O carnaval das escolas de samba
paulistanas é uma manifestação cultural que apresenta
importante conteúdo social, político e econômico, contribuindo
para o dinamismo da cidade uma vez que, ao se realizar, gera uma série
de ações e relações entre diversos agentes
e objetos. Ao longo de seu desenvolvimento, o carnaval paulistano passou
por diversas transformações, acompanhando o crescimento da
cidade, adaptando-se aos novos conteúdos urbanos e a imposições
políticas e técnicas. As escolas de samba são uma
adaptação dos cordões carnavalescos criados no início
do século XX.
Essa manifestação cultural
caracteriza-se como um símbolo da cultura brasileira e tornou-se
um espetáculo cuja produção movimenta milhões
de reais a cada ano e cria um número significativo de postos de
trabalho diretos e indiretos, além de fomentar uma série
de negócios afins. Todavia, o carnaval das escolas de samba ainda
guarda um caráter genuino atrelado à festa característica
de sua gênese e as agremiações carnavalescas promovem
diversas ações sociais nos bairros que as abrigam.
Embora as escolas de samba tenham
como objetivo principal a produção do desfile, como entidades
organizadas elas também são veiculo para a realização
de ações sociais voltadas ao grupo de pessoas ligadas diretamente
a elas: as chamadas comunidades. A escassez à qual é submetida
boa parte da população das cidades – que não tem acesso
ao consumo, aos equipamentos tecnológicos modernos e mesmo aos serviços
básicos necessários a sobrevivência digna – impulsiona
a formação de grupos organizados e o desenvolvimento de ações
no sentido de minimizar ou superar essa situação. Embora
não estejam livres de contradições e interesses divergentes,
as escolas de samba agem, nesse sentido, possibilitando a criação
de redes de solidariedade e a ampliação de horizontalidades,
capazes de construir algo novo e promover mudanças significativas,
ainda que pontuais. De acordo com Santos (1998, p. 55),
[...] as horizontalidades são
o domínio de um cotidiano territorialmente partilhado com tendência
a criar suas próprias normas, fundadas na similitude ou na complementaridade
das produções e no exercício de uma existência
solidária. Nesses subespaços, e graças a essa solidariedade,
consciente ou não, há um aumento da produtividade econômica,
mas também da produtividade política, alimentadas pela informação.
O carnaval das escolas de samba na
cidade de São Paulo tem forte influência do carnaval do Rio
de Janeiro, onde surgiu, em 1928, aquela que ficou conhecida como a primeira
escola de samba do Brasil, a Deixa Falar. O modelo carioca de festejar
o carnaval se difundiu no território nacional devido à maior
organização e estruturação do samba e do carnaval
daquela cidade que, desde a década de 1930, chegava aos diferentes
rincões do Brasil através das transmissões da Rádio
Nacional. Mas vale lembrar que há diversas formas de festejar o
carnaval no Brasil e no mundo. Trata-se de uma festa de origem europeia
trazida para o Brasil pelos colonizadores portugueses, no século
XVII, onde adquiriu características particulares devido à
influência de elementos das diferentes culturas dos povos que habitavam
ou viriam a habitar esse território. Como consequência, em
cada lugar a festa apresenta especificidades que condizem com os costumes
e as lendas locais que se desenvolveram de forma singular num contexto
histórico específico.
A análise da dinâmica
territorial das escolas de samba em São Paulo exige, portanto, a
compreensão do processo de desenvolvimento dessa manifestação
na cidade, fazendo-se necessária a elaboração de uma
periodização que a considere a partir de seu surgimento,
o que contribui sobremaneira para a interpretação dos eventos.
