para frente”. Mas quando aplica sua maneira de conjugar a tempos
verbais como “eu deveria ter carregado”, ele apenas traduz palavras por
sinais mais ou menos apropriados. Novamente, com o auxílio dos dois
dedos indicadores enganchados – para expressar, imagino, a noção
de dependência ou conexão – ele distingue moi e me e, ao traduzir
dois termos gramaticais abstratos de palavras para sinais, introduz uma
outra concepção que é um tanto estranha à linguagem
gestual pura. Se o que foi sinalizado é um substantivo, ele coloca
a mão direita sob a esquerda para mostrar que aquilo é o
que está por baixo. Se é um adjetivo, ele coloca a mão
direita por cima, mostrando que é a qualidade que sobressai, ou
que é adicionada ao substantivo que está embaixo (Sicard,
1808, p. 562) .
Esses sistemas, em parte artificiais,
são, provavelmente, muito úteis no ensino, mas não
são a linguagem gestual real e, além disso, o elemento estranho
tão laboriosamente introduzido parece ter pouco poder para manter
seu posto. Pelo que pude aprender, poucos ou nenhum dos sinais gramaticais
artificiais poderão suportar até mesmo a curta viagem da
sala de aula ao parquinho, onde já não existem os verbos
“ser” e “estar”, onde as conjunções abstratas são
desconhecidas e onde a simples posição, qualidade e ação
podem servir para descrever tanto o substantivo como o adjetivo.
Em Berlim, como em todas as instituições
para surdos-mudos, há muitos sinais que não seriam entendidos
fora dos limites do círculo em que são utilizados, por mais
naturais que sejam. São sinais que indicam um objeto por meio de
uma peculiaridade acidental e são mais epítetos que nomes.
Meu professor surdo-mudo, por exemplo, era conhecido entre as crianças
pela ação de cortar fora o braço esquerdo com a mão
direita. A razão para esse sinal não era algo em particular
a respeito de seu braço, mas o fato de ele ter vindo de Spandau
e, por acaso, uma das crianças havia estado em Spandau, onde viu
um homem com apenas um braço. Daí o epíteto “sem-um-braço”
ter sido adotado para designar todos os nativos de Spandau, e o professor
em particular. Ainda, a Residência Real de Charlottenburg foi nomeada
pelo ato de levantar o joelho esquerdo e embalá-lo, aparentemente
em alusão ao último rei coroado nessa região sofrer
de gota.
Da mesma maneira, as crianças
preferiam indicar países estrangeiros por algum epíteto característico,
ao invés de soletrar seu nome com os dedos. Assim, aludia-se prontamente
à Inglaterra e aos ingleses pela ação de remar um
barco e sinais de decapitação e de estrangulamento eram usados
para descrever a França e a Rússia, em alusão às
mortes de Luís XVI e do imperador Paulo, eventos que parecem ter
impressionado as crianças surdas-mudas como os mais marcantes na
história desses dois países. Esses sinais têm interesse
muito maior que os símbolos gramaticais, os quais podem ser mantidos
em uso apenas pela ação de, por assim dizer, forças
maiores. Mas eles também nunca se inserem no corpo geral da linguagem
e não são permanentes nem mesmo no lugar em que surgem. Eles
morrem quando se passa de um grupo de crianças a outro e novos sinais
surgem em seus lugares.
A linguagem gestual não possui
uma gramática propriamente dita. Não conhece inflexões
de nenhum tipo; não mais do que o chinês. O mesmo sinal representa
“andar”, “andas”, “andando”, “andado”, “andante”. Adjetivos e verbos não
são distinguidos facilmente pelos surdos-mudos:
“cavalo-preto-belo-trote-galope”
seria a tradução grosseira dos sinais por meio dos quais
um surdo-mudo afirmaria que um belo cavalo preto trota e galopa. De fato,
a aplicação de nosso elaborado sistema de partes da fala
à linguagem gestual é bastante limitada, ainda que, como
será discutido de maneira mais completa em outro capítulo,
talvez seja possível traçar na linguagem falada, um dualismo
que se assemelha, em alguma medida, ao da linguagem gestual, com suas duas
partes constitutivas: a evocação de objetos e ações
factuais e a simples sugestão deles pela imitação.
