Apresentação
O pensamento e a obra de Eunice
Ribeiro Durham, professora titular. atualmente aposentada, da Universidade de São Paulo,
constituem referenciais obrigatórios no ensino e na pesquisa em
antropologia no Brasil; principalmente na área de antropologia urbana.
Da sala de aula ao campo, atuando, paralelamente, em instituições
científicas e públicas como ABA, ANPOCS, CONDEPHAAT, CAPES,
SBPC e Ministério da Educação, tanto desenvolveu trabalho
investigativo acadêmico quanto atuou na área das políticas
públicas educacionais para o ensino superior. Nesta entrevista,
Eunice Durham fala, inicialmente, de sua adolescência, da escolha
da carreira de antropologia, dos anos de formação e do período
em que foi assistente voluntária na Universidade de São Paulo.
Conta como, logo em sua primeira experiência de trabalho de campo,
com meeiros convertidos ao Adventismo da Promessa, em Minas Gerais, os
temas da família e do parentesco permearam a pesquisa. Estes temas
tornaram-se centrais em suas investigações sobre imigração
italiana, migrantes nacionais e periferias urbanas, bem como nos trabalhos
de alguns de seus orientandos. Suas pesquisas privilegiaram populações
em processo de adaptação a novas formas de inserção
social e política, em uma sociedade urbanizada e industrializada.
Alocada no departamento de Ciência Política no período
imediatamente posterior à Reforma Universitária, Eunice Durham
desenvolveu, durante as décadas de 1970 e 1980, junto com Ruth Cardoso,
um programa de pesquisas com populações urbanas, dando ênfase
aos movimentos sociais emergentes e às relações entre
cultura e política. Utilizando a categoria “classes populares”,
num momento em que as ciências sociais da USP estavam sob forte influência
do marxismo, Eunice e Ruth orientaram pesquisas sobre temas, grupos e categorias
sociais – como relações de vizinhança, lazer, sexualidade,
religião, classes médias, entre outros - que dificilmente
poderiam ser analisados a partir dos conceitos marxistas de alienação,
luta de classes, burguesia e proletariado. Outro marco foi a crítica
ao conceito de ideologia.
A trajetória intelectual
de Eunice Durham segue paralelamente a uma parte expressiva da história
da antropologia no Brasil. De sua larga experiência teórica
extraímos uma visão ampliada pelo diálogo constante
entre antropologia, sociologia, ciência política, história
e até com a biologia. Em seu senso de responsabilidade social, principalmente
em relação à análise de nosso sistema educacional,
buscamos inspiração como antropólogos e cidadãos.
Lilian de
Lucca Torres
:
Em que cidade a sra. nasceu e foi criada? Onde estudou até o segundo
grau?
Eunice Durham: Nasci em Limeira, mas minha família era
de Descalvado. Vim para São Paulo com três anos de idade,
de modo que nem sequer conheço Limeira. Estudei, inicialmente, em
Grupo Escolar. Quando me formei, não tinha onze anos completos e
não podia entrar no Ginásio. Havia um quinto ano na Escola
Caetano de Campos. Prestei um “vestibulinho”, entrei, fiz o quinto ano
e, depois, a primeira e a segunda séries do ginásio. Nesta
época, meu pai era professor do Colégio Rio Branco, onde
lecionava História. Após uma alteração radical
ocorrida lá, os filhos de professores passaram a receber bolsa de
estudos. Meu pai avaliou que o Rio Branco era um colégio mais moderno
e a Caetano de Campos, uma escola muito tradicional. Passei, então,
para o Rio Branco, entrando na terceira série do Ginásio.
Estudei lá até o final do Colegial, tendo optado pelo científico.
Tive professores excelentes e havia muita liberdade na vida estudantil,
muitos bailes e campeonatos esportivos, mas nenhuma atividade política.
Politizei-me muito mais tarde.
:
Como se deu a escolha pela carreira de Antropologia?
Eunice Durham:
Escolher a carreira foi difícil. Sabia que não queria ser
professora; mas havia muitas coisas que pensava em fazer, como Arquitetura,
História, Matemática e Agronomia. Não podia
fazer Arquitetura, porque havia uma prova de desenho livre e nunca havia
estudado desenho. Fiquei com medo desta prova. Agronomia seria difícil,
pois teria que morar em Piracicaba e ficaria muito caro para meu pai. Restavam
Matemática e História. Fui discutir com meu pai o que escolher.
Naquela época, ele era professor da Faculdade de Filosofia
e aconselhou-me a fazer Ciências Sociais. Argumentou que era
um curso muito versátil, em que estudaria Matemática, Estatística,
História, Geografia, além de Economia, Sociologia e Antropologia.
Além disso, se resolvesse ser professora, teria emprego garantido,
dando aulas de Sociologia na Escola Normal. Gostei da versatilidade
do curso, mas continuava firme em meu propósito de não dar
aulas. Mas meu pai era uma pessoa muito sábia. Disse-me que advogados
e médicos lidavam com pessoas cheias de problemas e muito sofridas,
não tendo a vantagem do docente, que lida o tempo inteiro com jovens
alegres, com um amplo futuro pela frente, em um convívio muito inspirador.
Então me convenci que o magistério seria uma carreira possível.
Resolvi fazer Ciências Sociais. Nas Ciências Sociais, apaixonei-me
pela Antropologia.
:
A senhora leu Malinowski no Colégio, não?
Eunice Durham:
Li, sim. Meu pai tinha uma boa biblioteca em casa. Tinha um livro do Malinowski.
Lia tudo que passava pela minha mão. Fiquei encantada com Malinowski.
:
"Os Argonautas"?
Eunice Durham: Não. "A Vida Sexual dos Selvagens".
Com 15 anos, tudo que queria era uma informação antropológica
sobre o sexo. Também já tinha lido muito sobre evolução.
Evolução era uma matéria da Antropologia daquele tempo
e isto foi um dos atrativos que me levaram a fazer Ciências Sociais.
