PONTO URBE - Revista do Núcleo de Antropologia Urbana da USP- ISSN 1981-3341Ano 3 versão 4.0, julho de 2009 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 


 
 
 
 
Em 2003 a agremiação inaugurou sua quadra – a maior de São Paulo – localizada em um terreno público ao lado do Clube Municipal Cecília Meireles, concedido pela prefeitura por cinquenta anos, onde está também seu barracão. Anteriormente à sua construção, os ensaios ocorriam no estacionamento do Sacolão (Mercado Municipal) e na Rua Kaneda, onde havia uma pequena sede. Mesmo atualmente, são realizados ensaios nas ruas do bairro com o objetivo  de ensaiar numa situação mais próxima do que seria a passarela oficial e de manter a Escola próxima dos moradores e atuante em seu bairro (Foto 12).
 
 
 
 


Foto 12 - Ensaio Geral nas ruas do Bairro de Vila Maria. E.S. Unidos de Vila Maria. Carnaval de 2008, São Paulo – SP. Foto: Vanir Belo


 

A força dessa escola de samba reside na presença e atuação de sua comunidade que, embora não seja, exclusivamente, do bairro, está fortemente concentrada no distrito de Vila Maria e nos distritos vizinhos (Mapa 4). A existência da escola de samba no distrito de Vila Maria contribui para o desenvolvimento do lugar, uma vez que gera empregos diretos e indiretos e movimenta o comércio local, além de funcionar como um espaço de lazer e cultura para a comunidade, estimulando relações de sociabilidade, pois na quadra se realizam os ensaios da escola de samba, além de diversas atividades, como shows, festas, eventos, cursos de formação e capacitação para pessoas de diversas idades, entre outros.
 
 

Uma análise das fichas cadastrais dos associados revelou que, embora a imensa maioria dos associados à Escola de Samba Unidos de Vila Maria seja do próprio bairro, ela apresenta grande abrangência, extrapolando os limites do distrito de Vila Maria e, mesmo, do município de São Paulo. O que comprova a ideia de que o vínculo e a identidade se dão, grandemente, a partir da agremiação. Essa abrangência, também observada em outras escolas, leva à ampliação da rede de relações e, consequentemente, cria oportunidades de ação, fortalecendo a agremiação não apenas no que se refere ao carnaval, mas, principalmente, como entidade socialmente organizada.
 
 
 

  Mapa 4

 
 
 

No bairro de Vila Maria e região a escola de samba não é a única instituição capaz de fomentar e fortalecer tais relações, mas uma escola de samba da forma como se organiza e se estrutura na atualidade, apesar de seu caráter empresarial, tem um poder de atração muito forte por diversos aspectos. Em especial nos lugares onde são poucas as opções de lazer barato ou gratuito e onde há concentração de população com baixo poder aquisitivo ou desempregada; pois ao mesmo tempo em que oferece lazer, cultura e entretenimento, oferece, também, oportunidades de trabalho. 



A Escola de Samba Unidos de Vila Maria realiza importante trabalho sociocultural. São projetos desenvolvidos através de parcerias com as iniciativas pública e privada, cujo objetivo é “melhorar a qualidade de vida da comunidade local, afastando crianças e adolescentes do envolvimento com as drogas, marginalidade, proporcionando-lhes Cultura, Educação, Saúde e Lazer” (Departamento Social). São realizados, em sua quadra diversos cursos de formação e capacitação profissional voltados para diferentes faixas etárias, atendimento médico em diversas especialidades e várias atividades de lazer e entretenimento (Quadro 1).
 
 


Fonte: Departamento Cultural – G.R.C.S.E.S.Unidos de Vila Maria, 2007. Elaboração da Autora.




No primeiro momento a Escola procurou atender às crianças, realizando projetos como bateria mirim e escolinha de futebol entre outros, mas constatou-se que direcionar o foco apenas para as crianças não surtia o efeito esperado, pois muitas delas tinham problemas cuja resolução estava além do que a Escola de Samba poderia oferecer. Devido às dificuldades enfrentadas pelas famílias, diversas crianças necessitavam trabalhar em detrimento dos estudos, não tinham um atendimento médico e odontológico adequado e, devido a problemas sociais e de estrutura familiar, algumas delas sofriam com problemas psicológicos. Diante disso o Departamento Social da Escola viu a necessidade de desenvolver um trabalho em conjunto com os pais, ou responsáveis, e também de direcionar aos jovens e adultos cursos de formação em diversas áreas, capacitação profissional, empreendedorismo e geração de renda, e, em alguns casos, empregá-los nos diversos afazeres da quadra e do barracão.