Essa linguagem possui, entretanto, uma
sintaxe, digna de um exame cuidadoso. A sintaxe dos falantes difere de
acordo com a língua que eles aprendem: “equus niger”, “a black horse”;
“hominem amo”, “j’aime l’homme”. Mas o surdo-mudo amarra os sinais das
várias ideias que deseja conectar no que parece ser a ordem natural
em que elas se sucedem em sua mente, pois essa ordem é a mesma entre
os mudos de diferentes países e é inteiramente independente
da sintaxe que talvez pertença à língua de seus amigos
falantes. Por exemplo, a construção mais comum entre os surdos-mudos
não é “black horse”, mas “horse black”; não é
“bring a black hat”, mas “hat black bring”; não é “I am hungry,
give me bread”, mas “hungry me bread give” . A independência essencial da linguagem gestual pode, certamente,
ser trazida muito claramente à vista observando-se que falantes
instruídos, ao iniciarem a aprendizagem da linguagem de sinais,
não chegam naturalmente ao uso de sua sintaxe correta. Em vez disso,
organizam seus gestos na ordem das palavras em que pensam, fazendo sentenças
desprovidas de significado, ou enganosas, para o surdo-mudo, a menos que
ele possa reverter o processo, traduzindo os gestos em palavras e considerando
o que tal frase escrita significaria. Certa vez, ao ir a uma escola para
surdos-mudos e designar um garoto para escrever palavras na lousa, desenhei
no ar o contorno de uma tenda e toquei a parte interna de meu lábio
inferior para indicar “vermelho”, e o garoto escreveu, como seria de se
esperar, “uma tenda vermelha”. O professor observou que eu não parecia
ser um iniciante na linguagem de sinais, caso contrário eu teria
traduzido meu pensamento em inglês verbatim e teria colocado o “vermelho”
antes.
O princípio fundamental que
regula a ordem dos sinais dos surdos-mudos parece ser aquele enunciado
por Schmalz (1848, p. 274):
Aquilo que lhe parece o mais importante
ele sempre coloca antes do resto; e aquilo que lhe parece supérfluo
deixa de fora. Por exemplo: para dizer, 'Meu pai me deu uma maçã',
faz o sinal para 'maçã', depois para 'pai', e para 'eu',
sem adicionar o sinal para 'dar'.
As observações seguintes,
enviadas a mim pelo Dr. Scott, parecem concordar com essa visão.
Considerando as duas frases dadas,
'Eu bati em Tom com um bastão' e 'Tom me bateu com um bastão',
a seqüência na introdução das partes dependeria,
em alguma medida, da parte para qual se desejava atrair mais atenção.
Se uma simples narração do fato fosse necessária,
minha opinião é que ela seria ordenada como, 'eu-Tom-bateu-um-bastão',
e a forma passiva de maneira similar, mudando Tom para o início.
Mas essas frases geralmente não são ditas pelos surdos-mudos
sem que eles tenham se interessado pelo fato, e assim, ao narrá-las,
eles primeiro enunciam a parte que estão mais ansiosos por enfatizar
ao seu ouvinte. Assim, se um garoto batesse em outro garoto e a parte ferida
viesse nos contar, e estivesse desejosa de nos impressionar com a ideia
de que determinado garoto o havia feito, ele apontaria primeiro para o
garoto. Mas se estivesse ansioso por atrair a atenção para
seu próprio sofrimento, em vez de para a pessoa que o causou, apontaria
para si e faria o sinal de bater, em seguida apontaria para o garoto. Ou,
se estivesse com vontade de atrair atenção para a causa do
sofrimento, deveria sinalizar primeiro o bater e em seguida dizer quem
o fez.
Dr. Scott é, até onde
sei, a única pessoa que tentou estabelecer um conjunto de regras
definidas para a sintaxe da linguagem gestual (Scott, 1844, p. 53). "O
sujeito vem antes do predicado, (...) o objeto antes da ação".