:
Passemos, então, para sua formação na antiga Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na Rua Maria Antônia,
no início dos anos 50 (1951-54). Gostaríamos de destacar
a dupla herança dessa formação: de um lado, a incorporação
das perspectivas da etnografia clássica – pensando, principalmente,
em Malinowski, mas sem esquecer a importante tradição dos
“estudos de comunidade” – e, de outro, a orientação teórica
provida pela cadeira de sociologia comandada por Florestan Fernandes. Ressalte
como estas perspectivas afastaram-na dos estudos de “aculturação”
e “assimilação”, que também derivavam do funcionalismo
e davam a tônica à cadeira de antropologia naquele momento
na USP. Para os objetivos desta entrevista é importante recuperar
sua trajetória inicial como pesquisadora no Catulé (Minas
Gerais) e, inclusive, o início de sua carreira de docente na USP.
Eunice
Durham: Creio que você leu bem a introdução do
meu livro "A Dinâmica da Cultura". No livro, explico melhor como
foi este começo, mas posso elaborar um pouco sobre este período.
Começarei com a formação inicial e passarei depois
à carreira. O curso de Ciências Sociais, na minha época,
era muito eclético, mas o Funcionalismo
constituía uma abordagem comum à Sociologia e à Antropologia.
Na Sociologia, autores como Durkheim, Weber e Talcott
Parsons eram importantes, assim como toda a Sociologia francesa.
O tema central da Sociologia era o da estratificação social,
o que incluía a questão da estrutura das classes. Mas Marx
não havia ainda atingido legitimidade acadêmica. Na Antropologia,
o conceito de cultura era central, mas incluía também
a economia e a organização social dos povos primitivos. Estudávamos,
também, toda a história da Antropologia, incluindo as diversas
posições teórico-metodológicas: o Evolucionismo
(físico e cultural), o Difusionismo, o Culturalismo americano e
o Funcionalismo inglês nas duas versões - a Cultural de Malinowski
e a Social de Radcliffe Brown. O objeto central eram os “povos primitivos”.
Em termos de pesquisa, dominavam os estudos de comunidade tanto entre sociólogos
como entre antropólogos. Nesta área, o Funcionalismo era
dominante como método de pesquisa de campo, na orientação
malinowskiana, que incluía a observação participante,
a inter-relação entre os diferentes aspectos ou dimensões
da cultura e o relativismo cultural. Nesta linha, houve uma grande influência
do sociólogo Donald
Pierson, que orientava pesquisas de mestrado na Escola de Sociologia
e Política de São Paulo (não havia ainda mestrado
na USP) e organizou um amplo programa de estudos de comunidade no Brasil
todo, com a colaboração de antropólogo Charles
Wagley, ambos americanos. Estes trabalhos foram muito importantes
porque construíram um grande acervo de conhecimentos sobre a sociedade
brasileira tradicional, que ainda estava viva. Na mesma escola, Herbert
Baldus orientava mestrados em etnologia. Na USP, antes de [Egon]
Schaden,
Emílio
Willems seguia a mesma orientação. Willems estudou
Cunha
e, com Gioconda
Mussolini, as comunidades caiçaras. Antonio
Cândido estudou a comunidade caipira de Bofete, Oracy
Nogueira pesquisou Itapetininga, Azis
Simão fez um trabalho sobre Itanhaém. O Funcionalismo
era utilizado com muita liberdade. Boa parte dos estudos de comunidade
estava voltada para a análise das mudanças socioculturais
em curso, utilizando conceitos como aculturação, assimilação,
mobilidade social e integração, incluindo análises
históricas e de conflitos. Não havia uma aplicação
rígida do conceito de Cultura nem uma metodologia centrada no conceito
de Função. A exceção foi Florestan
Fernandes, que fez trabalhos teóricos sobre o Funcionalismo.
O primeiro foi “A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá”
(sua dissertação de mestrado) e o segundo, “O Método
de Interpretação Funcionalista na Sociologia”. Além
dos estudos de comunidade, havia um outro tema comum a antropólogos
e sociólogos: os estudos sobre o negro, o preconceito racial
e as religiões africanas.
:
E a influência de Florestan Fernandes?
Eunice Durham: O grande
estudo de Florestan e Roger
Bastide sobre o negro e o preconceito racial marcou, creio eu,
um ponto de inflexão. A partir desta época, Florestan e seus
assistentes passaram a voltar suas pesquisas não mais para comunidades
tradicionais, mas para os processos em curso na sociedade brasileira: passaram
da escravidão para o desenvolvimento do capitalismo, a urbanização,
a industrialização e a nova estrutura de classes em construção
no Brasil, com alguma influência do marxismo.
:
Como foi o início de sua carreira?
Eunice Durham: Naquele
tempo, a Faculdade não possuía departamentos. Havia catedráticos,
cada um dos quais contava com dois ou mais assistentes. Quando me formei,
o catedrático de Antropologia, o Prof. Egon Schaden, convidou-me
para ser Assistente. Foi uma honra que jamais havia esperado. Naquele tempo
convidava-se o assistente para ser voluntário. Trabalhava-se de
graça até surgir uma vaga. Trabalhei quatro anos como assistente
voluntária. Quando ingressei como Assistente voluntária,
existiam algumas recompensas. Naquela época, Emílio Willems,
que fora catedrático de Antropologia antes de Schaden, era professor
na Universidade de Wanderbilt nos Estados Unidos e conseguiu uma bolsa
para um estudante brasileiro. Schaden recomendou-me, de modo que passei
um ano lá. Depois que voltei, lecionei Sociologia na Escola Normal
de Descalvado. Descalvado era a cidade da
minha família, com uma forte tradição italiana. Schaden
já tinha decidido que eu ia fazer minha tese sobre este tema. Fiquei
lá seis meses e fiz toda a pesquisa de campo. No final do ano, Schaden
obteve, finalmente, tempo integral e indicou-me para assumir as aulas de
Antropologia que ele ministrava no Sedes Sapientae.
Voltei para São Paulo e retornei à minha função
de Assistente voluntária. Casei-me naquela época e fui morar
na Rua Maria Antonia, exatamente entre o Sedes e a Faculdade de Filosofia.
