A motivação para a
redação deste artigo
começou
surgiu em outubro de 1997, quando pela primeira vez estive em Ilhéus,
município do Estado da Bahia, para a pesquisa de campo de minha
dissertação de mestrado. Esta, tinha os blocos afro ilheenses
como objeto empírico. Como todo pesquisador deve fazer antes de
entrar em seu campo, recolhi algumas informações sobre a
cidade; entre elas, o número de habitantes e sua distribuição
por “cor/raça”. De acordo com o Censo Demográfico promovido
pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística, em 1991 Ilhéus tinha cerca
de 220 mil habitantes e a soma das pessoas que se declaravam de “cor ou
raça” “parda” ou “preta” (categorias do IBGE)
chegava a 85% da população, o que tornava a cidade, sem nenhuma
dúvida, majoritariamente negra. No entanto, como observei:
se algum [hipotético]
turista desavisado fosse do aeroporto diretamente para um dos hotéis
de luxo situados na Estrada Ilhéus-Olivença; se passasse
uma parte do dia assistindo à emissora de TV local [com seus comerciais];
se, mais tarde, esse turista fosse ao Teatro Municipal de Ilhéus
ver um show ou um espetáculo de uma academia de balé da cidade
e, por fim, resolvesse terminar a noite num dos restaurantes da Av. Soares
Lopes (que acompanha toda a extensão da Praia da Avenida), dificilmente
ele perceberia esse fato. (Silva, 1998, p. 51
O fato a que me referi acima é,
claro, a percepção quanto à cor da cidade. Os primeiros
dias em Ilhéus já me revelaram sua segregação
racial:
Eu não estava em
Ilhéus como uma turista desavisada, mas fui ao teatro logo em meu
primeiro dia na cidade. Era um show da cantora Zezé Motta. Como
ainda não conhecia ninguém e por tratar-se de uma artista
negra, achei que talvez fosse uma boa oportunidade para, ao menos de longe,
vislumbrar pessoas que pudessem pertencer a um dos grupos afro. Foi uma
decepção: além da atriz/cantora, havia duas ou três
pessoas que eu poderia considerar negras na platéia (p. 52).
Durante esse primeiro período
de campo, de cerca de três meses, hospedei-me numa pousada bastante
simples, no centro de Ilhéus. Quando dizia, tanto na pousada quanto
em outros ambientes (como restaurantes ou lojas de artesanato) nos primeiros
contatos que fiz, que estava na cidade para estudar os blocos afro e que
procuraria primeiro por um deles no bairro da Conquista, era, invariavelmente,
advertida sobre a violência do bairro. Mas na maioria das vezes –
já que nem todas as pessoas tinham conhecimento dos blocos afro
– tinha também a confirmação de que lá eu encontraria
o que procurava. Essas primeiras impressões
foram ratificadas nas demais viagens que fiz para a pesquisa da tese de
doutorado (Silva, 2004):um mês em 1999; oito
meses em 2000 e seis meses em 2001 e fizeram parte do meu cotidiano ao
longo dos quatro anos em que morei em Ilhéus, de 2004 até
meados de 2008, enquanto fui professora visitante da Universidade Estadual
de Santa Cruz.
Durante quase todo o período
de campo para o doutorado e, posteriormente, trabalhando em Ilhéus,
residi num mesmo bairro, o Pontal, antiga vila de pescadores, cuja
ocupação mais intensiva se dera na década de 1970,
após a construção da ponte que o liga à cidade.
Ele é a porta de entrada da Estrada Ilhéus-Olivença,
cujas margens eram até bem recentemente ocupadas apenas por casas
de veraneio, por ser paralela ao mar, e o bairro se tornou local de moradia
de uma classe média majoritariamente branca. Como professora da
universidade, percebi que este também é um dos bairros preferidos
pelos docentes da UFSC para sua moradia. Quase todos os meus amigos do
trabalho moravam ali ou em seu entorno, que agora também começa
a crescer. Meus amigos não são o meu turista hipotético,
mas também não vêem Ilhéus como uma cidade negra.
Eles moram num bairro habitado por um número elevado de pessoas
brancas; frequentam bares e restaurantes nesse bairro ou em outros semelhantes;
não fazem uso, cotidianamente, dos serviços do centro da
cidade, pois o bairro dispõe de caixas eletrônicos, de um
bom comércio local em termos alimentícios – as melhores padarias
da cidade, por exemplo – e outros produtos são comprados no shopping
de Itabuna, município vizinho, já que Ilhéus não
possui um, ou quando se viaja para grandes cidades; em geral, o transporte
para o trabalho é feito em carro próprio ou no ônibus
da universidade. Enfim, meus amigos não costumam circular pelos
bairros da periferia. Além disso, se ministrarem aulas apenas em
cursos considerados “de prestígio”, como Medicina, Direito e Ciências
da Computação, quase não terão alunos que se
autodeclarem negros (Fiamengue, 2007, p. 64),
pois estes estão concentrados nas licenciaturas (p. 37), principalmente
naquelas da área de Humanidades. E, embora vários deles nunca
tenham ido ao bairro da Conquista – no máximo passam por lá
no trajeto noturno de retorno do ônibus da universidade –, eles concebem
o lugar como perigoso e sabem a cor de quem eu chamo de “meus amigos da
Conquista”.
O bairro do Alto da Conquista é
um dos maiores de Ilhéus. O termo “alto” o identifica como uma elevação,
com ladeiras íngremes que lhe dão acesso em diferentes pontos
da cidade. Embora não haja dados oficiais, pode-se estimar que abrigue
10% da população atual do município
,
que permanece em torno de 220 mil habitantes
.
Por sua proximidade do porto de Ilhéus,
algumas sub-regiões do Alto da Conquista eram locais de moradia
das famílias de estivadores que atuavam na economia cacaueira –principal
atividade de Ilhéus desde meados do século XIX até
hoje, apesar das constantes crises –, enquanto outras constituíam,
até a década de 1960, áreas rurais, ainda que incrustadas
no meio urbano. A última grande crise da lavoura cacaueira teve
início no final dos anos de 1980 e provocou enorme êxodo rural
em toda a região, especialmente nos municípios predominantemente
rurais, fazendo o número de habitantes de Ilhéus aumentar
em cerca de 60% ao longo
de uma década, passando de 131.454 em 1980 para 223.750 em 1991.
Esse aumento populacional refletiu, principalmente, nos bairros mais pobres
da cidade, sendo a Conquista um deles. Sub-regiões até então
pouco habitadas, especialmente as encostas do morro, transformaram-se em
favelas, elevando também o índice de pauperização
da população e os principais problemas que vêm com
ela, como a falta de saneamento e o desemprego.
Bem diferente do bairro do Pontal,
o bairro da Conquista é, majoritariamente, negro. Os estivadores
eram/são negros em sua maioria, assim como os trabalhadores do cacau
que se dirigiram para lá após deixarem o campo, sendo as
duas ocupações historicamente predominantes entre as famílias
mais pobres de Ilhéus. Outro indicativo da ‘negritude’ do bairro
é o Clube 19 de Março, originalmente um clube de dominó
fundado nos anos de 1960, ao que parece, um tipo de organização
comum no interior da Bahia. Propriedade de família negra, com a
maior parte de seus sócios negros, o Clube 19 de Março é,
ainda hoje, um espaço de lazer voltado para a população
negra e, também por isso, escolhido para abrigar o Memorial da Cultura
Negra nos dois anos de seu funcionamento (2002-2004)
.
Na época da pesquisa havia quatro blocos afro na Conquista, um bloco
de maculelê e, pelo menos, oito terreiros de candomblé. No
Pontal também há terreiros de candomblé: são
dois, mas ambos localizados numa sub-região considerada mais pobre
do bairro – Nova Brasília – que permanece com características
de vila de pescadores e só bem mais recentemente começou
a ser ocupada por construções de classe média.
A segregação racial
nunca foi exatamente uma preocupação em minha pesquisa, mas
esteve presente em toda a minha relação com a cidade. Isso
não ocorreu porque em Ilhéus a segregação seja
maior que em outras cidades brasileiras, mas porque a etnografia realizada
junto aos blocos afro tornou-a patente tanto em função da
concepção de suas atividades como ações contra
a segregação – ainda que nem sempre concebida como racial
–, quanto pelas experiências cotidianas de seus membros, fazendo
com que também minhas experiências pudessem ser enxergadas
por esse viés.
O que proponho neste trabalho é
mostrar, a partir dessa pesquisa junto aos blocos afro de Ilhéus,
como a constituição de formas de organização
baseadas em cultura negra tem relação direta com a segregação
espacial imposta a um enorme contingente da população afrobrasileira.
