O imigrante enquanto ator social
Ao percorrer algumas das ruas e avenidas
do principal centro turístico e comercial de Londres, é inevitável
que o caminhante atento se surpreenda, não apenas com o forte poder
econômico que esta área denota, mas, também, com a
variedade linguística emanada do grande fluxo de pessoas que circulam
pelas longas calçadas disputando uma “brecha” dentro de uma loja
qualquer. Talvez a primeira impressão que o observador tenha seja
a de estar imerso em um enorme fluxo de turistas que, atraídos por
promoções ou souvenires, movem-se desordenadamente com sacolas
cheias nas mãos e um olhar que mistura surpresa e confusão.
Entretanto, se nosso caminhante dedicar maior atenção a este
público, que ajuda a tornar o Borough de Westminster um dos locais
turísticos mais famosos da Europa e do Mundo, perceberá que
a variedade linguística não se faz presente apenas entre
as pessoas que caminham rentes às vitrines, mas entre os próprios
comerciantes, também. Provavelmente a dúvida que se apresente
a este sujeito seja: se a variedade linguística se faz presente
não apenas nas calçadas, mas, também, dentro dos próprios
estabelecimentos, seriam estes que compartilham a calçada apenas
turistas? Ou, assim como os que agora trabalham, os que circulam também
fazem parte da vida cotidiana londrina?
Esta é a sensação
que se tem de Londres quando se tenta interpretar seus espaços públicos.
A grande quantidade de imigrantes vindos dos mais diversos países,
e o grande fluxo de turistas que chegam diariamente à capital inglesa
tornam a compreensão do espaço público londrino e
seus habitantes um grande desafio, uma vez que cada pequeno espaço
da cidade induz a encará-la como local efêmero, formado, ao
mesmo tempo, pela superabundância cultural. Em outras palavras, um
espaço contemporâneo de não-lugares. Nas palavras de
Marc Augé:
If a place can be defined
as relational, historical and concerned with identity, then a space which
cannot be defined as relational, or historical, or concerned with identity
will be a nonplace (AUGE, 1995, p.77).
Esta Capital que durante o período
imperialista se habituou a promover uma política de expansão
de seus padrões culturais e interesses econômicos para além
das fronteiras britânicas, teve como práxis desenvolver o
contato com o outro no estrangeiro. Contudo, desde o início do fluxo
migratório moderno, a partir da segunda metade do século
XX, este mesmo outro passou, gradativamente, a migrar de seu território
para Londres. E se outrora as fronteiras culturais do inglês com
o outro eram estabelecidas no estrangeiro, tendo como base a imposição
dos valores britânicos, recentemente elas têm sido redefinidas
e constantemente atualizadas dentro do território eu, ou seja, em
território inglês, criando um espaço contemporâneo
de diferença cultural focada não apenas na pluralidade, mas
também nas intersecções.
Atualmente, o outro passa a ser definido
como o migrante que desembarca e embarca diariamente nos principais aeroportos
londrinos e que, através de sua estada temporária, traze
novos costumes e formas distintas de interpretar a cidade que, pouco a
pouco, vão sendo sobrepostas às demais interpretações
e, assim, constituem uma territorialidade em estado flexível.
Assim sendo, esta diáspora
internacional, não apenas em Londres mas presente no atual cenário
globalizado, produz o encontro das mais distintas identidades - estrangeiras
e nativas - em determinados espaços globais-locais. Pode-se considerar
este fenômeno um contato doloroso, uma vez que o encadeamento de
acontecimentos vem provocando fortes choques de alteridades. Todavia, é
possível considerar que esta dinâmica ofereça a chance
de vislumbrar como o migrante se autodefine perante o outro e a si mesmo
tanto quando se encontra fora de suas fronteiras territoriais como depois
que retorna a seu país. E será em meio a este quadro que
se encontrará o imigrante brasileiro. Em meio às demais nacionalidades
situadas no espaço londrino, este imigrante procura organizar-se
e interpretar o local territorializado através de suas práticas
cotidianas, a partir do momento em que ele chega. Para isso, desenvolve
seus trajetos habituais dentro de um território claramente dividido
entre os espaços da casa e da rua e que são compostos pela
existência de grupos, redes, sistemas de troca, pontos de encontro
e outras mediações que participam efetivamente de seu cotidiano
na cidade.
Este artigo discutirá as especificidades
do imigrante brasileiro ilegal, em particular os que compreendem a faixa
etária entre 19 e 30 anos de idade. Tal recorte faz-se necessário,
porque dentro da “categoria imigrante brasileiro” é possível
encontrar ampla variedade de casos que a torna densa demais para ser estudada
por completo
.
O migrante brasileiro “não-documentado”
O processo emigratório e o
início da imigração
A elaboração da identidade
do migrante brasileiro começa antes mesmo de ele chegar à
capital inglesa, ou seja: inicia-se no próprio território
brasileiro. O primeiro momento deste itinerário será a constituição
da sua condição de emigrante. Em outras palavras, é
quando o migrante está envolvido com questões relacionadas
ao seu deslocamento socioespacial que oferecerão um considerável
suporte para que ele tenha o “fôlego” necessário, a fim de
enfrentar o que os próprios migrantes chamam de “as primeiras semanas”.
Dentre elas destacam-se: a obtenção de uma reserva monetária
suficiente para os primeiros dias, compra da passagem aérea, geralmente
parcelada junto a uma agência de turismo, compra de vestuário
capaz de protegê-lo do frio europeu, a realização de
contatos na Inglaterra que podem ser obtidos até por meio de terceiros
e coleta de informações básicas sobre costumes e regras
do país.