Foi um arranjo muito prático. Schaden havia então convidado
Ruth Corrêa Leite Cardoso para ser, também, Assistente. Assim,
passamos a ser três assistentes: duas voluntárias (eu e a
Ruth) e Gioconda. Trabalhávamos todas em uma mesma sala. Quando
obtivemos mais espaço, fiquei em uma sala com Ruth. Gioconda tinha
mais status e tinha uma sala separada. Foi uma época muito
interessante. No início, eu e Ruth dávamos só os seminários,
dividindo as turmas. Schaden ou Gioconda davam aulas. Depois começamos
a dar aulas. O trabalho didático, feito seriamente, é um
excelente aprendizado. Creio que aprendi mais Antropologia dando aula do
que fazendo pesquisa. Pesquisando você se aprofunda em uma coisa
só. Aulas, especialmente em cursos introdutórios, dos quais
sempre gostei, exigem um conhecimento do panorama geral. Estuda-se muito.
Naquele tempo, a Antropologia não era dada no primeiro, mas no segundo
e no terceiro anos e, como optativa, no quarto. Os cursos eram anuais.
Era preciso cobrir toda a Antropologia, aprofundar-se na parte teórica.
Não a parte teórica relativa à sua pesquisa, mas a
teoria geral e a história da Antropologia. Até Antropologia
Física, estudei. Foi uma época muito produtiva até
64.
:
E a Gioconda [Gioconda Mussolini]?
Eunice Durham: Gioconda era excepcional.
Orientava-se mais para a Antropologia cultural americana, de Boas e seus
discípulos. Tinha uma seriedade enorme e grande cultura antropológica.
Influenciou-me muito. Quando estava no terceiro ou quarto ano, Gioconda
falou uma coisa que me marcou para o resto da vida. Era para lermos, se
não me engano, “Padrões de Cultura”, de Ruth
Benedict, e uma das alunas da minha turma fez uma crítica
destrutiva. Gioconda ponderou, com ironia, que Ruth Benedict era uma pessoa
inteligente, que passara boa parte da vida estudando as questões
culturais e certamente tinha coisas interessantes a dizer para iniciantes
como nós. Finalizou dizendo que era preciso ler com seriedade e
respeitar a dignidade do autor. Era necessário conhecer antes de
criticar. Aquilo me marcou. Especialmente nas Ciências Humanas, os
alunos frequentemente aprendem a crítica antes de ler o autor e,
com a crítica pronta, às vezes nem sequer se preocupam
em ler as obras originais. Quantas vezes ouvi alunos dizerem que não
adiantava ler Durkheim, porque era um positivista, sem que soubessem bem
nem o que era positivismo nem o que era positivista em Durkheim. Isto é
uma crítica preconceituosa. É preciso levar em conta que
os autores podem ser mais importantes pelos problemas que levantam do que
pelas soluções que propõem. Isto é crucial
nas Ciências Sociais. Aprendi isto em grande parte com Gioconda.
:
Fale um pouco sobre sua pesquisa no Catulé
e em Descalvado.
Eunice
Durham: Minha primeira pesquisa de campo foi sobre o Catulé.
Foi logo após minha formatura; antes de eu ir para os Estados Unidos.
Ainda como estudante, trabalhava como Auxiliar de Pesquisa para um antropólogo
italiano,
Carlo
Castaldi, que estava estudando a colônia italiana num
bairro paulista. Nessa época, houve um grande noticiário
na imprensa sobre um grupo de meeiros em Minas Gerais que havia se convertido
ao Adventismo e entre os quais eclodira um movimento fanático, que
enveredara para o exorcismo de crianças e adultos considerados possuídos
pelo demônio. Disso resultaram diversas mortes. Paulo
Duarte, então diretor da Revista Anhembi, organizou uma
pesquisa para estudar in loco o fenômeno, contratando para
a tarefa um antropólogo, Carlo Castaldi, e uma psicóloga,
Carolina
Bori Fui como Auxiliar de Pesquisa. Carlo e Carolina, generosamente,
me convidaram para escrever um dos capítulos, no qual analisei o
processo de conversão à nova seita e a constituição
da comunidade dos crentes. Não parti exatamente do conceito de função;
parti de um problema. Perguntava, nas entrevistas, como tinham se convertido
e o que os atraíra na vida da comunidade. A interpretação
esteve centrada na estruturação subjacente da comunidade
em dois grupos de parentesco e no valor que eles atribuíam à
união que a comunidade havia criado. Na verdade, tratava-se de uma
transformação conservadora das formas tradicionais de constituição
de comunidades rurais. O estudo sobre migração italiana foi
orientado de acordo com uma metodologia e uma conceituação
vigentes na antropologia daquela época: as ideias de aculturação,
assimilação, ascensão e integração social.
Eram conceitos bastante razoáveis para se trabalhar com aquele material,
especialmente porque eu estava estudando um processo e não uma situação
atemporal. Entretanto, nas entrevistas surgia, permanentemente, o problema
da família. Não fui para Descalvado estudar a família
italiana, mas a família italiana entrou na minha pesquisa por conta
própria e permaneceu como tema de pesquisa durante muito tempo.
A família italiana era crucial à “acumulação
primitiva” que permitia a ascensão social dos imigrantes, a qual
era concomitante à assimilação. Da perspectiva cultural,
uma característica associada à ascensão social era
o valor que os italianos atribuíam ao trabalho. Havia um grande
preconceito contra os brasileiros, que, na visão dos italianos,
eram preguiçosos e não gostavam de trabalhar. Eles não;
eram trabalhadores, esforçavam-se. Acontece que os brasileiros vinham
de uma tradição escravocrata, na qual o trabalho denigre
as pessoas. Na verdade, naquele momento de introdução do
capitalismo no campo, com o abandono das velhas estruturas escravocratas,
a valorização do trabalho oferecia um diferencial para promover
a ascensão social dos italianos, ao passo que, para ex-escravos,
o importante era a liberdade, pois trabalho manual estava associado a trabalho
forçado. Florestan Fernandes também aponta isto no seu trabalho
sobre a integração do negro na sociedade de classes. Sempre
achei que a boa pesquisa é aquela que se faz para descobrir o que
não se sabe. Não gosto de pesquisas muito presas a hipóteses
pre-estabelecidas. Gosto mais daquelas em que se parte de hipóteses
muito gerais e no trabalho de campo ficamos permanentemente abertos para
temas e questões imprevistas. Acho muito mais interessante.
:
E sua pesquisa de Doutorado?