Atualmente, a escola de samba cobra das crianças e dos adolescentes atendidos pelos projetos: frequência, boa nota e bom comportamento na escola de ensino básico. De acordo com Márcia Cardoso Dias, coordenadora de Projetos da Escola de Samba Unidos de Vila Maria (entrevistada em dezembro de 2007), os responsáveis pelas escolas de ensino oficial da região de Vila Maria têm ciência dos estudantes que são atendidos nos projetos da escola de samba, pois há uma comunicação entre essas instituições, e os professores reconhecem a melhoria do desempenho escolar desses estudantes. Quando algum aluno apresenta problemas de disciplina, é comum a escola de ensino oficial entrar em contato com a escola de samba, para juntos tentarem resolver o problema, muitas vezes antes mesmo de contatar os pais. Quando se detecta problemas desse tipo, dependendo da gravidade, meninos e meninas podem ser impedidos de participar de novos projetos.
 



Todas as crianças e adolescentes que participam dos projetos sociais da Unidos de Vila Maria são encaminhados para as especialidades médicas oferecidas na própria quadra – Clínica Geral, Odontologia, Psicologia e Fonoaudiologia – sem nenhum custo, pois o objetivo é conhecer e cuidar desses jovens de forma integral. Também é comum a formação de grupos de trabalho e discussão com os psicólogos que abordam questões como sexo e família. Eventualmente os pais são chamados a participar. Os pais de crianças atendidas nos projetos recebem constantes instruções do Departamento Social, em especial quando também participam dos cursos direcionados aos adultos. 
 



Além dos cursos, a Escola oferece diversos serviços em sua quadra, como atendimento médico e orientação jurídica. Todos os serviços são gratuitos e de atendimento universal, exceto Fisioterapia, para o qual se cobra uma pequena taxa por sessão para a manutenção dos equipamentos que foram adquiridos com recursos da própria entidade; e odontologia para o qual se exige a carteirinha de associado à escola. No entanto, qualquer pessoa pode se associar.Basta pagar a anuidade e preencher a ficha cadastral. A restrição do atendimento odontológico apenas aos associados fez-se necessária devido à grande procura por esse serviço e a incapacidade de atender à demanda, pois até o final de 2007 havia apenas um consultório no qual adultos e crianças eram atendidos. Em novembro daquele ano foi inaugurado o consultório pediátrico. Com exceção da fisioterapeuta, que é paga pela Escola, os profissionais trabalham em caráter voluntário, com base contratual, e recebem uma ajuda de custo. Ou, no caso dos projetos externos, os professores são pagos pelas instituições de origem.



O Projeto Cultura Viva, existente desde 2004, que engloba os cursos de teatro, capoeira, violão e cavaquinho, cursos de audiovisual, as sessões de cinema e o estúdio de gravação (em fase final de construção), é ligado ao projeto Teia Cultura Viva do Ministério da Cultura (Foto 13). A Unidos de Vila Maria é um dos seiscentos Pontos de Cultura existentes no país. Além dela há apenas uma Escola da Samba entre esses Pontos, a Estação Primeira de Mangueira, no Rio de Janeiro.




Foto 13 - Mostra Cultural promovida pelo Ponto de Cultura da E.S. Unidos de Vila Maria. Carnaval de 2007, São Paulo – SP. Foto: Vanir Belo.



Os cursos e atividades realizadas nesse projeto foram idealizados e desenvolvidos pela Escola e financiados pelo Ministério da Cultura. Mas esse financiamento não é permanente, embora possa ser renovado, possibilitando a manutenção, a ampliação ou a elaboração de um novo plano de trabalho. No entanto, caso isso não ocorra, a Escola se considera capaz de garantir a continuidade das atividades existentes, pois tudo o que foi adquirido é patrimônio da entidade e a ajuda de custo para os profissionais envolvidos parte da receita do Departamento Social.
 


