Em 2003 a agremiação
inaugurou sua quadra – a maior de São Paulo – localizada em um terreno
público ao lado do Clube Municipal Cecília Meireles, concedido
pela prefeitura por cinquenta anos, onde está também seu
barracão. Anteriormente à sua construção, os
ensaios ocorriam no estacionamento do Sacolão (Mercado Municipal)
e na Rua Kaneda, onde havia uma pequena sede. Mesmo atualmente, são
realizados ensaios nas ruas do bairro com o objetivo de ensaiar numa
situação mais próxima do que seria a passarela oficial
e de manter a Escola próxima dos moradores e atuante em seu bairro
(Foto 12).
Foto 12 - Ensaio
Geral nas ruas do Bairro de Vila Maria. E.S. Unidos de Vila Maria.
Carnaval de 2008, São Paulo – SP. Foto: Vanir Belo
A força dessa escola de samba
reside na presença e atuação de sua comunidade que,
embora não seja, exclusivamente, do bairro, está fortemente
concentrada no distrito de Vila Maria e nos distritos vizinhos (Mapa 4).
A existência da escola de samba no distrito de Vila Maria contribui
para o desenvolvimento do lugar, uma vez que gera empregos diretos e indiretos
e movimenta o comércio local, além de funcionar como um espaço
de lazer e cultura para a comunidade, estimulando relações
de sociabilidade, pois na quadra se realizam os ensaios da escola de samba,
além de diversas atividades, como shows, festas, eventos, cursos
de formação e capacitação para pessoas de diversas
idades, entre outros.
Uma análise das fichas cadastrais
dos associados revelou que, embora a imensa maioria dos associados à
Escola de Samba Unidos de Vila Maria seja do próprio bairro, ela
apresenta grande abrangência, extrapolando os limites do distrito
de Vila Maria e, mesmo, do município de São Paulo. O que
comprova a ideia de que o vínculo e a identidade se dão,
grandemente, a partir da agremiação. Essa abrangência,
também observada em outras escolas, leva à ampliação
da rede de relações e, consequentemente, cria oportunidades
de ação, fortalecendo a agremiação não
apenas no que se refere ao carnaval, mas, principalmente, como entidade
socialmente organizada.
No bairro de Vila Maria e região
a escola de samba não é a única instituição
capaz de fomentar e fortalecer tais relações, mas uma escola
de samba da forma como se organiza e se estrutura na atualidade, apesar
de seu caráter empresarial, tem um poder de atração
muito forte por diversos aspectos. Em especial nos lugares onde são
poucas as opções de lazer barato ou gratuito e onde há
concentração de população com baixo poder aquisitivo
ou desempregada; pois ao mesmo tempo em que oferece lazer, cultura e entretenimento,
oferece, também, oportunidades de trabalho.
A Escola de Samba Unidos de Vila
Maria realiza importante trabalho sociocultural. São projetos desenvolvidos
através de parcerias com as iniciativas pública e privada,
cujo objetivo é “melhorar a qualidade de vida da comunidade local,
afastando crianças e adolescentes do envolvimento com as drogas,
marginalidade, proporcionando-lhes Cultura, Educação, Saúde
e Lazer” (Departamento Social). São
realizados, em sua quadra diversos cursos de formação e capacitação
profissional voltados para diferentes faixas etárias, atendimento
médico em diversas especialidades e várias atividades de
lazer e entretenimento (Quadro 1).
Fonte: Departamento Cultural – G.R.C.S.E.S.Unidos
de Vila Maria, 2007. Elaboração da Autora.
No primeiro momento a Escola procurou
atender às crianças, realizando projetos como bateria mirim
e escolinha de futebol entre outros, mas constatou-se que direcionar o
foco apenas para as crianças não surtia o efeito esperado,
pois muitas delas tinham problemas cuja resolução estava
além do que a Escola de Samba poderia oferecer. Devido às
dificuldades enfrentadas pelas famílias, diversas crianças
necessitavam trabalhar em detrimento dos estudos, não tinham um
atendimento médico e odontológico adequado e, devido a problemas
sociais e de estrutura familiar, algumas delas sofriam com problemas psicológicos.
Diante disso o Departamento Social da Escola viu a necessidade de desenvolver
um trabalho em conjunto com os pais, ou responsáveis, e também
de direcionar aos jovens e adultos cursos de formação em
diversas áreas, capacitação profissional, empreendedorismo
e geração de renda, e, em alguns casos, empregá-los
nos diversos afazeres da quadra e do barracão.