Eunice Durham: A pesquisa sobre a migração
rural urbana foi oferecida a mim por Darcy
Ribeiro. Ele estava compondo uma equipe para fazer um
grande trabalho sobre o Brasil e convidou-me para integrar a equipe, respondendo
pelo tema da migração rural-urbana. Tive muitas dúvidas,
na época, se aceitava ou não o convite. Era muita responsabilidade
para uma iniciante. Eu sequer havia, ainda, terminado o Mestrado. Mas se
tratava de um problema muito importante e acabei aceitando, tendo em vista
uma futura tese de Doutorado. Em 1960 já estava terminando o trabalho
de campo. Esta pesquisa estava sendo feita em várias capitais.
Um sociólogo inglês fazia o survey geral e, depois,
outros pesquisadores utilizavam esta amostra para trabalhar com problemas
particulares. Recuperei minha formação em Estatística.
Fiz a pesquisa em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte.
Depois parei um pouco para redigir a dissertação de Mestrado,
mas continuava com a pesquisa sobre a migração rural-urbana.
No final, concentrei-me em São Paulo e minha tese de Doutorado foi
feita sobre a migração para este estado. Então, naquele
tempo eu fazia duas coisas: escrevia o Mestrado e fazia a pesquisa do Doutorado.
Ruth
[Ruth Cardso] ajudou muito. Nunca gostei de trabalhar sozinha. Em grupo
podemos discutir os resultados, a metodologia e, sobretudo, as descobertas.
Esta pesquisa começou a casar um pouco com a anterior. Era tudo
migração: migração italiana, de um lado, depois
migração interna. Ruth fazia uma pesquisa sobre imigrantes
japoneses.
Em todos estes trabalhos, a família se revelava como crucial para
a compreensão do processo de mudança. Mesmo a pesquisa da
comunidade do Catulé, envolveu estes temas: o processo de migração
para a lavoura do algodão em São Paulo, o retorno a Minas
Gerais e grupos familiares em conflito. Castaldi analisou muito bem o problema.
Também nesta época, comecei a me identificar mais com a Antropologia
Social Britânica, mais próxima da Sociologia do que o Culturalismo
americano. Além de Malinowski, sempre tive uma enorme admiração
por Evans
Pritchard. Na década de 1960, teve início a influência
do Estruturalismo de Lévi-Strauss, que integrou nossas preocupações
teóricas.
:
E a faculdade após 1964?
Eunice
Durham: Após 64, com o golpe militar, a discussão mudou
muito. Em primeiro lugar, Ruth foi embora. Ela e Fernando Henrique exilaram-se
no Chile. Depois que Ruth saiu, fiquei trabalhando mais isoladamente. Terminei
o Mestrado em 1964 e retornei à pesquisa sobre a migração
rural-urbana para preparar a tese de Doutorado. Foi um período bastante
conturbado. Era difícil fazer tese naquele tempo. Em 64 houve um
inquérito militar na Faculdade de Filosofia e começaram as
perseguições políticas. O movimento estudantil se
radicalizou e uma visão marxista do mundo se tornou dominante. Os
estudantes exigiam, também, a reforma da Universidade. Em 68, os
estudantes tomaram a Faculdade e implantaram a proposta da gestão
paritária, inclusive nos cursos. Os estudantes deveriam definir,
junto com o professor, o programa dos cursos e o planejamento deveria ser
conjunto. Porém, a verdade é que os estudantes sabiam que
não queriam cursos impostos pelo professor, mas não sabiam
como definir e programar um novo. Os alunos não conheciam o suficiente
de Antropologia para definir que temas poderiam ser relevantes. Propus
que estudássemos a migração rural-urbana (já
que estava trabalhando com isso), argumentando que se tratava de problema
fundamental para a constituição da sociedade de classes,
juntamente com o processo de urbanização. “Vendi meu peixe”
com uma linguagem marxista e aceitaram. Porém, ninguém sabia
como começar. Então, delicadamente, sugeri a importância
de se conhecer a magnitude do problema: quantas pessoas saem, quantas chegam,
para onde vão, de onde vêm. Era preciso estudar o recenseamento.
Combinamos que eles iriam levantar os dados, mas não fizeram quase
nada. Acabei dando aula exatamente como fazia antes, mas “fizemos de conta”
que se tratava de um curso paritário. Talvez tenha sido uma maldade
minha. Não era uma época muito boa para alunos fazerem planejamento
acadêmico, nem pesquisa com recenseamentos, pois estavam “fazendo
a revolução”. E a Antropologia não era tão
revolucionária assim. Ou melhor, o era na visão de mundo
que propunha (o relativismo cultural foi uma revolução),
mas não tinha uma proposta de revolução política
e social para a nossa sociedade. Em 1968, Ruth tinha voltado da França.
O exílio deles foi, em parte, no Chile, mas quando Pinochet caiu,
foram para a França. Voltaram e Fernando prestou concurso para a
cátedra de Ciência Política. A Universidade estava
um caos. Fomos expulsos da Rua Maria Antonia e ficamos “acampados“ em uma
série de barracões na Cidade Universitária. Como estava
tudo tomado pelos estudantes, o vestibular estava desorganizado e havia
a ameaça de que ele não se realizasse. Fernando Henrique
dirigiu aquele vestibular. Elaboramos as provas, corrigimos tudo. Daí
veio outro golpe: o AI-5, acompanhado das cassações. Fernando
Henrique foi cassado, juntamente com Florestan Fernandes, Octávio
Ianni, [José Arthur] Giannotti, Bento Prado e muitos outros. A atividade
de pesquisa ficou bastante prejudicada; tanto que demorei muito para terminar
meu Doutorado. Os amigos sendo cassados, a Universidade ameaçada
de invasão policial, tudo criava um ambiente muito tenso. Tratava-se
de tentar proteger os estudantes, na medida do possível, e assegurar
um espaço de liberdade acadêmica nas aulas. Como tínhamos
aumentado muito o número de vagas nas Ciências Sociais, defendendo
a ampliação do acesso à Universidade, quadruplicamos
o número de alunos, mas ficamos sem professores. Não só
não houve aumento do número de docentes, como este diminuiu
com as cassações. Ruth e eu trabalhamos intensamente. Foi
uma época de modernização de currículo, de
organização da pós-graduação e de improvisações
na metodologia de ensino para dar conta d tarefa. É preciso lembrar
que, no final de 68, o governo militar promoveu a grande reforma universitária,
que modificou profundamente a estrutura da USP. As cátedras foram
substituídas por departamentos. A Faculdade de Filosofia Ciências
e Letras foi desmembrada: Física, Química, Matemática,
Biologia, Psicologia e Educação tomaram a iniciativa de se
transformarem em Institutos ou Escolas autônomas. Da velha Faculdade
permaneceram juntos, como departamentos, os antigos setores e cátedras
mais afetados pelas cassações: Ciências Sociais, História,
Filosofia e Geografia, ao lado de todo o setor de Letras, que havia sido
menos prejudicado. Pouco depois, eu e Ruth passamos para Ciência
Política. A Ciência Política havia ficado, durante
um tempo, reduzida a dois professores, [Domingos] Oliveiros e [Francisco]
Weffort, que não tinham sequer condições de dar conta
dos cursos obrigatórios. Acho que me fez muito bem ir para lá,
porque, às vezes, a Antropologia tem uma tendência de se fechar
muito em si própria e como trabalha simultaneamente com problemas
políticos, econômicos e sociais, uma formação
diversificada é importante. Na verdade, já tinha tido uma
boa base de formação diversificada na Graduação,
porque o curso de Ciências Sociais, naquele tempo, era muito mais
amplo do que é hoje. Isto facilitou a transferência.