 

A Unidos de Vila Maria desenvolve uma série de outros projetos em parceria com diversas instituições, como a Subprefeitura da Vila Maria e Vila Guilherme, escolas de educação básica, Secretaria Estadual da Cultura (Projeto Barracão), ONGs, Prefeitura (Clube Escola), SEBRAE (G5), entre outras.
 


 

A receita do Departamento Social, ou seja, todo o investimento feito nos projetos sociais por parte da escola, como o salário da fisioterapeuta, a aquisição dos equipamentos de fisioterapia e do consultório odontológico (pago em vinte e quatro vezes) entre outras coisas, é proveniente da venda realizada na lojinha da entidade que comercializa diversos produtos com sua marca, como roupas e acessórios, vendas que crescem a cada ano devido à popularidade da Escola de Samba que também cresce. Apenas o consultório odontológico pediátrico, inaugurado em novembro de 2007, foi montado com doações de empresários da região. Em 2008 a Unidos de Vila Maria iniciou um trabalho de reciclagem em sua quadra com a finalidade, além daquelas relacionadas às questões de educação ambiental, de obter receita para os projetos sociais a partir da venda dos materiais recicláveis. Essa e outras iniciativas ocorrem para dar sustentabilidade ao projeto social da Escola, pois não é seguro depender apenas de uma fonte de renda, como a loja, que não tem garantia de lucro constante.



Os diversos trabalhos culturais e sociais realizados pela Escola de Samba Unidos de Vila Maria e a sua abrangência, atraindo pessoas das mais diversas localidades, revelam a força e as possibilidades de ação de uma agremiação carnavalesca quando faz uso das técnicas e políticas disponíveis em benefício do seu carnaval e de sua comunidade.
 
 
 


 

Príncipe Negro da Cidade Tiradentes
 

A Escola de Samba Príncipe Negro da Cidade Tiradentes foi fundada pela primeira vez em 1964, no bairro de Vila Prudente, com o nome Príncipe Negro de Vila Prudente. Tratava-se de uma escola de base familiar e originada de um time de futebol. Devido a uma série de problemas enfrentados, encerrou suas atividades e as reiniciou em 1983, no mesmo bairro. A escola sofria dificuldades devido ao aumento do preço da terra e a consequente mudança de boa parte de seus integrantes para outros bairros da cidade. Vila Prudente tornou-se um bairro de classe média onde a escola não tinha espaço e não era aceita devido ao barulho que produzia.
 



Com a mudança da família que se caracterizava como o núcleo duro da agremiação para a Cohab Cidade Tiradentes, a escola começou a integrar novos componentes residentes neste bairro e, em pouco tempo, passou a ser praticamente toda formada por moradores da Cohab. No entanto, seu endereço permanecia na Vila Prudente. Após três anos nessa situação, os novos componentes passaram a cobrar a mudança do endereço da escola para a Cidade Tiradentes, o que ocorreu em 1993, quando a escola migrou definitivamente para o novo bairro, alterando seu nome para Príncipe Negro da Cidade Tiradentes. Atualmente, esse bairro conta também com a Escola de Samba Estrela Cadente, fundada em 2001 por antigos componentes do Príncipe Negro.
 


A Escola de Samba Príncipe Negro da Cidade Tiradentes possui apenas uma sede, o bar da família da presidente Rossimara Aparecida Vieira Isaias (Foto 14) – conhecida como Inhana,  filha do fundador da escola em 1964 – montado na garagem do prédio onde mora. Essa agremiação, a exemplo de diversas outras, não possui quadra para ensaios e tampouco barracão para construir seus carros alegóricos. Os ensaios, que chegam a contar com cerca de quinhentas a setecentas pessoas entre componentes e espectadores, ocorrem na pequena praça que é, também, um ponto de táxi em frente ao bar (Foto 15), na quadra poli esportiva localizada ao lado do prédio (Foto 16) e, nos últimos ensaios antes do carnaval, pelas ruas do bairro.
 
 


 
 
Foto 14
- Sede da E.S. Príncipe Negro da Cidade Tiradentes. 2008, São Paulo – SP. Foto: Vanir Belo.

 
 

 

Foto 16 - E.S. Príncipe Negro da Cidade Tiradentes. 2008, São Paulo – SP. Foto: Vanir Belo.

