PONTO URBE - Revista do Núcleo de Antropologia Urbana da USP- ISSN 1981-3341
Ano 3 versão 4.0, julho de 2009
 



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 


Cir-kula
 


Carnaval das Escolas de Samba: profissionalização e ação social

Vanir de Lima Belonota
Geografia- USP

 



 
O carnaval das escolas de samba paulistanas é uma manifestação cultural que apresenta importante conteúdo social, político e econômico, contribuindo para o dinamismo da cidade uma vez que, ao se realizar, gera uma série de ações e relações entre diversos agentes e objetos. Ao longo de seu desenvolvimento, o carnaval paulistano passou por diversas transformações, acompanhando o crescimento da cidade, adaptando-se aos novos conteúdos urbanos e a imposições políticas e técnicas. As escolas de samba são uma adaptação dos cordões carnavalescos criados no início do século XX.
 
 

Essa manifestação cultural caracteriza-se como um símbolo da cultura brasileira e tornou-se um espetáculo cuja produção movimenta milhões de reais a cada ano e cria um número significativo de postos de trabalho diretos e indiretos, além de fomentar uma série de negócios afins. Todavia, o carnaval das escolas de samba ainda guarda um caráter genuino atrelado à festa característica de sua gênese e as agremiações carnavalescas promovem diversas ações sociais nos bairros que as abrigam.
 
 

Embora as escolas de samba tenham como objetivo principal a produção do desfile, como entidades organizadas elas também são veiculo para a realização de ações sociais voltadas ao grupo de pessoas ligadas diretamente a elas: as chamadas comunidades. A escassez à qual é submetida boa parte da população das cidades – que não tem acesso ao consumo, aos equipamentos tecnológicos modernos e mesmo aos serviços básicos necessários a sobrevivência digna – impulsiona a formação de grupos organizados e o desenvolvimento de ações no sentido de minimizar ou superar essa situação. Embora não estejam livres de contradições e interesses divergentes, as escolas de samba agem, nesse sentido, possibilitando a criação de redes de solidariedade e a ampliação de horizontalidades, capazes de construir algo novo e promover mudanças significativas, ainda que pontuais. De acordo com Santos (1998, p. 55), 
 

 
 

[...] as horizontalidades são o domínio de um cotidiano territorialmente partilhado com tendência a criar suas próprias normas, fundadas na similitude ou na complementaridade das produções e no exercício de uma existência solidária. Nesses subespaços, e graças a essa solidariedade, consciente ou não, há um aumento da produtividade econômica, mas também da produtividade política, alimentadas pela informação.


 
 
 

O carnaval das escolas de samba na cidade de São Paulo tem forte influência do carnaval do Rio de Janeiro, onde surgiu, em 1928, aquela que ficou conhecida como a primeira escola de samba do Brasil, a Deixa Falar. O modelo carioca de festejar o carnaval se difundiu no território nacional devido à maior organização e estruturação do samba e do carnaval daquela cidade que, desde a década de 1930, chegava aos diferentes rincões do Brasil através das transmissões da Rádio Nacional. Mas vale lembrar que há diversas formas de festejar o carnaval no Brasil e no mundo. Trata-se de uma festa de origem europeia trazida para o Brasil pelos colonizadores portugueses, no século XVII, onde adquiriu características particulares devido à influência de elementos das diferentes culturas dos povos que habitavam ou viriam a habitar esse território. Como consequência, em cada lugar a festa apresenta especificidades que condizem com os costumes e as lendas locais que se desenvolveram de forma singular num contexto histórico específico.
 
 
 

A análise da dinâmica territorial das escolas de samba em São Paulo exige, portanto, a compreensão do processo de desenvolvimento dessa manifestação na cidade, fazendo-se necessária a elaboração de uma periodização que a considere a partir de seu surgimento, o que contribui sobremaneira para a interpretação dos eventos. 
 
 
 

Ao considerar o carnaval de São Paulo a partir do surgimento do primeiro cordão carnavalesco popular paulistano, em 1914, até os dias atuais, é possível definir um  quadro composto por três períodos. São eles:
 
 
 

• Carnaval dos Cordões – do surgimento dos cordões carnavalescos em 1914 à oficialização do carnaval em 1967 – que abrange o surgimento, o desenvolvimento e a multiplicação dessa manifestação em São Paulo, a qual se adaptou ao crescimento da cidade numa constante busca pelo reconhecimento por parte da sociedade e do poder público. Nesse processo, os agentes privados, baseados em interesses econômicos, atuaram no sentido de impulsionar esse desenvolvimento;
• Carnaval das Escolas de Samba – Oficialização e Consolidação – do carnaval oficializado em 1968 à inauguração do sambódromo em 1991 – que abrange as transformações decorrentes da oficialização do carnaval das escolas de samba, em 1967, a qual, por um lado, descaracterizou a manifestação popular através da imposição de normas geradas fora de seu contexto original e, por outro, levou à sua consolidação na cidade que, ao crescer e se desenvolver, impôs novos conteúdos e direcionamentos, levando à construção do Sambódromo paulistano;