:
E a formação na Pós-Graduação?
Eunice
Durham: Quanto a este ponto é preciso uma explicação
prévia. Naquele tempo só existia Doutorado em Antropologia
na USP. Havia o Mestrado da Escola de Sociologia e Política, que
estava em decadência, e o do Museu Nacional. Mas, com a Reforma Universitária
e a concomitante organização do sistema de Pós-Graduação,
os docentes de outras universidades tinham que fazer o Doutorado e só
nós o oferecíamos. Começou um grande afluxo de professores
de fora. Ruth atuou muito nesta área. Formou quase metade da geração
de antropólogos do Museu Nacional, inclusive orientando trabalhos
sobre os trabalhadores rurais do nordeste e a classe média do Rio
de Janeiro. Formamos, também, quase todo o pessoal de Campinas.
A maioria das pesquisas que orientamos tinha como objeto populações
urbanas.
:
A sra. afirmou, diversas vezes, que a ascendência do marxismo nas
Ciências Sociais da USP, no final dos anos 60, relegou a Antropologia
a uma posição marginal e os antropólogos a uma atitude
“esquizofrênica”, pois organizavam suas pesquisas dentro da tradição
do trabalho de campo funcionalista, porém iniciando e finalizando
suas dissertações e teses com abordagens e conceitos marxistas.
Eunice
Durham: De fato, o marxismo havia se tornado um símbolo e uma
marca de resistência ao autoritarismo; mas, naquele marxismo galopante,
a Antropologia fazia um contraponto. O marxismo nunca se deu bem com a
Antropologia, a não ser com a Antropologia evolucionista, como em
"As origens da família, da propriedade privada, do Estado", de Engels,
e o trabalho "Sobre o Modo de Produção Asiático",
de Marx. Mas, então, já ninguém, na Antropologia,
acreditava no antigo Evolucionismo. Mas “revolução” e “luta
de classes”... não eram conceitos explicativos para
os problemas com que trabalhávamos. Nossos “objetos de pesquisa”
- imigrantes, migrantes, bóias-frias, favelados - não eram
revolucionários e também não faziam parte nem da burguesia
nem do proletariado. Além disto, o relativismo cultural não
cabia na teoria marxista da história, a não ser na denúncia
do colonialismo. Mas não se tratava apenas disso. A adesão
irrestrita ao marxismo era, também, dificultada pela influência
de Lévi-Strauss, que foi muito importante neste período.
Quanto à questão da marginalização da Antropologia,
houve uma mudança importante a partir do final dos anos setenta.
A marginalização da Antropologia decorria do fato de que
sempre havíamos trabalhado com populações que eram
marginais na própria sociedade: grupos étnicos como índios,
negros, imigrantes estrangeiros, favelados e periferias urbanas, populações
rurais tradicionais, migrantes rurais, seitas religiosas, mulheres, empregadas
domésticas, homossexuais, mendigos, meninos de rua. Como já
disse, tratam-se de categorias sociais cuja posição é
difícil de definir na concepção marxista de classes
sociais. Com a vitória do governo militar sobre os grupos da esquerda
militante, os cientistas sociais se voltaram para esses grupos e categorias
sociais, utilizando conceitos como dominação e exploração,
que lhes permitiam fazer uma denúncia do capitalismo e da ditadura.
Mas o estudo destes grupos e categorias sociais tende a envolver a utilização
dos métodos de trabalho de campo desenvolvidos pelos funcionalistas.
Uma abordagem mais marxista envolveria a utilização do conceito
de alienação (já que estas categorias sociais não
tinham espírito revolucionário); mas este conceito raramente
foi utilizado, porque o trabalho de campo envolvia uma identificação
com os grupos estudados e uma valorização de sua atuação
– classificá-los como alienados seria desqualificá-los politicamente.
A esquizofrenia era geral. O que preservamos do marxismo, na Antropologia,
foram alguns conceitos-chave como modo de produção,
relações
de produção, infraestrutura,
ideologia
e capitalismo. Utilizamos também os conceitos
gramscianos
de hegemonia, senso comum e bom senso, que envolviam
diretamente fenômenos culturais. Além do mais, sempre trabalhamos
tendo como pano de fundo o desenvolvimento do capitalismo no Brasil.
:
Mas os temas escolhidos pelos orientandos não eram, de certo modo,
propícios a uma análise marxista?
Eunice Durham: Diria
que eram, antes, temas relacionados a posições da esquerda
política e que as análises nem sempre eram propriamente marxistas.
Mas havia, como já disse, o desenvolvimento capitalista como pano
de fundo. Continuamos voltados para o estudo de populações
“marginais”, os pobres e oprimidos, que tinham a simpatia das esquerdas
políticas, mas não constituíam uma classe social nem
eram revolucionários. Trabalhando na Ciência Política,
Ruth e eu demos maior ênfase do que se costumava aos temas políticos,
como movimentos sociais.