 

 


 

A Escola de Samba Príncipe Negro conta com presidente, vice-presidente, secretária e mais dezesseis diretores, mas trata-se de uma agremiação que depende fortemente da comunidade e dos moradores de seu bairro para se realizar. Por isso, procura desenvolver projetos sociais e culturais em parceria com a Prefeitura e outras entidades para atender a essas pessoas. O fato de não possuir uma quadra dificulta a realização de projetos. Diante disso, a escola encaminha seus componentes para participar de atividades desenvolvidas por outras entidades, mas também desenvolve algumas atividades utilizando os espaços físicos do clube, das escolas públicas, de associações comunitárias e de outras entidades presentes no bairro. 
 



Dentre as ações desenvolvidas, os componentes (entrevistados em maio de 2007) citam: o time de futebol com várias categorias; o projeto Recreio nas Férias, em parceria com a Prefeitura, que atende cerca de quatrocentas e cinquenta crianças; um curso de adereços iniciado em 2008, em parceria com o Governo Federal, e que atende trinta e cinco jovens; e diversos cursos relacionados a atividades artísticas e culturais. O objetivo desses projetos é proporcionar oportunidades para a comunidade e, também, melhorar a imagem perante os moradores do bairro. De acordo com Inhana, presidente da escola (entrevistada em maio de 2007) :
 

 
 

[...] essa é a contrapartida; ela [escola de samba] faz um trabalho social. A escola só se estrutura se ela faz um trabalho social. Com esses projetos, principalmente com os projetos que a gente fez com crianças, que a gente conseguiu mostrar, principalmente para a comunidade, que a nossa escola não é uma escola de maloqueiro, de bandido e coisa e tal. A gente começou a procurar esses projetos pra mudar essa cara, pra mostrar pra comunidade esse trabalho social e a cara da escola.


 
 

A escola organiza, também, atividades como festa junina, comemoração ao dia de São Cosme e São Damião com distribuição de doces para as crianças, festa do axé às sextas-feiras e confraternizações com oferecimento de canja de galinha após os ensaios; todas essas ações são realizadas com a contribuição e o trabalho voluntário de seus componentes, dentre os quais muitos líderes e membros de outras associações atuantes no bairro. Devido à sua popularidade, a escola de samba é também convidada para participar de diversos eventos que ocorrem no local e em bairros vizinhos (o que faz sem cobrar nada), tais como inauguração de supermercado, de sacolão, de posto de saúde, desfiles cívicos, festas realizadas nas escolas públicas, no Batalhão dos Bombeiros, casamentos comunitários etc, além de emprestar instrumentos, fantasias e outros objetos para realização de eventos como peças de teatro, festas e aniversários, muitos dos quais realizados na sede da escola, buscando a integração com diferentes setores do bairro. Segundo Inhana (em entrevista de maio de 2007) 
 
 
 
 

[...] a escola de samba, além de ter que fazer um trabalho social, agrega todo tipo de pessoa, sem preconceito, sem exceção. E consegue, o que não é fácil, agregar todo mundo. Acho que uma das poucas escolas de samba que tem corte gay é a Príncipe Negro. Nós suamos um pouquinho para fazer, mas a gente faz o concurso gay e a bateria tem que tocar (...). Como o concurso da corte das mulheres, tem o concurso gay. “Ah! Mas o pessoal fica zoando”. Aí eu falo: gente, carnaval sem purpurina não é carnaval e as “bibas” são a purpurina do carnaval.


 

Devido a essas ações, a escola ganhou a simpatia e a colaboração de diversas pessoas, mesmo aquelas que, por diferentes motivos, não gostam de - ou não acompanham - carnaval. O taxista do ponto da praça, que já se tornou amigo, fia corridas quando há necessidade; os evangélicos residentes no prédio onde se localiza a sede oferecem suas garagens para a escola guardar seus pertences e afirmam que a colocam em suas orações para que tudo corra bem e para que realizem um bom desfile; o dono da padaria, embora não contribua financeiramente, torce e acompanha o desempenho da escola. Nos dias de ensaio, os jovens que jogam basquete deixam metade da quadra livre para que os casais de mestre-sala e porta-bandeira também possam utilizá-la para ensaiar. De acordo com Cida, porta-bandeira da escola (entrevistada em maio de 2007):
 

 
 

[...] nós, os casais, ensaiamos naquela quadra. E eles adoram jogar basquete à noite; dois, três times. E nós vamos ensaiar. Eles querem jogar nessa banda da quadra [aponta] a outra banda fica vazia. A gente vai ensaiar e pergunta: posso ensaiar? E eles: claro, claro! Mas eles querem jogar perto da bateria, então a gente faz uma troca eles ficam perto da bateria e a gente do outro lado.