Não se trata de defender uma relação de causa e efeito,
o que levaria a estabelecer uma lei do tipo: segregação produz
grupos afroculturais. Se assim fosse, certamente teríamos um número
muito maior desses grupos no país. Contudo, não é
possível ignorar que a produção de práticas
denominadas “de cultura negra” no interior da sociedade ocidental se dá
em conexão com os (o que não é a mesma coisa que dizer
como consequência dos)efeitos do sistema capitalista, que produz
um tipo de segregação que pode ser racialmente caracterizado
e do tipo de subjetividade por ele produzida: a capitalística (Guattari
e Rolnik, 1996, p. 42), sobre a população negra. Contra
esse tipo de subjetividade, os blocos afros, assim como outros grupos negros,
produzem uma “subjetividade dissidente” (Guattari,
1986); nesse caso, uma subjetividade negra. Porém – é importante
ressaltar mais uma vez –, esta não é naturalmente produzida
em espaços de concentração de população
negra. Tornarei esses conceitos mais claros adiante.
Trata-se, pois, de articular analiticamente,
tendo por base uma pesquisa etnográfica, duas dimensões do
espaço relacionadas ao bloco afro (e a tantos outros grupos negros)
que não costumam ser pensadas em conjunto: a do lugar onde se vive
e a do lugar que se produz o onde se vive. Definindo a primeira, temos
os altos índices de violência e a falta de saneamento, de
emprego, de transporte, de lazer e tantas outras mazelas sociais; para
a segunda dimensão, temos a produção de “territórios
negros” no sentido dado por Raquel Rolnik (1989):
os blocos afros, os terreiros de candomblé e outros espaços
que produzem um jeito negro de viver.
A partir do foco sobre o Grupo Cultural
Dilazenze, um dos blocos afros situados no bairro da Conquista, desejo
mostrar que no mesmo espaço onde se considera “natural” a presença
de um bloco afro e de um antigo terreiro de candomblé, em função
da grande maioria de moradores negros, tem-se, também, vários
problemas sociais. Enquanto o bloco afro e o terreiro são pensados
como “coisas de negros”, não se costuma pensar esses problemas como
“coisas para negros”, isto é, problemas que atingem muito mais a
população negra.
Segundo a tese defendida pelos pesquisadores
do Projeto Unesco, na década de 1950, de que, no Brasil, a desigualdade
econômica é a fundamental e não a racial, não
há entre essas proposições uma relação
causal; elas admitem apenas uma relação conectiva, ou seja,
há uma maioria populacional negra e há problemas socioeconômicos,
causados por uma dada ordem histórico-econômica: a escravidão
e sua abolição considerada relativamente recente. Conforme
Guimarães (2004, p. 24):
[...] a geração
dos anos 1950 e os seus discípulos nos anos 1960 estudaram e discutiram
o preconceito de cor e o preconceito racial [...]. A expectativa geral
era de que o preconceito existente seria superado paulatinamente pelos
avanços e pelas transformações da sociedade de classes
e pelo processo de modernização.
O fato de que “[em] 2006, entre os
10% mais pobres da população, 63,4% eram negros; de que esta
proporção cai para 24,3% no grupo dos 10% mais ricos” e que
“no grupo do 1% mais rico da população, somente 14,1% eram
de indivíduos negros.” (Ipea; Unifem; SPM, 2008), por exemplo, seria
uma contingência histórica provocada por um fenômeno
econômico. Assim, bastaria esperar que o tempo e a economia mudassem
a situação que provocaram.
Ramos e Cunha Jr.
(2007, p. 188), referindo-se aos estudos de urbanismo no Brasil, chamam
a atenção para o fato de que bairros de maioria de população
afrodescendente são chamados de “populares”, ou de “bairros de classes
populares”, ficando a questão racial predominantemente ausente dos
enfoques. Hasenbalg afirma que “a ausência,
no Brasil, de guetos raciais nitidamente delineados tem levado, com frequência
à ideia de que existe nos espaços urbanos uma segregação
residencial das classes sociais, mas não dos grupos raciais” (1996,
p. 240). Poder-se-ia generalizar a observação de Ramos e
Cunha Jr. para outros campos de conhecimento, exceto por alguns trabalhos,
especialmente nas áreas de economia e de sociologia, que afirmam
a existência de desigualdades raciais no Brasil e apresentam dados
sobre segregação
.
No entanto, dizer que há quatro blocos afros no bairro da Conquista
porque a população negra é predominante neste lugar
não parece nenhum absurdo, pelo menos de acordo com uma espécie
de senso comum, também compartilhado por alguns estudiosos do tema,
que estabelecem uma relação, só aparentemente óbvia
porque concebida como ‘natural’ (às vezes, biologicamente falando),
entre cultura afrobrasileira e população afrodescendente.
A existência de quatro blocos afros e oito terreiros de candomblé
na Conquista seria fruto de uma dada ordem cultural.
Em ambas as visões, cultura
e economia são concebidas como esferas autônomas da vida social.
O máximo de relação que se admite estabelecer entre
elas é a transformação da cultura em produto que pode
gerar emprego e renda, proporcionando, assim, “inclusão social”,
“autossustentabilidade financeira” etc. Dessa forma, admite-se a situação
de pobreza da população dos bairros periféricos, mas
não a de segregação racial, embora seja pela via da
cultura negra aí produzida que se espere que essa pobreza seja superada.
Tais concepções negam
a conexão sempre existente entre a situação socioeconômica,
a cor, o lugar de moradia e as histórias pessoais. Em função
das políticas de ação afirmativa de cunho racial,
adotadas e debatidas no país atualmente, declarações
que desvinculam cor e desigualdade por parte daqueles que são contrários
a essas políticas têm sido frequentes. Com elas, a negação
da existência de racismo no Brasil, ou até sua admissão,
mas como atitude individual, sentimento ou prática que parte deste
e atinge somente um ou outro (e não como problema sofrido por, pelo
menos, metade da população brasileira) porque é exercido
por um sistema político-econômico.
Antes de continuar, é importante
esclarecer que sou eu quem está denominando de racismo a segregação
que ocorre em Ilhéus. Nem sempre as pessoas que moram em tais lugares
percebem a segregação como sendo racial. Também concebendo
o racismo como algo que ocorre apenas entre indivíduos, elas podem
senti-lo quando se apresentam nos shows dos blocos afros em hotéis
de luxo e são maltratadas; quando entram em uma loja e são
observadas com desconfiança e mal atendidas; quando vão a
um restaurante nas zonas mais ricas da cidade acompanhadas pela antropóloga
branca e, no final, ao contrário do que costuma acontecer quando
há homens à mesa, a conta é dada a ela, e não
aos homens presentes, se estes forem negros. Elas podem perceber a situação
de seu bairro como ‘exclusão social’, termo que, muitas vezes, encobre
a questão racial. Mas trata-se de racismo institucional:
A discriminação
racial também pode ser resultante de mecanismos discriminatórios
que operam, até certo ponto, à revelia dos indivíduos.
A essa modalidade de racismo convencionou-se chamar de racismo institucional
ou, ainda, de racismo estrutural ou sistêmico. A grande inovação
que este conceito traz refere-se à separação das manifestações
individuais e conscientes que marcam o racismo e a discriminação
racial – tal qual conhecido e combatido por lei – e o racismo institucional,
que atua no nível das instituições sociais. Esse último
não se expressa por atos manifestos, explícitos ou declarados
de discriminação, mas atua de forma difusa no funcionamento
cotidiano de instituições e organizações, que
operam de forma diferenciada na distribuição de serviços,
benefícios e oportunidades aos diferentes grupos raciais. Diz respeito
às formas como as instituições funcionam, seguindo
as forças sociais reconhecidas como legítimas pela sociedade
e, assim, contribuindo para a naturalização e reprodução
da hierarquia racial (Ipea,
2008, p. 7).
Sintetizando, esta análise
relaciona as práticas e concepções dos blocos afro
de Ilhéus/BA – a ordem cultural – com a segregação
racial por eles vivida – a ordem econômica. Ou, dito de outra forma,
mostra de que modo a produção de um território negro
como lugar de produção de subjetividade negra se dá
buscando mudar as condições sociais que impõem um
território negro como lugar de segregação racial.
O território tem cor e
é negro
Ilhéus, assim como tantos
municípios brasileiros, sofre de graves
problemas sociais. Apenas a título
de exemplo, seu Índice de Desenvolvimento Humano Municipal – IDH-M
em 2006 era de 0,703, classificado como baixo e lhe dá o 22º
lugar entre os municípios baianos
.