Nota-se, então, que a emigração,
enquanto primeira das duas faces do movimento migratório, é
a etapa em que o migrante deixará seu grupo e seu espaço
sociocultural para lançar-se em busca de seus objetivos. Mesmo quando
estiver envolvido com a outra face da migração, a imigração,
ele carregará os signos obtidos durante a elaboração
de sua condição de emigrante perante seu grupo. O sentimento
de retorno é o que assegurará a ele a certeza de encerrar
a condição de emigrante, pois voltará para sua cidade
e para junto de seus familiares com o objetivo cumprido. Entretanto,
a travessia da sociedade de emigração para a sociedade de
imigração não é realizada tranquilamente. O
nascimento do imigrante para a sociedade que o recebe depende, exclusivamente,
da permissão do visto de entrada junto às autoridades migratórias
do Aeroporto Heathrow, principal porta de entrada para os brasileiros no
Reino Unido.
Pelas entrevistas foi possível
perceber que este aeroporto é interpretado por muito migrantes brasileiros
como a marca simbólica da fronteira entre o Brasil e Londres, uma
vez que a autorização para pisar em território inglês
é vista como algo difícil de ser obtido. Basicamente, passa-se
por uma entrevista e checagem de documentos, logo na entrada, a fim de
saber qual é o verdadeiro motivo que os leva a entrar no Reino Unido.
Assim sendo, superar as dificuldades encontradas no aeroporto significa
atravessar a fronteira entre seu país de origem e a cidade almejada;
completar o movimento de emigração e iniciar a outra dimensão
deste fato coletivo: a elaboração da identidade de imigrante.
De fato, o imigrante só existe
na sociedade que assim o denomina a partir do momento em que atravessa
suas fronteiras e pisa seu território; o imigrante “nasce” nesse
dia para a sociedade que assim o designa. Dessa forma, ela se arvora o
direito de desconhecer tudo o que antecede esse momento e esse nascimento.
(SAYAD,1998, p.16)
Depois de cumprida esta etapa, os
primeiros dias do migrante começam a ser singulares na cidade estranha.
Seus sentidos são um misto de espanto e confusão, seja pelo
novo cenário e seus atores, seja pelo clima ou, então, pelas
dificuldades geradas pelo idioma e pela mudança de fuso horário
. Pouco a pouco este migrante vai se ajeitando e organizando os pontos
necessários para se mover na vasta rede de imigrantes brasileiros
sutilmente espalhada por Londres. Junto com ele, sua identidade de imigrante
vai sendo elaborada aos poucos.
A elaboração dos
espaços de sociabilidade e suas práticas cotidianas
O espaço da Casa
Para muitos migrantes a prioridade
é localizar um quarto numa casa que tenha moradores brasileiros.
Todavia, conforme entrevistas realizadas apontam, uma grande parcela de
migrantes já sai do Brasil com um local para ficar em Londres. Em
alguns casos, as informações são obtidas através
de sites de relacionamentos e sites dedicados a oferecer informações
e dicas sobre Londres. Já em outros casos, há migrantes que
se valem do auxilio de outros migrantes que já se foram ou ainda
estão na capital britânica. É o caso de H.F.M, que
em entrevista disse:
Gustavo: Como você
conseguiu encontrar esta casa em que você está morando no
momento?
H.F.M.: Eu tenho um primo
que morou aqui em Londres. Antes de eu sair do Brasil ele me deu umas dicas
de como achar pensões baratas e casas de brasileiros e foi isso
que eu fiz.
A primeira casa do migrante geralmente
é provisória; ali ele fica hospedado apenas durante as primeiras
semanas, tempo necessário para poder se localizar na cidade. Logo
esse imigrante prefere buscar um local que atenda suas necessidades de
ordem material e simbólica. Dentre elas pode-se citar a questão
relacionada ao preço do aluguel, o acesso aos meios de comunicação,
a localização da casa e a distância da mesma em relação
ao trabalho e, também, as pessoas que habitam a residência.
O valor do aluguel tem um destaque
para o imigrante, principalmente se ele ainda está à procura
de um trabalho rentável. Em geral, o locatário busca um valor
de aluguel que oscile entre £50 e £80 semanais. Neste
valor devem estar incluídos uma cama de solteiro e um armário
(em quartos que podem ser divididos por até três pessoas),
os gastos com os consumos de água e de energia elétrica e,
ainda, a limpeza semanal da cozinha e do banheiro (cômodos utilizados
em comum pelos moradores).
A forma mais popular para o migrante
encontrar um local para morar é através das revistas brasileiras
destinadas aos próprios migrantes no Reino Unido, que circulam em
Londres. Nestes periódicos há um espaço exclusivo
para o anúncio de quartos que estão disponíveis para
serem alugados. Em geral o locador vale-se de poucas linhas. No título
ele especifica o cômodo que está alugando; depois, num pequeno
quadro, há informações gerais do que ele tem a oferecer
(inclusive a localização e proximidade de linhas do transporte
público, eletrodomésticos disponíveis na casa, forma
de pagamento, se as contas de água, luz, internet e da limpeza já
estão inclusas e, por fim, o telefone de contato.
Os meios de comunicação
que a casa oferece, assim como o valor do aluguel do quarto e a localização
do imóvel, são elementos importantes para o migrante, enquanto
parâmetros de comparação. O fato de a casa ter um telefone
fixo – em alguns casos com planos de ligação internacional
– ou, então, acesso a internet é sempre muito bem visto,
pois o contato com os familiares no país de origem implicam gastos
considerados altos para o migrante, sobretudo se ele tiver que realizar
as ligações por meio de cartões telefônicos
ou do uso do celular
.