 
 
 

Durante os ensaios não é comum a ocorrência de problemas e tampouco o uso de drogas na redondeza, pois todos sabem que se trata de um “evento familiar” e ficam atentos para que nada ocorra; mas, de todo modo, os organizadores solicitam policiamento preventivo. Há distribuição de preservativos por parte de uma associação do bairro e, eventualmente, ocorrem palestras sobre saúde, anteriormente aos ensaios. Embora não haja reclamações de vizinhos em relação ao barulho, as atividades sempre terminam antes das duas horas da madrugada.
 
 
 

A escola também realiza romarias para a cidade de Tietê, por ocasião da Festa de São Benedito, onde encontra representantes de outras escolas, como Vai-Vai e Unidos do Peruche. Os componentes da Escola de Samba Príncipe Negro se orgulham de realizar atividades ao longo de todo o ano, de manter as tradições de uma escola de samba e de ser uma agremiação familiar e que aproxima famílias, uma vez que a convivência promove a criação de laços de compadrio e de parentesco. Como afirma Inhana (entrevistada em maio de 2007):
 
 
 
 

[...] daqui a alguns anos aqui vai virar uma grande família. Aqui funciona como antigamente. Como a gente aprendeu, funciona. O carnaval, o samba é por amor; você gosta da coisa. O negócio de profissionalizar o carnaval eu acho que perde. É um lazer; é um divertimento. Eu faço porque eu gosto. O pessoal não tem mais camisa, não veste mais uma camisa por uma entidade; se perde isso. "De que escola que você é?" Da que pagar mais. Não tem aquele amor. "De que escola você é?" Eu bato no peito: sou de coração Príncipe Negro.



 

A presidente, que a princípio não aprova o processo de profissionalização da forma como ele se dá, reconhece que a escola de samba não é economicamente importante para o bairro, mas afirma que, culturalmente, tem uma importância fundamental, pois formou diversos sambistas, enraizou o samba na Cidade Tiradentes e levou o nome do bairro para o carnaval paulistano.




Por se tratar de uma escola de samba do Grupo II, a Príncipe Negro não conta com verba oficial significativa para realizar seu carnaval e não obtém patrocínio junto aos comerciantes locais. Mas dispõe de uma comunidade unida e disposta a trabalhar voluntariamente. Para o carnaval de 2008, apenas o escultor foi remunerado; todos os demais trabalhos foram realizados em conjunto pela comunidade em suas próprias casas (Foto 17), pois a escola não possui um barracão; os carros alegóricos foram construídos em um terreno baldio (Foto 18). Alguns componentes como destaques de carro e de chão, mestre-sala e porta-bandeira, corte e diretores, além de contribuir para a confecção de suas fantasias, caso queiram deixá-las mais incrementadas e mais bonitas devem também arcar com os custos. Nas palavras de Inhana:
 

 
 

[...] nosso sonho é um espaço, e aqui tem tantos vazios... Mas a prefeitura ainda não... Nosso barracão é em um espaço público. Tem uns prédios abandonados ali e a gente deixa lá nossos esqueletos, e próximo ao carnaval a gente começa a confeccionar ali mesmo. Temos um galpão pequeno para guardar as alegorias [e] as fantasias saem de uns três ou quatro apartamentos. É bem caseiro mesmo; quem vê não diz. Confecciona nos apartamentos. Tem o meu, tem o da minha mãe e o da minha vizinha de baixo, que também costura. Cada casal de mestre-sala e porta-bandeira confecciona sua fantasia, guarda. Destaques a mesma coisa. Tem o Pai Jair, que tem uma casa de candomblé, então, próximo ao carnaval, ele cede, ele é chefe de ala desde quando a escola começou aqui, então a Ala dele ele guarda lá. A Ana Rita, que é diretora de uma associação cultural, faz a mesma coisa. Ela tem um espaço e guarda. E é assim que a gente vai. Garagem, quem tem garagem, conforme as fantasias vão ficando prontas guardam. Nossos instrumentos são guardados numa garagem também. Aqui é solidariedade sempre. O pessoal é bem solidário; ajuda bastante.