Problemas como falta de saneamento básico, pauperização
geral da população, degradação ambiental em
função das ocupações e desemprego tornaram-se
ainda mais graves para Ilhéus, com as consequências da última
crise da lavoura cacaueira, iniciada no final da década de 80, que
vem provocando um efeito devastador sobre a região. Seria ingenuidade
supor que a vassoura-de-bruxa (praga que atinge os cacaueiros) é
a única responsável pelo processo de pauperização
desses municípios, como se as conjunturas econômicas nacional
e internacional não tivessem nele participação. Entretanto,
é inegável que a velocidade e a força desse processo
se devem à estrutura econômica baseada na monocultura do cacau
existente desde o século XIX.
Embora não haja dados desagregados
em relação à cor, é legítimo supor que
os problemas sociais que assolam Ilhéus atingem em cheio a população
negra; seja porque os índices nacionais mostrem esta mesma relação
,
seja porque a simples observação a olho nu dos bairros situados
na periferia da cidade permita perceber que eles são ocupados quase
que totalmente por essa população e que o desemprego, o analfabetismo,
a falta de saneamento etc., estão concentrados neles. O bairro da
Conquista é um bom exemplo disso.
A reflexão sobre a noção
de gueto pode ajudar a entender os processos que incidem sobre locais como
a Conquista. Certamente não se trata de um gueto no sentido que
em geral é atribuído aos locais de segregação
racial nos Estados Unidos. No entanto, no presente estudo o conceito de
gueto pode ajudar a pensar a situação do bairro de maneira
diferente, retirando dela o viés exclusivamente econômico
para dar-lhe também uma conotação racial: se há
aí quatro blocos afros porque a população que habita
o bairro é majoritariamente negra, a situação econômica
experimentada por essa população também deve ser vista
pelo mesmo prisma.
Wacquant
(1995) define o gueto negro americano como um “universo racial e culturalmente
homogêneo, caracterizado pela baixa densidade organizacional e pela
pequena penetração do Estado” (p. 67). O bairro da Conquista
se aproxima dessa definição, mas estaria mais próximo,
segundo a descrição de Wacquant, de outro espaço que
ele compara com o gueto americano: os bairros proletários de imigrantes
em Paris, as cités.
O mundo das cités
é dominado pelo sentimento de exclusão que [...] se manifesta
em referência aos temas da reputação e do desprezo.
As diversas cités são hierarquizadas numa escala da
má fama que afeta todos os seus aspectos (...) e cada um de seus
moradores. As cités sofrem de um verdadeiro estigma. (Dubet e Lapeyronnie,
1992, p. 114 apud Wacquant, 1995, p.
68).
Wacquant ressalta que, dessa perspectiva,
as cités parisienses não seriam guetos. Não são
uma “formação socioespacial que é racial e culturalmente
homogênea, baseada na relegação forçada a um
território específico, de uma população destacada
em termos negativos” (p. 80). É a estigmatização o
que afeta todos esses lugares. Ainda segundo Wacquant, “o estigma é
a característica mais saliente da experiência vivida por aqueles
que se encontram encurralados nestas áreas” (p. 68).
No caso da Conquista, talvez o sentimento
de ser estigmatizado devido ao local de moradia não seja a “característica
mais saliente”, em função da produção desse
espaço como território negro no sentido exposto anteriormente,
da relação estabelecida com ele a partir da memória
e da vivência cotidiana. Especificamente para o Grupo Cultural Dilazenze,
o bloco afro de maior visibilidade de Ilhéus, formado, basicamente,
por uma extensa família que ocupa a sub-região da Conquista
conhecida como Carilos, no mínimo, desde o início da década
de 40, essa relação ainda é fortalecida pela presença
do terreiro de candomblé de Matamba Tombenci Neto. Embora a relação
de ancestralidade remonte a origem do terreiro a 1885, ele funcionava em
outro ou outros locais
e foi estabelecido onde funciona hoje nessa mesma época a partir
da aquisição de uma chácara pelos pais da atual mãe-de-santo
que, por sua vez, é mãe carnal dos fundadores do Dilazenze.
A construção de moradias para os filhos e, posteriormente,
para os netos, além de dificuldades financeiras que exigiram o loteamento
da chácara e a ocupação por outras famílias,
fizeram com que o terreno onde se localiza o terreiro fosse bastante reduzido;
porém, suas histórias, suas referências, assim como
as histórias das pessoas, “atravessam as paredes das casas”, as
novas ruas abertas e se projetam nos antigos cenários: “ali onde
é a rua [tal], ficava a bica onde as muzenzas (iaôs) tomavam
banho de madrugada” e, a partir daí, várias histórias
engraçadas, explicativas dos rituais religiosos do terreiro, de
saudades dos que já faleceram; “as obrigações eram
feitas ali, aos pés da jaqueira, onde hoje está a quadra
do Dilazenze...”; “quando ‘vô’ ia brigar com a gente, a gente corria
para o jaqueiral, que ficava ali, perto do campo...”.
É claro que a criação
de relações afetivas com o lugar em que se vive não
é 1exclusividade dos moradores da Conquista. Mesmo em situações
de habitação bem menos agradáveis, é comum
que tais relações ocorram, como demonstra Brandão
(2004) em sua pesquisa em bairros periféricos dos municípios
de São Gonçalo e Itaboraí, ambos no Estado do Rio
de Janeiro, denominando essa relação de “identidade local”
(p. 138). Mas também é certo que “gostar do lugar onde se
vive” não significa ausência do sentimento de estigmatização
em relação a ele, que, no caso da Conquista, pode não
ser constante, mas está presente em vários momentos. E, em
alguns deles, a questão racial salta aos olhos. Rolnik
(1989) mostra como, no Brasil, a estigmatização sempre acompanhou
os “territórios negros”, fossem eles a senzala, o cortiço
ou favela, para usar seus exemplos:
A história da comunidade
negra é marcada pela estigmatização de seus territórios
na cidade: se, no mundo escravocrata, devir negro era sinônimo de
subumanidade e barbárie, na República do trabalho livre,
negro virou marca de marginalidade. O estigma foi formulado a partir de
um discurso etnocêntrico e de uma prática repressiva: do olhar
vigilante do senhor na senzala ao pânico do sanitarista em visita
ao cortiço; do registro esquadrinhador do planejador urbano à
violência das viaturas policiais nas vilas e favelas (p. 39).
Desde minha primeira visita a Ilhéus,
ainda em 1997, fui alertada pelos funcionários e dono da pousada
em que fiquei hospedada sobre os riscos de ir à Conquista por ser
um bairro “violento”. Em 2000 e 2001, alguns eventos envolvendo adolescentes
da região onde está situado o Dilazenze aumentaram a conexão
entre violência e Conquista: assaltos e disparos de arma de fogo
seguidos de morte ,em algumas poucas situações, passaram
a fazer parte da rotina das pessoas por algum tempo. Eles não eram
diários, mas eram entendidos dessa forma pelas pessoas que, ao menos
idealmente, diziam mudar seus hábitos em função do
perigo: evitavam ficar até mais tarde nas calçadas conversando,
deixar as crianças brincando na rua à noite ou passar por
locais ditos mais perigosos... Assim, tanto na Conquista quanto no gueto
americano estudado por Wacquant (1994), a violência
é cometida por moradores contra moradores. A descrição
deste autor para as condições de promoção da
violência no gueto bem poderia ser apropriada para a Conquista: “a
disponibilidade combinada de armas, prolongada exclusão do trabalho
assalariado e difusão do tráfico de drogas modificou as regras
do confronto masculino nas ruas, de forma que fornecem combustível
à escalada dos crimes de morte” (p. 107).
Antes desses eventos, a sub-região
do Dilazenze não era listada entre as mais violentas do bairro
e, quando algum furto ou assalto ocorria lá, era dito ser provocado
por rapazes de outras sub-regiões consideradas mais pobres. Mas
em 2000 e, ainda mais fortemente em 2001, a Avenida Brasil, endereço
do grupo, passou a ser um local a ser evitado por entregadores de bebida,
de pizza e de gás, além de taxistas e outros. Durante certo
período, dois adolescentes cobravam “pedágio” dos entregadores
e quando estes se recusavam a dar, eram assaltados. Eu mesma passei a ter
um horário para ir embora, pois, além da escassez do transporte
coletivo
,
taxistas se recusavam a ir até o local. Somente os “conhecidos”
aceitavam fazer esse percurso e, obviamente, valorizavam ainda mais seu
trabalho por isso, o que só reforça o estigma.