Uma terceira construção é comum, embora não
necessária, "o modificador depois do modificado". A primeira construção,
na qual o cavalo é posto antes de "preto", permite ao surdo-mudo
fazer sua sintaxe suprir, até certo ponto, a distinção
entre adjetivo e substantivo, a qual seus sinais imitativos não
expressam por si mesmos. As outras duas construções estão
bem exemplificadas por uma observação do Abade Sicard (1808,
p. xxviii):
Um pupilo, a quem um dia coloquei
a questão 'Quem fez Deus?' e que respondeu 'Deus fez nada', não
me deixou dúvida quanto a esse tipo de inversão, usual para
os surdos-mudos, quando continuei a perguntar-lhe: 'Quem fez o sapato?'
e ele respondeu 'O sapato fez o sapateiro'.
Do mesmo modo, quando Laura Bridgman,
que era cega, assim como surda-muda, aprendeu a comunicar ideias soletrando
palavras com seus dedos, ela dizia "Fechar porta", "Dar livro"; sem dúvida
porque aprendera essas frases completas; mas quando fazia frases para si,
ela voltava à sintaxe natural dos surdos-mudos e soletrava "Laura
pão dar", para pedir pão, e "água beber Laura", para
expressar que ela queria beber água (Bridgman, 1845, p. 26) .
Deve-se observar que há uma
parte importante da construção que as regras do Dr. Scott
não abrangem: a posição relativa do ator e da ação,
o caso nominativo e o verbo. Dr. Schmalz (1848, p. 58, 274) tenta estabelecer
uma regra parcial para isto:
Se o surdo-mudo faz a conexão
entre o sinal para uma ação e o sinal para dizer que a pessoa
fez isso ou aquilo, ele coloca, geralmente, o sinal da ação
antes do sinal da pessoa. Por exemplo: para dizer 'Eu tricotei' ele movimenta
as mãos como se tricotasse e depois aponta com o dedo indicador
para seu peito.
Assim, também, Heinicke (1778,
p. 56) observa que, para dizer "O carpinteiro golpeou-me no braço",
ele golpearia a si mesmo no braço, depois faria o sinal de aplainar,
como se dissesse "Eu fui golpeado no braço, o homem que aplaina
madeira fez isso". Embora essas construções sejam, sem dúvida,
corretas por si mesmas, a regra de precedência conforme a importância
frequentemente as contraria. Se o surdo-mudo deseja enfatizar não
o tricotar, mas a si mesmo, ele provavelmente apontaria primeiro para si.
Kruse faz a construção de "O navio navega na água"
como a nossa própria, "navio navega água"; e a de "eu preciso
ir para cama" como "eu cama ir" (1853, p. 57).
Um olhar de questionamento converte
uma afirmação em pergunta e serve, totalmente, para diferenciar
entre “O mestre veio” e “O mestre veio?”. Os pronomes interrogativos, "quem?"
e "o que?" são feitos através de um olhar ou de um apontamento
realizadas de maneira questionadora; na verdade, esse sinais se assemelham
a tentativas mal sucedidas de dizer "ser/estar" e "aquilo/aquele(a)".
O modo de perguntar da criança surda-muda, "Quem bateu em você?"
seria "Você apanhou, quem foi?". Embora seja possível produzir
um grande volume de afirmações ou de perguntas simples, de
forma a que haja quase um gesto para cada palavra, o concretismo de pensamento
que pertence ao surdo-mudo - cuja mente não foi muito desenvolvida
pelo uso da linguagem escrita - e até mesmo alguém instruído
quando pensando e enunciando seus pensamentos através dos seus sinais
nativos, comumente requer que frases mais complexas sejam rearranjadas.
Uma pergunta comum entre nós, como "O que há com você?"
seria posta como "Você chorando? Você apanhou?" e assim por
diante. A criança surda-muda não pergunta "O que você
comeu no jantar ontem?", mas "Você comeu sopa? Você comeu mingau?"
e assim por diante. Uma oração conjuntiva é expressa
por meio de uma alternativa ou contraste: "Eu deveria ser punido se eu
fosse preguiçoso e travesso" seria colocado como "Eu preguiçoso,
travesso, não! - preguiçoso, travesso, eu punido, sim!".