 
 
 
 
 
 
Foto 17 - Produção de fantasias na casa da presidente.  E.S. Príncipe Negro da Cidade Tiradentes. 2008, São Paulo – SP. Foto: Vanir Belo








Foto 18 - Construção de alegorias da E.S. Príncipe Negro da Cidade Tiradentes. 2008, São Paulo – SP. Foto: Vanir Belo.




Para baratear os custos, a escola recicla o material utilizado no ano anterior e adquire os novos materiais diretamente dos fabricantes; inclusive de cidades do interior. Para aumentar a receita, vende agasalhos e camisetas da escola e realiza rodas de samba com venda de feijoada cujos ingredientes são fornecidos pelos componentes da agremiação. 
 


 

Apesar dos diversos problemas enfrentados na produção do carnaval, os componentes afirmam que estão muito bem, se comparando ao que já passaram; como, por exemplo, o fato de terem usado como carro abre-alas, no início da década de 1990, um carrinho de cachorro quente e uma porta de apartamento enfeitados e com o nome da escola escrito. Hoje, pode ajudar escolas menores doando estruturas de carros antigos, prática muito comum no passado – a própria agremiação já recebeu esse tipo de ajuda – porém, pouco realizada na atualidade pelas grandes escolas que costumam vender o material que não será utilizado.
 


 

Por dois anos, 1997 e 1998, o desfile oficial ocorreu na Cidade Tiradentes, o que, para a agremiação, foi ótimo devido a uma grande economia com o transporte dos carros alegóricos. Pois, embora recebam da UESP uma ajuda de custo para essa finalidade, o valor no geral não é suficiente para cobrir toda a despesa. Por diversos anos desfilou em passarelas montadas na Zona Leste, o que também facilitava e possibilitava a ida dos moradores do bairro que torcem pela escola. Mas, nos dois últimos anos, 2007, 2008 e 2009, desfilou no autódromo de Interlagos (Foto 19) e enfrentou muita dificuldade devido à distância, inclusive uma leve diminuição no número de componentes. Isso revela que as longas distâncias existentes entre a sede da escola e o local de desfile são um fator de desestímulo. Os componentes criticam não apenas a distância, mas, também, a falta de estrutura para a realização dos desfiles no autódromo, por tratar-se de um lugar ermo e com uma pista inadequada.
 
 


Foto 19 - Desfile da E.S. Príncipe Negro da Cidade Tiradentes.Autódromo de Intelagos, 2008, São Paulo – SP. Fonte: Centro de Documentação e Memória do Samba.


 

As características da Escola de Samba Príncipe Negro da Cidade Tiradentes revelam a importância cultural e social de uma agremiação carnavalesca em um bairro periférico da cidade de São Paulo que conta com uma pequena oferta de equipamentos culturais e de lazer. Mesmo sem condições de desenvolver ações abrangentes, como fazem algumas grandes escolas, há uma preocupação, por parte dessa entidade, em encaminhar membros de sua comunidade, em especial jovens, para projetos desenvolvidos por outras entidades que trabalham em parceria; ou de utilizar o espaço físico de outras entidades – clubes, escolas públicas, associações etc. – com a finalidade de desenvolver as suas ações. 
 



Nesse caso, a própria existência da escola de samba, se traduz em uma ação social, pois trata-se de uma entidade que tem grande capacidade de agregar pessoas de diferentes idades, incluindo aquelas que não têm relação com o samba e com o universo do carnaval e possibilitar momentos de sociabilidade.
 
 
 
 
 

Paineira do Sapopemba
 

A Escola de Samba Paineiras do Sapopemba, fundada em 1984, localiza-se no Jardim Tietê, um bairro pobre do distrito de Sapopemba, na Zona Leste da cidade. Após um longo período com suas atividades suspensas, essa escola de samba voltou ao carnaval paulistano em função da iniciativa de um grupo de pessoas que via na agremiação a oportunidade de desenvolver atividades culturais e de lazer. Trata-se de uma agremiação, em 2008, pertencente ao Grupo de Acesso da UESP, o qual não conta com recursos financeiros do poder público; apenas com o transporte dos componentes e, eventualmente, algum apoio da entidade representativa. Essa situação dificulta a realização do desfile, pois as escolas desse grupo devem, de acordo com o regulamento, desfilar com quatrocentos componentes e um carro alegórico. 
 