Ao considerar o carnaval de São
Paulo a partir do surgimento do primeiro cordão carnavalesco popular
paulistano, em 1914, até os dias atuais, é possível
definir um quadro composto por três períodos. São
eles:
• Carnaval dos Cordões
– do surgimento dos cordões carnavalescos em 1914 à oficialização
do carnaval em 1967 – que abrange o surgimento, o desenvolvimento e a multiplicação
dessa manifestação em São Paulo, a qual se adaptou
ao crescimento da cidade numa constante busca pelo reconhecimento por parte
da sociedade e do poder público. Nesse processo, os agentes privados,
baseados em interesses econômicos, atuaram no sentido de impulsionar
esse desenvolvimento;
• Carnaval das Escolas de
Samba – Oficialização e Consolidação – do carnaval
oficializado em 1968 à inauguração do sambódromo
em 1991 – que abrange as transformações decorrentes da oficialização
do carnaval das escolas de samba, em 1967, a qual, por um lado, descaracterizou
a manifestação popular através da imposição
de normas geradas fora de seu contexto original e, por outro, levou à
sua consolidação na cidade que, ao crescer e se desenvolver,
impôs novos conteúdos e direcionamentos, levando à
construção do Sambódromo paulistano;
• Carnaval das Escolas de Samba –
Profissionalização e Ação Social – do início
dos desfiles no sambódromo aos dias atuais – que engloba o carnaval
paulistano a partir de sua regulamentação, em 1990, e do
início dos desfiles no Sambódromo, em 1991. Eventos que impulsionaram
o desenvolvimento dessa manifestação que desponta como negócio
turístico lucrativo, atraindo o interesse de diversos agentes, como
a Rede Globo de Televisão, cujas ações são
determinantes para as inovações. A transferência dos
desfiles para o Sambódromo estimulou a redistribuição
dos barracões das escolas de samba na cidade e uma nova forma de
utilização dos fixos pelas agremiações. Outro
fator de grande relevância nesse período foi o desenvolvimento
de ações, por parte de algumas escolas de samba, no sentido
de se utilizar dos novos conteúdos técnicos e políticos,
com a finalidade de atender não apenas aos interesses da produção
carnavalesca, mas, também, aos de suas comunidades.
Esses períodos são
definidos pelos eventos mais significativos observados ao longo da história
dessa manifestação cultural e as variáveis-chave determinantes
para as rupturas são as normas e as políticas públicas
realizadas com a finalidade de desenvolvê-la.Como consequência
dessas ações surgem as divisões sociais e territoriais
do trabalho criadas na produção dos desfiles carnavalescos
em relação aos diferentes circuitos da economia urbana (SANTOS,
1979).
Ao longo do desenvolvimento do carnaval,
as escolas de samba paulistanas estabeleceram, cada uma a seu modo, relações
com os diferentes agentes dos circuitos da economia urbana com a finalidade
de atender às necessidades da produção dos desfiles
carnavalescos. Nessa produção foram criadas diversas divisões
sociais e territoriais do trabalho que se sobrepõem e convivem na
atualidade. Como afirma Santos (1999, p. 106) “a divisão do trabalho
pode, também, ser vista como um processo pelo qual os recursos disponíveis
se distribuem social e geograficamente”. A divisão territorial do
trabalho é compreendida pela distribuição geográfica
dos recursos, os quais constituem uma totalidade e podem ser materiais
(naturais ou artificiais) ou imateriais (relações, idéias,
sentimentos, valores) e se renovam a cada momento formando outra totalidade,
podendo ser pensada em escala mundial, nacional ou local. Segundo o autor,
a divisão territorial do trabalho gera uma hierarquia entre os lugares
e redefine a capacidade de ação de pessoas, firmas e instituições.
As diversas instâncias do poder público, firmas e instituições
agem no sentido de atender aos seus próprios interesses, criando
ou induzindo divisões do trabalho, o que pode ser observado também
nas escolas de samba, que se definem como organizações culturais
sem fins lucrativos, cujo produto final é o desfile carnavalesco.
A compreensão dos dois primeiros
períodos é fundamental para a compreensão do período
atual, pois o centro da discussão se dá neste último;
foi a partir da regulamentação do carnaval das escolas de
samba (Lei N° 10.831/1990), da inauguração do sambódromo
(1991) e do início das transmissões dos desfiles pela Rede
Globo de Televisão (1999) que o carnaval paulistano ganhou novo
impulso e se desenvolveu fortemente, tanto no que se refere à produção
dos desfiles como ao desenvolvimento de ações socioculturais.
A regulamentação do
carnaval e a inauguração do Sambódromo fazem parte
de uma política da Prefeitura, cujo objetivo, mais do que promover
a manifestação cultural, é desenvolver seu potencial
turístico. Essas ações não se caracterizam
como políticas isoladas, pois ocorreram num momento em que surgiam
diversas ações de incentivo à cultura por parte do
poder público em suas diferentes esferas – municipal, estadual e
federal –como a inauguração do Memorial da América
Latina (1989) pelo Governo do Estado de São Paulo e a aprovação
das leis federais Rouanet (1991) e do Audiovisual (1993). Em âmbito
municipal, a construção do Sambódromo fez parte de
uma política de reformulação do Parque Anhembi que,
juntamente com a volta da Fórmula I ao autódromo de Interlagos,
potencializou as áreas de turismo e lazer em São Paulo.
Nesse mesmo período foram aprovadas duas leis referentes à
regulamentação do turismo na cidade: a Lei N° 29.509/91,
que criou o Conselho Municipal de Turismo e a Lei N° 11.198/92, que
implantou o Plano de Turismo Municipal e criou o Fundo Municipal de Turismo.