:
De todo modo, seus orientandos foram a campo. Por exemplo, Célia
de Carvalho Ferreira Penço, sua segunda orientanda de Mestrado,
que era professora de Escola Normal, colocou até os alunos dela
para fazerem levantamento de dados estatísticos em Rancharia. Célia
Penço utiliza categorias marxistas e desenvolve uma análise
de cunho histórico da lavoura algodoeira e seu declínio na
região de Rancharia, Alta Sorocabana, mostrando o sonho daquele
que foi expulso da terra de se tornar pequeno proprietário. Carmem
Cinira trabalha com os operários da Cerâmica São Caetano,
com “situação operária”, situação de
classe e projeto de vida, fazendo uma interessante abordagem do espaço
urbano, do bairro, da casa operária. Finaliza seu trabalho com uma
discussão sobre a consciência da exploração,
indicando que o operário deseja maiores salários e não
exatamente uma diminuição do lucro do capitalista...
Eunice
Durham: Veja, não se trata, também neste caso, de uma
análise marxista. O sonho da propriedade da terra, o espaço
urbano, o bairro, a casa (mesmo que operária) não são
nem conceitos nem temas de uso corrente nas análises marxistas.
São temas recorrentes da Antropologia. Os dois exemplos que você
utiliza não mostram nenhum potencial revolucionário nas populações
estudadas. Pelo contrário. Além disto, estas populações
não podem ser analisadas em função do conceito de
luta de classes, de burguesia e proletariado, nem de abolição
da propriedade privada. Foi face a esta dificuldade que Ruth e eu passamos
a utilizar as categorias de “classes populares” e orientamos os alunos
nesse sentido. Além disto, estávamos, também, interessadas
no que chamamos de classes médias, que pertencem, antes, ao que
os americanos chamam de white
collar workers do que à pequena burguesia. No meu
caso específico, a importância da família é
recorrente e meus orientandos se encaminharam nesta direção.
Nada menos marxista que a família. É importante ressaltar,
entretanto, que embora nem Ruth, nem eu, nem nenhum dos meus orientandos
tenhamos realizado análises marxistas da sociedade brasileira, tínhamos,
sempre, como pano de fundo das nossas pesquisas, o desenvolvimento do capitalismo
no Brasil, sua manifestação nos processos de urbanização
e industrialização e na constituição de uma
nova sociedade de classes populares, assim como a transformação
de características da sociedade tradicional nos processos de mudança
vividos por estas populações. Não fomos marxistas
inclusive porque nosso foco nunca foi o da explicação destes
macroprocessos, mas o da compreensão de como eles eram vividos e
percebidos pelas classes populares e pelas classes médias. É
neste “vivido” que entram o trabalho assalariado ou por conta própria,
a família, a casa, a vizinhança, os círculos de parentesco
e amizade, o lazer, a religião, a sexualidade.
:
Da época da Graduação, nos anos 50, até o momento
em que começaram a orientar, as mudanças na distribuição
da população brasileira se aceleraram. A sra. e Ruth
[Cardoso] vivenciaram este processo...
Eunice Durham: Era exatamente
esta mudança que nos interessava. Havia plena consciência
de que trabalhávamos com populações em processo de
urbanização, numa sociedade que se industrializava e onde
se criavam novas formas de inserção social e política.
O diálogo com o marxismo e com a Ciência Política foi
feito através da utilização do conceito de sociedadecivil
e da crítica do conceito de ideologia. O meu artigo “Cultura
e Ideologia“ explicita este diálogo. Nele, tentei fazer uma
ponte teórica, preservando e valorizando o conceito de cultura.
Li
Poulantzas,
Althusser,
Marx, Gramsci
e fiquei convencida de que para o tipo de trabalho que fazíamos
“ideologia” não substituía “cultura”, mas eram conceitos
paralelos. O conceito de ideologia era importante na medida em que embutia
o conceito de hegemonia e tratava de dimensões políticas
de aspectos culturais da sociedade. Foi Ruth quem iniciou a utilização
do conceito de sociedade civil de Gramsci, para inserir nossos trabalhos
nas temáticas da Ciência Política e introduziu a problemática
dos movimentos sociais.
:
O que mais poderíamos acrescentar sobre os trabalhos de seus orientandos?
Gosto muito do Mestrado de Geraldo Romanelli, defendido em 1978. Romanelli
era um bancário e foi estudar os bancários. Fala de classe,
de poder e mostra as transformações na direção
de uma maior subordinação da força de trabalho, através
da prática de um produtivismo modernizante e da racionalização
capitalista...
Eunice Durham: Mas aqui, também, voltam os
problemas da família e da classe média dos quais falamos.
Não é uma abordagem marxista. É novamente a questão
do capitalismo como pano de fundo.
:
Elizabete Bilac fala em “classe” até perceber que este conceito
não é operacional, que são necessárias outras
categorias, outro tipo de ordenação, para dar conta daquele
universo. E chega às famílias.
Eunice Durham: Na verdade,
ela não “chega” às famílias. As famílias foram
o foco desde o início. Gosto muito do trabalho de Elizabete Dória
Bilac, que, propondo as categorias de “trabalhador manual“ e “trabalhador
não-manual”, utiliza com originalidade os debates que então
travávamos sobre a utilização do conceito de classe.
O trabalhador manual não é o operário propriamente
dito, nem o não-manual se identifica com burguesia. Outra coisa
que marcou nosso trabalho, meu e da Ruth, era que queríamos estudar
o que era importante para o conhecimento da sociedade brasileira daquele
momento. Não a sociedade brasileira em seu conjunto, mas problemas
fundamentais. Sempre tive grande admiração pelo trabalho
de Pierre Mombeig "Pioneiros e Plantadores
em São Paulo". Admirava a capacidade, deste francês recém-chegado
ao Brasil, de enxergar o que estava acontecendo e estudar o que foi, então,
uma revolução no Estado de São Paulo: a marcha para
o oeste, envolvendo a expansão da lavoura cafeeira, o café,
o desbravamento, as estradas de ferro, a substituição do
trabalho escravo pelo trabalho livre, que marcam a ascensão
paulista no cenário nacional. Nós também queríamos
estudar coisas que estavam acontecendo. Fizemos isto bastante bem, por
iniciativa da Ruth, com os movimentos sociais populares que estavam emergindo
naquele momento. Trato disto no artigo “Os movimentos
sociais e a construção da cidadania”. Não se
tratava de achar que os movimentos sociais eram a salvação
do Brasil e o futuro do socialismo. Ruth e eu nunca mergulhamos nesses
“chavões”, nem acreditávamos que os pobres “estavam acima
de qualquer suspeita”, que não havia conflitos e contradições
nesses movimentos e nessas camadas. Mas em muitas das pesquisas em andamento
nesta época, ao mesmo tempo em que se criticava o funcionalismo,
por não estudar o conflito e valorizar a integração,
não se enxergavam os conflitos e contradições dentro
dos grupos estudados. Isto contaminou também a Sociologia. Nosso
trabalho de orientação, em grande parte, foi substituir a
mera denúncia da exploração e da dominação
pela compreensão da complexidade dos processos envolvidos.
