Foto 4 - Componente da ala das baianas da E.S. Unidos de Vila
Maria, se preparando para o desfile ainda no estacionamento do Parque
Anhembi. SP, 2007. Autora: Vanir Belo
A realização dos desfiles
das escolas de samba do Grupo Especial, subvencionados pela Prefeitura,
baseados em regulamentos rigorosos, realizados no Sambódromo mediante
cobrança de ingressos e transmitidos ao vivo pela televisão
para diversos países, caracteriza-se como um espetáculo,
um produto.E, como tal, exige essa logística, pois é necessário
que tudo corra de acordo com o planejamento, não sendo admitida
nenhuma possibilidade de erro.
Diferentemente do que ocorre no Sambódromo,
os desfiles nos bairros não se realizam em locais definitivos, podendo
mudar de um ano para outro de acordo com o interesse da administração
local (Subprefeitura) vigente. Em 2009 os desfiles ocorreram na Vila Esperança
(Zona Leste), no Butantã (Zona Oeste) e em Interlagos (Zona Sul)
(Fotos 9 a 11). Mas já ocorreram desfiles na Cidade Tiradentes,
em Itaquera e na Vila Prudente (Zona Leste), na Vila Maria e em Pirituba
(Zona Norte), na Cidade Ademar (Zona Sul) entre outros. Em todos os casos
a passarela é montada em alguma avenida importante do bairro; com
exceção de Interlagos onde é montada no Autódromo.
Este fato provoca transtornos como, por exemplo, a restrição
do número de espectadores, o que não ocorre nas passarelas
de rua, pois mesmo que as arquibancadas estejam lotadas – quando há
arquibancadas – é possível acompanhar os desfiles.
Foto 9
- Público espectador aguarda desfile em passarela no
Autódromo de Interlagos - Carnaval de 2008, São Paulo –
SP. Fonte: Centro de Documentação e Memória do
Samba.
Foto 10 -
Público espectador aguarda desfile em passarela no
Butantã. Carnaval de 2008, São Paulo – SP. Fonte:Centro
de Documentação e Memória do Samba.

Foto 11 - Público espectador aguarda desfile em passarela na
Vila Esperança. Carnaval de 2007, São Paulo – SP. Fonte:
Centro de Documentação e Memória do Samba.
As passarelas nos bairros têm
um ar mais lúdico, em especial para os espectadores que têm
acesso gratuito e uma maior possibilidade de circulação,
mas todo o processo organizacional é muito semelhante ao que ocorre
no Sambódromo; mesmo porque as escolas também participam
de um concurso com apoio da Prefeitura, regulamentos e critérios
de julgamento. E as primeiras colocadas ascenderão ao grupo superior,
ao passo que as últimas colocadas descerão para o grupo inferior.
Diante disso, embora apresentem desfiles mais simples, no que se refere
à riqueza e à grandiosidade das fantasias e dos carros alegóricos,
muitas vezes demonstrando claramente a falta de recursos, o rigor se faz
presente.
Toda essa dinâmica, necessária
à realização da festa na atualidade, gera uma série
de críticas por parte de alguns sambistas, em especial da “velha
guarda”, e de estudiosos que afirmam haver uma supervalorização
do desfile em detrimento do carnaval propriamente dito, uma vez que o desfile
é confinado e os componentes das escolas são impedidos de
permanecer no local após sua apresentação., Assim,
são obrigados a voltar imediatamente para a quadra da escola de
onde, no geral, se dispersam, rapidamente, a menos que assumam o papel
de espectadores e se dirijam à área reservada para estes.
Boa parte da velha guarda, no entanto,
mesmo tomada por um sentimento de nostalgia e com críticas ao que
se faz na atualidade, permanece na escola, empenhando-se para seu sucesso.
E a cada ano aumenta o número de jovens nas escolas de samba, os
quais, por não terem vivenciado o carnaval do passado, adaptam-se
facilmente ao novo modelo. E, mesmo submetidos a uma série de regras,
têm o desfile como a grande festa que proporciona momentos de prazer
e emoção e que não se reduz ao espetáculo e
às transmissões televisivas. Em especial para aqueles que
vivenciam o processo ao longo do ano.
O Bairro
O vínculo de algumas escolas
de samba com o bairro onde se originaram ainda é muito forte. Muitas
delas, independentemente de seu tamanho, necessitam, largamente, das relações
ali presentes, embora sua comunidade – as pessoas diretamente envolvidas
com a escola – em muitos casos extrapole os limites do bairro e – inclusive
- da cidade. Mas isso não é exclusividade das escolas de
samba, pois, como afirma Seabra
[...] na metrópole,
as identidades estão sendo libertadas dos enraizamentos territoriais
dos quais o bairro foi, na história urbana, o nível mais
elementar. Por isso, os pertencimentos tendem a ser eletivos, fundados
em auto-reconhecimentos. As identidades são mobilizadas para outras
esferas da vida e de outras escalas portadoras de outros conteúdos
(2000, p.17):.