No caso do telefone fixo, ele possibilita a redução no gasto
das ligações. Já no caso da Internet, além
de reduzir mais ainda os gastos das chamadas, há a possibilidade
do uso da webcam. Elemento importante para o contato visual com familiares
e com amigos. Tal recurso ajuda amenizar o longo tempo de separação
que o processo migratório possa levar.
Há, ainda, com relação
à casa, a questão dos moradores e com quem o quarto será
dividido. Por meio das entrevistas percebe-se que os habitantes da casa
acolhem o novato numa espécie de solidariedade migratória
que é constituída em torno do idioma português e dos
motivos similares que os levaram a migrar. Além disso, os demais
moradores podem assegurar ao novo integrante a inserção gradual
na rede de brasileiros;e esse é um ponto essencial, pois indica
que entre os imigrantes residentes na casa, há um capital cultural
que os dispõe numa hierarquia interna. Como ressalta M.G. em entrevista:
Gustavo : Como você
considera a possibilidade de morar com brasileiros que estão há
mais tempo em Londres?
M.G.: O bom de você
morar em casa de brasileiros que já estão há mais
tempo em Londres é que eles já têm as “manhas” de como
andar na cidade. Onde comprar as coisas mais baratas, contato de empregos
e sabem quem é de confiança e quem é “traíra”.
Gustavo: Foi o caso deste
emprego em que você trabalha atualmente?
M.G.: Sim. Ele me levou pra
abrir a conta de banco numa agência de um conhecido dele que fala
português e tem as “manhas” para abrir a conta. E para os documentos,
ele tem contato com uns brasileiros que só mexem com isso.
Este capital cultural, constituído
pela apropriação dos bens simbólicos da cidade e do
conhecimento dos “canais” ou “caminhos” é adquirido ao longo do
tempo de permanência do migrante na terra receptora. Sendo assim,
os migrantes mais velhos possuem o conhecimento necessário para
se locomoverem pelos “circuitos” (MAGNANI, 2008) mais importantes da cidade;
sabem como abrir uma conta bancária, podem indicar possíveis
trabalhos. Usualmente, é este migrante com mais tempo “na London”
que auxilia os novatos a se lançarem no espaço público
ou, valendo-me do conceito de DaMatta (1984), ajudará os “seus”
a saírem da casa e ganharem o espaço público da rua.
Por fim, pode-se dizer que a casa
é o local onde as regras sociais e práticas culturais brasileiras
prevalecem, ou seja, comemorações natalinas e de réveillon,
festas de aniversário, churrascos e almoços dominicais esporádicos
são realizados nos moldes brasileiros, com decorações,
pratos e presentes tipicamente da cultura nacional. Em outras palavras,
é a tentativa de reproduzir no espaço privado da casa os
valores identitários nacionais. Citando uma passagem da entrevista
realizada com E.O.:
Gustavo: Como foi
a festa de Natal deste ano? Passou na sua casa?
E.O.: Sim, eu e meu namorado
ficamos em casa. Foi legal, fizemos um churrasquinho com carne que compramos
num açougue brasileiro, tinha feijão tropeiro, cerveja, champanhe,
salada de maionese, uma bandeja de frutas e torta de sonho de valsa.
Gustavo: Só havia
brasileiros na festa?
E.O.: Só o pessoal
de casa e uns amigos nossos. Foi bem gostoso. Só tinha a brasileirada...(risos)
O espaço da Rua
Como foi dito, após a “superação”
da entrada no aeroporto Heathrow e a obtenção de um endereço
residencial, o migrante esta pronto para buscar seu objetivo principal
e que o trouxe a Londres: o trabalho que lhe oferecerá a a possibilidade
de acumular o dinheiro almejado.
O trabalho, assim com o transporte
público, o supermercado, a casa de cambio e os lugares de lazer
são os espaços compreendidos no espaço da Rua. Neste
território, considerado arriscado uma vez que o migrante, ocasionalmente,
encontra-se sem a companhia dos “seus” (e sem possibilidade de utilizar
o idioma português para se comunicar),o brasileiro buscará
a outra face necessária à elaboração da sua
identidade de imigrante.
Assim como ocorre no espaço
privado da moradia, na Rua novos hábitos e códigos de conduta
precisam ser assimilados e incorporados o mais rápidamente possível
para que ele possa se locomover pela cidade. Entretanto, diferentemente
do que acontece no espaço da Casa, na Rua as regras são regidas
pelo idioma inglês, do qual a maioria dos entrevistados migrantes
detêm apenas o conhecimento mínimo para diálogos breves
e estritamente funcionais. Este dado torna o espaço público
ainda mais hostil do que aparenta, sobretudo quando há o contato
com o outro – o nativo – ou os outros (demais grupos migratórios
que também buscam o acúmulo financeiro na capital inglesa).
No espaço da Rua, o local
de trabalho é o ponto onde o imigrante despende a maior parte de
seu dia. Com jornadas de trabalho que oscilam entre 40 e 60 horas semanais,
muitos imigrantes consideram a quantidade de horas trabalhadas um importante
indicador de sucesso, principalmente se o pagamento for feito em “dinheiro
vivo”. Através das entrevistas é possível notar que
esse raciocínio segue uma lógica clara para a maioria dos
imigrantes. Como demonstra H.F.M., que trabalhava como washing up:
H.F.M.: Eu não
me importo de dobrar quantas vezes precisar. Quanto mais eu trabalhar aqui,
mais cedo eu volto pra minha casa e pra minha família.
A classificação
dos trabalhos sob a ótica do imigrante.
Internamente ao grupo existe uma
espécie de classificação dos variados tipos de empregos
que possam vir a ter em Londres. Basicamente, estes empregos estão
divididos em duas categorias: o emprego e o subemprego.