Atualmente, a escola de samba cobra
das crianças e dos adolescentes atendidos pelos projetos: frequência,
boa nota e bom comportamento na escola de ensino básico. De acordo
com Márcia Cardoso Dias, coordenadora de Projetos da Escola de Samba
Unidos de Vila Maria (entrevistada em dezembro de 2007), os responsáveis
pelas escolas de ensino oficial da região de Vila Maria têm
ciência dos estudantes que são atendidos nos projetos da escola
de samba, pois há uma comunicação entre essas instituições,
e os professores reconhecem a melhoria do desempenho escolar desses estudantes.
Quando algum aluno apresenta problemas de disciplina, é comum a
escola de ensino oficial entrar em contato com a escola de samba, para
juntos tentarem resolver o problema, muitas vezes antes mesmo de contatar
os pais. Quando se detecta problemas desse tipo, dependendo da gravidade,
meninos e meninas podem ser impedidos de participar de novos projetos.
Todas as crianças e adolescentes
que participam dos projetos sociais da Unidos de Vila Maria são
encaminhados para as especialidades médicas oferecidas na própria
quadra – Clínica Geral, Odontologia, Psicologia e Fonoaudiologia
– sem nenhum custo, pois o objetivo é conhecer e cuidar desses jovens
de forma integral. Também é comum a formação
de grupos de trabalho e discussão com os psicólogos que abordam
questões como sexo e família. Eventualmente os pais são
chamados a participar. Os pais de crianças atendidas nos projetos
recebem constantes instruções do Departamento Social, em
especial quando também participam dos cursos direcionados aos adultos.
Além dos cursos, a Escola
oferece diversos serviços em sua quadra, como atendimento médico
e orientação jurídica. Todos os serviços são
gratuitos e de atendimento universal, exceto Fisioterapia, para o qual
se cobra uma pequena taxa por sessão para a manutenção
dos equipamentos que foram adquiridos com recursos da própria entidade;
e odontologia para o qual se exige a carteirinha de associado à
escola. No entanto, qualquer pessoa pode se associar.Basta pagar a anuidade
e preencher a ficha cadastral. A restrição do atendimento
odontológico apenas aos associados fez-se necessária devido
à grande procura por esse serviço e a incapacidade de atender
à demanda, pois até o final de 2007 havia apenas um consultório
no qual adultos e crianças eram atendidos. Em novembro daquele ano
foi inaugurado o consultório pediátrico. Com exceção
da fisioterapeuta, que é paga pela Escola, os profissionais trabalham
em caráter voluntário, com base contratual, e recebem uma
ajuda de custo. Ou, no caso dos projetos externos, os professores são
pagos pelas instituições de origem.
O Projeto Cultura Viva, existente
desde 2004, que engloba os cursos de teatro, capoeira, violão e
cavaquinho, cursos de audiovisual, as sessões de cinema e o estúdio
de gravação (em fase final de construção),
é ligado ao projeto Teia Cultura Viva do Ministério da Cultura
(Foto 13). A Unidos de Vila Maria é um dos seiscentos Pontos de
Cultura existentes no país. Além dela há apenas uma
Escola da Samba entre esses Pontos, a Estação Primeira de
Mangueira, no Rio de Janeiro.

Foto 13
- Mostra Cultural promovida pelo Ponto de Cultura da E.S. Unidos de
Vila Maria. Carnaval de 2007, São Paulo – SP. Foto: Vanir Belo.
Os cursos e atividades realizadas
nesse projeto foram idealizados e desenvolvidos pela Escola e financiados
pelo Ministério da Cultura. Mas esse financiamento não é
permanente, embora possa ser renovado, possibilitando a manutenção,
a ampliação ou a elaboração de um novo plano
de trabalho. No entanto, caso isso não ocorra, a Escola se considera
capaz de garantir a continuidade das atividades existentes, pois tudo o
que foi adquirido é patrimônio da entidade e a ajuda de custo
para os profissionais envolvidos parte da receita do Departamento Social.
A Unidos de Vila Maria desenvolve
uma série de outros projetos em parceria com diversas instituições,
como a Subprefeitura da Vila Maria e Vila Guilherme, escolas de educação
básica, Secretaria Estadual da Cultura (Projeto Barracão),
ONGs, Prefeitura (Clube Escola), SEBRAE (G5), entre outras.