Obrigação pode ser expressa de forma similar; "Eu devo amar
e honrar meu professor" pode ser colocado como "professor, eu bato, engano,
resmungo, não! - Eu amo, honro, sim!" Como Steinthal diz em seu
admirável ensaio, é apenas a segurança que a fala
dá à mente do homem para captar ideias rápidas em
todas as suas relações, que o leva aos meios mais curtos
de expressar apenas o lado positivo da ideia, dispensando o lado negativo
(1851, p. 923).
O que é expresso pelo caso
genitivo, ou uma preposição correspondente, pode ter um sinal
distinto de sustentação na linguagem gestual. Os três
sinais para expressar "a faca do jardineiro" devem ser a faca, o jardim
e a ação de segurar a faca, pressionando-a contra o peito,
colocando-a em seu bolso ou algo do tipo. Mas o simples fato de colocar
junto o possuidor e o possuído pode atender ao propósito,
como é bem demonstrado pela forma como um homem surdo-mudo designa
o marido e os filhos da filha de sua esposa fazendo seu testamento por
meio de sinais. O relato seguinte foi extraído de Justice of the
Peace, l de Outubro de 1864:
John Geale, de Yateley, pequeno proprietário
rural, surdo, mudo e incapaz de ler ou escrever, morreu deixando um testamento,
o qual validou colocando sua marca. A legitimação desse testamento
foi recusada por Sir J. P. Wilde, Juiz do Tribunal de Sucessões,
com base no fato de não haver evidência suficiente de entendimento
e consentimento do testador sobre as cláusulas. Posteriormente,
Dr. Spinks renovou a moção com base no seguinte depoimento
conjunto da viúva e das testemunhas:
Os sinais pelos quais o falecido
nos informou que o testamento era o instrumento que trataria de sua propriedade
após sua morte e que sua esposa deveria ficar com toda a sua
propriedade caso ela ainda estivesse viva, foram em substância, até
onde podemos descrever os mesmos pela escrita, como segue, a saber: - O
referido John Geale primeiro apontou para o testamento mencionado, depois
apontou para si mesmo; então deitou o lado de sua cabeça
na palma de sua mão direita com os olhos fechados; em seguida baixou
sua mão direita em direção ao chão, com a palma
voltada para cima. Estes últimos sinais eram os sinais usuais pelos
quais ele se referia a sua própria morte ou ao falecimento de outra
pessoa. Ele tocou então o bolso de sua calça (que era o sinal
usual pelo qual se referia ao seu dinheiro), olhou tudo ao seu redor e
simultaneamente levantou os braços com um movimento circular (esse
era o sinal usual para se referir a toda sua propriedade ou todas as coisas).
Ele apontou então para a sua esposa e em seguida tocou o dedo anelar
de sua mão esquerda, posicionou sua mão direita sobre seu
braço esquerdo no cotovelo, sendo estes últimos os sinais
usuais para se referir a sua esposa. Os sinais pelos quais o mencionado
testador nos informou que sua propriedade deveria passar para a filha de
sua esposa, no caso de sua esposa morrer enquanto ele vivesse, eram (...)