• Carnaval das Escolas de Samba – Profissionalização e Ação Social – do início dos desfiles no sambódromo aos dias atuais – que engloba o carnaval paulistano a partir de sua regulamentação, em 1990, e do início dos desfiles no Sambódromo, em 1991. Eventos que impulsionaram o desenvolvimento dessa manifestação que desponta como negócio turístico lucrativo, atraindo o interesse de diversos agentes, como a Rede Globo de Televisão, cujas ações são determinantes para as inovações. A transferência dos desfiles para o Sambódromo estimulou a redistribuição dos barracões das escolas de samba na cidade e uma nova forma de utilização dos fixos pelas agremiações. Outro fator de grande relevância nesse período foi o desenvolvimento de ações, por parte de algumas escolas de samba, no sentido de se utilizar dos novos conteúdos técnicos e políticos, com a finalidade de atender não apenas aos interesses da produção carnavalesca, mas, também, aos de suas comunidades.


 

Esses períodos são definidos pelos eventos mais significativos observados ao longo da história dessa manifestação cultural e as variáveis-chave determinantes para as rupturas são as normas e as políticas públicas realizadas com a finalidade de desenvolvê-la.Como consequência dessas ações surgem as divisões sociais e territoriais do trabalho criadas na produção dos desfiles carnavalescos em relação aos diferentes circuitos da economia urbana (SANTOS, 1979).
 
 
 

Ao longo do desenvolvimento do carnaval, as escolas de samba paulistanas estabeleceram, cada uma a seu modo, relações com os diferentes agentes dos circuitos da economia urbana com a finalidade de atender às necessidades da produção dos desfiles carnavalescos. Nessa produção foram criadas diversas divisões sociais e territoriais do trabalho que se sobrepõem e convivem na atualidade. Como afirma Santos (1999, p. 106) “a divisão do trabalho pode, também, ser vista como um processo pelo qual os recursos disponíveis se distribuem social e geograficamente”. A divisão territorial do trabalho é compreendida pela distribuição geográfica dos recursos, os quais constituem uma totalidade e podem ser materiais (naturais ou artificiais) ou imateriais (relações, idéias, sentimentos, valores) e se renovam a cada momento formando outra totalidade, podendo ser pensada em escala mundial, nacional ou local. Segundo o autor, a divisão territorial do trabalho gera uma hierarquia entre os lugares e redefine a capacidade de ação de pessoas, firmas e instituições. As diversas instâncias do poder público, firmas e instituições agem no sentido de atender aos seus próprios interesses, criando ou induzindo divisões do trabalho, o que pode ser observado também nas escolas de samba, que se definem como organizações culturais sem fins lucrativos, cujo produto final é o desfile carnavalesco.
 
 
 

A compreensão dos dois primeiros períodos é fundamental para a compreensão do período atual, pois o centro da discussão se dá neste último;  foi a partir da regulamentação do carnaval das escolas de samba (Lei N° 10.831/1990), da inauguração do sambódromo (1991) e do início das transmissões dos desfiles pela Rede Globo de Televisão (1999) que o carnaval paulistano ganhou novo impulso e se desenvolveu fortemente, tanto no que se refere à produção dos desfiles como ao desenvolvimento de ações socioculturais.
 
 
 

A regulamentação do carnaval e a inauguração do Sambódromo fazem parte de uma política da Prefeitura, cujo objetivo, mais do que promover a manifestação cultural, é desenvolver seu potencial turístico. Essas ações não se caracterizam como políticas isoladas, pois ocorreram num momento em que surgiam diversas ações de incentivo à cultura por parte do poder público em suas diferentes esferas – municipal, estadual e federal –como a inauguração do Memorial da América Latina (1989) pelo Governo do Estado de São Paulo e a aprovação das leis federais Rouanet (1991) e do Audiovisual (1993). Em âmbito municipal, a construção do Sambódromo fez parte de uma política de reformulação do Parque Anhembi que, juntamente com a volta da Fórmula I ao autódromo de Interlagos, potencializou as áreas de turismo e lazer em São Paulo.  Nesse mesmo período foram aprovadas duas leis referentes à regulamentação do turismo na cidade: a Lei N° 29.509/91, que criou o Conselho Municipal de Turismo e a Lei N° 11.198/92, que implantou o Plano de Turismo Municipal e criou o Fundo Municipal de Turismo. Diante disso torna-se pertinente uma breve análise desses novos aspectos.
 