A receita do Departamento Social,
ou seja, todo o investimento feito nos projetos sociais por parte da escola,
como o salário da fisioterapeuta, a aquisição dos
equipamentos de fisioterapia e do consultório odontológico
(pago em vinte e quatro vezes) entre outras coisas, é proveniente
da venda realizada na lojinha da entidade que comercializa diversos produtos
com sua marca, como roupas e acessórios, vendas que crescem a cada
ano devido à popularidade da Escola de Samba que também cresce.
Apenas o consultório odontológico pediátrico, inaugurado
em novembro de 2007, foi montado com doações de empresários
da região. Em 2008 a Unidos de Vila Maria iniciou um trabalho de
reciclagem em sua quadra com a finalidade, além daquelas relacionadas
às questões de educação ambiental, de obter
receita para os projetos sociais a partir da venda dos materiais recicláveis.
Essa e outras iniciativas ocorrem para dar sustentabilidade ao projeto
social da Escola, pois não é seguro depender apenas de uma
fonte de renda, como a loja, que não tem garantia de lucro constante.
Os diversos trabalhos culturais e
sociais realizados pela Escola de Samba Unidos de Vila Maria e a sua abrangência,
atraindo pessoas das mais diversas localidades, revelam a força
e as possibilidades de ação de uma agremiação
carnavalesca quando faz uso das técnicas e políticas disponíveis
em benefício do seu carnaval e de sua comunidade.
Príncipe Negro da Cidade Tiradentes
A Escola de Samba Príncipe
Negro da Cidade Tiradentes foi fundada pela primeira vez em 1964, no bairro
de Vila Prudente, com o nome Príncipe Negro de Vila Prudente. Tratava-se
de uma escola de base familiar e originada de um time de futebol. Devido
a uma série de problemas enfrentados, encerrou suas atividades e
as reiniciou em 1983, no mesmo bairro. A escola sofria dificuldades devido
ao aumento do preço da terra e a consequente mudança de boa
parte de seus integrantes para outros bairros da cidade. Vila Prudente
tornou-se um bairro de classe média onde a escola não tinha
espaço e não era aceita devido ao barulho que produzia.
Com a mudança da família
que se caracterizava como o núcleo duro da agremiação
para a Cohab Cidade Tiradentes, a escola começou a integrar novos
componentes residentes neste bairro e, em pouco tempo, passou a ser praticamente
toda formada por moradores da Cohab. No entanto, seu endereço permanecia
na Vila Prudente. Após três anos nessa situação,
os novos componentes passaram a cobrar a mudança do endereço
da escola para a Cidade Tiradentes, o que ocorreu em 1993, quando a escola
migrou definitivamente para o novo bairro, alterando seu nome para Príncipe
Negro da Cidade Tiradentes. Atualmente, esse bairro conta também
com a Escola de Samba Estrela Cadente, fundada em 2001 por antigos componentes
do Príncipe Negro.
A Escola de Samba Príncipe
Negro da Cidade Tiradentes possui apenas uma sede, o bar da família
da presidente Rossimara Aparecida Vieira Isaias (Foto 14) – conhecida como
Inhana, filha do fundador da escola em 1964 – montado na garagem
do prédio onde mora. Essa agremiação, a exemplo de
diversas outras, não possui quadra para ensaios e tampouco barracão
para construir seus carros alegóricos. Os ensaios, que chegam a
contar com cerca de quinhentas a setecentas pessoas entre componentes e
espectadores, ocorrem na pequena praça que é, também,
um ponto de táxi em frente ao bar (Foto 15), na quadra poli esportiva
localizada ao lado do prédio (Foto 16) e, nos últimos ensaios
antes do carnaval, pelas ruas do bairro.
Foto 14 - Sede da E.S. Príncipe Negro da Cidade Tiradentes. 2008, São Paulo – SP. Foto: Vanir Belo.
Foto 16 - E.S. Príncipe Negro da Cidade Tiradentes. 2008, São Paulo – SP. Foto: Vanir Belo.
