É muito provável que
o leitor se interrogue acerca do interesse em se traduzir um capítulo
de livro de um antropólogo evolucionista do século
XIX, que sequer é o mais citado, e, além disso, sobre um tema
pouco estudado nas ciências sociais: a comunicação
gestual dos surdos. Não foram poucas, contudo, as razões
que motivaram a tradução de “A linguagem gestual”, capítulo
do livro Researches into the Early History of Mankind and the Development
of Civilization, de Edward
Burnett Tylor, antropólogo britânico considerado um dos
fundadores da Antropologia.
O fato de Tylor ser um autor pouco
traduzido para o português faz, certamente, com que esta tradução
venha preencher uma lacuna existente no ensino de antropologia nas disciplinas
de Graduação. Além disso, se considerarmos o fato
de Tylor ser tido, geralmente, como um antropólogo "de gabinete"
(isto é, que teoriza sobre dados obtidos pelo trabalho de campo
de terceiros e não pela observação direta), o texto
escolhido revela um aspecto pouco conhecido de seu trabalho, mostrando-nos
que ele, efetivamente, realizou pesquisas próprias para escrever
sobre o que denominou a linguagem gestual dos surdos-mudos. Uma última
razão para a tradução deste texto diz respeito ao
fato de ele expressar outro pioneirismo de Tylor: o de ter feito da linguagem
gestual um objeto de reflexão científica.
Quem nos chamou atenção
para este trabalho de Tylor foi o neurologista Oliver
Sacks, em seu trabalho Vendo Vozes ([1989] 1998, p. 87), no
qual menciona o conhecimento empírico que o antropólogo britânico
possuía da comunicação gestual dos surdos. Segundo
Sacks, Tylor nela teria sido fluente e conhecia a fundo algumas de suas
propriedades gramaticais, antes que ela passasse por uma crescente desvalorização
oficial, que se acentuou após o fatídico Congresso
de Milão, em 1880, quando as línguas de sinais da época
foram formalmente banidas das escolas especiais relativas à surdez.
Antes de entrarmos em considerações
mais específicas sobre o texto traduzido, cabe-nos apresentar algumas
observações sobre o autor e sobre as principais correntes
teóricas que conformaram seu pensamento. De acordo com Marett
(1936) e Castro (2005), Tylor nasceu em 2 de outubro
de 1832, em Camberwell, Londres, em uma próspera família
Quaker, proprietária
de uma metalúrgica. Em 1855, devido a uma tuberculose, abandonou
os negócios da família. Em busca de clima mais ameno, viajou
para os Estados Unidos e para a América Central. Em 1856, em Havana,
conheceu Henry Christy e passou com ele quatro meses no México.
Influenciado por esse amigo etnólogo, arqueólogo e que também
era Quaker, passou a estudar antropologia e história. Dessa
experiência americana surgiu seu primeiro livro, publicado em 1861:
Anahuac: or Mexico and Mexicans, Ancient and Modern. Este
foi o primeiro de uma série que contribuiu para a constituição
da antropologia como disciplina científica. Embora Tylor não
tenha se graduado, teve papel decisivo na consolidação da
antropologia na universidade. Ministrou disciplinas de leituras em antropologia
entre 1884 e 1895 na Universidade de Oxford e, em 1896, assumiu a primeira
cátedra de antropologia nessa mesma Universidade. Faleceu em 2 de
janeiro de 1917.
Distintas correntes do pensamento
europeu do século XIX confluíram para formar um pensador
original como Tylor. Destaco, sobretudo, quatro influências que parecem
ser decisivas para a compreensão do contexto intelectual de produção
do texto traduzido: o evolucionismo darwinista, o iluminismo francês,
a filologia comparada e o romantismo alemão. De maneira similar
a praticamente todos os pensadores da segunda metade do século XIX,
a teoria de Tylor é explicitamente conformada por um ponto de vista
evolutivo. Suas duas mais importantes obras, Researches into the Early
History of Mankind and the Development of Civilization (1865) e Primitive
Culture (1871), foram produzidas entre a publicação dos
livros mais influentes de Charles Darwin (1809-1882): a Origem
das espécies (1859) e a Descendência do Homem (1871).
