Antropologia & Consumo: diálogos
entre Brasil e Argentina.
Débora Krische Leitão,
Diana Nogueira de Oliveira Lima & Rosana Pinheiro Machado (organizadoras)
Editora Age.
2008, 211 p.
A obra Antropologia & Consumo,
organizada por três antropólogas que realizam trabalhos na
área do consumo, resulta do simpósio Consumo e Construção
de Sujeitos e Bens no Mundo Contemporâneo, realizado no Primeiro
Congresso Latino-Americano de Antropologia, em Rosário, Argentina,
em 2005. A seleção dos textos e os assuntos abordados apresentam
o consumo sob vários aspectos, mostrando o quanto tema é
abrangente e como permeia a vida dos sujeitos inseridos numa sociedade
urbana contemporânea.
Os trabalhos reunidos neste livro
nos mostram como as questões do consumo se entranham na cultura
brasileira, na cidadania, na saúde, nos diferentes estratos sociais
e como mobiliza a formação, transformação e
consolidação de identidades. As diferentes origens teórico-conceituais
e experiências de campo dos quinze autores, brasileiros e argentinos,
resultam em uma obra rica, de temáticas diversificadas e surpreendentes.
Os artigos denotam amadurecimento teórico, densidade etnográfica,
características que fazem com que o leitor compreenda,
através dos textos, de que modo discussões acadêmicas
de ponta sobre consumo e as práticas investigadas se imbricam.
O livro está dividido em cinco
capítulos. O capitulo I, Consumo e Cultura Brasileira, traz dois
interessantes artigos que abordam o assunto de maneira inusitada. Com o
sugestivo titulo de O Luxo do povo e o povo do luxo: consumo e valor
em diferentes esferas sociais no Brasil, as autoras Krische Leitão
e Pinheiro Machado, tendo como origem duas etnografias aparentemente opostas,
investigam o significado da “pirataria” de marcas e griffes de luxo - símbolos
de status e poder.E, em contrapartida, a apropriação de itens
da cultura popular por profissionais da moda, questionando a democratização
das práticas de consumo num país que, segundo as autoras,
se pensa híbrido, cordial e aberto à fluidez e à permeabilidade.
No segundo artigo Mais feijoada e samba: notas sobre a cultura negra
brasileira, Rezende Gonçalves e Alves Ribeiro discorrem com
ineditismo sobre a questão debatida e polêmica da cultura
negra e da cultura brasileira - os limites tênues e inconstantes
de ambas - problematizando o assunto por meio da feijoada e do samba, trazendo
à tona e pondo em xeque algumas certezas sobre como o local e o
global se engendram mutua e continuamente em suas historicidades.
Já no capitulo II, Consumo
e Cidadania na Argentina, Ana Wortman, em seu artigo Sociedade civil
na Argentina pós-crise: a conformação de uma esfera
pública paralela, nos oferece uma excelente análise das
complexas e invisíveis conexões da nova conformação
cultural que emerge na Argentina (denominada por ela de esfera pública
paralela), por meio de determinadas práticas e campos culturais
– cinema, música e teatro. De maneira diversa, Pina e Arribas, atentas
ao atual momento argentino, refletem sobre o significado e as perspectivas
de uma categoria emergente: o cidadão consumidor. No texto O
cidadão consumidor: o nascimento de uma nova categoria, as autoras
versam sobre a intersecção das categorias consumidor e cidadão
e como elas propiciam o consumo mais consciente, por meio da abertura de
novos espaços reivindicatórios, consequência da implementação
do Código de Defesa do Consumidor.
O tema Consumo e Saúde, do
terceiro capítulo, prima pela singularidade com que é tratado
pelos autores. O primeiro artigo o aborda por meio de uma etnografia sobre
o consumo de imagens fetais numa clínica de ultrassonografia, descrito
e analisado brilhantemente pela antropóloga Lílian Chazan.
No segundo artigo, Rogério Lopez Azize instaura a discussão
sobre os “medicamentos do bem-estar” e “da autoestima”, como são
designados os fármacos Prozac, Viagra e Xenical, trabalhando com
reportagens, discursos de usuários e de médicos que conceberam
o uso desses medicamentos com estilo de vida, ressemantizando a dualidade
saúde-doença.
O capítulo IV, Consumo e Classe
Social, propõe-se a retratar o significado do consumo em esferas
sociais opostas. O artigo de Sergio Castilho pondera sobre o consumo das
classes ditas populares mostrando que, em vez de ser excludente, este é
um fator de inclusão e pertencimento dos indivíduos estudados
na sociedade envolvente, definindo identidades e dando a conhecer sua visão
de mundo. O artigo apresenta dados e conclusões interessantes ainda
que, por vezes, exagere no uso de estatísticas.
Ao ler o artigo de Patrícia
Gomensoro, somos arremessados para o lado oposto dessa dimensão
social. Etnografando um grupo de degustadores de vinho, Gomensoro, nos
dá a conhecer até que ponto o exercício da degustação
se torna um emblema que separa os connaisseurs, com “percepção
esclarecida”, das pessoas comuns: é Bourdieu na prática.
Fechando a obra, o capítulo
Consumo e Identidades Jovens, como o próprio título aponta,
discute dimensões simbólicas de práticas dos jovens,
relacionadas ao consumo musical em Buenos Aires e ao vestuário na
cidade do Rio de Janeiro. A antropóloga argentina Cecília
Benedeti traz à baila uma detalhada discussão sobre de que
modo o rock argentino contemporâneo pode ser pensado como
bem de consumo cultural e como espaço de sociabilidade. Ela também
trata da ressignificação dos valores nesse campo, mostrando
como alguns sinais delimitam a identidade dita roqueira em certos grupos
de jovens urbanos de Buenos Aires.
Abordando o tema dos estilos de vida,
Marcela Pias Andrade percorre centros culturais em determinados bairros
da capital portenha onde investiga e caracteriza as práticas de
consumo cultural desenvolvidas por grupos de jovens de estratos sociais
médios. Ela analisa como estas práticas delimitam contornos
de gosto, hábitos e estilos de vida.
Cidade maravilhosa, morros cariocas,
música funk e seus figurinos são elementos da temática
escolhida por Mylene Mizrahi que etnografa um grupo de jovens participantes
de bailes funk dos morros do Rio. A autora mostra como estes
elementos se imbricam para construir uma identidade jovem urbana por ela
denominada de “identidade funqueira”. A novidade introduzida pela
autora no artigo reside em sublinhar a importância da análise
das características materiais dos objetos, algumas vezes deixadas
de lado ao empreendemos estudos sobre os significados simbólicos.
Eis a questão: por que ler
o livro? Porque nesta coletânea de artigos teórico-práticos,
muito bem fundamentados, seus autores resgatam, pelo estudo de inusitadas
(e, ao mesmo tempo, triviais) práticas de consumo, a alteridade,
a diversidade e a produção de significados, demarcando a
perspectiva cultural da construção dos grupos e dos indivíduos
investigados; e ligando-os ao aspecto relacional desta construção.
Assim, a obra captura os modelos alternativos, as possibilidades de inclusão,
a negociação entre os sujeitos, a ressemantização
e a cidadania que o consumo adquire na sociedade contemporânea.
Mestre em Antropologia Social
pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Docente do curso de Design
de Moda do Centro Universitário Metodista do IPA da Rede Metodista
de Educação do Sul.