 

Por ser uma escola de pequeno porte, ainda em processo de estruturação, a Paineira do Sapopemba tem certa dificuldade em reunir o número mínimo de componentes para o desfile, bem como de obter patrocínios ou estabelecer parcerias com comerciantes locais. Essa situação, comum entre as escolas menores, dificulta a produção das fantasias e alegorias, mas não impede a realização dos desfiles e tampouco a atuação da escola no bairro. De Paula, presidente da Escola de Samba Paineira do Sapopemba (entrevistado em janeiro de 2008), lamenta a falta de estrutura e de recursos para as agremiações de pequeno porte e busca, juntamente com outros componentes, formas de parceria para mantê-la atuante. Uma conquista recente foi a parceria realizada com a Escola Municipal Vinícius de Moraes, onde realiza seus ensaios e outras atividades, como reuniões e o desenvolvimento de cursos de formação cultural, em parceria com o Projeto Barracão, o qual atende jovens da região.
 


 

Os ensaios dessa agremiação, que se caracterizam como uma opção de lazer para diversas pessoas do bairro, realizam-se aos finais de semana na quadra poliesportiva da Escola Municipal Vinícius de Moraes, onde a agremiação carnavalesca divide o espaço físico com crianças e jovens que a utilizam para brincar, jogar bola e andar de bicicleta (Fotos 20 a 22). Nos dias de ensaio, uma parte da quadra é utilizada pela escola de samba e outra parte pelas crianças e jovens. Dessa forma a escola pode ensaiar em um local amplo e coberto, garantindo assim a periodicidade dos ensaios.



 
 


  Foto 20 - E.S. Paineira do Sapopemba. Ensaio. Sapopemba, São Paulo – SP, 2008. Foto: Vanir Belo.

 


 
  Foto 21 - E.S. Paineira do Sapopemba. Ensaio. Sapopemba, São Paulo – SP, 2008. Foto: Vanir Belo

 
 
 



Foto 22 - E.S. Paineira do Sapopemba. Ensaio. Sapopemba, São Paulo – SP, 2008. Foto: Vanir Belo




No carnaval paulistano, da forma como se realiza na atualidade, a Escola de Samba Paineira do Sapopemba é prejudicada devido a uma série de fatores, como a ausência de recursos, a distância do local de desfile e a dificuldade em cumprir as exigências do regulamento. No ensaio realizado em 12 de janeiro de 2008, faltando poucos dias para o carnaval, a escola ainda não contava com o número mínimo de componentes exigido pelo regulamento. Naquele ano o desfile oficial foi realizado na passarela montada no bairro do Butantã, e, por chegar atrasada, a Paineira do Sapopemba foi a última escola a se apresentar e não obteve pontuação (Fotos 23). Essa situação revela a imensa desigualdade existente entre as escolas de samba e a precariedade daquelas que procuram sobreviver e se enquadrar no atual e excludente modelo de organização do carnaval paulistano. Mas a ausência de recursos não impede a escola de realizar sua festa, e a produção de fantasias e alegorias se baseia fortemente no trabalho comunitário.

 
 
 
 


Foto 23 -E. S. Paineira do Sapopemba. Carnaval de 2008. Passarela no Bairro do Butantã, São Paulo – SP. Fonte: Centro de Documentação e Memória do Samba.

 
 

A grande importância dessa escola de samba talvez seja sua própria existência no bairro, onde move um grupo de pessoas com a finalidade de produzir o desfile carnavalesco e realizar a festa, além de promover ações como os cursos de percussão e dança realizados na escola de educação formal. A parceria com a Escola Municipal Vinícius de Moraes revela a inserção da agremiação carnavalesca na localidade.
 
 



Considerações Finais
 
 

Durante todo o processo de desenvolvimento, normatização e adaptação aos conteúdos urbanos, as escolas de samba se empenharam em potencializar a produção dos desfiles carnavalescos através da especialização da mão-de-obra, e do estreitamento e da ampliação das relações com diversos agentes dos diferentes circuitos da economia urbana que, por sua vez, se aproximam das escolas de samba com a finalidade de incrementar seus negócios, de diferentes portes.