Apesar do emprego não ser
a categoria classificatória em que o objeto de pesquisa em discussão
se insere, faz-se necessário apresentá-lo, uma vez que, esta
categoria permeia, constantemente, o imaginário e as conversas de
migrantes; seja para compará-lo com o tipo de subemprego em que
eles se encontram ou para comentar as oportunidades e facilidades que um
“digno” emprego oferece a quem vive em Londres. Segue, abaixo, tendo como
fonte os dados de entrevistas, a construção, por parte dos
imigrantes, do que seria classificado como emprego.
Emprego é, basicamente,
o trabalho exercido pelo próprio cidadão inglês, por
cidadãos europeus pertencentes à União Europeia e
que residem em Londres ou por indivíduos legalizados e/ou que tenham
o domínio do idioma inglês. Neste exercício, o trabalhador
teria uma jornada de trabalho de 8 a 9 horas diárias, seguindo uma
rotina com início por volta das 9h e final às 18h, tendo
os fins de semana livres. Quando perguntado em que consistiria este emprego,
a resposta geralmente seguiu uma mesma idéia: uma atividade em que
o trabalhador possa ficar sentado a uma mesa, num ambiente calmo e limpo
e com um computador e um telefone à sua disposição.
Como evidencia a entrevista concedida por J.G.P., que trabalhava como garçom:
Gustavo: Bom, mas
agora você está gostando deste emprego?
J.G.P.: Emprego?! Isso aqui
não é emprego, isso aqui é trabalho. Emprego é
diferente; você trabalha com prazer e usa o cérebro. Isso
aqui, não.
Também é considerado relevante,
pelo imigrante, nesta categoria de trabalho, a possibilidade de executa-lo
“arrumado”, “engravatado” ou “maquiada”, além de ter os finais de
semana livres, o possibilitando sair para jantar ou, simplesmente, reunir
os amigos para uma cerveja ou um churrasco. Na entrevista realizada com
uma brasileira que trabalhava como runner num restaurante localizado no
centro de Londres, esta declarou:.
E.T.: É
difícil de reunir os amigos e até de encontrar o meu irmão
e a esposa dele.
Gustavo : Por quê?
E.T.: Aqui a gente trabalha
de final de semana; não dá tempo de encontrar o pessoal ou
fazer alguma coisa. Se você quer alguma coisa assim, tem que planejar
um mês antes (risos); daí todo mundo se organiza pra se ver
e ter offs
.
Por meio desta curta apresentação
do que seriam as principais qualidades de um emprego segundo o imaginário
do imigrante, podemos notar que há uma série de características
relacionadas aos tipos de atividades associados às classes média
e alta no Brasil. Um tipo de trabalho na qual prevalece o uso das habilidades
intelectuais e não a força física.
O subemprego, por sua vez,
caracteriza-se por atividades em que se inserem estudantes de inglês,
imigrantes legalizados que não detêm o domínio do idioma
local e o grupo aqui apresentado, o dos imigrantes ilegais. Neste tipo
de trabalho o imigrante cumpre uma longa jornada de trabalho semanal, com
duração de 7 até 10 horas por dia, e, em muitos casos,
com um ou mais dias doubles na mesma semana. Além disso, como muitos
destes trabalhos são vinculados ao setor de gastronomia, os dias
de mais trabalho correspondem aos finais de semana. O que significa que
os offs quase sempre ocorrem no meio da semana.
Conforme aponta o relatório
Brasileiros
em Londres: relatório para a campanha De Estrangeiros a Cidadãos
(Strangers into Citizens), realizado por pesquisadores do Departamento
de Geografia do Queen Mary, no ano de 2007, 63% dos brasileiros (de ambos
os sexos) trabalham em período integral (de 35 a 48 horas) em atividades
relacionadas a limpeza (conhecidas como cleaners), hotéis e restaurantes,
courrier/motorista, construção civil e babá/au pair.
É importante ressaltar que cada uma dessas atividades apresenta
uma distribuição sexual considerável que, provavelmente,
atende a questões de força e valores socioculturais, não
só do contratante, mas do próprio imigrante brasileiro.
Diferentemente do que usualmente
ocorre no emprego, no subemprego o imigrante exerce funções
em que a aparência pessoal não tem relevância de primeira
ordem. Compreende atividades em que o uso de maquiagem não é
necessário, o cabelo precisa estar preso ou devidamente coberto
e, em geral, veste-se uniforme oferecido pelo próprio empregador.
Nota-se, assim, que se trata de ocupações funcionais, em
que a personalidade muitas vezes precisa ser ocultada. Como sugere a entrevistada
abaixo:
E.G.: Aqui, neste
tipo de trabalho, a gente veste sempre a mesma roupa, tem que deixar o
cabelo preso e não pode usar maquiagem do nosso jeito. É
sempre a mesma coisa.
O local de trabalho é, também,
espaço da diferença, do contato do imigrante brasileiro com
o outro – o inglês – ou com os outros – demais grupos imigratórios.
Por intermédio deste pode-se encontrar elementos de grande valia
para o entendimento da composição identitária do imigrante
brasileiro em Londres, pois é neste contato que as fronteiras étnicas
(BARTH, 1998) são afirmadas e constantemente reafirmadas através
da experiência de alteridade. Pelas entrevistas é possível
divisar a visão que o imigrante brasileiro constrói de si
próprio, baseada no contraste com os ingleses e demais nacionalidades,
que compõem o fluxo migratório londrino.
