Em fevereiro de 2009, foi-nos dada
a oportunidade de participação no Programa Nacional de Cooperação
Acadêmica (PROCAD) intitulado “Paisagens Ameríndias. Habilidades,
Mobilidade e Socialidade nos Rios e Cidades da Amazônia”, parceria
firmada entre o Programa de Pós-Graduação de Antropologia
Social da Universidade de São Paulo e o Programa de Pós-Graduação
de Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas, financiado
pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior (CAPES). A pesquisa conjuga três eixos
de investigação:
1) o trabalho etnográfico
entre povos indígenas e neotradicionais habitantes dos sistemas
hidrográficos da região do Purus-Madeira, Alto Juruá
e Rio Negro, visando observar suas condições materiais e
vida social;
2) o levantamento sistemático
de documentação e bibliografia sobre as atividades extrativistas
na Amazônia nos séculos XIX e XX, tendo em vista igualmente
uma reflexão sobre as condições materiais da vida
social e as implicações sociais da mudança agrária
e da economia extrativista na região e, por fim
3) uma etnografia de formas de lazer
e modalidades de uso do tempo livre nos espaços de socialidade da
população indígena nas cidades da Amazônia como
modo de abordagem inovadora dos processos de incorporação
da vida urbana pelas populações nativas (PROCAD-CAPES, Edital
nº 01/2007).
Nossa participação
se insere no terceiro eixo de investigação proposto para
a pesquisa. Algumas questões norteadoras deste eixo investigativo
podem ser colocadas de antemão. São elas:
• Como se dá o processo
de inserção, no tecido urbano, das populações
indígenas?
• Como se incorporam os jovens,
principalmente, no circuito de lazer também utilizado por jovens
não-índios?
• Qual o papel e importância
do tempo livre e dos equipamentos de entretenimento no estabelecimento
de vínculos de convivência, estratégias de negociação
e conflitos entre si e com não-índios?
Neste breve relato pretendemos abordar
aspectos relevantes da primeira ida a campo que realizamos à cidade
de Manaus, em janeiro de 2009, focando experiências vividas
por três jovens estudantes de Ciências Sociais ao realizarem,
pela primeira vez, uma incursão a campo de maior duração.
O objetivo da primeira ida a campo
foi, basicamente, exploratório; nosso intento foi o de buscar uma
aproximação inicial com esta “província etnográfica”
que nos era tão desconhecida, de forma a levantar e mapear elementos
básicos, tanto por meio da etnografia, quanto de levantamentos documentais,
para possibilitar definições específicas para os planos
de pesquisa futuros do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU) da USP
dentro da perspectiva colocada pelo já citado terceiro eixo de investigação
do PROCAD. Procuramos levantar dados que possibilitassem e facilitassem
a delineação e realização de pesquisas que
se propusessem, explorar e identificar, mais detidamente, algumas modalidades
de uso do tempo livre por parte de populações tradicionais,
de forma a compará-las com os recentes estudos nesta direção
realizados pelo NAU - e outros pesquisadores -, nas grandes cidades do
sudeste. Este enfoque comparativo é crucial, na medida em que são
notáveis as diferenças entre os aglomerados urbanos da região
norte do país e os centros urbanos do sudeste, notadamente São
Paulo, onde a maioria das pesquisas realizadas pelo Núcleo se deu.
Além da grande diferença
de escala das cidades, o marco diferencial da linha de pesquisa proposta
é a grande presença de populações indígenas
que habitam, ou frequentam, o espaço urbano, elaborando formas de
interação particulares com a cidade e seus equipamentos.
Sendo assim, o levantamento dos circuitos (Magnani, 1998) de lazer em cidades
de tamanhos diferentes permitirá trabalhar, não apenas, com
as escalas urbanas, mas, também, com as diferenças de gostos,
de preferências e com a criação de alternativas de
usos da cidade que as populações indígenas incorporam
na esfera de sua vida cotidiana.