Tal como ocorre no gueto, também
há “subclassificações” do bairro na Conquista:
[os moradores do lugar]
lançam mão de taxonomias próprias para organizar o
cotidiano, diferenciando diversas subunidades no interior do conjunto como
um todo que, com efeito, possui um significado apenas administrativo e
simbólico – ainda que com consequências palpáveis.
(Wacquant, 1995, pp. 68-9).
Nesse mesmo movimento de diferenciação
interna, as pessoas “exageram seu valor moral como indivíduos (ou
como membros da família)” (p. 75) e acabam por assumir o discurso
de fora que reforça o estigma do local. No caso do Dilazenze, eram
comuns os comentários de reprovação, especialmente
de rapazes, a respeito da abordagem da polícia nas ruas da Conquista,
até mesmo “em frente de nossas próprias casas”, diziam. Mas,
ao mesmo tempo em que havia um sentimento de “injustiça” e de “discriminação”
– nunca explicitamente racial – em relação à ação
da polícia, essa era, às vezes, justificada pelas atitudes
de outros moradores – no caso dos adolescentes e daqueles que os acobertavam:
“É por causa desse tipo de pessoa que a gente passa por isso”. Mas
tal investimento na diferenciação interna pode ter como corolário
o desprezo e a acusação de “querer ser o que não é”.
Wacquant diz que no caso do gueto negro americano,
quem tenta “avançar na estrutura de classes” e sair do gueto é
acusado de “querer tornar-se branco” (1995, p. 77). Na Conquista, dizer
que uma pessoa é um “um negro metido a besta” tem o mesmo significado
e diz respeito a alguém que quer distanciar-se de “sua origem”.
Referindo-se a um conhecido que se destaca na política local, uma
das pessoas do grupo disse que “ele sempre se vestiu diferente, (...) sempre
trabalhou com a elite, sempre se comportou como tal, embora sua família
sempre tenha sido pobre, moradora da Conquista...”. E isso o faz ser considerado
alguém não exatamente de dentro, não confiável.
No Dilazenze, essa diferenciação
interna é necessária também em função
do fato de que o grupo, assim como o terreiro ao qual está diretamente
vinculado, tem uma relação para fora do bairro e sua sobrevivência
enquanto grupo depende dela; por exemplo para contratações
de apresentações em hotéis e em eventos turísticos
da cidade. Assim, o presidente do Dilazenze na época da pesquisa
buscava valorizar moralmente o grupo ressaltando, sempre que podia, que
este não tinha nenhuma relação com elementos considerados
parte do estigma atribuído aos jovens da Conquista: “drogas”, “indisciplina”,
“marginalidade”. Dois dos adolescentes responsáveis por aquele momento
de violência dos anos de 2000 e 2001 eram filhos da mestre de bateria
mirim do Dilazenze e um deles já havia sido assistente do
mestre de bateria principal. Tendo se afastado do grupo por conta própria,
numa tentativa de retorno, ele foi “desaconselhado” a isso pelos dirigentes.
Investir na diferenciação
em relação ao espaço não basta, entretanto,
pois o estigma imputado à sub-região do Dilazenze atinge
diretamente as atividades do grupo e do terreiro, provocando o esvaziamento
dos eventos promovidos por eles. No período de violência mais
intensa, era notória a pequena quantidade de pessoas assistindo
às festas do terreiro. Quanto ao grupo, seu presidente pensava que
era melhor não promover nada, “pois ninguém compareceria”.
O bar existente na quadra da sede do Dilazenze, que poderia render
recursos para o grupo, assim como para quem o administrasse, permanecia
fechado. É claro que havia outros motivos para isso, mas, naquele
momento, o motivo mais fortemente alegado era o perigo que o funcionamento
do bar poderia representar para os moradores por ser um local de aglutinação
de pessoas e a expectativa de pouco movimento. Esta também é
uma característica comum ao gueto, como diz Wacquant:
“acima de certo limiar, a onda de crimes violentos torna impossível
a operacionalização de uma atividade comercial no gueto e
assim contribui para o esvanecimento da economia baseada no trabalho assalariado”
(1998, p. 216). Mas este, sem dúvida, não é um problema
que atinge apenas o Dilazenze. É possível afirmar que todos
os blocos afros da cidade sofrem com a violência local e com o estigma
atribuído a seus bairros. O Rastafiry (pronuncia-se Rastafari),
outro bloco afro da Conquista, sofre muito com a estigmatização
de sua sub-região, a mais central do bairro e mais visada como ponto
de venda de drogas. Acrescente-se a isso seu nome e sua característica
de bloco afro ligado ao reggae e que tem Bob Marley como um de seus símbolos.
E o mesmo ocorreu com o Olodum, um dos mais famosos blocos afros do país,
internacionalmente conhecido, antes da revitalização urbana
do Pelourinho, em Salvador.
Outras características do
gueto, apresentadas por Wacquant (1995, p.
115), são observáveis na Conquista: como a predominância
da economia informal e a dependência da rede de parentesco e de benefícios
sociais, como a previdência, ou filantrópicos, como a cessão
de cestas básicas por parte do governo municipal e de “ajuda” de
igrejas e/ou outras organizações. Na Conquista, uma vez por
semana, à noite, a igreja católica do bairro distribuía
um sopão. A distribuição acontecia na Avenida Brasil,
próximo à sede do Dilazenze. Os adultos da família
costumavam dizer que não eram eles nem seus vizinhos mais próximos
que faziam uso dessa ajuda; mas conheciam “muita gente que precisa mesmo
e que mora[va] aqui perto”. As pessoas podiam não “precisar” da
sopa, mas a distribuição consistia num programa para as crianças
da família, pois nos dias marcados, esperavam com ansiedade o momento
de pegar a sopa e tomavam-na com um apetite que, diziam seus pais, não
costumavam ter para “a comida de casa”.
Outra observação de
Wacquant diz respeito à impossibilidade
de as pessoas de saírem do gueto devido à falta de investimento
do Estado em moradias populares fora dele (1995, pp. 122-3). Em Ilhéus,
pode-se dizer o mesmo em função das poucas políticas
de habitação voltadas para a população de renda
mais baixa, o que faz com que as pessoas tenham de construir suas casas
nos terrenos da própria família (em geral, constroem-se casas
de dois ou mais pavimentos ou ocupa-se todo o terreno disponível
– como é o caso da família do Terreiro Tombenci Neto:
dos quatorze filhos carnais da mãe-de-santo, oito deles têm,
no momento, casas construídas no terreno, que não é
grande e, por isso, algumas constituem sobrados).
Relegando os conjuntos habitacionais
ao abandono tanto em relação ao seu estado físico
quanto à presença e à eficiência das instituições
públicas, o Estado perpetua as condições que promovem
a segregação, como a violência, a informalização
da economia, a falta de acesso à saúde e à educação,
o desemprego. É o que Wacquant chama
de “efeito multiplicador” da segregação, que reforça
tudo o que a provoca (1995, p. 120). Ao mostrar que o gueto é o
produto de determinadas ações políticas que envolvem
raça, classe e espaço urbano (p. 102), ressalta que o “isolamento
[racial] (...) não é uma expressão de afinidade e
escolhas étnicas” (p. 120). Não se trata, de forma alguma,
de desracializar o gueto, mas pensá-lo como se fosse uma opção
retira de cena o processo histórico que o constituiu, naturalizando-o:
encobre-se assim o fato
de os negros serem o único grupo que passou pela experiência
da “guetização” na sociedade norte-americana, isto é,
uma separação residencial total, permanente e involuntária,
fundada na casta como base para o desenvolvimento de uma estrutura social
paralela (e inferior). (Wacquant, 1996, p.
147 – grifos do autor).
A concentração de população
negra no bairro da Conquista também não é resultado
de uma opção das pessoas, mas fruto de um processo histórico,
racista desde sua origem. E se a situação em que o bairro
se encontra pode ser aproximada – a partir dos mesmos problemas e sentimentos
– dos guetos norteamericanos, isso acontece em função de
um racismo que permanece ativo. Contudo, é nesse espaço que
podem ser concebidas propostas de mudança, a partir de sua afirmação
como “território negro”.
Para a cidade, território
marginal é território perigoso, porque é daí,
desse espaço definido por quem lá mora como desorganizado,
promíscuo e imoral, que pode nascer uma força disruptora
sem limite. Assim se institui uma espécie de apartheid velado que,
se, por um lado, confina a comunidade à posição estigmatizada
de marginal, por outro, nem reconhece a existência de seu território,
espaço-quilombo singular. (Rolnik, 1989, p.