 
 
 
 
 

Sambódromo
 
 

Símbolo do carnaval paulistano, o Sambódromo é o local de desfile para algumas agremiações carnavalescas da cidade, pois desfilam ali apenas as escolas do Grupo Especial (sexta-feira e sábado), Grupo de Acesso (domingo) e Grupo I (segunda-feira), além do Grupo Especial de Blocos (terça-feira). As demais agremiações – Grupo II, Grupo III, Grupo de Acesso e Grupo I de Blocos – realizam seus desfiles em passarelas montadas em diferentes bairros da cidade. Em 2009 foram realizados desfiles no Autódromo de Interlagos, Zona Sul (Grupo II), na Avenida Alvinópolis na Vila Esperança, Zona Leste (Grupo III) e na Avenida Politécnica no Butantã, Zona Oeste (Grupo de Acesso e Grupo I de Blocos). Nos três lugares houve desfiles no domingo e na segunda-feira de carnaval.
 
 
 

Mais do que uma conquista das escolas de samba ou dos sambistas, o Sambódromo é uma concessão e parte de uma política de desenvolvimento do carnaval paulistano realizada pelo poder público. Ele é usado pelas escolas de samba para a realização dos desfiles oficias de algumas agremiações, que ocorrem nos dias de carnaval, para o desfile das campeãs que ocorre na sexta-feira seguinte, e para a realização dos ensaios técnicos, que ocorrem normalmente do início de janeiro até as vésperas da festa. Em termos quantitativos, o uso que as agremiações carnavalescas fazem do Sambódromo é muito pouco significativo. Isso revela que a relação das agremiações com esse objeto se restringe ao período carnavalesco. No restante do ano o Sambódromo é utilizado para atividades como shows, eventos esportivos, eventos religiosos, feiras de automóveis, entre outros, evidenciando o objetivo de sua construção, bem como o uso desse objeto na atualidade, o qual é locado para a realização de eventos diversos.
 
 
 

A estrutura do Sambódromo fomentou inovações no desfile, pois as escolas passaram a contar com um maior espaço físico e mais adequado, em relação ao encontrado na Avenida Tiradentes, o que levou a um aumento no número de componentes e no tamanho dos carros alegóricos, que chegam a medir cem metros de comprimento e doze de altura, com a finalidade de tornar o evento maior e mais atrativo para o público espectador.
 
 
 

A definição de um local para a realização dos desfiles levou a uma nova forma de uso da cidade por parte das escolas de samba, pois muitas transferem seus barracões para áreas mais próximas e de melhor acesso ao Sambódromo, com a finalidade de facilitar o transporte das alegorias, em especial para as escolas localizadas em bairros mais afastados (Mapas 1, 2 e 3). Por outro lado, o distanciamento da produção de alegorias da sede da escola, distancia também a comunidade de parte da produção material do carnaval, que integrava o cotidiano do bairro.
 
 
 

O Sambódromo é um objeto geográfico que teve seu valor definido ao se instalar e se realizar na cidade de São Paulo que também se modificou, uma vez que teve naquele lugar seu valor redefinido, pois como assevera Santos (1999, p. 48) “os lugares (...) redefinem as técnicas. Cada objeto ou ação que se instala se insere num tecido preexistente e seu valor real é encontrado no funcionamento concreto do conjunto. Sua presença também modifica os valores preexistentes”. Juntos, o Sambódromo – como uma novidade do período – os barracões e as quadras das escolas de samba formam um sistema de fixos que, na atualidade, contribuem para a continuidade dos desfiles carnavalescos e, consequentemente, da festa, e demonstram o interesse do poder público no seu potencial econômico.
 
 




Mapa 1
 
 
 
 

Mapa 2
 
 
 
 

Mapa 3






Rede Globo de Televisão
 
 

A oficialização do carnaval, a realização dos desfiles no Sambódromo e o investimento por parte da Prefeitura e das próprias escolas de samba, possibilitaram a realização de diversos negócios. Em 1998 a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (LIGA) firma com a Rede Globo de Televisão um contrato de concessão de imagem dos desfiles das escolas do Grupo Especial, a partir do carnaval de 1999. O contrato, com vigência até 2015, concede à emissora a exclusividade das transmissões dos desfiles oficiais e dita as novas regras do carnaval paulistano.
 