No caso de algumas escolas de samba,
as relações se dão no bairro, mas a identidade e o
sentimento de pertencimento são dados pela própria agremiação,
reforçados, ou não, por laços de vizinhança.
O que se aproxima daquilo que Magnani (2002) chama de “pedaço”,
ou seja, o segmento do espaço no qual as pessoas têm relação
de pertencimento e de reconhecimento, a qual seria formada por dois elementos
básicos: um de ordem física (território demarcado)
e outro de ordem social (simbólico, rede de relações).
Nessa concepção, o “pedaço” pode ser a própria
quadra da escola de samba ou o local onde suas atividades se dão.
As escolas de samba originadas de
torcidas organizadas, por exemplo, praticamente não mantêm
vínculos de pertencimento com o bairro onde se localizam. É
o caso da Escola de Samba Gaviões da Fiel, cujo elo fundamental
é o Sport Club Corinthians Paulista, embora possua grande estrutura
em sua sede, no bairro do Bom Retiro, onde se localizam a quadra, o barracão
e um centro social e esportivo. E como torcida organizada que é
possui, ainda, subssedes em diferentes cidades, com setenta mil associados
pagantes. Características que a diferenciam absolutamente das escolas
que não têm sua origem vinculada a uma torcida de futebol.
Esses e outros fatores levaram a uma tentativa, sem sucesso, no interior
da Liga, de criar um grupo separado de escolas esportivas.
Já a Escola de Samba Unidos
de Vila Maria conta com uma comunidade de bairro muito presente, evidenciando
relações de parentesco e vicinato. Tem forte atuação
social e muitas parcerias com empresários e comerciantes, não
apenas do distrito de Vila Maria, mas, também, de distritos vizinhos
como Vila Medeiros e Vila Guilherme, além de uma relação
muito próxima com a Subprefeitura. Como afirma Seu Le vil, presidente
da Velha Guarda da Unidos de Vila Maria (entrevistado em junho de 2002):
[...] o que cooperou muito
com o carnaval da Vila Maria, com a história, tudo, foi a comunidade,
os empresários, os pequenos lojistas. Todo mundo cooperou.
Seu Irineu (membro da Velha Guarda
da Unidos de Vila Maria (entrevistado em junho de 2002) chama a atenção
sobre a importância do bairro para a escola e seu reconhecimento
em relação a isso, referindo-se ao samba-exaltação.
[...] Você pode ver
que todas as escolas têm um hino, mas ninguém fala do bairro
deles (...). Mas nós falamos do nosso bairro. Esse é o nosso
samba:
Vila Maria é um bairro de
tradição.
Vila Maria, você mora no meu
coração,
Foi lá que eu me criei e
aprendi a batucar
Quanta saudade que eu sinto de você
Oh! Minha Vila Maria
Eu não posso te esquecer.
É comum as escolas de samba,
mesmo aquelas que possuem quadra, realizarem ensaios nas ruas dos bairros
com a finalidade de vivenciar uma situação com características
mais próximas daquelas que encontrarão na passarela oficial,
o que o formato da quadra não permite. Isso, por sua vez, contribui
para a manutenção de um vínculo mais próximo
com os moradores e com o seu lugar, o que ainda é muito importante
para o sucesso da escola.
Apesar das rígidas características
do desfile na atualidade, algumas escolas também desfilam em seus
bairros após cumprirem sua obrigação na passarela
oficial, em especial aquelas que ainda mantém forte ligação
com o seu lugar de origem. Em muitos casos, isso é algo predeterminado,
fazendo parte do calendário da agremiação. Como
é o caso da Escola de Samba Unidos de Vila Maria, que desfila na
Praça Santo Eduardo e na Avenida Guilherme Cotching, e da Escola
de Samba Unidos do Peruche, que desfila na Rua Zilda.
O desfile no bairro é um momento
de grande descontração e, embora não conte com os
carros alegóricos utilizados no Sambódromo, são carregados
de beleza e muita animação. Márcio M. Marcelino, diretor
cultural da Unidos do Peruche (entrevistado em dezembro de 2007) afirma:
[...] é o desfile
para a comunidade, na Rua Zilda. Isso acontece todo ano; e isso é
uma cobrança da comunidade. E "ai" se não acontece! E é
legal, porque você consegue matar um pouco da melancolia do Carnaval.
Porque você vê as pessoas com liberdade. Não tem aquela
coisa do nervosismo da avenida; é o samba pelo samba. Isso não
tem competição.