Nesse contexto há uma multiplicação das divisões social e territorial do trabalho geradas na produção carnavalesca que, para se realizar, passa a integrar uma série de agentes, criando e ampliando circuitos de produção e cooperação que extrapolam gradativamente os limites do bairro, da cidade e do país, ampliando, assim, a abrangência dos fluxos e as escalas dos eventos. Essa situação, que entre os agentes envolvidos é chamada de “profissionalização do carnaval” alterou a estrutura organizacional e produtiva do carnaval paulistano com a finalidade de desenvolvê-lo e ampliar os negócios afins. Cria-se um mercado profissional que altera as relações de trabalho e a identificação com a escola de samba.  Todavia, essas inovações na forma de produzir os desfiles não se difundiram de forma homogênea entre as agremiações carnavalescas, havendo uma sobreposição de divisões do trabalho geradas em diferentes momentos e coexistindo na atualidade. Sobreposição possível de ser observada inclusive no interior de uma mesma escola de samba.
 



O acesso aos novos conteúdos urbanos e a ampliação das formas de uso da cidade, associada a uma tomada de consciência por parte de alguns dirigentes e membros das escolas de samba, criaram possibilidades de ações sociais voltadas ao atendimento das necessidades mais imediatas das comunidades, através das entidades carnavalescas. Ações que, por outro lado, contribuem para atração de investimentos que são revertidos para a produção do desfile. Os recursos utilizados nessas ações podem ser obtidos através das mais diversas formas de parcerias e doações. Nesse contexto as escolas maiores que dispõem de recursos humanos e materiais, tais como quadra de ensaio e pessoas dispostas a trabalhar, remuneradas ou não, possuem maiores possibilidades de ação cada vez mais abrangentes. Todavia, em alguns casos, a própria existência das escolas de samba como entidades promotoras de sociabilidade, lazer e entretenimento, em lugares desprovidos de equipamentos básicos, se caracteriza como uma ação sociocultural importante. As diferentes situações das escolas analisadas nesta pesquisa mostraram as diversas possibilidades de abrangência dessas ações.



Os novos conteúdos do carnaval paulistano não se fazem presentes em todas as agremiações, ao menos não com a mesma intensidade, sendo possível verificar na atualidade, em especial nas chamadas “pequenas escolas”, diversas características comuns aos períodos anteriores à oficialização, tais como uma rede de relações e de solidariedades baseadas em laços familiares e de vicinato, fortemente atrelada ao lugar onde elas se localizam. Ao passo que outras entidades, em especial as chamadas “grandes escolas”, embora ainda possam apresentar núcleos familiares centrais ou fortes relações com o lugar onde se estabelecem, estruturam-se de forma muito próxima a uma organização empresarial e têm uma grande abrangência, atraindo pessoas de diversos lugares e se estabelecendo fisicamente em diferentes pontos da cidade, como, por exemplo, instalando barracões nas proximidades do Sambódromo com a finalidade de facilitar o acesso ao local do desfile e baratear os custos.
 



Nesse contexto, as ações sociais desenvolvidas pela escola de samba se constituem como elementos importantes e contribuem para a criação e manutenção dos vínculos entre a população do entorno e a entidade. Essa aproximação leva à compreensão de que a escola de samba como entidade organizada pode ter múltiplas funções. Essas ações revelam a criação de solidariedades e a ampliação de horizontalidades, tanto no bairro como a cidade, onde é possível observar uma rede de relações horizontais formada pelo conjunto das agremiações que agem nesse sentido, as quais se utilizam dos novos conteúdos, materiais e imateriais, para promover essas ações que se caracterizam como contrarracionalidades ou racionalidades paralelas (SANTOS, 1999). Esse processo corrobora a ideia de que sua compreensão, bem como de outras manifestações culturais, é de fundamental importância para o entendimento da cidade.FIM
 




Webgrafia

Festa à Brasileira – sentidos do festejar no país que não é sério.

Studium 6
 
 
 

Nota:

Artigo elaborado a partir da Dissertação de Mestrado intitulada “O Enredo do Carnaval nos Enredos da Cidade. Dinâmica Territorial das Escolas de Samba em São Paulo” realizada no Departamento de Geografia da FFLCH – USP, defendida em 2008.
 
 
 

Bibliografia

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BELO, Vanir de Lima. O enredo do carnaval nos enredos da cidade. Dinâmica territorial das escolas de samba em São Paulo. 2008. 228f Dissertação (Mestrado em Geografia Humana) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.
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COMO CITAR
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