Valores sociais como amizade, sensualidade,
alegria no trabalho, resistência física e até o “jeitinho
brasileiro” estão sempre presentes quando se perguntasobre as principais
características do brasileiro, se comparado com o estrangeiro. Conforme
evidencia a entrevista realizada com V.G.:
Gustavo: Na sua opinião,
o que diferencia o brasileiro das demais nacionalidades?
V.G.: O brasileiro é
um povo mais alegre pra trabalhar. A gente atende melhor as mesas dos clientes,
sorrimos naturalmente e, se tem algum problema, a gente sabe resolver na
hora.
Gustavo: Como assim?
V.G.: O europeu é
muito duro e certinho; tudo tem que ser daquele jeito e pronto. Nós
não; a gente sempre tem um jeitinho pra dar certo.
Pelas entrevistas também é
possível observar a elaboração da identidade brasileira
por meio do trabalho. Conforme evidencia um imigrante brasileiro que trabalha
como chef de partie num movimentado restaurante no sudoeste de Londres:
J.P.A.: Então,
você acha que algum inglês conseguiria trabalhar 50 horas semanais
num lugar que nem este?Ganhando o que a gente ganha e vivendo nestas condições?
Isso aqui é trabalho pra brasileiro e polaco.
Gustavo : O que você
quer dizer com isso?
J.P.A. O brasileiro tá
acostumado com a vida difícil no Brasil e nós estamos aqui
para ralar. Pra nós não tem tempo ruim; olha o nosso caso
aqui na cozinha: pode estar o busy que for e a gente ainda tá brincando
um com o outro e ouvindo um forrozinho.
Por meio destes dois fragmentos de entrevistas
pode-se notar que o imigrante brasileiro se considera uma “raça”
apta ao trabalho pesado e que é “naturalmente” alegre e amigo. Essas
são qualidades, juntamente como a “humildade”, fundamentais para
quem quer alcançar seus objetivos “na London”. Nota-se, então,
que o migrante brasileiro procura elaborar uma identidade contrastiva em
relação ao inglês e as demais nacionalidades em torno
de qualidades que o próprio grupo julga serem características
particulares da identidade brasileira. Nos casos dos entrevistados, pelo
fato de não dominarem o idioma inglês, foi possível
notar que boa parte da construção da imagem do outro ou dos
outros é elaborada em torno de elementos colhidos deste imaginário
social, que a própria rede migratória brasileira cria e difunde
pelos seus mais diversos pontos. Dessa forma, o migrante brasileiro
se fecha em torno destes valores identitários tidos como “naturais”
para se diferenciar e até se proteger em relação
às demais identidades.
A Rua é, então, um
espaço hostil, em que o uso do idioma inglês e inevitável,
o contato com o outro ou os outros será feito e onde estão
presentes códigos e condutas considerados estranhos por estes imigrantes.
Além disso, a Rua é o local onde, a qualquer instante, os
agentes do Homme Office ou, em linguagem do próprio grupo,
os “homens de preto” podem aparecer.
Pelo que foi apresentado acima, torna-se
evidente que o espaço privado da Casa e o espaço público
da Rua representam duas importantes esferas sociais para a elaboração
da identidade do migrante brasileiro em Londres. Todavia, as práticas
cotidianas do migrante não se condicionam apenas em torno da casa
e do trabalho. Na medida em que suas relações sociais vão
sendo ampliadas – não só na rede de migrantes brasileiros,
mas entre outras nacionalidades também –, seu conhecimento acerca
do espaço geográfico vai se tornando seguro e seu tempo de
permanência vai sendo estendido. O migrante passa a desenvolver outras
práticas sociais, não se resumindo mais apenas ao trabalho
e aos limites domésticos. Estas atividades estariam diretamente
ligadas ao lazer.
Frequentar bares, boates, parques
públicos e centros turísticos também faz parte das
práticas cotidianas do imigrante brasileiro em Londres. Entretanto,
não qualquer bar e boate ou qualquer horário ou dia da semana.
Percebe-se que os brasileiros, como outros grupos migratórios presentes
na capital britânica, buscam locais que contenham elementos da cultura
brasileira (música, bebida e comida) e sejam frequentados pelo próprio
grupo migratório. Essas são condições importantes
para o imigrante relaxar depois de um dia ou de uma semana de trabalho.
Como beber uma cerveja ou refrigerante brasileiros, curtir músicas
nacionais e poder conversar à vontade em português com os
“chegados” ou com outros brasileiros que estejam vivenciando as mesmas
experiências. Estes locais de sociabilidade seriam os espaços
conhecidos como pedaços.
O pedaço
Os pedaços são espaços
essenciais para o imigrante buscar a afirmação dos seus códigos
sociais, seus símbolos culturais e, ainda, compartilhar com os demais,
que também fazem uso do mesmo. O que lhe permite reforçar
suas fronteiras étnicas ao se sentir “brasileiro”. Contudo, como
demonstra Magnani, tais símbolos e códigos culturais devem
ser utilizados corretamente:
Pertencer a essa rede implica
o cumprimento de determinadas regras de lealdade que funcionam também
como proteção, inclusive quando as pessoas aventuram-se para
o desfrute de lazer fora do pedaço, como acontece com disputas de
futebol em outros bairros, excursões, idas a salões de baile
ou a outros equipamentos de lazer situados em pontos afastados do bairro.
[...] Pessoas de pedaços diferentes, ou alguém em trânsito
por um pedaço que não o seu, são muito cautelosas:
o conflito, a hostilidade estão sempre latentes, pois todo lugar
fora do pedaço é aquela parte desconhecida do mapa e, portanto,
do perigo (MAGNANI, 2008, p.32)
Os pedaços frequentados por
imigrantes brasileiros em Londres seguem a mesma lógica dos pedaços
instituídos nos centros das grandes metrópoles brasileiras,
ou seja: as redes de sociabilidade não são firmadas essencialmente
através das relações familiares ou de vizinhança.