39).
A adoção do ponto de
vista de que um local de população predominantemente negra
constitui um “território negro”, entendido segundo Rolnik
(1989), enquanto autorrepresentação e identificação
de história e práticas culturais comuns, pode se transformar
num instrumento de luta e mobilização política. Para
que isso aconteça é, claro, necessário, que
o local apresente o estigma racial mediando sua relação com
um fora que é acionado em determinados momentos.
O bloco afro como território
negro
Os blocos afros são grupos
carnavalescos surgidos em meados da década de 1970 em Salvador,
capital do estado da Bahia, que têm na cultura negra a fonte dos
elementos utilizados em sua caracterização: sua música,
seus temas, sua vestimenta etc. Podem, por isso, ser definidos como
entidades que têm por objetivo a “preservação da cultura
negra”, como seus membros costumam dizer, sendo sua principal atividade
desfilar no carnaval utilizando elementos oriundos do que se denomina “cultura
afrobrasileira”.
Agier (1992)
desenvolve a ideia de que ocorreu em Salvador o surgimento de um “movimento
social e identitário” (p. 56) novo a partir de mudanças políticas,
econômicas e culturais no fim dos anos de 1970. A fim de dar compreensão
ao que chama de “atual movimento de identidade afrobaiana”, este autor
defende que os blocos afros e afoxés são “espaços
sociais negros”, ou seja, instituições e espaços também
fisicamente marcados, e percebidos como locais de refúgio pela população
negra. Nele, é “bom assumir a negritude” [...]é possível
sentir-se respeitado (p. 64). A imagem do gueto apresenta-se também
aqui; mas de maneira positivada do ponto de vista da luta contra o racismo.
Para Agier, a constituição desses “espaços urbanos
próprios, reapropriados ou liderados por negros” (p. 109) são
uma forma de olhar e de se situar diante da “sociedade global” e expressam
uma “identidade política” que atua através de uma “perspectiva
de gueto” frente ao racismo de integração/dominação
da elite baiana
.
Como diz Agier:
Essa perspectiva pode ser
verificada nas tendências mais recentes do movimento negro político
no Brasil. Nelas se desenvolvem, em vez de um discurso favorável
à assimilação (era o lema da Frente Negra nos anos
trinta) ou simplesmente contra a discriminação (tema do MNU
– dos anos setenta), diversas tentativas para destacar, na sociedade, um
espaço próprio para os negros: busca de territórios
próprios, apoio a experiências educacionais autônomas,
além da inclusão, nas fronteiras do ‘movimento negro’, dos
grupos culturais e religiosos afro-brasileiros. O diálogo com a
sociedade global se torna aparentemente menos importante do que o inventário
de práticas e instituições rotuladas como ‘negras’.
(p. 113).
As formulações de Wacquant
para o gueto norteamericano assim como para as cités parisienses
ajudaram a pensar as condições de vida da população
residente na Conquista em relação com o fato da maioria dessa
população ser negra, sem que fosse preciso pensar esse bairro
como gueto. Da mesma forma, tomando emprestada a Agier a ideia de atuação
dos blocos afros a partir de uma “perspectiva de gueto”, é possível
pensar desse ponto de vista o desejo dos grupos afroculturais de Ilhéus
de produção de uma identificação entre o bloco,
seu espaço/comunidade/bairro e a questão racial. Em algumas
situações – pois esta não é uma ideia fixa,
presente durante todo o tempo – os grupos assumem que fazem parte e que
estão situados em zonas segregadas da cidade, onde existe uma dimensão
racial fortemente colocada, e investem esforços no sentido de suscitar
na população aí residente outra forma de olhar para
esses lugares e/ou de se posicionar perante a cidade.
Além de várias outras
dimensões, as atividades realizadas pelos blocos afros em suas sedes
– ou na rua da sede ou, nos casos dos blocos que não possuem sede,
na casa do presidente e/ou fundador (que em geral é a referência
do bloco e seu endereço oficial) – são justificadas pela
necessidade de dar opções de lazer à população.
Um argumento bastante utilizado pelos dirigentes dos grupos é o
de que as pessoas “não se sentem à vontade” para frequentar
espaços de lazer no Centro da cidade, por exemplo. Em 2001, durante
a gravação de um programa sobre preconceito pela TV local,
três dirigentes de blocos afros foram entrevistados. Em suas respostas,
todos identificaram a segregação espacial, embora não
tenham usado tais termos, como o maior problema da população
negra em Ilhéus. É claro que não há nenhuma
proibição real que impeça as pessoas de frequentarem
este ou aquele lugar, mas há “o receio de que você não
seja bem visto nesses lugares. Você não vai para evitar um
problema maior, um constrangimento”, segundo um dos dirigentes. Ou, ainda,
como disse um dos dirigentes recentemente, “há lugares em que você
só vai para trabalhar”, referindo-se a estabelecimentos que contratam
os espetáculos dos grupos afros, especialmente na alta temporada
do turismo. Em determinados locais de lazer no Centro da cidade e em bairros
considerados de moradores de renda mais alta, como é o caso do Pontal,
é notória a ausência, ou a baixa frequência,
de pessoas negras. É certo que o fator falta de recursos financeiros
é preponderante, mas não justifica tudo: pode-se gastar tanto
dinheiro num bar “perto de casa” quanto se gastaria num bar no Centro,
mas o primeiro é sempre preferível ao segundo, pois aí
as pessoas “se sentem à vontade”.
Assim, apresentações
de dança, teatro, palestras e, especialmente, shows de blocos afro
devem ser realizados na Conquista para que as comunidades dos grupos compareçam,
costumam dizer os dirigentes dos blocos. Por outro lado, esta percepção
de segregação leva ao argumento oposto: de que os shows devem
ser feitos no Centro para que as pessoas das comunidades – “os negros”,
como dirigentes e representantes do governo costumam dizer quando estão
falando da população negra – entendam que a cidade também
lhes “pertence” e para que “elas possam se sentir melhor em sua própria
cidade”. Essas visões não variam de grupo para grupo, nem
mesmo de dirigentes para dirigentes dentro de um mesmo grupo, mas de evento
para evento, às vezes tratando-se da mesma pessoa.
As reuniões para planejamento
das atividades da Semana da Consciência Negra são momentos
especialmente interessantes para refletir acerca de identificação
étnica e espaço. Em 1997, a organização da
Semana Nacional da Consciência Negra esteve a cargo, principalmente,
do Conselho de Entidades Afro-Culturais (CEAC), do qual os blocos afros
fazem parte, embora tenham contado com participações pontuais
da Pastoral Afro, vinculada à Igreja Católica, e com o “apoio”
do governo municipal, mediado pelo gerente de Ação Cultural,
da Fundação Cultural de Ilhéus (FUNDACI), e pelo subsecretário
de Esportes, ambos, nesta época, representantes de grupos afros.
Numa das reuniões de preparação para as comemorações
do dia 20 de Novembro, dia dedicado a Zumbi dos Palmares e dia também
do evento mais importante da Semana, um longo tempo foi destinado à
discussão de onde deveria ser realizado o show dos blocos afros
e a exposição de fotos da história do movimento em
Ilhéus: se fosse no Centro, na Praça da Catedral de São
Sebastião, as comunidades não iriam, mas as atividades teriam
maior visibilidade, o que seria bom para o fortalecimento do “movimento
afrocultural”; se fosse na Conquista, “por ser o bairro com maior número
de blocos afros” e, consequentemente com o maior número de pessoas
vinculadas aos blocos, seria possível aglutinar muito mais gente
para assistir ao espetáculo, porém, a repercussão
na cidade seria pequena. Tanto num caso quanto no outro os argumentos versavam
sobre a melhor maneira de se elevar o sentimento de “autoestima” da população
negra de Ilhéus: se o show fosse no Centro, o evento poderia ter
repercussão na TV e nos jornais, pessoas de todos os bairros poderiam
comparecer, a “cidade toda ficaria sabendo”... a população
negra de Ilhéus se sentiria prestigiada; se o show fosse na Conquista,
o bairro teria visibilidade na cidade, haveria um número muito maior
de espectadores, seria um evento de lazer para uma população
que quase não o tem... a população negra de Ilhéus
se sentiria prestigiada – de qualquer forma, este deveria ser o objetivo
mais amplo a ser alcançado: Semana da Consciência Negra é
o momento de prestigiar a quem é desprestigiado o resto do ano.