A Escola de Samba Príncipe
Negro conta com presidente, vice-presidente, secretária e mais dezesseis
diretores, mas trata-se de uma agremiação que depende fortemente
da comunidade e dos moradores de seu bairro para se realizar. Por isso,
procura desenvolver projetos sociais e culturais em parceria com a Prefeitura
e outras entidades para atender a essas pessoas. O fato de não possuir
uma quadra dificulta a realização de projetos. Diante disso,
a escola encaminha seus componentes para participar de atividades desenvolvidas
por outras entidades, mas também desenvolve algumas atividades utilizando
os espaços físicos do clube, das escolas públicas,
de associações comunitárias e de outras entidades
presentes no bairro.
Dentre as ações desenvolvidas,
os componentes (entrevistados em maio de 2007) citam: o time de futebol
com várias categorias; o projeto Recreio nas Férias, em parceria
com a Prefeitura, que atende cerca de quatrocentas e cinquenta crianças;
um curso de adereços iniciado em 2008, em parceria com o Governo
Federal, e que atende trinta e cinco jovens; e diversos cursos relacionados
a atividades artísticas e culturais. O objetivo desses projetos
é proporcionar oportunidades para a comunidade e, também,
melhorar a imagem perante os moradores do bairro. De acordo com Inhana,
presidente da escola (entrevistada em maio de 2007)
:
[...] essa é a contrapartida;
ela [escola de samba] faz um trabalho social. A escola só se estrutura
se ela faz um trabalho social. Com esses projetos, principalmente com os
projetos que a gente fez com crianças, que a gente conseguiu mostrar,
principalmente para a comunidade, que a nossa escola não é
uma escola de maloqueiro, de bandido e coisa e tal. A gente começou
a procurar esses projetos pra mudar essa cara, pra mostrar pra comunidade
esse trabalho social e a cara da escola.
A escola organiza, também,
atividades como festa junina, comemoração ao dia de São
Cosme e São Damião com distribuição de doces
para as crianças, festa do axé às sextas-feiras e
confraternizações com oferecimento de canja de galinha após
os ensaios; todas essas ações são realizadas com a
contribuição e o trabalho voluntário de seus componentes,
dentre os quais muitos líderes e membros de outras associações
atuantes no bairro. Devido à sua popularidade, a escola de samba
é também convidada para participar de diversos eventos que
ocorrem no local e em bairros vizinhos (o que faz sem cobrar nada), tais
como inauguração de supermercado, de sacolão, de posto
de saúde, desfiles cívicos, festas realizadas nas escolas
públicas, no Batalhão dos Bombeiros, casamentos comunitários
etc, além de emprestar instrumentos, fantasias e outros objetos
para realização de eventos como peças de teatro, festas
e aniversários, muitos dos quais realizados na sede da escola, buscando
a integração com diferentes setores do bairro. Segundo Inhana
(em entrevista de maio de 2007)
[...] a escola de samba,
além de ter que fazer um trabalho social, agrega todo tipo de pessoa,
sem preconceito, sem exceção. E consegue, o que não
é fácil, agregar todo mundo. Acho que uma das poucas escolas
de samba que tem corte gay é a Príncipe Negro. Nós
suamos um pouquinho para fazer, mas a gente faz o concurso gay e a bateria
tem que tocar (...). Como o concurso da corte das mulheres, tem o concurso
gay. “Ah! Mas o pessoal fica zoando”. Aí eu falo: gente, carnaval
sem purpurina não é carnaval e as “bibas” são a purpurina
do carnaval.
Devido a essas ações,
a escola ganhou a simpatia e a colaboração de diversas pessoas,
mesmo aquelas que, por diferentes motivos, não gostam de - ou não
acompanham - carnaval. O taxista do ponto da praça, que já
se tornou amigo, fia corridas quando há necessidade; os evangélicos
residentes no prédio onde se localiza a sede oferecem suas garagens
para a escola guardar seus pertences e afirmam que a colocam em suas orações
para que tudo corra bem e para que realizem um bom desfile; o dono da padaria,
embora não contribua financeiramente, torce e acompanha o desempenho
da escola. Nos dias de ensaio, os jovens que jogam basquete deixam metade
da quadra livre para que os casais de mestre-sala e porta-bandeira também
possam utilizá-la para ensaiar. De acordo com Cida, porta-bandeira
da escola (entrevistada em maio de 2007):
[...] nós, os casais, ensaiamos
naquela quadra. E eles adoram jogar basquete à noite; dois, três
times. E nós vamos ensaiar. Eles querem jogar nessa banda da quadra
[aponta] a outra banda fica vazia. A gente vai ensaiar e pergunta: posso
ensaiar? E eles: claro, claro! Mas eles querem jogar perto da bateria,
então a gente faz uma troca eles ficam perto da bateria e a gente
do outro lado.