:
E os "Seminários das Segundas-feiras"?
Eunice Durham: Esta
prática ocorreu em muitos lugares e era comum na Faculdade de Filosofia,
na época dos professores estrangeiros, mas entrou em desuso. Não
sei se nas Ciências Exatas persistiu esta ideia de seminários
em que são discutidos trabalhos em andamento ao mesmo tempo em que
se discute teoricamente a bibliografia sobre os temas abordados. Ruth teve
ideia de reviver esta prática e a apoiei, juntando todos os nossos
alunos. Nossa intenção era imprimir uma maior unidade teórica
às pesquisas muito díspares que estávamos orientando.
Ruth trouxe uma bibliografia nova da França. Trabalhamos muito com
Castells. Foi
um grupo que obteve um enorme sucesso. Todos os alunos completaram o Doutorado
e quase todos estão hoje nas universidades.
:
Quanto tempo durou?
Eunice Durham: Dois anos, mais ou menos.
Depois Ruth viajou outra vez. Não tive condições de
fazer tudo sozinha, até porque, neste momento, comecei a preocupar-me
com a política universitária e a questão da reforma
da universidade, a partir da minha militância na fundação
da ADUSP. Ruth trabalhava mais com a temática feminista e os problemas
de gênero. Comecei a estudar os problemas da universidade e passei
a analisar o sistema de ensino superior, do qual a Universidade era apenas
uma parte. Eu, Simon
Schwartzman e Elisa Wollineck fundamos
o Núcleo de Pesquisas Sobre Ensino Superior, o NUPES, 1989. Minha
contribuição propriamente antropológica diminuiu.
Creio que o último trabalho de peso que fiz com Ruth foi sobre as
periferias urbanas nas cidades médias, um projeto do CEBRAP.
Vilmar
Faria montou o projeto e conseguiu o financiamento. Eu e Ruth
ficamos encarregadas das entrevistas e da análise qualitativa. Da
minha participação resultou o artigo “A
cidade vista da periferia”, que tem uma leve inspiração
estruturalista. Sempre gostei deste tipo de trabalho, que une duas metodologias
- uma qualitativa e uma quantitativa – para fazer um controle recíproco
das generalizações e particularizações. Fiz
isto tanto na pesquisa com os imigrantes italianos como com os migrantes
rurais. Todos os meus trabalhos sobre educação se apóiam
fortemente em estatísticas educacionais. Minhas pesquisas na área
do ensino superior vêm me ocupando desde o final da década
de 80.
:
O NUPES [Núcleo de Pesquisas sobre o Ensino Superior] ainda está
ativo?
Eunice Durham: Acabamos, José
Álvaro Moisés e eu, transformando o NUPES em um
núcleo de políticas públicas, o NUPPS.
Foi muito difícil encontrar alguém para assumir o NUPES depois
que o Simon Schwartzman saiu. Luiz
Carlos de Menezes e Carolina
Bori exerceram a coordenação durante algum tempo.
Entretanto, após a morte da Carolina fiquei sozinha e tive uma imensa
dificuldade para recrutar pessoal nessa área. O NUPES era um centro
interdisciplinar. Trabalharam nele antropólogos, cientistas políticos,
economistas, físicos, estatísticos. Tivemos até um
odontólogo que fez uma pesquisa sobre os cursos de odontologia.
Mas não conseguimos estabelecer um diálogo com a Faculdade
de Educação – chegamos a propor uma disciplina optativa sobre
Ensino Superior na Pós-Graduação, mas não houve
interesse por parte da Faculdade. O problema maior do NUPES era o de que
em nenhum dos departamentos dos quais provinham os pesquisadores existia
uma disciplina relativa ao ensino superior, nem na Graduação,
nem na Pós-Graduação. Assim, o recrutamento de novos
pesquisadores era difícil. A massa crítica foi obtida, em
grande parte, através de uma rede com pesquisadores de outras instituições,
das Universidades Federais do Rio Grande do Sul, Brasília, Minas
Gerais e Rio de Janeiro.
:
A vida do antropólogo que se insere em órgãos que
fazem políticas públicas, como a sua, a de Ruth, de Antonio
Augusto Arantes Neto, de José Guilherme Magnani, entre outros, não
é muito espinhosa? Como conciliar o pensamento antropológico
com a convivência direta com o poder?
Eunice
Durham: Sempre tive uma postura mais técnica do que política.
Nunca quis cargo político nem disputei as posições
que ocupei. Elas sempre me foram oferecidas. Na minha atuação
procurava analisar os problemas existentes e colocá-los num contexto
mais amplo para propor medidas e saná-los. Sempre pretendi voltar
para a Universidade. Não pretendia fazer carreira política.
A influência da Antropologia, na minha atuação,
se manifestou na utilização do conceito de instituição
e de análises comparativas. Em todos os meus estudos sobre urbanização
havia a leitura do que ocorria em outros países, como na Inglaterra,
Espanha, França e o que ocorrera em diferentes períodos históricos.
Não que estivesse fazendo uma comparação direta como
Paris - São Paulo. O conhecimento do que acontecia no resto do mundo
era fundamental para localizar o problema que estava analisando no Brasil.
Foi, também, a primeira coisa que fiz quando comecei a estudar a
Universidade. Para melhor argumentar sobre a reforma universitária,
li sobre o que estava acontecendo no mundo. Este foi o diferencial em relação
às propostas de reforma apresentadas a partir de um viés
político-corporativo, que se consolidou com a transformação
da ADUSP e da ANDES, quando passaram de associações de docentes
para sindicatos. No primeiro trabalho sério que escrevi sobre a
reforma universitária, disse que existia um grande acordo sobre
a universidade que queríamos, o qual chamei de ideal mítico.