A conclusão foi de que o evento deveria ocorrer na Praça
da Catedral, no Centro da cidade.
Já em 2001, além dos
blocos afros, o governo municipal, através da Secretaria de Esporte
e Cidadania, e a Igreja Católica, através da Alufá-Gê
(Associação do Resgate da Identidade e da Cultura Negra e
Necessitados), associação vinculada à Pastoral Afro,
tiveram uma participação bem mais efetiva na organização
da Semana da Consciência Negra. Um dos representantes da Alufá-Gê,
que é padre e se considera negro, propôs a realização
de uma missa em estilo afro numa igreja situada no bairro da Conquista,
próxima à quadra do Dilazenze, em função
dos vários blocos afros sediados neste bairro e de seus membros.
O presidente do Dilazenze, que atuava como representante dos blocos,
argumentou que todas as atividades deveriam ser realizadas na Conquista
dada a facilidade de aglutinar pessoas e de proporcionar a “participação
da comunidade”, o que não ocorreria se as atividades fossem realizadas
no Centro. Ambas as propostas foram resultado de uma conversa particular
entre eles, ocorrida previamente à primeira reunião de preparação.
Nessa ocasião, já com a presença de outros participantes,
inclusive do secretário municipal de Esporte e Cidadania, a proposta
de que todas as atividades ocorressem na Conquista não foi aceita
imediatamente. Primeiramente o secretário – que se considera branco
– disse que preferia que as palestras que ele estava sugerindo, de pessoas
famosas e que atrairiam, segundo ele, um bom público, acontecessem
no Centro de Convenções Luiz Eduardo Magalhães, cujo
auditório maior tem capacidade para mil lugares. Argumentou que
era preciso “pensar grande”, que as pessoas dos blocos pareciam estar “com
medo quanto à sua capacidade de colocar muita gente no Centro de
Convenções”. Para contrapor-se a ele, o representante dos
blocos afros retomou uma posição do padre a respeito da dificuldade
das pessoas de “assumirem sua negritude”, justificando que, embora a população
negra de Ilhéus fosse muito grande, isso não significava
que todas as pessoas “tivessem vontade de ouvir alguém falar sobre
questões relacionadas ao negro”. Enquanto o secretário insistia
em que as atividades não deveriam ser na Conquista, algumas mulheres
da Alufá-Gê presentes à reunião faziam
sinais de apoio à ideia – sorriam e balançavam a cabeça
em sentido vertical. Não chegaram a argumentar nada, talvez porque
não quisessem discordar diretamente do padre. Quando o assunto foi
encerrado com a decisão final de realizar todos os eventos na Conquista,
uma das mulheres, com ar de decepção e como se fosse uma
última tentativa de argumentação, disse que todas
as atividades deveriam ocorrer “bem cedo [no início da noite] porque
lá na Conquista é muito perigoso”.Isso explicava sua torcida
para que os eventos não fossem realizados no bairro. Seu comentário,
obviamente, foi baseado no estigma atribuído ao local.
O bloco afro constitui um território
negro também em outro sentido. É amplamente difundida a ideia
de que a categoria ‘negro’ foi construída pela escravidão,
que aboliu origens e transformou a todos em escravos, escravos vindos da
África, escravos negros. Segundo Rolnik (1989),
a ideia de ser negro surgiu e se desenvolveu na senzala: “o confinamento
na terra de exílio foi capaz de transformar um grupo – cujo único
laço era a ancestralidade africana – em comunidade” (p. 30). A senzala
foi o primeiro território negro. Ao longo do tempo, foram surgindo
outros, sendo o quilombo o mais representativo deles, pois propunha uma
forma de pensar e interagir com a sociedade nacional como grupo distinto,
formado a partir da experiência singular e violenta da escravidão.
E o espaço do quilombo, assim como o da senzala, era o lugar de
produção de um modo de existência também distinto.
A associação entre
bloco afro e território negro é recorrente nos meios militantes
e acadêmicos, surge em artigos, palavras de ordem ou em letras de
música. Guerreiro afirma que a “noção
de territorialidade é uma marca das organizações afros
de Salvador” (1998, p. 112) e que esses territórios “funcionam como
local do encontro, da troca, das elaborações simbólicas
que permitem a construção das identidades” (p. 119). Michel
Agier diz que depois da criação do Ilê Aiyê
–primeiro bloco afro –, o bairro da Liberdade passou a ser chamado de “novo
quilombo” (2000, p. 63); o Curuzu, sub-bairro onde está situado
o grupo, é a “nova senzala”; a sede do Ilê tem o nome de “Senzala
do Barro Preto” (significado do termo Curuzu). Ainda segundo Agier,
os blocos afros são “espaços negros urbanos” definidos a
partir de limites constituídos por “traços físicos,
sociais ou culturais” que formam “fronteiras simbólicas entre etnias”.Estas
são concebidas pela obrigatoriedade da identificação
“frente aos outros e ao olhar dos outros” (2003,
p. 08). O nome escolhido pelo Ilê Aiyê evoca a ideia de território.
Ou, para usar a expressão de Agier, de “espaço social negro”;
dá ao grupo a noção de “casa” (significado do termo
“ilê”), de “busca de um lugar, de um espaço seguro,
traço visível de um ancoradouro cultural afirmado contra
todas as depreciações, sociais e culturais, às quais
os negros são habitualmente submetidos nos espaços cotidianos
não segregados” (Agier, 2000, p. 121).
Ribard (1999),
embora não usando o termo território, conduz sua análise
do surgimento dos blocos afros em Salvador em torno da noção
barthiana de “fronteiras étnicas”; de um nós que se forma
como “grupo étnico” frente a outros, importando saber como a fronteira
é mantida. Isto é: como os blocos afros investem na diferenciação
para construir e manter uma “identidade étnica” que lhes permita
ser “outros”. De acordo com essa análise, a rua e, mais exatamente,
o carnaval, seriam o lugar da fronteira, das “relações interétnicas”
entre “movimento afrobaiano” e “sociedade global” (p. 304); do “confronto”
de “dois mundos e duas identidades antinômicas” simbolizadas pelo
jovem negro do bloco afro e pelo jovem branco do trio elétrico (p.
306). O embate entre trio elétrico e bloco afro é utilizado,
recorrentemente, como símbolo da tensão racial existente
no carnaval de Salvador, assim como no de Ilhéus. Além da
composição racial de cada um deles, que os identifica e distingue
um do outro, da potência sonora do trio, que abafa os tambores dos
blocos afros e dos horários destinados aos desfiles destes, sempre
tarde da noite ou de madrugada(quando as ruas estão esvaziadas),
são percebidos como reprodução, no carnaval, da opressão
racial existente no dia-a-dia. Assim, o bloco afro, seja enquanto sede,grupos
de pessoas desfilando na avenida ou mesmo como referencial étnico
de pessoas que se pensam como nós em oposição a outros,
é percebido como um lugar.
Michel Agier (2000)
conta a história da fundação do Ilê Aiyê
a partir da organização de jovens vizinhos, moradores
do bairro da Liberdade, para o lazer. Mesmo antes da fundação
da Zorra, espécie de pequena empresa que organizava excursões,
a partir da qual seria criado o Ilê, os jovens amigos saíam
juntos no carnaval formando uma banda (p. 69), estudavam na mesma escola
(p. 66), organizavam torneios de futebol, grupos de quadrilhas para a festa
de São João, iam juntos à praia, aos bailes... (p.
65). Era, como tantos outros, um grupo de amigos criando atividades para
estar juntos. E o Ilê foi mais uma dessas atividades. O Ara Ketu,
outro famoso bloco afro de Salvador, também foi produto de um desejo
coletivo de amigos e familiares que queriam desfilar no carnaval (Guerreiro,
2000, p. 37).
Entre os blocos afros de Ilhéus
não foi diferente. O Lê-guê Depá, primeiro bloco
afro da cidade, surgiu em 1980, quando pessoas que se reuniam para atividades
artísticas – de teatro e de dança – e de lazer resolveram
fundar um bloco afro. Na história de fundação do Miny
Kongo, o segundo bloco de Ilhéus, dá-se o mesmo: foi numa
excursão de amigos para Olivença(um dos destinos turísticos
de Ilhéus) que, pela primeira vez, comentou-se sobre a formação
de um bloco afro. O Força Negra foi formado a partir do MEPI – Movimento
Estudantil de Promoção de Ilhéus, associação
estudantil.E, para concluir os exemplos, o Dilazenze também
surgiu tendo por base uma associação de amigos de bairro
chamada Associação Juvenil do Alto dos Carilos (AJAC) que
tinha por objetivo organizar passeios, festas e, principalmente, torneios
de futebol.