Entendemos como um dos principais
interesses do Núcleo, na participação deste projeto,
a abertura de uma nova linha de pesquisa que reforce os laços com
a Etnologia Indígena. A intenção é a de observar
até que ponto as reflexões e categorias forjadas no contexto
dos estudos da metrópole servem para pensar outros recortes empíricos.
A cidade de Manaus se encaixa "como uma luva” neste experimento. O termo
“experimento” é o que melhor define as atividades do NAU voltadas
para o projeto “Paisagens Ameríndias”. Pois nossos esforços
estão concentrados em colocar à prova categorias já
estabelecidas em pesquisas urbanas realizadas há pelos menos vinte
anos, em um diferente contexto etnográfico e procurando, sempre,
relativizar construções rígidas em busca de inovações
teóricas e metodológicas.
Como mencionado, a missão
exploratória da qual fizemos parte pretendeu atuar como o primeiro
passo para a delineação do leque de atividades dos pesquisadores
do NAU no intento inovador compreendido por este projeto de pesquisa para
os próximos anos. Para tanto, fizemos uso da já estabelecida
dinâmica de atividades do Núcleo, realizando discussões
constantes das experiências de campo e de bibliografia, valorizando
a experiência pessoal de cada pesquisador durante o período
de campo, tida como essencial para o enriquecimento das pesquisas que compõem
o conjunto de trabalhos do NAU. Nesse sentido, criamos, durante o período
da missão, um blog com registros das experiências diárias
de campo e reflexões preliminares para que o compartilhamento dos
achados com os membros que permaneceram em São Paulo pudesse auxiliar
o próprio direcionamento das atividades que foram realizadas em
Manaus. Esta experiência de um “caderno de campo on-line” e coletivo
foi extremamente frutífera, para muito além do levantamento
de dados etnográficos propriamente ditos, configurando-se um laboratório
para a realização de experimentos metodológicos.
O “corpo de princípios guias”
preliminares que nos orienta em nosso intento etnográfico em Manaus
é, de maneira geral, o mesmo das pesquisas realizadas pelo Núcleo
nas metrópoles da região Sudeste e que, em termos metodológicos,
consiste no ajuste do foco da observação de forma a não
perder de vista a série de processos macroestruturais que envolvem
a dinâmica das metrópoles e, ao mesmo tempo, permita observar
os habitantes da cidade sem se perder em conclusões demasiado particularistas,
no nível das escolhas individuais. A este olhar que procura observar
os atores sociais e sua apropriação da malha urbana identificando
regularidades denomina-se “de perto e de dentro”. Nota-se a
convergência desta perspectiva teórico-metodológica
com o objetivo fundamental da pesquisa a ser realizada quando se procura
alocar como prioritária à análise os arranjos criativos
que os atores sociais inseridos em rede na malha urbana são capazes
de criar, ao contrário de considerá-los como arrebatados
e levados pelas correntezas de conjunturas macro-econômicas desagregadoras
da vida social atuantes nas metrópoles. Esta perspectiva valoriza
a busca de incorporações e arranjos realizados pelas populações
indígenas das dinâmicas citadinas e sua inserção
nestes meios como atores dotados de agência e criatividade transformadora
que se colocam em relação com os diversos elementos que compõe
o ambiente urbano sempre na forma de relações negociadas
entre si e com não-índios.
O desafio que se nos colocou foi
o de mapear, preliminarmente, as possibilidades de futuras pesquisas, mais
aprofundadas e focadas, previstas para os próximos anos. Ficamos
incumbidos de realizar levantamentos bibliográficos e etnográficos
durante nosso período de campo em Manaus. Rapidamente, notamos a
importância e responsabilidade que tal tarefa nos impunha e diversas
questões colocaram-se à nossa frente. Como realizar a exploração
de uma cidade composta por mais de 2 milhões de habitantes, cujo
perímetro urbano ultrapassa as dimensões do centro expandido
de São Paulo? Claro que tínhamos um foco de interesse determinado,
mas junto a ele inúmeras questões se colocavam. Quem são
“os índios”? Como iniciar a etnografia em um terreno que nos era
completamente novo? E como proceder de forma a trazer dados frutíferos
e contribuições relevantes, tanto para nossas futuras pesquisas
quanto para os próximos pesquisadores que integrariam o projeto
de pesquisa?