Porém, o problema é saber por que não temos a universidade
que desejamos, quais são e onde estão os obstáculos
políticos e culturais que dificultam a mudança do statusquo
e alimentam uma visão provinciana. Mesmo a reforma que se propunha
era tradicionalista. As propostas de mudança praticamente se restringiam
à eleição direta para os cargos de direção
e à representação paritária nos conselhos.
Na minha visão, isto obscurecia a consciência de problemas
muito mais graves e profundos. Minha visão de Universidade está
marcada por esta postura comparativa que permeia a Antropologia, pela preocupação
com o contexto. Sem isto as pesquisas consideram apenas dois pólos
– a realidade local e a ideal, concentrando-se num “denuncismo” da distância
que nos separa do ideal. As propostas que derivam desta postura são,
frequentemente, irrealistas e irrealizáveis. Era isto que eu achava
(e ainda acho) das propostas formuladas pelos sindicatos de docentes e
pelo movimento estudantil. Além do mais, sou campeã
de pedir demissão. Estava na CAPES e pedi demissão quando
o José
Goldenberg foi para o Ministério e me chamou para assumir
a Secretaria do Ensino Superior. Quando o Goldemberg se demitiu do MEC,
demiti-me também. Voltei em função de um pedido pessoal
do Fernando Henrique [Cardoso]. Fui para o MEC com o compromisso de fazer
a reforma universitária e fiquei quase três anos. Como o Paulo
Renato [de Souza] desistiu de fazer a reforma, porque ficou muito entusiasmado
com o ensino básico, pedi demissão. Preciso admitir que a
educação básica era realmente mais importante que
a reforma da universidade, mas lamento que ela não houvesse sido
feita. Pediram-me novamente para entrar no Conselho Nacional de Educação
quando o Gianotti saiu. Fiquei lá quatro anos. Pedi demissão
novamente por divergir de orientações políticas que
estavam sendo tomadas. Ainda acredito que a reforma do ensino superior
era e é necessária. Digo isto pensando na USP. Estou
convencida de que a universidade está “perdendo o pé”. Apesar
de nós, na USP, termos sido incluídos entre as 100 melhores
do mundo, isto se deve à produção científica
e à Pós-Graduação, mas não houve, desde
1968, nenhuma reforma séria na Graduação. A Graduação
tornou-se cada vez menos importante. As grandes reformas do ensino universitário
que estão ocorrendo na Europa não têm tido quase nenhum
eco. Temas como o da Educação Continuada, que são
cada vez mais importantes na Europa, não estão sendo discutidos.
As nossas tentativas de mudança, além de tímidas,
se restringiram à criação de um novo campus
na zona leste, sem afetar o conjunto da Universidade. A estrutura da Universidade,
centrada em Departamentos e Unidades e a gestão através de
uma hierarquia de Conselhos, não só é inadequada para
dar conta dos problemas atuais, relacionados às pesquisas e às
formações multidisciplinares, mas gera uma sufocante burocracia.
Trata-se de uma estrutura totalmente verticalizada e centralizada, sem
comunicação horizontal. Não há órgãos
de avaliação e coordenação dos programas de
ensino, com a competência para eliminar o que é obsoleto e
criar percursos mais flexíveis, permitindo formações
mais diversificadas cursos modulares e certificados intermediários.
A última reforma dos estatutos, da qual pouco se ouviu falar, parece
ter sido daquelas que obedecem à “sábia” norma de que “é
preciso mudar para que tudo fique como está”. As tentativas de democratizar
o acesso através de quotas têm um valor meramente simbólico,
pois não ampliam o público atendido; apenas alteram um pouco
a composição da minoria que admitimos nos nossos cursos –
continuamos a atender apenas 4,5% dos jovens já matriculados no
ensino superior, ou seja, o equivalente a cerca de 1,8% do total de jovens
da faixa etária de 18 a 24 anos.
:
Como a sra. vê as perspectivas das pesquisas sobre cidade, sobre
fenômenos urbanos, hoje?
Eunice Durham: O José
Guilherme [Magnani] está levando adiante, de uma forma muito
construtiva, esta perspectiva urbana. Nunca estudei fenômenos propriamente
urbanos, mas fenômenos e processos próprios da sociedade brasileira,
que ocorrem na cidade (mas não só nela). Desta perspectiva
tem havido trabalhos muito sérios sobre temas muito importantes.
A violência e a criminalidade e, particularmente, sua associação
ao tráfico de drogas, constituem um dos problemas mais graves da
sociedade brasileira e vêm sendo amplamente estudados. Tereza
Caldeira a Alba
Zaluar são referências neste tipo de pesquisa.
Creio, também, que há, frequentemente, um excessivo culturalismo
e um excessivo centramento na concepção de cultura que eu
diria ser “linguística“, isto é, concebê-la como texto.
Na metodologia com a qual trabalhei, sociedade e cultura são duas
faces da mesma moeda e o diálogo com a Sociologia e a Ciência
Política sempre foram essenciais. Além do mais, preservo
a tendência a achar que nem tudo se reduz a representações
e a análise cultural não se limita aos aspectos simbólicos.
Há uma dimensão (indiretamente relacionada às concepções
marxistas de forças produtivas) que diz respeito à ação
transformadora do homem sobre o mundo. O conceito de trabalho humano, que
une ação e representação, ainda é para
mim essencial à teoria e à pesquisa antropológica.
Há, hoje, problemas que mobilizam antropólogos, mas tendem
a estar excessivamente politizados – a questão das cotas raciais
é um deles, assim como a homossexualidade e as questões de
gênero em geral. Acho, também, que deveríamos nos dedicar
mais a elaborar teoricamente algumas características culturais do
processo de globalização capitalista que podemos caracterizar
como um individualismo hedonista e consumista, muito semelhantes
ao que Marx chamava de alienação. As velhas virtudes
socialistas da solidariedade, e do sacrifício pelo bem comum
parecem estar “em baixa”. O mesmo acontece com as ainda mais antigas virtudes
liberais, como a dos limites da liberdade de cada um que é dado
pela liberdade do outro, da tolerância para com as diferenças
de opinião que fazem parte do jogo democrático, da
proibição republicana da apropriação e do uso
individuais dos bens públicos. Pessoas da minha idade tendem a ser
conservadoras e apreciar estas virtudes antigas.