Os blocos afros, seriam, então,
territórios negros não somente porque são espaços
onde pessoas negras se reúnem – o que já ocorria antes de
suas fundações –, mas, fundamentalmente, porque ali é
produzida o que Guattari chama de uma “subjetividade dissidente” da “subjetividade
capitalística”, que é a dominante (1986). “Subjetividade
capitalística” é o mesmo que “ordem capitalística”,
cuja definição fica bem clara no seguinte trecho:
A ordem capitalística
produz os modos das relações humanas até em suas representações
inconscientes: os modos como se trabalha, como se é ensinado, como
se ama, como se trepa, como se fala, etc. Ela fabrica a relação
com a produção, com a natureza, com os fatos, com o movimento,
com o corpo, com a alimentação, com o presente, com o passado
e com o futuro – em suma, ela fabrica a relação do homem
com o mundo e consigo mesmo. (Guattari e Rolnik,
1996, p. 42).
Já “subjetividade dissidente”
é o mesmo que “processo de singularização”, “singularidade”;
é a invenção de outros modos de existência.
Como explicam Felix Guattari e Suely Rolnik:
o termo ‘singularização’
é usado por Guattari para designar os processos disruptores no campo
da produção do desejo: trata-se dos movimentos de protesto
do inconsciente contra a subjetividade capitalística, através
da afirmação de outras maneiras de ser, outras sensibilidades,
outra percepção, etc.” (Guattari
e Rolnik, 1996, p. 45).
No caso dos blocos afros, a subjetividade
dissidente aí produzida é negra. Voltando a Raquel
Rolnik (1989), então, poder-se-ia afirmar que os blocos afros
são “territórios negros” porque neles continua a se desenvolver
um devir negro
,
que floresceu ainda nas senzalas, como “afirmação da vontade
de solidariedade e autopreservação que fundamentava a existência
de uma comunidade africana em terras brasileiras”. Foi essa “vontade de
solidariedade e autopreservação” que fez com que grupos totalmente
heterogêneos, “cujo único laço era a ancestralidade
africana”, pudessem se constituir em comunidade (p. 30).
Assim, a associação
entre território negro e bloco afro conjuga o espaço físico
do bloco – seja como sede, seja como grupo de pessoas desfilando na avenida,
ensaiando em uma praça, promovendo ou assistindo a um espetáculo
– com um “território existencial”, como definido por Guattari
(1986):
Um território é
o conjunto de projetos ou de representações sobre o qual
vai se desencadear pragmaticamente toda uma série de comportamentos,
de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos,
cognitivos. (p. 119).
O bloco afro é um “território
negro” porque é um lugar de produção de subjetividade
negra, a partir de sua relação com o candomblé como
fonte de “cultura negra” e das diversas atividades promovidas pelos blocos,
especialmente aquelas que objetivam a preparação para o carnaval
e o próprio desfile, no qual mais se expressa seu desejo de singularidade:
com suas danças e roupas afro; sua música – o samba-reggae
ou outras de ritmos considerados mais tradicionais, como o ijexá
–; a valorização de uma beleza própria, distinta da
considerada dominante, com eventos como A Noite da Beleza Negra; a elaboração
de uma história própria através da valorização
de personagens históricos negros, como Zumbi dos Palmares, ou de
episódios da História que demonstram valentia, coragem, desejo
de libertação durante a escravidão, como A Revolta
dos Malês ou A Revolta do Engenho de Santana, em Ilhéus. Essa
história é contada como o tema escolhido para cada desfile,
que deve orientar a elaboração da música, das fantasias
e alegorias do bloco, como um enredo das escolas de samba.
Retomando o início deste artigo,
não há uma relação natural entre produção
de cultura negra e população afrodescendente; tanto é
assim que há inúmeros espaços de segregação
racial no Brasil e nem todos eles apresentam grupos afroculturais, grupos
religiosos de matriz africana, grupos de música afrobrasileira ou
organizações do movimento político negro. Nem o sentimento
de ser estigmatizado, segregado, gerará, automaticamente, o desejo
de mudança. Como afirma Guattari, “o que faz a força da subjetividade
capitalística é que ela se produz tanto no nível dos
opressores quanto no dos oprimidos.” (Guattari
e Rolnik, 1996, p. 44). Não é fácil produzir uma
subjetividade dissidente, ou seja: entrar em devir negro, mulher, homossexual,
cigano, índio etc.,quando a forma predominante de funcionamento
do mundo espera comportamentos, pensamentos e sentimentos com ela condizentes.
Das pessoas pobres – primeiro tentando ignorar sua cor –, espera-se que
acreditem que sua condição é fruto de sua “incapacidade”
de mobilizar os meios de ascensão social, especialmente a educação
e o trabalho, e que, portanto, se esforcem para isso. Se não é
possível ignorar a cor, espera-se que entendam que ela influenciou
a situação socioeconômica no passado, mas que isso
será revertido à medida que as pessoas se esforçarem
para tanto, por meio, novamente, da educação e do trabalho.
A atribuição de marginalidade a territórios negros
tem a relação com o trabalho como argumento central, como
explica Raquel Rolnik (1989) referindo-se aos territórios
negros paulistanos no período pós-abolição:
Sua marginalidade era identificada
com a não-proletarização de sua população,
o que é imediatamente associado à ideia de desorganização,
uma vez que a ocasionalidade da distribuição dos tempos de
trabalho e lazer contrasta com a disciplina e regularidade do trabalho
assalariado. (p. 33).
Ouvi, em diversos momentos, os dirigentes
dos blocos afros serem criticados, inclusive por seus familiares, por não
terem estudado, por não buscarem emprego. Como investir tempo e
energia num bloco afro se a forma de suprir as exigências materiais
da vida não vêm através dele? Os grandes blocos afros
de Salvador, como o Ilê Aiyê e o Olodum, são exceções,
é claro, e, ainda assim, para algumas poucas pessoas que os dirigem.
Outro bloco afro considerado grande, o Ara Ketu, mudou completamente sua
configuração, investindo no formato de banda musical e de
bloco de trio. Assim, às vezes, os dirigentes de blocos afro de
Ilhéus deixam os grupos de lado e se tornam trabalhadores ou, o
que é mais comum, desempregados que vivem de pequenos trabalhos
ou biscates. Mas, quando o bloco afro existe –mesmo que apenas enquanto
projeto de vida –, ele constitui um território negro por ser o lugar
de produção de modos de vida singulares e de desejo de diferir
do mundo tal como ele existe, com suas relações de opressão,
entre elas o racismo que segrega o espaço do bloco e as pessoas
que vivem nesse espaço. Território negro capaz de produzir
mudanças em território negro.
Notas
Doutora
em Antropologia Social pelo Museu Nacional, da Universidade Federal do
Rio de Janeiro
Uma
versão anterior deste artigo foi apresentada no GT Territórios
Negros e Conflitos Raciais, no IX Congresso da Associação
Latino-Americana de Estudos Africanos e Asiáticos do Brasil – Rio
de Janeiro, UCAM, 2008. Agradeço aos presentes os comentários
feitos, especialmente a Renato Emerson Santos e a Ricardo Cesar Rocha da
Costa. Meus agradecimentos também a Marcio Goldman e a todos da
grande família Dilazenze, especialmente a Marinho Rodrigues, e aos
demais blocos afros de Ilhéus, sem os quais não teria sido
possível a realização do trabalho.
Em
1994, eram cerca de 18.700 moradores (Andrade, 1996). Como a população
de Ilhéus não mudou muito ao longo desse período,
e não houve grandes alterações no bairro, é
possível supor que o número de habitantes no Alto da Conquista
não tenha aumentado muito.
Estimativa
populacional para Ilhéus em 2008: 219.710 (População
de Ilhéus "encolheu", segundo IBGE" In Ilhéus
Amado – acesso em 16/10/08.
Sobre
o Memorial da Cultura Negra em Ilhéus, ver Silva, 2004 e Goldman,
2006.
Além
do trabalho, considerado pioneiro, de Raquel Rolnik sobre a existência
de “territórios negros” nas cidades de Rio de Janeiro e São
Paulo (1989) e do citado trabalho de Hasenbalg (1996), veja, também,
entre outros, Telles, 1993 e 2003; Brandão, 2004; Sant’Ana
; Oliveira, 2005.
Segundo
tabela “Estimativa
da População 2006 e IDH dos Municípios por Território
de Identidade” – Secretaria de Agricultura, Irrigação
e Reforma Agrária do Estado da Bahia. Acesso em 16/10/08.