 
 

Uma consequência das mudanças foi a ampliação dos investimentos nessa manifestação devido à maior possibilidade de lucro. E as escolas começaram a trabalhar no sentido de obter recursos através de patrocínios para os enredos, que versam sobre os mais variados temas voltados à propaganda e, em muitos casos, encomendados. Sobre isso, Mercadoria, diretor de Harmonia da Escola de Samba Unidos de Vila Maria (entrevistado em outubro de 2003), afirma:
 

 
 
 

[...] as escolas de samba procuraram, de uns anos para cá, fazer enredos que deem uma margem para você trabalhar no marketing. Se você analisar de uns dez anos para cá, a escola de samba, quando faz um enredo, está focando alguma coisa:uma cidade, um estado; são direcionados para que se possa trabalhar no marketing e obter um ganho financeiro. Então isso é profissionalização também, é por aí que a coisa vai.


 

Os patrocinadores das escolas de samba têm suas marcas ou produtos expostos por aproximadamente setenta minutos na emissora de maior audiência do país, ainda que de forma camuflada ou subliminar, pois o contrato de transmissão não permite que as escolas façam propaganda de nenhum tipo; apenas as marcas dos patrocinadores da emissora podem ser veiculadas na televisão.
 
 

Devido a essa restrição, muitas escolas optam por investir em temas ligados a instituições, cidades ou estados, pois dessa forma é possível falar mais explicitamente do homenageado. O contrato com a emissora também restringe o patrocínio do carnaval negociado pela SPTuris, cuja exposição ocorre apenas nas áreas onde não há captação de imagem, no interior dos camarotes e na parte externa do Sambódromo. O que a partir de 2007, também vem sendo dificultado devido à Lei Cidade Limpa (Lei N°14.223/06) que proíbe a propaganda nas ruas da cidade.
 
 

Mesmo sendo o Sambódromo um lugar público e administrado por uma empresa municipal, a negociação do patrocínio para o carnaval, que a Prefeitura, por seu lado, busca realizar, submete-se às normas impostas por uma empresa privada de televisão que, ao firmar contrato com as escolas de samba, acaba impondo seus interesses. Os patrocinadores da emissora, por sua vez, têm suas marcas expostas intensamente durante todos os dias de desfile para todo o país e diversos outros países. 
 

Para a Rede Globo, o carnaval de São Paulo vem se mostrando bastante lucrativo pois embora os desfiles do Rio de Janeiro sejam mais divulgados, mais ricos e transmitidos há mais tempo, a audiência dos desfiles paulistanos – que desde o ano 2000 passaram a se realizar em dois dias (sexta e sábado) – vem aumentando significativamente. De acordo com o Instituto de Opinião Pública e Estatística (Ibope), em 2003 o carnaval paulistano teve maior audiência que o carioca. No entanto, alguns analistas afirmam que isso se dá devido ao interesse dos paulistas pelo seu próprio carnaval, uma vez que a audiência é medida na Grande São Paulo. Seja como for, no momento de definir um patrocínio esses números são levados em consideração. 
 
 

Diversas inovações ocorreram no sentido de adaptar os desfiles a um formato mais adequado à televisão. Novamente o carnaval paulistano se espelha no modelo carioca que, nesse momento, já está devidamente adaptado ao molde televisivo, o qual exige das escolas de samba agilidade, riqueza, beleza, tempo definido e rigorosamente controlado, além da adequação à programação da emissora. 
 
 

Os desfiles do Grupo Especial, agora divididos em dois dias, não são concorrentes diretos dos desfiles cariocas e, realizados na sexta-feira e no sábado de carnaval, se iniciam após a programação básica da Rede Globo, normalmente com atraso. Mesmo que os organizadores do evento permitam seu início, as escolas preferem aguardar o início das transmissões, pois não querem perder a oportunidade de ter seus desfiles televisionados. Diante disso, os foliões – público e componentes – aguardam no Sambódromo o término da programação para dar início ao espetáculo que, nesse caso, é também uma grande festa, pois apesar de todas as transformações, da transmissão televisiva superficial e do que alguns autores chamam de “confinamento da manifestação popular”, a festa ainda se faz presente no Sambódromo.
 
 

Uma análise mais cuidadosa dos desfiles revela uma série de pequenas e grandes alterações, tais como a aceleração no andamento dos sambas-enredo, o que está relacionado com a estipulação de um tempo máximo de desfile que não deve ser ultrapassado sob pena de perda de pontos, a maior exposição de corpos nus e também uma preocupação por parte das escolas em ter nos desfiles pessoas famosas, no geral da própria emissora, com a finalidade de atrair a atenção da mídia.  Marcos dos Santos (entrevistado em março de 2007), sambista e coordenador do Centro de Documentação e Memória do Samba (CDMS), chama a atenção para algumas mudanças ocorridas desde o início das transmissões da Rede Globo. Segundo ele:

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