De modo que o contexto intelectual de produção daquelas obras,
a década de 1860, exigiu de Tylor um posicionamento frente às
questões da evolução e do desenvolvimento da humanidade
(Stocking, 1963). Tylor assumiu a posição monogenista – crença
em uma origem única da humanidade - em oposição aos
plurigenismo; além disso, foi crítico dos degradacionistas
(ou degeneracionistas), que se inspiravam em uma concepção
bíblica na qual o homem foi criado perfeito, sendo a história
da humanidade sua degradação. Para Tylor, ao contrário,
a história da humanidade é seu desenvolvimento e progresso
(Tylor era um progressista (desenvolvimentista) convicto). A crença
no progresso e na universalidade do homem e, como corolário disso,
a unidade psíquica da humanidade – já anunciavam a herança
da filosofia iluminista em seu pensamento, sendo possível, para
Tylor, reduzir todas as diferenças contidas na história e
na geografia a uma única escala evolutiva É importante salientar
que, além de Tylor ser visto consensualmente como o fundador da
antropologia britânica, é a ele também atribuída
a primeira definição formal de cultura (cf., entre outros,
Castro, 2005, p.17; Kuper, 2002, p.83; Cuche, 2002, p.35) em seu livro
Primitive Culture:
“Cultura ou civilização,
tomada em seu mais amplo sentido etnográfico, é aquele todo
complexo que inclui conhecimento, arte, moral, lei, costume e quaisquer
outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem na condição
de membro da sociedade” ([1871] 2005, p. 69).
Longe de querer retomar a história
dos significados que a categoria cultura assumiu ao longo dos últimos
séculos (ver, sobre isso, os exemplares trabalhos de Williams,
1958; Elias, 1994; Kuper, 2002
e Cuche, 2002) nesta apresentação, é
necessário explicitar que a concepção de cultura de
Tylor não é a mesma de Franz
Boas, ainda que, em certa medida, a anuncie. Boas tinha uma concepção
particularista, não hierárquica e utilizava esse termo no
plural. De outro modo, a concepção de Tylor é universalista,
hierarquizada em estágios, utilizada no singular, sendo sinônimo
de civilização. Toda a humanidade, inclusive os primitivos,
é vista como dotada de Cultura, sendo a diferença explicada
mais por uma questão de grau do que de essência, e mais de
desenvolvimento do que de origem. De modo que - apesar dessa concepção
universalista de cultura, herança do iluminismo francês -,
em Tylor ressoa o relativismo do romantismo germânico de Herder (1744-1803)
e Gustav Klemm (1802-1867), que influenciaram tanto Tylor quanto Boas na
constituição do moderno conceito de cultura e na universalização
do estatuto de homem, incluindo os primitivos, que também passaram
a ser vistos como detentores de cultura.
Se as ciências sociais e a
antropologia são herdeiras do conceito iluminista de homem, foi
no processo de constituição dessas disciplinas que o homem
universal foi enquadrado em culturas e sociedades específicas, superando
uma visão estritamente abstrata e filosófica. Foi Tylor quem
alargou, de maneira definitiva, o conceito de cultura, a qual deixou de
se referir unicamente ao universo das idéias e das realizações
artísticas e passou a incluir crenças, costumes, artefatos,
moral, etc. A concepção de cultura que vingaria na antropologia
do século XX encontraria seus germes na reflexão desse autor.
Diante dessa significativa ampliação
da aplicação da categoria cultura, tanto em sua dimensão
geográfica e histórica como abrangendo diversas áreas
etnológicas – mito, língua, artefato, religião, ritual,
costume – , Tylor, em suas obras, manipula enorme quantidade de dados para
demonstrar as leis do pensamento e da ação humana. É
nesse alargamento significativo das fontes empíricas que de modo
pioneiro ele toma a forma de comunicação dos homens surdos-mudos
como objeto de reflexão.
Tylor em seu gabinete. Fonte: Wikimedia
Foundation
Outra influência capital que
ecoa em sua obra é a do orientalista e filólogo alemão
Max Müller (1823-1900), tanto no que se refere ao seu método
– a comparação – quanto ao seu objeto – a concepção
universal de cultura, que se desenvolve na história da humanidade.
Esse pensador, estudante de sânscrito, fundador dos estudos indianos
e dos estudos comparados da religião e da filologia, tem uma contribuição
decisiva para a formulação da teoria que postula as relações
genéticas entre o sânscrito e algumas línguas européias
(línguas indo-européias). A comparação foi
o método por excelência de Müller para fundar um estudo
que relacionasse o desenvolvimento histórico da língua, da
cultura e da religião.
Tylor escreveu o capítulo
A linguagem gestual com duas intenções relacionadas:
a) avançar na demonstração da unicidade do pensamento
humano e b) explicitar que o homem pode enunciar seu pensamento e realizar
comunicação sem o recurso à língua articulada.
Segundo o autor, isso pode ser demonstrado pela linguagem gestual e, também,
pela escrita pictórica e pela escrita por palavras. Por um lado,
esse texto guarda imensa vitalidade, um frescor de novidade, pois Tylor
realiza uma descrição primorosa do que até muito recentemente
era desconhecido pela linguística. Por outro lado, contudo,
é evidente que, escrito há mais de 140 anos, por um pensador
evolucionista, apresente os limites dados por suas condições
históricas.
