Pontos de Jurema
CD-ROM [Áudio]
Luiz Assunção, Dácio
Galvão et alli
Prefeitura do Município de
Natal
Fundação Cultural
Capitania das Artes
Museu de Cultura Popular Djalma
Maranhão.
Natal, 2008.
29 faixas
O crescente processo de
globalização econômica tem implicado mudanças
velozes e levado diversos grupos culturais ao sentimento de homogeneização
e esvaziamento de suas práticas e estilos de vida delineados ao
longo do tempo pela própria experiência e pelas escolhas nela
implícitas. Significativamente, este mesmo processo tem despertado
a consciência histórica de muitos desses grupos, levando-os
à valorização ou revalorização de práticas
e técnicas e à reivindicação do reconhecimento
oficial de sua presença e contribuição social, histórica
e cultural. Ao se inserirem no contexto global com seus valores,
os grupos se legitimam, elaboram sua identidade e valorizam a própria
experiência.
Nesse vertiginoso contexto de mudanças,
os sistemas de crenças desempenham papel primordial no estabelecimento
de esquemas de sentido, permitindo aos indivíduos atribuírem
significado ao ser e “estar no mundo” em todas as esferas de sua vida,
marcando sua particularidade, seu modo de viver. O homem religioso pensa
a vida de modo peculiar. Ele vive e se expressa usando conceitos e termos
próprios, derivados da experiência religiosa. Pode-se dizer,
em poucas palavras, que sua visão de mundo é seu patrimônio,
representado nas várias dimensões da vida:
do comer ao orar, do vestir ao cantar. Assim, iniciativas voltadas à
promoção do conhecimento, reconhecimento e preservação
dos valores e memória de grupos com menor poder de resistência
parecem imprescindíveis, pois sua valorização mantém
a identidade e preserva sua autoestima, garantindo-lhes estatura cultural,
facilitando seu diálogo com a sociedade. É neste contexto
que o Compact Disc “Pontos de Jurema” organizado pelo antropólogo
Luiz Assunção, com direção artística
de Dácio Galvão, ganha relevância. Realizado com os apoios da Prefeitura
do Município de Natal, da Fundação Cultural Capitania
das Artes e do Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, a obra
se propõe como registro histórico e etnográfico de
uma das dimensões capitais – o cantar, sucedâneo do orar
- da prática religiosa conhecida como Jurema. Também denominada em alguns
estados de catimbó, Jurema é um culto fitolátrico
de origem indígena mesclado a práticas de origem africana
e europeia (catolicismo e kardecismo). Por essas afinidades, insere-se,
em algumas regiões, na Umbanda – caso de alguns dos registros desse
disco - e nos Candomblés de Caboclo. Pode-se notar, contudo, a prevalência
das práticas de origem indígena no culto à Jurema, chamado
por seus praticantes, simplesmente, de “a jurema".
Essa forma de religiosidade
constitui, em si, uma prática total, com doutrina, preceitos e
história
próprios, inseparáveis da história das
religiões
no Brasil. Especialmente no norte e no nordeste do país, onde
encontra grande número
de praticantes para os quais constitui veículo de
autotransformação
e desenvolvimento social, este culto se mantém tanto no
interior, como no litoral
e nos centros urbanos. O culto, cujos rituais denominam-se "mesa"
ou "toque de jurema", ocorre em torno da ingestão da jurema,
bebida fermentada feita com hidromel e cascas da árvore de mesmo nome , da fumaça
das raízes queimando no cachimbo (ou “catimbo”, expressão da qual teria derivado o termo
catimbó) e dos “pontos” ou “linhas” (cantigas), entoados ao som
dos maracás e palmas e – em alguns casos - atabaques, xeres, agogôs e até triângulos. Conjuntamente,
estes elementos produzem alterações da consciência
e propiciam o transe de encantados e de espíritos indígenas
que incorporam os juremeiros para realizar curas e resolver problemas.
Fruto da longa convivência
de Luiz Assunção com o campo religioso afrolusobrasileiro,
o registro fonográfico digital de 29 “pontos de jurema” (escolhidos
pelo antropólogo entre os apontados por quatro reconhecidos Mestres
de Jurema natalenses como representativos do culto e de sua diversidade
melódica), tem a proposta de reverenciar a memória juremeira.
Mas ultrapassa em muito este objetivo; pois a audição atenta
dos pontos, seus ritmos, letras e melodias, nos abre as portas não
só da cosmologia do culto, seus mistérios e crenças, mas da própria essência
da cultura brasileira.