Durante os ensaios não é
comum a ocorrência de problemas e tampouco o uso de drogas na redondeza,
pois todos sabem que se trata de um “evento familiar” e ficam atentos para
que nada ocorra; mas, de todo modo, os organizadores solicitam policiamento
preventivo. Há distribuição de preservativos por parte
de uma associação do bairro e, eventualmente, ocorrem palestras
sobre saúde, anteriormente aos ensaios. Embora não haja reclamações
de vizinhos em relação ao barulho, as atividades sempre terminam
antes das duas horas da madrugada.
A escola também realiza romarias
para a cidade de Tietê, por ocasião da Festa de São
Benedito, onde encontra representantes de outras escolas, como Vai-Vai
e Unidos do Peruche. Os componentes da Escola de Samba Príncipe
Negro se orgulham de realizar atividades ao longo de todo o ano, de manter
as tradições de uma escola de samba e de ser uma agremiação
familiar e que aproxima famílias, uma vez que a convivência
promove a criação de laços de compadrio e de parentesco.
Como afirma Inhana (entrevistada em maio de 2007):
[...] daqui a alguns anos
aqui vai virar uma grande família. Aqui funciona como antigamente.
Como a gente aprendeu, funciona. O carnaval, o samba é por amor;
você gosta da coisa. O negócio de profissionalizar o carnaval
eu acho que perde. É um lazer; é um divertimento. Eu faço
porque eu gosto. O pessoal não tem mais camisa, não veste
mais uma camisa por uma entidade; se perde isso. "De que escola que você
é?" Da que pagar mais. Não tem aquele amor. "De que escola
você é?" Eu bato no peito: sou de coração Príncipe
Negro.
A presidente, que a princípio
não aprova o processo de profissionalização da forma
como ele se dá, reconhece que a escola de samba não é
economicamente importante para o bairro, mas afirma que, culturalmente,
tem uma importância fundamental, pois formou diversos sambistas,
enraizou o samba na Cidade Tiradentes e levou o nome do bairro para o carnaval
paulistano.
Por se tratar de uma escola de samba
do Grupo II, a Príncipe Negro não conta com verba oficial
significativa para realizar seu carnaval e não obtém patrocínio
junto aos comerciantes locais. Mas dispõe de uma comunidade unida
e disposta a trabalhar voluntariamente. Para o carnaval de 2008, apenas
o escultor foi remunerado; todos os demais trabalhos foram realizados em
conjunto pela comunidade em suas próprias casas (Foto 17), pois
a escola não possui um barracão; os carros alegóricos
foram construídos em um terreno baldio (Foto 18). Alguns componentes
como destaques de carro e de chão, mestre-sala e porta-bandeira,
corte e diretores, além de contribuir para a confecção
de suas fantasias, caso queiram deixá-las mais incrementadas e mais
bonitas devem também arcar com os custos. Nas palavras de Inhana:
[...] nosso sonho é um espaço,
e aqui tem tantos vazios... Mas a prefeitura ainda não... Nosso
barracão é em um espaço público. Tem uns prédios
abandonados ali e a gente deixa lá nossos esqueletos, e próximo
ao carnaval a gente começa a confeccionar ali mesmo. Temos um galpão
pequeno para guardar as alegorias [e] as fantasias saem de uns três
ou quatro apartamentos. É bem caseiro mesmo; quem vê não
diz. Confecciona nos apartamentos. Tem o meu, tem o da minha mãe
e o da minha vizinha de baixo, que também costura. Cada casal de
mestre-sala e porta-bandeira confecciona sua fantasia, guarda. Destaques
a mesma coisa. Tem o Pai Jair, que tem uma casa de candomblé, então,
próximo ao carnaval, ele cede, ele é chefe de ala desde quando
a escola começou aqui, então a Ala dele ele guarda lá.
A Ana Rita, que é diretora de uma associação cultural,
faz a mesma coisa. Ela tem um espaço e guarda. E é assim
que a gente vai. Garagem, quem tem garagem, conforme as fantasias vão
ficando prontas guardam. Nossos instrumentos são guardados numa
garagem também. Aqui é solidariedade sempre. O pessoal é
bem solidário; ajuda bastante.