Estes pedaços estão presentes em diferentes espaços
urbanos da capital inglesa e podem ser caracterizados como sendo restritos
ou abertos ao público.
No primeiro caso, o dos restritos,
temos como exemplo os churrascos de final de semana, os jogos de cartas
acompanhados de cerveja na casa de “algum conhecido” ou de “um conterrâneo”
e as “peladas” em determinados parques públicos londrinos. A maneira
com que tais atividades são organizadas entre os frequentadores
segue, basicamente, a mesma ideia: Durante a semana são trocadas,
constantemente, mensagens de texto por celulares para saber em que dia
a maioria terá um off em comum e, assim, poderá se reunir.
Em muitos casos, como a reunião de todos é difícil,
o grupo programa o evento algumas semanas antes, para dar tempo a todos
de organizarem, antecipadamente, suas respectivas escalas de trabalho de
forma a ter o dia de folga em comum.
No segundo caso, os pedaços
abertos ao público são compostos, basicamente, por bares,
clubes de danças, restaurantes e encontros de grupos religiosos.
Esses são locais que têm abertura ao público em geral.
Contudo, a principal clientela é composta por brasileiros e, assim
como os pedaços de caráter restritos, tem em comum o fato
de serem locais que promovem práticas culturais brasileiras. Estes
espaços são, também, importantes categorias de reflexão
acerca da composição do cotidiano do imigrante e de sua identidade,
pois auxilia a eliminação de uma possível visão
estereotipada deste indivíduo enquanto ser que elabora sua identidade,
essencialmente, em torno do trabalho.
Como se pode ver, os momentos de
lazer não podem ser considerados apenas por seu lado instrumental,
passivo e individualizado – reposição das energias gastas
no processo produtivo. Isto porque, como a análise da categoria
pedaço permitiu verificar, existe um componente afirmativo referido
ao estabelecimento e reforço de laços de sociabilidade, desde
o núcleo familiar até o círculo mais amplo que envolve
amigos, colegas, “chegados” (no âmbito do pedaço) e desconhecidos
(fora do pedaço) (MAGNANI, 2008, p.33).
Em outras palavras, os pedaços
garantem uma espécie de higiene mental, pois auxiliam o imigrante
a esquecer a rígida rotina do trabalho, além de – como algumas
entrevistas evidenciaram – esquecer sua condição de imigrante.
E, assim, passar um tempo junto de amigos e “camaradas” que compartilham
situações similares, trabalham ou trabalharam juntos por
um tempo, são provenientes da mesma cidade ou, de alguma forma,
“deram uma mão” no início. É a oportunidade de afrouxar
as relações impostas no dia-a-dia e sociabilizar-se enquanto
brasileiro.
Gustavo: E como foi o seu
final de semana?
E.O.: Foi muito bom. Eu estava
de off e no sábado à noite, depois do trabalho, fui no Barracuda.
[...]
Gustavo. Você foi sozinha?
E.O.: Fui com o meu namorado
e encontramos uns amigos nossos. Só casais.
Gustavo: E por que vocês
gostam de ir lá?
E.O.: É muito bom
pra dançar a noite toda; a gente pode ir toda produzida e maquiada.
Gustavo: E como é
o pessoal que vai lá?
E.O.: A maioria é
brasileiro; mas tem gente de todas as raças.
Por meio do que foi apresentado acima,
é possível notar que o lazer, para o imigrante brasileiro,
não está ligado, essencialmente, ao desfrute da cultura inglesa
ou da cultura universal que a cidade oferece através de museus,
galerias, monumentos históricos e pontos turísticos. Esses
tipos de espaços são requeridos pelo turista que vem com
este objetivo estrito. Em conversas realizadas com imigrantes é
perceptível que, em alguns casos e, sobretudo nos primeiros meses,
o imigrante busca estes espaços enquanto ainda se vê como
turista e a elaboração do cotidiano imigratório não
foi realizada por completo. Entretanto, na medida em que o tempo passa
e sua identidade de imigrante vai cada vez mais ficando intrínseca
por meio das práticas cotidianas apresentadas acima, seus hábitos
também mudam. A busca por lazer passa a ser uma possibilidade de
resgatar o que ficou para trás; o que foi deixado em seu país
de origem e que, de alguma forma, ajuda a amenizar as saudades.
Quando o imigrante decide que é
hora de regressar ao Brasil e retomar sua vida, ele passa a afrouxar os
laços com a comunidades brasileira e, aos poucos, as obrigações
rotineiras que ele vem tendo, constantemente, em Londres. Dessa forma,
passa a comprar vestuário e calçados para levar para o Brasil,
aparelhos eletrônicos e presentes para familiares e amigos mais próximos
e procura visitar os pontos turísticos da capital inglesa, voltando
à condição inicial. Como revela J.G.P., em entrevista:
Gustavo: E como estão
os preparativos para retornar ao Brasil?
J.G.P.: Falta pouco; menos
de dois meses. Eu tô comprando as coisas aos poucos. A mala que eu
vou levar para o Brasil já tá debaixo de uma mesinha, lá
no meu quarto, toda montada.
Gustavo: Montada? Como assim?
J.G.P.: Já comprei
as camisas que eu quero levar, umas camisas de futebol, três pares
de tênis e mais algumas coisas. Sabe, moço, fiquei ralando
na London por três anos e meio e agora no final não vou curtir?
Pode parecer besteira, mas sempre tive o sonho de ter camisa de futebol.
Se eu não aproveitar agora, quando é que eu aproveito?
[...]