Entoados pelos mestres
Geraldo do Caboclo, Babá Karol, seus continuadores e os de Geraldo
Guedes e José Clementino, com execução e responsório
de juremeiros natalenses ao
som de ritmos
indígenas marcados pela presença africana, os "pontos"
apresentam em textos simbólicos
como cartas de tarô, a “ciência fina” da Jurema.
Ciência
que consiste em ser planta enteógena, professora e
médica, em intercomunicar mundos, em ser árvore,
índia, princesa e cidade; uma cidade do além. Mas a "cidade" da Jurema pode ser uma
composição de copos e taças com diferentes bebidas que,
com fins rituais, se "assentam" na "mesa da Jurema". A ciência da
jurema também consiste em transitar pela terra e pelo mar, em
ser Encantada, folha
e flor, Mestra, vinho e fumo, cura e punição, em
ser linha de umbanda, em trazer de volta os Tupinambás
para guerrearem
contra o mal, o rei Salomão para aconselhar, os Mestres e
Mestras
Encantados, que transitam entre o bem e o mal, para curar com suas
ervas. A fina ciência de ser e não ser. Na
cosmovisão juremeira os mestres e
mestras espirituais são responsáveis por diferentes
domínios
da existência humana (saúde, amor, trabalho etc). E
há
os responsáveis por combater os inimigos. São entidades
independentes,
o que as torna muito temidas, uma vez que trabalham com magia “direita”
e “esquerda”, sem limitações impostas por outras
entidades.
Vários
"pontos" reiteram
que a Jurema é um "lugar" de onde se vem e/ou para onde se vai,
preservando
a psicanalítica ambiguidade do Outro como Eu, do qual múltiplas
dimensões se abrem pelo efeito da jurema: o eu humano, o eu
divino,
o eu corpo e o eu espírito, o eu mestre, o eu aprendiz, o eu que
chega e o eu que parte, o eu indígena, o europeu, o eu negro. O
eu brasileiro, amalgamado a tantos outros, cujo processo de
formação a jurema tem a capacidade de evocar.
Nos últimos anos,a
preservação do culto e de sua memória (marcada
pela perseguição aos "feiticeiros") passou a ser,
também, critério de reconhecimento das
etnicidades indígenas. O Serviço de
Proteção ao Índio adotou a presença ou
ausência do
ritual como critério para reconhecimento
de comunidades indígenas, incentivando, desse modo, sua
preservação
ou retomada. Com isso, grupos indígenas advogam a pureza de suas
práticas frente ao pluriétnico culto urbano do qual os
pontos do CD são exemplares.
Expressão do inconsciente coletivo, a Jurema guarda
memórias e saberes sociais que não deveriam se perder. O
Compact Disc Pontos de Jurema representa, como comprovará o leitor,
importante, seguro e valioso passo nesse sentido.
Faixas:
1 – Depoimento
2 – Abertura
3 – Abertura
4 – Abertura - Jurema
5 - Rei Tupinambá
6 - Saudação
a Caboclo
7 – Caboclo Aracati
8 - Caboclo Saraputinga
9 - Rei Salomão
10 - Mestre José Pelintra
11 - Mestre José Pelintra
12 - Cibamba
13 - Mestre Zé da Virada
14 - Zé Bebinho
15 – Saudação a Codó
16 – Mestre Antonio Olímpio
17 – Mestra Joaquina de Aguiar
18 – Malunguinho
19 – Luziara
20 – Luziara
21 – Mestre Manoel Maior
22 – Mestra Maria do Acais
23 – Mestra Benedita
24 – Mestre Germano
25 – Jurema, ponto de defesa
26 – Jurema, pau de ciência
27 – Jurema, pau sagrado
28 - Candeinha
29 – Subida dos Mestres e Caboclos
Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo
São
conhecidas, hoje, várias espécies botânicas que recebem
o nome de jurema. Isso parece decorrer da grande penetração
do uso ritual desta planta, e da própria bebida que leva seu nome,
junto às religiões afrobrasileiras nas várias regiões
do país, excluindo-se o nordeste, onde a espécie Mimosa
hostilis Benth. é nativa. Os adeptos destas religiões
vão buscar as substituições, dando a elas o nome jurema,
passando, assim, a ganharem, também, o mesmo valor simbólico
de caráter sacral atribuído à verdadeira planta, que
deu origem ao seu culto. Albuquerque (Albuquerque, Ulysses Paulino de.
Etnobotânica de uma bebida cerimonial no nordeste do Brasil.
Revista Brasileira de Farmacologia 78 (4): 86-89, 1997,),
cita 19 espécies botânicas conhecidas como jurema. Segundo
este autor, desta relação, 16 pertencem à mesma família
botânica da verdadeira jurema, Leguminosae Mimosoideae,
as quais apresentam semelhanças morfológicas vegetativas.
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