Foto 17 -
Produção de fantasias na casa da presidente. E.S.
Príncipe Negro da Cidade Tiradentes. 2008, São Paulo –
SP. Foto: Vanir Belo
Foto 18
- Construção de alegorias da E.S. Príncipe Negro
da Cidade Tiradentes. 2008, São Paulo – SP. Foto: Vanir Belo.
Para baratear os custos, a escola
recicla o material utilizado no ano anterior e adquire os novos materiais
diretamente dos fabricantes; inclusive de cidades do interior. Para aumentar
a receita, vende agasalhos e camisetas da escola e realiza rodas de samba
com venda de feijoada cujos ingredientes são fornecidos pelos componentes
da agremiação.
Apesar dos diversos problemas enfrentados
na produção do carnaval, os componentes afirmam que estão
muito bem, se comparando ao que já passaram; como, por exemplo,
o fato de terem usado como carro abre-alas, no início da década
de 1990, um carrinho de cachorro quente e uma porta de apartamento enfeitados
e com o nome da escola escrito. Hoje, pode ajudar escolas menores doando
estruturas de carros antigos, prática muito comum no passado – a
própria agremiação já recebeu esse tipo de
ajuda – porém, pouco realizada na atualidade pelas grandes escolas
que costumam vender o material que não será utilizado.
Por dois anos, 1997 e 1998, o desfile
oficial ocorreu na Cidade Tiradentes, o que, para a agremiação,
foi ótimo devido a uma grande economia com o transporte dos carros
alegóricos. Pois, embora recebam da UESP uma ajuda de custo para
essa finalidade, o valor no geral não é suficiente para cobrir
toda a despesa. Por diversos anos desfilou em passarelas montadas na Zona
Leste, o que também facilitava e possibilitava a ida dos moradores
do bairro que torcem pela escola. Mas, nos dois últimos anos, 2007,
2008 e 2009, desfilou no autódromo de Interlagos (Foto 19) e enfrentou
muita dificuldade devido à distância, inclusive uma leve diminuição
no número de componentes. Isso revela que as longas distâncias
existentes entre a sede da escola e o local de desfile são um fator
de desestímulo. Os componentes criticam não apenas a distância,
mas, também, a falta de estrutura para a realização
dos desfiles no autódromo, por tratar-se de um lugar ermo e com
uma pista inadequada.

Foto 19
- Desfile da E.S. Príncipe Negro da Cidade
Tiradentes.Autódromo de Intelagos, 2008, São Paulo – SP.
Fonte: Centro de Documentação e Memória do Samba.
As características da Escola
de Samba Príncipe Negro da Cidade Tiradentes revelam a importância
cultural e social de uma agremiação carnavalesca em um bairro
periférico da cidade de São Paulo que conta com uma pequena
oferta de equipamentos culturais e de lazer. Mesmo sem condições
de desenvolver ações abrangentes, como fazem algumas grandes
escolas, há uma preocupação, por parte dessa entidade,
em encaminhar membros de sua comunidade, em especial jovens, para projetos
desenvolvidos por outras entidades que trabalham em parceria; ou de utilizar
o espaço físico de outras entidades – clubes, escolas públicas,
associações etc. – com a finalidade de desenvolver as suas
ações.
Nesse caso, a própria existência
da escola de samba, se traduz em uma ação social, pois trata-se
de uma entidade que tem grande capacidade de agregar pessoas de diferentes
idades, incluindo aquelas que não têm relação
com o samba e com o universo do carnaval e possibilitar momentos de sociabilidade.
Paineira do Sapopemba
A Escola de Samba Paineiras do Sapopemba,
fundada em 1984, localiza-se no Jardim Tietê, um bairro pobre do
distrito de Sapopemba, na Zona Leste da cidade. Após um longo período
com suas atividades suspensas, essa escola de samba voltou ao carnaval
paulistano em função da iniciativa de um grupo de pessoas
que via na agremiação a oportunidade de desenvolver atividades
culturais e de lazer. Trata-se de uma agremiação, em 2008,
pertencente ao Grupo de Acesso da UESP, o qual não conta com recursos
financeiros do poder público; apenas com o transporte dos componentes
e, eventualmente, algum apoio da entidade representativa. Essa situação
dificulta a realização do desfile, pois as escolas desse
grupo devem, de acordo com o regulamento, desfilar com quatrocentos componentes
e um carro alegórico.