Ver,
por exemplo, Paixão, 2003; Ipea; Unifem; SPM, 2008 e Ipea 2008.
Um
estudo propriamente histórico sobre o Matamba Tombenci Neto ainda
está por ser feito.
Outra
característica do racismo institucional e, em se tratando da Conquista,
sempre considerei isso ainda mais grave, por estar lá o único
hospital público da cidade.
Agier
identifica em Salvador (na Bahia) um tipo de racismo que “não tem
uma forma de exclusão/segregação, mas uma maneira,
difusa e inconfessada, de integração e dominação”
(1992, p. 62).
“É
que devir não é imitar algo ou alguém, identificar-se
com ele. (...) Devir é, a partir das formas que se tem, do sujeito
que se é, dos órgãos que se possui ou das funções
que se preenche, extrair partículas, entre as quais instauramos
relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão,
as mais próximas daquilo que estamos em vias de nos tornarmos, e
através das quais nos tornamos. É nesse sentido que o devir
é o processo do desejo. (...) O ator De Niro, numa sequência
de filme, anda ‘como’ um caranguejo; mas não se trata, ele diz,
de imitar o caranguejo; trata-se de compor com a imagem, com a velocidade
da imagem, algo que tem a ver com o caranguejo.” (Deleuze e Guattari, 1997,
pp. 64-67).
Webgrafia
Ilhéus
Amado
Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística
Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada
Jornal
Irohin
Secretaria
de Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária do Estado
da Bahia
Sócio
Estatística
Bibliografia
AGIER, Michel.
Etnopolítica: a dinâmica do espaço afro-baiano, Estudos
Afro-Asiáticos, Rio de Janeiro, n. 22, p. 99-115, 1992.
AGIER, Michel.
Anthropologie du Carnaval: la ville, la fête et l'Afrique à
Bahia, Marseille, Éditions Parenthèses / IRD, 2000.
AGIER, Michel.
Introdução. Problèmes d'Amérique Latine,
Paris, n. 48, p. 07-10, Printemps 2003.
ANDRADE, Maria
Palma de. Ilhéus: Passado e Presente, Salvador, BDA-Bahia,
1996.
BRANDÃO,
André Augusto. Miséria da Periferia: desigualdades
raciais e pobreza na metrópole do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, Pallas Ed. / Niterói, PENESB, 2004.
DELEUZE,
Gilles. Conversações, Rio de Janeiro, Editora
34, 1992.
DELEUZE,
Gilles; GUATTARI, Félix. 1730 - Devir-Intenso, Devir-Animal, Devir-Imperceptível.
In: Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia, Rio de
Janeiro, Ed. 34, 1997, p. 11-113.
DUBET, François;
LAPEYRONNIE, Didier. Les quartiers d'exil. Paris, Editions du Seuil, 1992.
FIAMENGUE,
Elis C.; JOSÉ, Wagner D.; PEREIRA, Carlos J. de Almeida. A
UESC em Preto e Branco: Pesquisa de Amostragem Étnico-racial,
Brasília, MEC/SECAD, 2007.
GOLDMAN,
Marcio. Segmentaridades e Movimentos Negros nas Eleições
de Ilhéus. In: Mana - Estudos de Antropologia Social,
v.7 n.2, p. 57-93, out. 2001.
GOLDMAN,
M. Como funciona a democracia: uma teoria etnográfica da política,
Rio de Janeiro, 7Letras, 2006.
GUATTARI,
Félix. Les Années d'Hiver, Paris, Barrault,
1986.
GUATTARI,
Félix; ROLNIK, Suely. Micropolítica: Cartografias do
Desejo, 4ª ed., Petrópolis, Vozes, 1996.
GUERREIRO,
Goli. Um mapa em preto e branco da música na Bahia - territorialização
e mestiçagem no meio musical de Salvador. In: SANSONE, Lívio;
SANTOS, Jocélio Teles dos (org.). Ritmos em Trânsito:
Sócio-Antropologia da Música Baiana. Salvador, Dynamis
Editorial, 1998, p. 97-122.
GUERREIRO,
Goli. A Trama dos Tambores: A Música Afro-pop de Salvador.
São Paulo, Editora 34, 2000.
GUIMARÃES,
Antônio Sérgio A. Preconceito de Cor e Racismo no Brasil.
Revista de Antropologia, São Paulo, v.47 n.1, p. 09-43,
2004. Disponível
on-line via www. Acesso em: 16/10/2008.
HASENBALG,
Carlos. A. Entre o Mito e os Fatos: Racismo e Relações Raciais
no Brasil. In: CHOR MAIO, Marcos; SANTOS, Ricardo Ventura (org.). Raça,
Ciência e Sociedade. Rio de Janeiro, FIOCRUZ/CCBB, 1996,
p. 235-249.
IPEA - INSTITUTO
DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA; UNIFEM - FUNDO DE DESENVOLVIMENTO
DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A MULHER; SPM - SECRETARIA
ESPECIAL DE POLÍTICAS PARA AS MULHERES. Retrato das Desigualdades
de Gênero e Raça – 3ª Ed. Análise preliminar
dos dados. 2008. Disponível
on-line. Acesso em 16/10/2008.
IPEA - INSTITUTO
DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Desigualdades raciais, racismo e
políticas públicas: 120 anos após a abolição.
Comunicado da Presidência, nº 4, 2008. Disponível
on-line. Acesso em 16/10/2008.
OLIVEIRA,
Luiz Fernandes. Exclusão étnico-racial: um mapeamento
das desigualdades étnico-raciais no município de Macaé.
Análise sociológica da Pesquisa Domiciliar do Programa Macaé
Cidadão. Macaé, Prefeitura Municipal de Macaé
/ Programa Macaé Cidadão, 2005.
PAIXÃO,
Marcelo. J. P. Desenvolvimento Humano e Relações Raciais.
Rio de Janeiro, DP&A, 2003.
RAMOS, Maria
Estela R.; CUNHA Jr., Henrique. Bairro da Liberdade em Salvador (BA): Território
de Maioria Afrodescendente. In: RAMOS, Maria Estela R.; CUNHA Jr., Henrique
(org.), Espaço Urbano e Afrodescendência: Estudos da
espacialidade negra urbana para o debate das políticas públicas.
Fortaleza, Edições UFC, 2007, p. 187-206.
RIBARD, Franc.
Le Carnaval Noir de Bahia: Etnicité, Identité, Fette
Afro à Salvador. Paris, L'Harmattan, 1999.
ROLNIK, Raquel.
Territórios Negros nas Cidades Brasileiras. Estudos Afro-Asiáticos,
Rio de Janeiro, n. 17, p. 29-41, 1989.
SANT’ANA,
Marcel Cláudio. A Cor do Espaço Urbano. Jornal Ìrohìn,
n.19. Disponível on-line
Acesso em 16/10/08.
SILVA, Ana Claudia
C. da. Agenciamentos Coletivos, Territórios Existenciais e
Capturas: uma etnografia de movimentos negros em Ilhéus.
Tese de Doutorado em Antropologia Social. PPGAS/Museu Nacional/UFRJ, Rio
de Janeiro, 2004.
TELLES,
Edward. Cor da Pele e Segregação Residencial no Brasil. Estudos
Afro-Asiáticos, Rio de Janeiro, n. 24, p. 5-22, 1993.
TELLES,
Edward. Racismo à Brasileira. Rio de Janeiro, Relume-Dumará,
2003.
WACQUANT,
Loïc. The zone': le métier de 'hustler' dans le guetto noir
américain. Actes de la Recherche en Sciences Sociales,
Paris, n. 92, p. 38-58, 1992.
WACQUANT,
Loïc. Estado e destino do gueto: retraçando a linha da cor
urbana na América pós-fordista. Estudos Afro-Asiáticos,
Rio de Janeiro, n. 26, p. 99-139, 1994.
WACQUANT,
Loïc. Proscritos da Cidade. Estigma e divisão social no gueto
americano e na periferia urbana francesa. Novos Estudos CEBRAP,
São Paulo, n. 43, p. 64-83, 1995.
WACQUANT,
Loïc. Três Premissas Perniciosas no Estudo do Gueto Norte-americano.
Mana - Estudos de Antropologia Social, Rio de Janeiro, v.
2, n. 2, p. 145-161, 1996.
WACQUANT,
Loïc. Elias no Gueto. Revista de Sociologia e Política,
Curitiba, n. 10/11, p. 213-218, 1998.