Gustavo: E o que você
tem feito nos seus dias de off?
J.G.P.: Comprei uma máquina
digital e tô aproveitando pra ir nos museus, nos lugares famosos
da cidade que eu ainda não fui.
Gustavo: Quais, por exemplo?
J.G.P.: Imagina: tô
aqui há mais de três anos e meio e não conhecia o Big
Ben. Não tinha dado uma volta de barco no Tâmisa. Fui tirar
umas fotos de Picadilly e dos parques perto de casa.
Uma visão atenta aos dos espaços
sociais frequentados pelos imigrantes brasileiros mostra-nos que, apesar
deles viverem e participarem socialmente na capital inglesa, a apropriação
espacial que fazem deste território atende às suas necessidades
básicas e por isso, é muitas vezes, funcional. As fronteiras
entre a casa e a rua (e os pedaços) são claras para o imigrante
e ele dificilmente procura avançar além delas. Dado ao fato
de que, caso ele saia dos espaços em que se sente em segurança
e onde tem conhecimento suficiente para se mover é inevitável
o contato com o outro ou os outros.
Os trajetos
Os caminhos que ligam os locais frequentados
compreendem os trajetos. No caso do objeto de pesquisa apresentado neste
artigo, os trajetos ligam os diferentes, porém limitados, espaços
sociais que os imigrantes percorrem, diariamente, em Londres. Abrem os
espaços da casa, do trabalho e dos pedaços para o âmbito
público de forma a oferecer segurança ao imigrante sem a
sensação de constrangimento.
O termo trajeto surgiu da
necessidade de categorizar uma forma de uso do espaço que se diferencia,
em primeiro lugar, daquele descrito pela categoria pedaço. Enquanto
esta, como foi visto, remete a um território que funciona como ponto
de referência – e, no caso da vida no bairro, evoca a permanência
de laços de família, de vizinhança, origem e outros
– trajeto aplica-se a fluxos no espaço mais abrangente da cidade
e no interior das manchas urbanas. Não que não se possa reconhecer
sua ocorrência no bairro, mas é justamente para pensar a abertura
do particularismo do pedaço que esta categoria foi elaborada. É
a extensão e principalmente a diversidade do espaço urbano
para além do bairro que colocam a necessidade de deslocamentos por
regiões distantes e não contíguas: esta é uma
primeira aplicação da categoria: na paisagem mais ampla e
diversificada da cidade, trajetos ligam pontos (...) (MAGNANI,
2008, p.43)
Os trajetos são fluxos que
vêm sendo elaboradas constantemente pela rede imigratória
brasileira ao longo dos anos, transmitidos oralmente e mais tarde readaptados
pelos novos integrantes e, por isso, dotados de sentido e orientação
especificamente para aqueles que o utilizam. E que “ao circunscrever pontos
socialmente reconhecidos como relevantes na dinâmica urbana, servem
de referência para as atividades que compõem o cotidiano”
(MAGNANI, 2008). Usualmente, é possível ver imigrantes que
estão a mais tempo na cidade guiando algum novato que acabou de
chegar. Esse é o caso de E.O., que tem vivido em Londres há
aproximadamente 3 anos e, recentemente, tem ajudado sua irmã, recém-chegada,
a se locomover pela cidade.
E.O.: Direto ela
me liga pra pedir informação de ônibus ou metrô
e às vezes eu ligo pra ela, pra saber se ela esta perdida ou não.
Gustavo : Mas ela já
esta indo para o trabalho sozinha?
E.O.: Sim; nas primeiras
semanas eu saía mais cedo de casa pra levar ela até lá.
Agora ela pega a Picadilly e os ônibus certos sozinha.
Dessa forma, esses caminhos compõem
um outro elemento na elaboração da identidade do migrante,
que merece ser refletido de forma cautelosa. Apesar de parecerem óbvios,
eles ajudam na compreensão das demarcações fronteiriças
realizadas pelo migrante na cidade e na elaboração do cotidiano
do mesmo, uma vez que estes caminhos são percorridos diariamente.
Os trajetos são realizados
com o uso do transporte público londrino. Este sistema de transporte
é constituído, basicamente, pelos ônibus e pelo metrô
e ambos têm a capacidade de cobrir toda Londres. O que possibilita
ao migrante brasileiro se locomover com facilidade para qualquer ponto
que deseje.
Em geral, o imigrante brasileiro,
sobretudo o novato, opta pelo uso do ônibus, pois além de
ser mais barato e possibilitar a locomoção sem restrições
por todas as zonas da cidade é, também, considerado pelo
grupo como mais seguro do que o uso do metrô, no qual constantemente
há fiscalização nas catracas de entrada e saída
junto às estações, checando documentos. Algo
que, segundo eles, não ocorre nos ônibus.
Já o metrô é
costumeiramente utilizado por aqueles que estão na cidade há
mais tempo. Seja porque seu trabalho disponibilize uma renda que lhe permita
gastar mais com o uso deste tipo de transporte, seja porque o cotidiano
e o dia-a-dia fazem com que alguns tabus iniciais sejam superados e a necessidade
de se locomover de forma mais rápida seja vista como fator de primeira
ordem.
Dentre suas qualidades estaria o
fato do imigrante ter uma noção completa dos espaços
dentro da cidade, pois ele pode se locomover com o auxilio dos inúmeros
mapas da malha metroviária londrina que estão fixados nas
estações de metrô ou com pequenas cópias que
podem ser pegas gratuitamente na entrada de cada estação.
Isso faz com que, em muitas situações, o uso do metrô
seja visto como de emergência para alguma eventualidade, enquanto
o do ônibus para algo rotineiro, caso daqueles que se valem basicamente
do ônibus.