como segue: - Ele primeiro referiu-se a sua propriedade como fez anteriormente,
depois tocou a si mesmo, apontou para o dedo anelar de sua mão esquerda
e cruzou o braço como antes (o que indicava sua esposa); deitou
um dos lados de sua cabeça na palma da mão direita (com os
olhos fechados), o que indicava a morte de sua esposa; e depois de apontar
para a filha de sua esposa, que estava presente quando o referido testamento
foi executado, novamente indicou o dedo anelar de sua mão esquerda,
depois posicionou sua mão direita sobre o braço esquerdo
como antes. Em seguida colocou seu dedo indicador sobre sua boca, imediatamente
tocou seu peito e moveu os braços de tal maneira a indicar uma criança,
os quais eram seus sinais usuais para indicar a filha de sua esposa. Ele
sempre indicava “mulher” cruzando seus braços e “homem” cruzando
seus pulsos. Os sinais pelos quais o mencionado testador nos informou que
sua propriedade deveria passar para William Wigg (o marido da filha de
sua esposa), caso a filha de sua esposa morresse enquanto ele estivesse
vivo, eram (...) como segue: ? Ele repetiu os sinais que indicavam a sua
propriedade e a filha da sua esposa, depois deitou um dos lados da sua
cabeça na palma da sua mão direita com os olhos fechados,
e abaixou suas mãos em direção ao chão como
havia feito antes (o que significava a morte dela); depois ele repetiu
os sinais que indicavam a filha da sua esposa e cruzou o seu braço
esquerdo na altura do pulso com sua mão direita, o que significava
o marido dela, o mencionado William Wigg. Ele também nos informou,
por meio de sinais, que o mencionado William Wigg morava em Londres. O
mencionado William Wigg trabalha e é o superintendente do departamento
de mercadorias da North-Western Railway Company, em Camden Town. Os sinais
pelos quais o mencionado testador nos informou que a sua propriedade deveria
ir para os filhos da filha de sua esposa e seu genro, caso eles morressem
enquanto ele estivesse vivo, eram (...) como segue, a saber: ? Ele repetiu
os sinais que indicavam o mencionado William Wigg e sua esposa e a morte
destes antes da dele, e depois colocou sua mão direita aberta a
uma distância curta do chão, e a levantou em degraus, como
se fosse uma escada, que eram os sinais que indicavam os filhos deles,
e depois fez um movimento circular com a mão que indicava que eles
deveriam ser acolhidos. O mencionado testador sempre teve grande consideração
por essas crianças e era bastante amoroso com elas. Após
o testador ter, da maneira supracitada, nos explicado o que ele pretendia
por meio de seu mencionado testamento, o referido R.T. Dunnings, por meio
dos sinais aludidos e os outros movimentos e sinais pelos quais estávamos
acostumados a conversar com ele, informou ao mencionado testador o conteúdo
e efeitos do mencionado testamento.
O Sr. J.P. Wilde concedeu a
moção.
Os surdos-mudos geralmente expressam
passado e futuro de forma concreta ou por meio de implicação.
Para falar “eu estive doente” ele pode transmitir a ideia de que estava
doente aparentando assim estar, apertando as bochechas com os dedos para
dar a impressão de uma aparência doentia, colocando a mão
na cabeça, etc; ele pode mostrar que isso ocorreu “há um
dia”, “há uma semana”, isto é, ontem ou na semana passada
e então ele pode dizer que está indo para a casa “uma semana
para frente”. Que ele por si mesmo construiria o passado ou futuro abstrato,
como o quer Abade Sicard, jogando as mãos para trás ou para
frente, sem especificar um período determinado, não tenho
condições de afirmar. A dificuldade pode ser evitada sinalizando
“meu irmão doente acabou” para sinalizar “meu irmão estava
doente”, inferindo que a doença é algo que acabou, já
se foi. Ou a expressão facial e gestual pode muitas vezes dizer
o que se quer. A expressão com a qual o sinal para jantar é
feito pode indicar se o falante já jantou ou vai jantar. Quando
qualquer coisa agradável ou dolorosa é mencionada pelos sinais,
o olhar irá geralmente transmitir a distinção entre
a lembrança do que passou e a antecipação do que virá.
Embora o surdo-mudo tenha, tanto
quanto nós, ideia da relação entre causa e efeito,
ele não tem, em minha opinião, um meio direto de distinguir
causa de mera sequência ou simultaneidade, a não ser mostrando,
à sua maneira, que dois eventos pertencem um ao outro, o que raramente
pode ser descrito em palavras. No entanto, caso perceba que uma explicação
mais aprofundada é necessária, ele não tem dificuldades
em proporcioná-la. Desse modo, ele expressaria a afirmação
de que um homem morreu de bebida dizendo que ele "morreu, bebeu, bebeu,
bebeu." Se fosse feita uma pergunta, “morreu, ele?” ele poderia não
deixar dúvida sobre a causa respondendo “sim, ele bebeu e bebeu
e bebeu!”. Se ele desejasse dizer que o jardineiro se envenenou, a ordem
dos sinais seria “jardineiro morto, remédio ruim bebeu.”