Tylor realizou pesquisas em instituições
educacionais de surdos-mudos na Alemanha e na Inglaterra e realizou uma
descrição bastante perspicaz sobre essa linguagem. Compilou
uma lista de quinhentos sinais que considerava serem os mais importantes,
embora seus informantes afirmassem que essa linguagem possuía mais
de cinco mil sinais. A descrição detalhada que Tylor empreende
do papel do toque, do apontamento, do olhar direcionado, da imitação
das características mais notáveis dos objetos (contorno e
movimento) a que se quer simbolizar, da sintaxe, do caso genitivo, do uso
de epítetos que representam característica notáveis
de pessoas e lugares a que se quer nomear, da expressão facial e
corporal etc, não parecerá estranha para aqueles que são
usuários de alguma língua de sinais. De modo que o texto
traduzido constitui, também, uma boa introdução das
características fundamentais dessa forma de comunicação.
Além disso, Tylor é bastante sagaz em perceber que a linguagem
utilizada por professores adultos nas escolas pesquisadas não podia
ser considerada propriamente a linguagem de sinais, haja vista que os professores
tendiam a fazer acréscimos a ela de modo a torná-la rigorosamente
equivalente à fala e à escrita. De acordo com Tylor, esses
acréscimos sequer resistiam à curta viagem da sala de aula
ao parquinho, já que as crianças surdas-mudas não
utilizavam essas adaptações.
É necessário considerar,
entretanto, que sua explicação fica num plano muito icônico
da linguagem, já que a imitação parece ser a matriz
constitutiva dessa forma de comunicação. Em sua análise
a linguagem de sinais se aproxima muito mais da pantomima do que de uma
língua natural (no sentido empregado pelos teóricos da linguística).
Além disso, sua explicação nem de longe anuncia propriedades
estruturais da língua, algo que ainda precisaria de quase um século
para vir à luz com Stokoe (1960) e sua análise
fonológica da American Sign Language. È curioso notar, também,
que embora Tylor tenha realizado sua pesquisa em instituições
de dois países diferentes, em momento algum ele aponta para a nacionalidade
desse objeto que estava conhecendo. Ao contrário, a linguagem de
sinais descrita pelo autor tem caráter universal, como ele mesmo
afirma:“a propriedade comum de toda a humanidade” ([1865] 1870, p. 17-18),
ainda que dotada de características locais.
O sóbrio empirismo inglês
que conforma seu estilo, aliado ao rigor científico indubitável,
fazem com que Tylor seja bastante contido quanto às suas conclusões.
Ele jamais vai mais longe do que seus dados empíricos o autorizam.
Como exemplo, embora afirme que muito provavelmente os gestos devam ter
desempenhado um papel mais importante do que hoje desempenham na comunicação
humana, isso não é suficiente para deduzir que as línguas
orais tenham evoluído das línguas de sinais. De modo que
o objetivo fundamental do texto é demonstrar que mesmo o surdo-mudo
é capaz de pensar de maneira racional sem recorrer à fala.Se
as conclusões de Tylor, o reconhecimento do estatuto do pensamento
do homem surdo-mudo e - como corolário- a humanização
de sua forma de comunicação, a linguagem gestual, podem parecer
ao leitor contemporâneo supérfluas, é necessário
argumentar que são realmente inovadoras. É consensual na
bibliografia sobre surdez e língua de sinais que a história
da surdez no século XX foi caracterizada pela proibição
das línguas de sinais por questões políticas, filosóficas
e científicas (Skliar, 1998; Capovilla,
2001). Não se acreditava no estatuto de língua para as línguas
de sinais e duvidava-se de sua capacidade de produzir tanta abstração
quanto as línguas orais. É bem verdade que hoje as línguas
de sinais possuem legitimidade científica, normatividade jurídica
e crescente visibilidade pública, o que tem colocado a surdez e
os surdos em quadros explicativos e normativos muito diferentes dos do
século passado.
Talvez o leitor versado nos estudos
surdos e na linguística das línguas de sinais esteja estranhando
o uso de algumas categorias consideradas não recomendadas para referência
às línguas de sinais e aos surdos. Nos justificamos lembrando
o caráter histórico dessa apresentação e do
texto traduzido. Utilizamos o termo linguagem gestual e linguagem de sinais,
ao invés de língua gestual e língua de sinais, para
gesture language, pois assim o autor parece caracterizar o seu objeto,
como uma linguagem, ainda que em determinadas passagens isso seja dúbio.