A solução encontrada
foi o planejamento semiestruturado de trabalho de campo intensivo. Semiestruturado
porque nos mantivemos extremamente abertos às possibilidades inusitadas
que se colocassem ao longo de caminho. Procuramos abordar, inicialmente,
circuitos de lazer de forma geral. Concentramos nossos esforços
e tempo na região central da cidade, já que por ela poderíamos
circular de forma “anônima” e sem a necessidade de intermediários.
Passamos, mais tarde - e mais ambientados -, à busca
de equipamentos de lazer localizados em bairros mais afastados do Centro.
Estas andanças e etnografias iniciais foram de muita utilidade para
que pudéssemos ter alguma ideia da atual configuração
urbana da capital manauara. Realizamos longas caminhadas, circuitos de
ônibus e recorremos até mesmo à boa e velha “carona”.
Durante a expedição
os “estranhamentos” e as “familiaridades” se colocavam constantemente.
Manaus demonstrou-se para nós, de forma imediata, como uma cidade
extremamente “cosmopolita”. Sua parte central se assemelha muito ao ambiente
em que estamos acostumados a conviver em São Paulo; mas, ao mesmo
tempo, algumas características se colocaram de forma inicial como
diferenciadoras, como a marcante presença do Rio Negro e das dezenas
de igarapés que se embrenham por toda a cidade. Procuramos circular
pela região central em diversos horários diferentes, visitamos
diversos mercados (Manaus Moderna, Mercado do Produtor), frequentamos diversos
bares ditos “tradicionais” (Bar da Bica, Cinco Estrelas, Chão de
Estrelas) e outros “nem tanto” (Bares da Estação Hidroviária,
Bar do Jangadeiro), etnografamos movimentações em Praças
Públicas (Praça do Congresso) e outras “nem tanto” (Largo
São Sebastião), caminhamos sob as palafitas que margeiam
igarapés na região central (Igarapé Bittencourt, Igarapé
Amazonas), conhecemos hotéis/motéis da região, pontos
de realização de programas e casas de strip-tease (tanto
na região central como em bairros periféricos). Acompanhamos
festas e movimentações em torno de grandes equipamentos de
lazer como o sambódromo e o estádio de futebol conhecido
como Vivaldão, além de procurarmos locais frequentados por
jovens, e outros nem tanto, ligados ao rock, punk, metal, samba, bolero,
forró e “brega”. Durante todos estes percursos sempre nos mantivemos
atentos à interação com os frequentadores, mesmo correndo
alguns riscos devido à nossa evidente aparência de “estrangeiros”.
Praça São Sebastião,
com o Teatro Amazonas ao fundo. Foto: Yuri Bassichetto, 2009.
Praça central da cidade.
Foto: Yuri Bassichetto, 2009.
Saída do Bica, bloco carnavalesco
de rua. Foto: Yuri Bassichetto, 2009.
O complexo do estádio municipal
e do sambódromo serve de espaço para uma festa de carnaval.
Foto: Yuri Bassichetto, 2009.
Conjuntamente a estas atividades,
nos propusemos visitar diversas instituições que possuíssem
acervos ou informações que pudessem nos direcionar a
locais novos na exploração da cidade. Algumas delas foram
UFAM (Universidade Federal do Amazonas), FEPI (Fundação Estadual
dos Povos Indígenas), FUNAI, Museus do Índio, AMARN (Associação
das Mulheres do Alto Rio Negro), Associação das Mulheres
Sateré-Mawé, Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia,
NEAI (Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena), Museu
do Homem do Norte, Programa Waimiri-Atroari e o Museu Amazônico.