Por ser uma escola de pequeno porte,
ainda em processo de estruturação, a Paineira do Sapopemba
tem certa dificuldade em reunir o número mínimo de componentes
para o desfile, bem como de obter patrocínios ou estabelecer parcerias
com comerciantes locais. Essa situação, comum entre as escolas
menores, dificulta a produção das fantasias e alegorias,
mas não impede a realização dos desfiles e tampouco
a atuação da escola no bairro. De Paula, presidente da Escola
de Samba Paineira do Sapopemba (entrevistado em janeiro de 2008), lamenta
a falta de estrutura e de recursos para as agremiações de
pequeno porte e busca, juntamente com outros componentes, formas de parceria
para mantê-la atuante. Uma conquista recente foi a parceria realizada
com a Escola Municipal Vinícius de Moraes, onde realiza seus ensaios
e outras atividades, como reuniões e o desenvolvimento de cursos
de formação cultural, em parceria com o Projeto Barracão,
o qual atende jovens da região.
Os ensaios dessa agremiação,
que se caracterizam como uma opção de lazer para diversas
pessoas do bairro, realizam-se aos finais de semana na quadra poliesportiva
da Escola Municipal Vinícius de Moraes, onde a agremiação
carnavalesca divide o espaço físico com crianças e
jovens que a utilizam para brincar, jogar bola e andar de bicicleta (Fotos
20 a 22). Nos dias de ensaio, uma parte da quadra é utilizada pela
escola de samba e outra parte pelas crianças e jovens. Dessa forma
a escola pode ensaiar em um local amplo e coberto, garantindo assim a periodicidade
dos ensaios.

Foto 20 - E.S. Paineira do Sapopemba. Ensaio. Sapopemba, São Paulo – SP, 2008. Foto: Vanir Belo.
Foto 21 - E.S. Paineira do Sapopemba. Ensaio. Sapopemba, São Paulo – SP, 2008. Foto: Vanir Belo
Foto 22 - E.S. Paineira do Sapopemba. Ensaio. Sapopemba, São Paulo – SP, 2008. Foto: Vanir Belo
No carnaval paulistano, da forma
como se realiza na atualidade, a Escola de Samba Paineira do Sapopemba
é prejudicada devido a uma série de fatores, como a ausência
de recursos, a distância do local de desfile e a dificuldade em cumprir
as exigências do regulamento. No ensaio realizado em 12 de janeiro
de 2008, faltando poucos dias para o carnaval, a escola ainda não
contava com o número mínimo de componentes exigido pelo regulamento.
Naquele ano o desfile oficial foi realizado na passarela montada no bairro
do Butantã, e, por chegar atrasada, a Paineira do Sapopemba foi
a última escola a se apresentar e não obteve pontuação
(Fotos 23). Essa situação revela a imensa desigualdade existente
entre as escolas de samba e a precariedade daquelas que procuram sobreviver
e se enquadrar no atual e excludente modelo de organização
do carnaval paulistano. Mas a ausência de recursos não impede
a escola de realizar sua festa, e a produção de fantasias
e alegorias se baseia fortemente no trabalho comunitário.

Foto 23
-E. S. Paineira do Sapopemba. Carnaval de 2008. Passarela no Bairro do
Butantã, São Paulo – SP. Fonte: Centro de
Documentação e Memória do Samba.
A grande importância dessa
escola de samba talvez seja sua própria existência no bairro,
onde move um grupo de pessoas com a finalidade de produzir o desfile carnavalesco
e realizar a festa, além de promover ações como os
cursos de percussão e dança realizados na escola de educação
formal. A parceria com a Escola Municipal Vinícius de Moraes revela
a inserção da agremiação carnavalesca na localidade.
Considerações Finais
Durante todo o processo de desenvolvimento,
normatização e adaptação aos conteúdos
urbanos, as escolas de samba se empenharam em potencializar a produção
dos desfiles carnavalescos através da especialização
da mão-de-obra, e do estreitamento e da ampliação
das relações com diversos agentes dos diferentes circuitos
da economia urbana que, por sua vez, se aproximam das escolas de samba
com a finalidade de incrementar seus negócios, de diferentes portes.