A Escola de Samba Unidos do Peruche,
no entanto, é um exemplo de entidade que não possui quadra
no bairro de origem e, portanto, os moradores do bairro, que compõem
boa parte dos componentes da escola, buscam nele lugares alternativos para
realizar suas ações cada vez mais desvinculadas da escola.
Além disso, no distrito de Casa Verde há outras agremiações,
como as escolas de samba Morro da Casa Verde e Império de Casa Verde,
esta última exercendo forte atração sobre os moradores
por ser grande, luxuosa, ter sido bicampeã nos carnavais de 2005
e 2006 e por ter a possibilidade de doar fantasias. Nas palavras de Waldir
Romero, diretor social da Unidos do Peruche (entrevistado em janeiro de
2008):
[...] a Peruche é daqui do
bairro, mas foi lá para a Ponte do Limão. Mas as pessoas
conseguem ir facilmente para a quadra? É longe. Tem ônibus?
É difícil. Tem dinheiro para pagar o ônibus? É
complicado. Então há uma ruptura, há um corte dessa
relação.
De todo modo, esses exemplos comprovam
que, mesmo entre as grandes escolas, ainda se verifica a continuidade
da manifestação nas ruas dos bairros. Independentemente da
existência do Sambódromo e das transmissões da Rede
Globo de Televisão e ainda que de forma residual, pois, apesar da
imposição externa de formas e valores relacionados à
realização do desfile carnavalesco, as relações
criadas no lugar, possibilitadas pela contigüidade e pelos laços
de vizinhança, se fortalecem, criando a necessidade de reproduzir
a manifestação no bairro. Isso evidencia outra territorialidade
e a existência de horizontalidades, ou seja, de uma rede de relações
criadas no cotidiano e fortemente ligadas ao lugar. E, como afirma Santos
(1999, p. 228), “as forças oriundas do local, das horizontalidades,
se antepõem às tendências meramente verticalizantes”.
Mas trata-se da manifestação renovada, não cabendo
a comparação simples com o que se verificava no primeiro
quartel do século XX, bem como não pode ser analisada fora
do contexto de adaptação à cidade em crescimento.
As Ações Socioculturais
O carnaval das escolas de samba na
cidade de São Paulo apresenta-se como um espetáculo da indústria
cultural. Mas é, também, uma festa popular, produto de uma
comunidade unida em torno de um objetivo: a produção do carnaval
em todas as suas minúcias. De modo geral, as escolas de samba desempenham
diversas funções para sua comunidade e reconfiguram, de certa
forma, o lugar onde se localizam, além de fomentar uma série
de relações sociais em suas atividades cotidianas. Ou seja,
as inovações que por um lado alteraram a estrutura organizacional
e produtiva das escolas, por outro, criaram novas possibilidades no que
se refere à atuação e às relações
das comunidades em suas agremiações. Como afirma Bosi :
[...] a exploração,
o uso abusivo que a cultura de massa faz das manifestações
populares, não foi ainda capaz de interromper para todo sempre o
dinamismo lento, mas seguro e poderoso da vida arcaico-popular, que se
reproduz quase organicamente em microescalas, no interior da comunidade,
apoiada pela socialização do parentesco, do vicinato e dos
grupos religiosos (1992, p. 329).
Embora o foco das entidades seja a produção
dos desfiles carnavalescos, é possível observar a tomada
de consciência, por parte alguns dirigentes e componentes, da
importância social e cultural dessas agremiações e,
como consequência surge uma preocupação em utilizá-las,
também, com a finalidade de desenvolver ações no sentido
de suprir as necessidades mais imediatas da comunidade. O conjunto dessas
ações é o chamado trabalho social desenvolvido nas
escolas de samba, o qual pode ocorrer de diversas formas
As ações em si não
são uma novidade do período atual, pois já nas décadas
de 1980 as escolas desenvolviam ações assistencialistas,
tais como a distribuição de cestas básicas, campanhas
com a finalidade de obter recursos ou objetos que seriam revertidos ou
doados à comunidade, médico, dentista entre outras coisas.
Essas ações permanecem e vêm adquirindo força,
o que por um lado é muito interessante, em especial no que se refere
àquelas voltadas à área da saúde, uma vez que
existe uma parcela significativa da população que não
tem acesso universal a esse serviço; mas, por outro lado, essas
ações não têm força alguma no sentido
de alterar a situação geradora do problema.