Foi através de contatos e informações obtidos nestes
locais que conseguimos conhecer algumas “comunidades indígenas”
que estavam localizadas na área metropolitana de Manaus, como a
“comunidade Wotichimaucü” (Tikuna), localizada no bairro da Cidade
de Deus e a “comunidade Y´Apyrehit” (Sateré-Mawé),
localizada do bairro Redenção. Com estas informações
diversificamos nossas expedições a campo, muitas vezes nos
dividindo para que pudéssemos continuar o levantamento das modalidades
do uso do tempo livre e equipamentos urbanos de lazer de forma geral, mas
pudéssemos nos focar, também, na aproximação
com estas “comunidades”.
Devido à positividade com
que fomos recebidos pelos membros da “comunidade Y´Apyrehit”, decidimos
prolongar nossa interação com eles, procurando expandir nossa
rede de contatos. Nas diversas visitas que lhes fizemos, pudemos conhecer
todos os moradores da “comunidade”, assim como alguns moradores da “comunidade
Waikiru” (Sateré-Mawé). Fomos convidados a conhecer a “comunidade
Inhaã-Bé” (Sateré-Mawé) localizada às
margens do igarapé Tarumã-Açu, oportunidade em que
tivemos uma convivência mais prolongada e extremamente frutífera
com diversas famílias moradoras das comunidades da etnia Sateré-Mawé
localizadas em Manaus.
Todas as incursões a campo
foram intensamente registradas em cadernos de campo pessoais de cada um
de nós. Ao término do dia, nos reuníamos e realizávamos
uma síntese “a seis mãos” a mais completa possível
e que, posteriormente, era “postada” no blog e compartilhada com os pesquisadores
do Núcleo, que nos apresentavam seus comentários no próprio
blog. Em 28 dias de expedição foram escritas mais de cem
páginas do “caderno de campo virtual”. Outra ferramenta utilizada
foi o software de mapeamento Google Earth. Nele inserimos todas as informações
que coletávamos, todos os trajetos que realizávamos, todos
os equipamentos urbanos de lazer que levantávamos e todas as atividades
que acompanhávamos. Ao final construímos um mapa da expedição
que facilitou muito a visualização do espaço urbano
de Manaus e possibilitou o reconhecimento de características importantes.
De volta a São Paulo, as atividades
continuam. Foi formado um subgrupo de estudos, apelidado de NAU-Amazônico,
do qual fazem parte estudantes que pretendem desenvolver pesquisas voltadas
para o eixo de investigação do PROCAD – Paisagens Ameríndias.
Neste grupo, que se reúne desde meados de fevereiro para a discussão
da bibliografia relevante para o tema, estão sendo elaborados quatro
projetos de iniciação científica e dois de Mestrado,
a serem realizados nos próximos anos. Além disso, reuniões
mensais são programadas com os professores da FFLCH/USP vinculados
ao PROCAD (Profa. Dra. Marta Amoroso, Prof. Dr. Márcio Silva e Prof.
Dr. José Guilherme Magnani) e seus respectivos orientandos. Parte
importante do Programa de Cooperação Acadêmica é
a possibilidade de troca entre pesquisadores de diferentes instituições,
neste caso USP e UFAM. Durante o início deste ano foram recebidos,
em São Paulo, dois bacharelandos do curso de Ciências Sociais
e um mestrando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Social, todos da UFAM.
No mês de julho de 2009 uma
segunda expedição à capital manauara já foi
planejada. Neste segundo momento de aproximação etnográfico
do objeto de pesquisa a fase de reconhecimento e exploração
já foi superada. Os pesquisadores envolvidos já estão
com objetos de investigação delineados. Sendo assim, esta
segunda ida a campo já tem parâmetros mais definidos.