“Fazer” é uma ideia demasiadamente
abstrata para o surdo-mudo; para dizer que o alfaiate faz o casaco ou que
o carpinteiro faz a mesa, ele representaria o alfaiate costurando o casaco
e o carpinteiro serrando e aplainando a mesa. Uma proposição
tal como “A chuva torna a terra frutífera” não faria parte
da sua maneira de pensar; “chuva cai, plantas crescem” seria a sua expressão
pictórica (Steinthal, 1851, p. 923).
Como um exemplo da estrutura da linguagem
gestual, apresento as palavras que correspondem, aproximadamente, aos sinais
pelos quais o Pai Nosso é rezado todas as manhãs no Instituto
Edinburgh. Elas foram cuidadosamente escritas para mim pelo Diretor e eu
fiz anotações dos sinais pelos quais as várias ideias
foram expressas na escola. “Pai” é representado na oração
como “homem velho”, embora em assuntos cotidianos ele seja, geralmente,
“o homem que se barbeia”; “nome” é, como eu vi em outro lugar, tocar
a testa e imitar a ação de soletrar com os dedos, como se
dissesse, “a pessoa que soletra é conhecida por”. “Santificado”
é “falar bem de” (“bem” sendo expresso pelo polegar, enquanto “mal”
é representado pelo dedo mínimo, dois sinais cujos significados
estão no contraste do polegar, maior e mais poderoso, em relação
ao dedo mínimo, menor e menos importante). “Reino” é demonstrado
pelo sinal de “coroa”; “vontade” colocando a mão no estômago,
de acordo com a teoria, natural e difundida, de que a vontade e a paixão
estão localizadas ali; teoria a qual pertencem expressões
tais como “não ter estômago para isso”. “Feita” corresponde
a “trabalhado”, demonstrado por mãos trabalhando. A frase “assim
na terra como no céu” era, eu acredito, representada por sinais
como “na terra” e “no céu”, e depois colocando os dois dedos indicadores
lado a lado, o sinal para igualdade e similaridade em todo o mundo, de
modo que o todo ficaria “terra na, céu no, igual”. “Ofensa” é
“fazer o mal”; “perdoai” é apagar, como se apaga uma lousa; “tentação”
é pegar pelo casaco, como se fosse levar alguém maliciosamente
a cometer uma travessura. A adversativa “mas” é feita com os dois
dedos indicadores, não um ao lado do outro tal como em “como”, mas
opondo uma ponta a outra, como no sinal de Sicard para “contra”. “Livrai”
é “remover”, “glória” é “brilhando”, “para sempre”
é demonstrado fazendo os indicadores girarem horizontalmente em
torno um do outro várias vezes.
A ordem dos sinais é, em grande
parte, como segue: - “Pai nosso, céu no – nome seu santificado –
reino seu vir – vontade sua feita – terra na, céu no, assim como.
Pão nos dá diariamente – ofensas nossas perdoar nós,
deles ofensas contra nós, perdoar, assim como. Tentação
cair não – mas mal livrar – reino poder glória seu para sempre.
Quando anoto em palavras as descrições
dos sinais de surdos-mudos, elas me parecem incompletas e fracas. Mas devemos
lembrar que só posso anotar seus esqueletos. Vê-las é
algo bastante diferente, pois esses ossos secos devem ser recobertos de
carne. Não apenas o rosto, mas todo o corpo se une para fazer com
que o sinal tenha expressão. E tampouco os olhares e gestos sóbrios
a que estamos acostumados em nosso dia-a-dia são suficientes para
isso. Quem quer que converse com os surdos-mudos na linguagem deles deve
se desfazer da máscara rígida que os ingleses usam sobre
suas faces como se fosse uma máscara trágica e que nunca
altera sua expressão, quer o amor ou o ódio, a alegria ou
o pesar estejam por trás dela.
Em muitas escolas para surdos-mudos
as cerimônias religiosas são celebradas por meio de sinais.