A novidade do período reside
no conteúdo das novas ações desenvolvidas no sentido
de promover a formação e a geração de renda
para a comunidade e, dessa forma, criar possibilidades de superação
do problema. A nova estrutura das escolas de samba – quadra, barracão,
equipamentos internos, recursos financeiros – embora atenda aos interesses
da indústria cultural, uma vez que se estabelece para a produção
do desfile transmitido pela televisão, cria condições
para que a comunidade a utilize como meio de inserção e de
superação da escassez a que é submetida. Multiplicam-se
os trabalhos desenvolvidos com a finalidade de atender suas necessidades,
preenchendo,
de alguma forma, as lacunas deixadas pelo poder público que,
mais atento aos interesses hegemônicos e do mercado, desampara a
grande massa da população, pois o desenvolvimento da cidade
de São Paulo não levou à superação da
desigualdade e da pobreza; pelo contrário, as intensificou.
Nesse contexto desenvolvem-se diferentes
projetos de fomento à cultura e ao lazer, formação
e capacitação profissional, geração de trabalho
e renda, atendimento à saúde, assessoria jurídica,
entre outros. Vale lembrar que algumas dessas atividades têm relação
direta com a produção do carnaval como, por exemplo, os cursos
profissionalizantes que visam atender a este mercado. Mas essas ações
não se realizam em todas as escolas de samba e, devido ao maior
acesso aos recursos materiais, são as maiores escolas que realizam
as ações mais abrangentes.
Além de atender às
necessidades da comunidade, contudo, essas ações são
desenvolvidas com a finalidade de melhorar a imagem das agremiações
ante sua comunidade, a população do bairro e a sociedade
paulistana de modo geral. Pois, apesar das inovações e do
desenvolvimento das agremiações carnavalescas, muitos vizinhos
ainda as vêem, em especial as menores, como entidades pouco familiares
frequentadas por pessoas de índole duvidosa. Além disso,
as ações sociais são vistas como diferenciais no momento
da obtenção de patrocínios, pois os possíveis
patrocinadores, seja através do tema do enredo ou da Lei Rouanet,
optam por associar sua marca a uma instituição notadamente
idônea que ofereça uma contrapartida à sociedade.
A partir da análise das ações
realizadas nas escolas de samba é possível classificá-las
em dois grupos:
• ações externas,
que se originam a partir de instituições que buscam a parceria
das escolas de samba para efetivar seus projetos de atendimento social,
mesmo que o curso oferecido seja definido pela agremiação;
• ações internas,
que se originam nas escolas de samba que, por sua vez, também buscam
parcerias externas, em especial para a obtenção de recursos
financeiros.
Em alguns casos, devido à
carência de equipamentos culturais e de lazer, a própria existência
da escola de samba, seja grande ou pequena, se caracteriza como ação
social, pois oferece aos moradores opções de lazer e entretenimento.
Mas as escolas maiores, que contam com uma quadra e pessoas trabalhando,
exclusivamente, na elaboração e no desenvolvimento desses
projetos, desenvolvem ações mais abrangentes e em maior número.
Para compreender as ações
das escolas de samba nos bairros e ter uma noção da totalidade,
foram analisadas três entidades de diferentes tamanhos e localizadas
em diferentes pontos da cidade. São elas: Unidos de Vila Maria,
Príncipe Negro da Cidade Tiradentes e Paineiras do Sapopemba. Mas,
como lembra Arroyo (1996, p. 79), sem perder de vista o fato que a totalidade
não é “homogênea ou uniforme; ao contrário,
ela se compõe de especificidades, de complexidades, de conflitos
tanto das estruturas quanto das formas. A totalidade sem contradições
é vazia e inerte; sua concreticidade está determinada pelas
contradições”.
Unidos de Vila Maria
Fundada em 1954, a Escola de Samba
Unidos de Vila Maria esteve presente durante todo o tempo no carnaval paulistano.
Mas devido a uma série de problemas relacionados à má
administração e por uma incapacidade de adaptação
às imposições decorrentes da oficialização
em 1967, passou longo período fora do grupo de elite, circulando
entre os grupos intermediários. Entre 1974 e 1998 a agremiação
enfrentou uma fase de grandes dificuldades e circulou entre os grupos II
e III chegando a desfilar no grupo IV em 1993. No ano de 1997 corria o
risco de deixar de existir, pois faltava pouco tempo para o carnaval e
nada estava pronto. Diante da situação, um grupo de pessoas
envolvidas ou interessadas na escola de samba, montou a escola às
pressas, com material reciclado e muito improviso. Para a surpresa de todos,
a escola ficou em terceiro lugar do Grupo II, o que estimulou a permanência
daquelas pessoas e deu grande alento à comunidade. Em 1998 a escola
foi campeã do Grupo II, passando para o então grupo I A.
Daí em diante, a escola passa a viver uma fase de grande ascensão
e no ano de 2002 já está de volta ao grupo de elite do carnaval
paulistano, o Grupo Especial, de onde não mais saiu e passou a obter
bons resultados, embora ainda não tenha sido campeã.