Nesse contexto há uma multiplicação
das divisões social e territorial do trabalho geradas na produção
carnavalesca que, para se realizar, passa a integrar uma série de
agentes, criando e ampliando circuitos de produção e cooperação
que extrapolam gradativamente os limites do bairro, da cidade e do país,
ampliando, assim, a abrangência dos fluxos e as escalas dos eventos.
Essa situação, que entre os agentes envolvidos é chamada
de “profissionalização do carnaval” alterou a estrutura organizacional
e produtiva do carnaval paulistano com a finalidade de desenvolvê-lo
e ampliar os negócios afins. Cria-se um mercado profissional que
altera as relações de trabalho e a identificação
com a escola de samba. Todavia, essas inovações na
forma de produzir os desfiles não se difundiram de forma homogênea
entre as agremiações carnavalescas, havendo uma sobreposição
de divisões do trabalho geradas em diferentes momentos e coexistindo
na atualidade. Sobreposição possível de ser observada
inclusive no interior de uma mesma escola de samba.
O acesso aos novos conteúdos
urbanos e a ampliação das formas de uso da cidade, associada
a uma tomada de consciência por parte de alguns dirigentes e membros
das escolas de samba, criaram possibilidades de ações sociais
voltadas ao atendimento das necessidades mais imediatas das comunidades,
através das entidades carnavalescas. Ações que, por
outro lado, contribuem para atração de investimentos que
são revertidos para a produção do desfile. Os recursos
utilizados nessas ações podem ser obtidos através
das mais diversas formas de parcerias e doações. Nesse contexto
as escolas maiores que dispõem de recursos humanos e materiais,
tais como quadra de ensaio e pessoas dispostas a trabalhar, remuneradas
ou não, possuem maiores possibilidades de ação cada
vez mais abrangentes. Todavia, em alguns casos, a própria existência
das escolas de samba como entidades promotoras de sociabilidade, lazer
e entretenimento, em lugares desprovidos de equipamentos básicos,
se caracteriza como uma ação sociocultural importante. As
diferentes situações das escolas analisadas nesta pesquisa
mostraram as diversas possibilidades de abrangência dessas ações.
Os novos conteúdos do carnaval
paulistano não se fazem presentes em todas as agremiações,
ao menos não com a mesma intensidade, sendo possível verificar
na atualidade, em especial nas chamadas “pequenas escolas”, diversas características
comuns aos períodos anteriores à oficialização,
tais como uma rede de relações e de solidariedades baseadas
em laços familiares e de vicinato, fortemente atrelada ao lugar
onde elas se localizam. Ao passo que outras entidades, em especial as chamadas
“grandes escolas”, embora ainda possam apresentar núcleos familiares
centrais ou fortes relações com o lugar onde se estabelecem,
estruturam-se de forma muito próxima a uma organização
empresarial e têm uma grande abrangência, atraindo pessoas
de diversos lugares e se estabelecendo fisicamente em diferentes pontos
da cidade, como, por exemplo, instalando barracões nas proximidades
do Sambódromo com a finalidade de facilitar o acesso ao local do
desfile e baratear os custos.
Nesse contexto, as ações
sociais desenvolvidas pela escola de samba se constituem como elementos
importantes e contribuem para a criação e manutenção
dos vínculos entre a população do entorno e a entidade.
Essa aproximação leva à compreensão de que
a escola de samba como entidade organizada pode ter múltiplas funções.
Essas ações revelam a criação de solidariedades
e a ampliação de horizontalidades, tanto no bairro como a
cidade, onde é possível observar uma rede de relações
horizontais formada pelo conjunto das agremiações que agem
nesse sentido, as quais se utilizam dos novos conteúdos, materiais
e imateriais, para promover essas ações que se caracterizam
como contrarracionalidades ou racionalidades paralelas (SANTOS, 1999).
Esse processo corrobora a ideia de que sua compreensão, bem como
de outras manifestações culturais, é de fundamental
importância para o entendimento da cidade.
Webgrafia
Festa
à Brasileira – sentidos do festejar no país que não
é sério.
Studium
6
Nota:
Artigo
elaborado a partir da Dissertação de Mestrado intitulada
“O Enredo do Carnaval nos Enredos da Cidade. Dinâmica Territorial
das Escolas de Samba em São Paulo” realizada no Departamento de
Geografia da FFLCH – USP, defendida em 2008.
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