Conclusão
Por meio da apropriação
interpretativa que o migrante brasileiro faz de Londres e da elaboração
de espaços sociais particulares do grupo, pode-se perceber como
o diálogo desenvolvido entre cenário e atores (MAGNANI, 2008)
gera um cotidiano responsável por elaborar, diariamente, a identidade
do próprio imigrante. Entretanto, não se trata de um contato
realizado apenas com o cenário, mas com o outro ou os outros atores
que também circulam por este cenário. No caso, os próprios
ingleses e demais imigrantes de variadas nacionalidadesque, como os brasileiros,
buscam seus objetivos.
A elaboração desta
identidade tem início no espaço privado da Casa, mesmo que,
muitas vezes, ela seja estranha e não lembre em nada o “cantinho”
deixado no Brasil. Ainda assim, é o local onde o imigrante pode
encontrar os seus. Na Casa as práticas sociais prevalecem e os moradores
seguem uma espécie de hierarquia interna, pautada no capital cultural
dos moradores que estão há mais tempo em Londres. Estes imigrantes
serão os responsáveis por apresentar o cenário e o
script aos novatos.
Como foi demonstrado, outro importante
elemento na composição identitária do imigrante é
o espaço público da Rua. Diferentemente da Casa, o estranhamento
da Rua não se limita à arquitetura, mas às regras
sociais e pela vasta multidão de estranhos que circula, diariamente,
por suas vias. Trata-se do campo onde a hierarquia regrada pelo “você
sabe com quem esta falando?” (DA MATTA,1991) se
dissolve e os jogos diários das perdas e ganhos são
realizados. Aqui o recém-chegado deverá aprender a se locomover
pelos trajetos conhecidos e interpretar seus códigos sociais o mais
breve possível para poder começar a trabalhar e enviar, regularmente,
dinheiro ao Brasil. Todavia, foi demonstrado que este imigrante não
é um individuo confinado ao trabalho. Pelo contrário, através
dos mais variados espaços de lazer criados sob a ótica da
sua cultura, o migrante também interage com a cidade e cria os seus
pedaços. Áreas onde ele terá a oportunidade de relaxar
e, através de atividades lúdicas, esquecer a pesada rotina
do dia-a-dia, descontraindo-se em meio aos demais brasileiros, sonhando
com o dia do retorno e, assim, revigorando o seu ânimo para o próximo
dia.
Notas
Mestre em Antropologia pela Universidade
Federal de São Carlos. Membro do GEB - Grupo de Estudo sobre Brasileiros
no Reino Unido, situado em Londres.
Dentre
os grupos que compreendem a categoria imigrante brasileiro em Londres,
é possível dizer que eles são subdivididos em dois
grupos: os portadores do entry clearence e os não portadores.
No primeiro subgrupo estariam inclusos os estudantes com visto de Student,
o trabalhador com visto de Work Permit e o dependente de cidadão
europeu pertencente à Área Econômica Europeia, que
porta o visto European Economic Area. Salvo suas particularidades,
que não vêm ao caso aqui, este subgrupo tem em comum a possibilidade
do exercício de atividade remunerada (no caso do estudante, a permissão
é de apenas 20 horas semanais), o uso dos serviços de Saúde
Pública (NHS) e o visto pode ser prorrogado. Já no segundo
subgrupo estariam incluídos os portadores do visto de turista e
os estudantes com o visto de Student Visitor (cursos com duração
de até seis meses). A estes não é permitido o exercício
de atividade remunerada; o uso do NHS é permitido apenas em
casos emergenciais, como acidentes nos quais haja risco de vida, e não
é autorizada a prorrogação do visto. Em geral, o imigrante
ilegal se encaixa neste subgrupo, pois estas são consideradas
as categorias de vistos mais baratas e rápidas a serem aplicadas
e não exigem tanta documentação quanto os demais tipos
de vistos exigem.
O
aparelho telefone celular é um dos primeiros e principais bens adquiridos
pelo imigrante que chega a Londres. Será através deste meio
de comunicação que ele poderá fazer contato com os
familiares que estão no Brasil e estará acessível
na rede migratória brasileira na cidade. A manutenção
da linha pode ser feita através de contratos anuais, pelos quais
o assinante deve pagar um valor mínimo mensal ou, então,
pela compra de créditos para o aparelho telefônico. Ele o
recarrega sempre que o crédito acabar. Para quem depende do uso
do celular para fazer ligações para o Brasil, o valor da
manutenção é sempre muito alto. Além disso,
este aparelho telefônico é essencial para o imigrante tornar-se
acessível para vagas de emprego que circulam informalmente pela
rede, trocar informações sobre a cotação do
Real nas casas de câmbio espalhadas por Londres, manter o contato
dos mais “chegados”, organizar encontros e mesmo solicitar ajuda. Conforme
H.F.M. e M.G. demonstraram em entrevista, muitos contatos de brasileiros
que eles têm na agenda do aparelho telefônico nunca foram usados
ou sequer conhecem a pessoa. São contatos transmitidos por terceiros
e que por estarem a mais tempo em Londres ou serem aptos para arrumar empregos
são considerados úteis num futuro incerto.
A
prática do empréstimo linguístico é algo recorrente
por parte do migrante brasileiro em Londres. Basicamente, palavras da língua
inglesa que fazem parte de seu cotidiano são incorporadas à
fala e, em alguns casos, readaptadas em forma de adjetivos, advérbios
e até verbos, segundo as regras gramaticais portuguesas. É
o caso da palavra off – que tem o sentido “estar de folga”. É
comum ouvir-se frases do tipo: “hoje estou de off”; “quando
você tem offs nesta semana?”
Webgrafia
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