Mantivemos também o termo surdo-mudo para deaf-mute e deaf and dumb,
pois essas eram as categorias correntes no século XIX e em praticamente
todo o século XX, mesmo que hoje se prefira a categoria surdo. Esses
detalhes explicitam os determinantes históricos que não diminuem
o interesse que o texto suscita, já que a maior riqueza que caracteriza
esse texto é sua pertinência aos estudos históricos
da surdez e das línguas de sinais.
Por fim, cabe fazer uma consideração
sobre a experiência particular desta tradução. Ela
foi realizada no âmbito de um grupo de pesquisa sobre surdez, no
Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo
(NAU-USP), coordenado pelo professor Dr. José Guilherme Cantor Magnani.
Ela consistiu em uma experiência coletiva que reuniu pesquisadores,
graduandos e pós-graduandos, não somente das ciências
sociais, mas, também, da linguística, da filosofia e da biologia.
Nosso especial agradecimento à Jacqueline Moraes Teixeira (bacharel
em ciências sociais) que foi a idealizadora da tradução,
assim como aos demais membros que compuseram a equipe: Ligia Maria Venturini
Romão (graduanda em ciências sociais), Bernard César
Guerrieri (bacharel em ciências sociais); José Agnello Alves
Dias de Andrade (graduando em ciências sociais); Tarcisio de Arantes
Leite (doutor em estudos linguísticos e literários em inglês);
Marcos Baliero (doutorando em filosofia) e Eliseu Frank de Araújo
(mestrando em imunologia). Agradecemos, também, a André Xavier
(mestre em linguística), pela revisão técnica realizada.
Publicações de Edward
Burnett Tylor
TYLOR, Edward
Burnett. [1861]. Anahuac: or Mexico and the Mexicans, Ancient and
Modern. London: Longman, Green, Longman, and Roberts. 1861.
TYLOR, Edward
Burnett. [1865]. Researches into the Early History of Mankind and
the Development of Civilization. Second edition. London: John Murray,
Albemarle Street. 1870.
TYLOR, Edward
Burnett. [1871]. Primitive Culture: Researches into the Development
of Mythology, Philosophy, Religion, Language, Art and Custom. New
York: J.P. Putnam’s Sons. 1920.
TYLOR, Edward
Burnett. [1881]. Anthropology: an introduction to the study of man
and civilization / with introduction by A. C. Haddon. London: Watts,
1946.
TYLOR, Edward
Burnett.1889]. On a Method of Investigating the Development of Institutions;
applied to Laws of Marriage and Descent. Journal of Royal Anthropological
Institute. 18: 245-269. 1889.
Referências bibliográficas
CAPOVILLA,
Fernando César. A evolução nas abordagens à
educação da criança Surda: do Oralismo à Comunicação
Total, e desta ao Bilingüismo. In: CAPOVILLA, Fernando César;
RAPHAEL, Walkiria Duarte. Dicionário enciclopédico
ilustrado trilíngue da língua de sinais brasileira.
2 ed. São Paulo: EDUSP, 2001. p. 1479-1490.
CASTRO, Celso.
Evolucionismo cultural: textos de Morgan, Tylor e Frazer.
Textos selecionados, apresentação e revisão, Celso
Castro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005. 128p.
CUCHE, Denys.
A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru:
Edusc, 2002.
ELIAS, Norbert.
O processo civilizador: uma história dos costumes.
Rio de Janeiro, Zahar, 1994.
KUPER, Adam.
Cultura: a visão dos antropólogos. Bauru:
EDUSC, 2002.
MARKET, Robert
R. Tyler. London: Chapman and Hall, 1936. 220p.
SACKS, Oliver.
Vendo Vozes: Uma viagem ao mundo dos surdos. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998.
SKLIAR, Carlos.
(org) A surdez: um olhar sobre a diferença. Porto
Alegre: Mediação, 1998.
STOCKING
JR. George W. Matthew Arnold, E. B. Tylor and the Uses of Invention. American
Anthropologist, 65:783-799, 1963.
STOKOE, W.
Sign Language structure. Reedição. Silver Spring,
Maryland, Linstok Press, 1960.
TYLOR, Edward
Burnett. [1865]. Researches into the Early History of Mankind and
the Development of Civilization. Second edition. London: John Murray,
Albemarle Street. 1870.
TYLOR, Edward
Burnett. A ciência da cultura. In: CASTRO, Cellos. Evolucionismo
cultural: textos de Morgan, Tylor e Frazer. Textos selecionados,
apresentação e revisão, Celso Castro. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed, 2005. pp. 67-99.
WILLIAMS,
Raymond. Culture and Society (1780-1950). New York: Columbia
University Press. 1958.
|