Diante disso torna-se pertinente uma breve análise desses novos
aspectos.
Sambódromo
Símbolo do carnaval paulistano,
o Sambódromo é o local de desfile para algumas agremiações
carnavalescas da cidade, pois desfilam ali apenas as escolas do Grupo Especial
(sexta-feira e sábado), Grupo de Acesso (domingo) e Grupo I (segunda-feira),
além do Grupo Especial de Blocos (terça-feira). As demais
agremiações – Grupo II, Grupo III, Grupo de Acesso e Grupo
I de Blocos – realizam seus desfiles em passarelas montadas em diferentes
bairros da cidade. Em 2009 foram realizados desfiles no Autódromo
de Interlagos, Zona Sul (Grupo II), na Avenida Alvinópolis na Vila
Esperança, Zona Leste (Grupo III) e na Avenida Politécnica
no Butantã, Zona Oeste (Grupo de Acesso e Grupo I de Blocos). Nos
três lugares houve desfiles no domingo e na segunda-feira de carnaval.
Mais do que uma conquista das escolas
de samba ou dos sambistas, o Sambódromo é uma concessão
e parte de uma política de desenvolvimento do carnaval paulistano
realizada pelo poder público. Ele é usado pelas escolas de
samba para a realização dos desfiles oficias de algumas agremiações,
que ocorrem nos dias de carnaval, para o desfile das campeãs que
ocorre na sexta-feira seguinte, e para a realização dos ensaios
técnicos, que ocorrem normalmente do início de janeiro até
as vésperas da festa. Em termos quantitativos, o uso que as agremiações
carnavalescas fazem do Sambódromo é muito pouco significativo.
Isso revela que a relação das agremiações com
esse objeto se restringe ao período carnavalesco. No restante do
ano o Sambódromo é utilizado para atividades como shows,
eventos esportivos, eventos religiosos, feiras de automóveis, entre
outros, evidenciando o objetivo de sua construção, bem como
o uso desse objeto na atualidade, o qual é locado para a realização
de eventos diversos.
A estrutura do Sambódromo
fomentou inovações no desfile, pois as escolas passaram a
contar com um maior espaço físico e mais adequado, em relação
ao encontrado na Avenida Tiradentes, o que levou a um aumento no número
de componentes e no tamanho dos carros alegóricos, que chegam a
medir cem metros de comprimento e doze de altura, com a finalidade de tornar
o evento maior e mais atrativo para o público espectador.
A definição de um local
para a realização dos desfiles levou a uma nova forma de
uso da cidade por parte das escolas de samba, pois muitas transferem seus
barracões para áreas mais próximas e de melhor acesso
ao Sambódromo, com a finalidade de facilitar o transporte das alegorias,
em especial para as escolas localizadas em bairros mais afastados (Mapas
1, 2 e 3). Por outro lado, o distanciamento da produção de
alegorias da sede da escola, distancia também a comunidade de parte
da produção material do carnaval, que integrava o cotidiano
do bairro.
O Sambódromo é um objeto
geográfico que teve seu valor definido ao se instalar e se realizar
na cidade de São Paulo que também se modificou, uma vez que
teve naquele lugar seu valor redefinido, pois como assevera Santos (1999,
p. 48) “os lugares (...) redefinem as técnicas. Cada objeto ou ação
que se instala se insere num tecido preexistente e seu valor real é
encontrado no funcionamento concreto do conjunto. Sua presença também
modifica os valores preexistentes”. Juntos, o Sambódromo – como
uma novidade do período – os barracões e as quadras das escolas
de samba formam um sistema de fixos que, na atualidade, contribuem para
a continuidade dos desfiles carnavalescos e, consequentemente, da festa,
e demonstram o interesse do poder público no seu potencial econômico.

Rede Globo de Televisão
A oficialização do
carnaval, a realização dos desfiles no Sambódromo
e o investimento por parte da Prefeitura e das próprias escolas
de samba, possibilitaram a realização de diversos negócios.
Em 1998 a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (LIGA)
firma com a Rede Globo de Televisão um contrato de concessão
de imagem dos desfiles das escolas do Grupo Especial, a partir do carnaval
de 1999. O contrato, com vigência até 2015, concede à
emissora a exclusividade das transmissões dos desfiles oficiais
e dita as novas regras do carnaval paulistano.