Na Instituição de Berlim, a simples cerimônia luterana,
que consiste em uma oração, o evangelho do dia e um sermão,
é realizada todas as manhãs de domingo na linguagem gestual
para as crianças da escola e para os habitantes surdos-mudos da
cidade e é uma visão notável. Não se poderia
ver a parábola do homem que deixou as noventa e nove ovelhas em
uma região erma e foi atrás daquela que estava perdida, ou
a da mulher que perdeu sua única moeda de prata, executadas com
expressiva pantomima por um mestre nessa arte, sem reconhecer que, para
contar uma história simples e fazer comentários simples sobre
ela, a língua falada fica muito aquém da atuação.
A narrativa falada perde, necessariamente, a ansiedade súbita do
pastor ao contar seu rebanho e descobrir que está faltando uma ovelha,
o confinamento apressado das outras, sua corrida morro acima e vale abaixo,
seus olhares para trás e para frente, o alívio em seu rosto
quando ele avista a ovelha perdida à distância, o ato de carregá-la
para casa em seus braços, abraçando-a ao andar. Ouvimos essas
histórias serem lidas como se fossem listas de gerações
de patriarcas antediluvianos. A pantomima dos surdos-mudos evoca à
mente a “ação, ação, ação!” de
Demóstenes .
Notas
TYLOR,
Edward Burnett. [1865]. The gesture-language. In: Researches into
the Early History of Mankind and the Development of Civilization.
Second edition. London: John Murray, Albemarle Street. 1870, p. 14-33.
“Portanto, é preciso escolher um surdo-mudo de nascença,
para que seus gestos sejam ingenuamente proféticos, não falsos,
nem fingidos e nem simulados” .
"Se os “dialetos” das diferentes instituições dos surdos-mudos
receberam qualquer proporção considerável de sinais
naturais uns dos outros como, por exemplo, pela difusão do sistema
de ensino de Paris, nada posso afirmar; mas há tanto em cada
um deles que difere dos demais em detalhes, embora não em princípio,
que eles podem, penso, ser considerados praticamente independentes, exceto
no que diz respeito aos sinais gramaticais".
"... e assim vemos / os meninos serem empurrados ao gesto por sua incapacidade
de lidar com a língua / o que os faz apontar o dedo aos objetos
presentes".
Uma distinção realmente possível aparece em ‘’lábio’’,
e ‘’vermelho’’ (p. 3).
Mantivemos as expressões utilizadas no texto original para explicitar
as diferenças de sintaxe entre o inglês e a linguagem gestual
considerada (N.T.).
Um caso semelhante: “Jacket Oliver give mother” (Bridgman, 1845, p. 157).
Referências Bibliográficas:
BONET. Juan Pablo.
Reduction
de las letras y arte para enseñar á ablar los mudos.
Madrid: [s.n]. 1620.
BRIDGMAN,
Laura. Account of Laura Bridgman, a blind deaf and dumb girl. With
brief notices of three other blind mutes. London: J. Wright. 1845.
HEINICKE,
Samuel. Beobachtungen über stumme und über die menschliche
sprache. Hamburg: [s.n]. 1778.
KRUSE, Otto Friedrich.
Ueber
taubstummen. Schleswig: [s.n]. 1853.
LUCRETIUS.
De
rerum natura, V. [S.l.:s.n].
SCHMALZ. Edward.
Ueber die taubstummen und ihre bildung. Dresden und Leipzig: In der
Arnoldischen Buchhandlung. 1848.
SCOTT, W. The
deaf and dumb. London: Bell and Daldy. 1844.
SICARD, Roch-Ambroise
Cucurron. Cours d´instruction d´un sourd-muet de naissance.
Paris: [s.n.]. 1800.
SICARD, Roch-Ambroise
Cucurron. Théorie des signs pour l´instruction des sourds-muets.
Vol. II Paris: Imprimerie de l'instruction des sourds-muets. 1808.
STEINTHAL.
Heymann. Über die sprache der taubstummen. In: PRUTZ, Robert und WOLFSOHN,
Wilhelm. Zeitschrift für literatur, kunst und öffentliches
leben. Leipzig: Deutsches Museum. 1851. p. 904-925.

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