Uma consequência das mudanças
foi a ampliação dos investimentos nessa manifestação
devido à maior possibilidade de lucro. E as escolas começaram
a trabalhar no sentido de obter recursos através de patrocínios
para os enredos, que versam sobre os mais variados temas voltados à
propaganda e, em muitos casos, encomendados. Sobre isso, Mercadoria, diretor
de Harmonia da Escola de Samba Unidos de Vila Maria (entrevistado em outubro
de 2003), afirma:
[...] as escolas de samba procuraram,
de uns anos para cá, fazer enredos que deem uma margem para você
trabalhar no marketing. Se você analisar de uns dez anos para cá,
a escola de samba, quando faz um enredo, está focando alguma coisa:uma
cidade, um estado; são direcionados para que se possa trabalhar
no marketing e obter um ganho financeiro. Então isso é profissionalização
também, é por aí que a coisa vai.
Os patrocinadores das escolas de
samba têm suas marcas ou produtos expostos por aproximadamente setenta
minutos na emissora de maior audiência do país, ainda que
de forma camuflada ou subliminar, pois o contrato de transmissão
não permite que as escolas façam propaganda de nenhum tipo;
apenas as marcas dos patrocinadores da emissora podem ser veiculadas na
televisão.
Devido a essa restrição,
muitas escolas optam por investir em temas ligados a instituições,
cidades ou estados, pois dessa forma é possível falar mais
explicitamente do homenageado. O contrato com a emissora também
restringe o patrocínio do carnaval negociado pela SPTuris, cuja
exposição ocorre apenas nas áreas onde não
há captação de imagem, no interior dos camarotes e
na parte externa do Sambódromo. O que a partir de 2007, também
vem sendo dificultado devido à Lei Cidade Limpa (Lei N°14.223/06)
que proíbe a propaganda nas ruas da cidade.
Mesmo sendo o Sambódromo um
lugar público e administrado por uma empresa municipal, a negociação
do patrocínio para o carnaval, que a Prefeitura, por seu lado, busca
realizar, submete-se às normas impostas por uma empresa privada
de televisão que, ao firmar contrato com as escolas de samba, acaba
impondo seus interesses. Os patrocinadores da emissora, por sua vez, têm
suas marcas expostas intensamente durante todos os dias de desfile para
todo o país e diversos outros países.
Para a Rede Globo, o carnaval de
São Paulo vem se mostrando bastante lucrativo pois embora os desfiles
do Rio de Janeiro sejam mais divulgados, mais ricos e transmitidos há
mais tempo, a audiência dos desfiles paulistanos – que desde o ano
2000 passaram a se realizar em dois dias (sexta e sábado) – vem
aumentando significativamente. De acordo com o Instituto de Opinião
Pública e Estatística (Ibope), em 2003 o carnaval paulistano
teve maior audiência que o carioca. No entanto, alguns analistas
afirmam que isso se dá devido ao interesse dos paulistas pelo seu
próprio carnaval, uma vez que a audiência é medida
na Grande São Paulo. Seja como for, no momento de definir um patrocínio
esses números são levados em consideração.
Diversas inovações
ocorreram no sentido de adaptar os desfiles a um formato mais adequado
à televisão. Novamente o carnaval paulistano se espelha no
modelo carioca que, nesse momento, já está devidamente adaptado
ao molde televisivo, o qual exige das escolas de samba agilidade, riqueza,
beleza, tempo definido e rigorosamente controlado, além da adequação
à programação da emissora.
Os desfiles do Grupo Especial, agora
divididos em dois dias, não são concorrentes diretos dos
desfiles cariocas e, realizados na sexta-feira e no sábado de carnaval,
se iniciam após a programação básica da Rede
Globo, normalmente com atraso. Mesmo que os organizadores do evento permitam
seu início, as escolas preferem aguardar o início das transmissões,
pois não querem perder a oportunidade de ter seus desfiles televisionados.
Diante disso, os foliões – público e componentes – aguardam
no Sambódromo o término da programação para
dar início ao espetáculo que, nesse caso, é também
uma grande festa, pois apesar de todas as transformações,
da transmissão televisiva superficial e do que alguns autores chamam
de “confinamento da manifestação popular”, a festa ainda
se faz presente no Sambódromo.
Uma análise mais cuidadosa
dos desfiles revela uma série de pequenas e grandes alterações,
tais como a aceleração no andamento dos sambas-enredo, o
que está relacionado com a estipulação de um tempo
máximo de desfile que não deve ser ultrapassado sob pena
de perda de pontos, a maior exposição de corpos nus e também
uma preocupação por parte das escolas em ter nos desfiles
pessoas famosas, no geral da própria emissora, com a finalidade
de atrair a atenção da mídia. Marcos dos Santos
(entrevistado em março de 2007), sambista e coordenador do Centro
de Documentação e Memória do Samba (CDMS), chama a
atenção para algumas mudanças ocorridas desde o início
das transmissões da Rede Globo. Segundo ele: