O título do livro exprime
bem o tema sobre o qual versa: o processo dinâmico de constituição
de um tipo de agrupamento carnavalesco específico – os ranchos –
enquadrado no panorama geral dos festejos carnavalescos cariocas do início
do Século XX. A autora dá corpo a uma abordagem antropológica
e sócio-histórica (partindo claramente de uma perspectiva
construtivista), viajando graciosamente entre escalas: desde a escala “micro”,
analisando a formação de um tipo de agrupamento carnavalesco
específico no plano das sociabilidades informais, à escala
“meso” no âmbito da qual se perspectiva a formalização
das primeiras associações carnavalescas e à “macroescala”,
enquadrando esse processo no horizonte mais lato do carnaval carioca (onde
coexistiam não só diversos agrupamentos, como também
variadas formas de participação nesses agrupamentos), da
cidade do Rio de Janeiro e do contexto de uma nação como
o Brasil. Roberto DaMatta viu o carnaval como “espaço e tempo de
“manobra social” e Gonçalves mostra como se estrutura essa “manobra
social” por meio da análise da constituição do sistema
dos ranchos em relação com o surgimento de uma nova configuração
urbana do Rio de Janeiro no começo do século XX.
O caso dessa formação
cultural – os ranchos - é tido como recorte para entender o modo
como se desenha uma “certa cultura popular carioca”, configurando-se através
da “relação, do compartilhamento de um conjunto heterogéneo
de valores e de estilos de vida que teve, na festa carnavalesca, importante
ponto de referência.” (p. 37). A singularidade desta obra consiste,
do nosso ponto de vista, no relacionamento estabelecido entre a configuração
e desenvolvimento da referida forma de cultura popular e o processo de
constituição urbana da cidade do Rio de Janeiro no começo
do século XX.
Esse trabalho revela o compromisso
da antropóloga com uma visão holista dos processos sociais:
para entender essa problemática mais vasta, a autora articula dimensões
tão variadas como as combinações possíveis
entre espaço e tempo, o cariz social e colectivo do processo artístico
(baseando-se em Becker), as relações de gênero, os
processos de competição, as múltiplas hierarquizações
em jogo (intra e extra agrupamentos), os procedimentos de negociação
entre atores e grupos, as vivências dos quotidianos festivos carnavalescos,
a influência do poscolonialismo nesse panorama, a constituição
de regras e condutas de “civilidade urbana”, etc. A pesquisadora foca os
processos de concorrência, competição e negociação
que permearam a constituição destas pequenas sociedades envolvidas
num “jogo social”, no sentido que lhe deu Norbert Elias. A obra bebe ainda
do conceito de “facto social total” de Marcel Mauss, na medida em que são
consideradas as coisas sociais concretas como elementos dançantes
de um todo que está na parte e de uma parte que está no todo,
em relação cambiante com todas as partes.
Através da leitura da primeira
parte da obra damo-nos conta que a análise da constituição
dessas formações culturais – os ranchos – num plano nacional
é feita em íntima articulação com a questão
da identidade nacional associada ao desenvolvimento das festividades carnavalescas.
A relação entre a formação dos ranchos no Rio
de Janeiro e em Salvador da Bahía é também aflorada
de forma extremamente pertinente, desmistificando claramente a polémica
(frequentemente essencialista) respeitante à origem dos ranchos
carnavalescos. Através da análise histórica, a autora
remonta inclusivamente aos ranchos pastoris, destacando o cunho colonial
dos mesmos (de origem portuguesa e espanhola) e a influência que
eles terão tido numa fase inicial de constituição
dos ranchos cariocas.
O “recorte temporal” alvo de análise
sistemática situa-se entre os anos de 1894 e 1941. Concretamente,
a primeira data corresponde ao surgimento do primeiro rancho e a segunda
à extinção do último agrupamento carnavalesco
deste tipo. Os relatos dos cronistas da época foram a fonte primordial
do trabalho de Renata Gonçalves. Neles, a antropóloga encontrou
a melhor via para proceder a uma (re)construção histórica
do nascimento e desenvolvimento dos ranchos. Os cronistas desempenharam
um papel fulcral na definição e classificação
dos agrupamentos carnavalescos e, consequentemente, na formulação
de uma determinada visão da “cultura popular”. O trabalho de análise
das narrativas dos cronistas que vivenciaram a realidade dos ranchos através
de uma observação participante “permite perceber o diálogo
que se instaura entre os diversos atores que constituíam a cidade”
(p. 73).
A abordagem de Gonçalves é
minuciosa, considerando os relatos como unidades em relação
e não como dados isolados. As narrativas são contextualizadas
e encaradas como indicadores de significações e de valores
sociais, através de uma perspectiva etnográfica de interpretação
dos textos. É feita uma análise das circunstâncias
de vida materiais dos cronistas, num esforço de enquadramento das
condições de produção dos relatos dos cronistas
que contribui em grande medida para a clareza do trabalho apresentado.
A autora isola três situações
históricas nas quais os relatos dos cronistas são estudados
sistematicamente. Falamos dos “dramas sociais” que marcaram o processo
de constituição dos ranchos, que permitiram identificar e
analisar os conflitos e negociações que basearam seu desenvolvimento.
A abordagem dos “dramas sociais” de Victor Turner encontra na obra de Gonçalves
uma aplicação que se revela extremamente heurística:
ao isolar três casos a antropóloga esteve em óptimas
condições para realizar uma “etnografia histórica”
a partir dos relatos dos cronistas do Jornal do Brasil. Esses cronistas
se constituíram como verdadeiros mediadores na formação
dos ranchos cariocas do final do século XIX e início do século
XX. Os três recortes históricos se situam em 1919 (“o caso
dos itinerários”), em 1926 (“o dia dos ranchos”) e em 1933 (“o caso
do auxílio aos ranchos e blocos”).
O conceito de “drama social” ganha
nesta obra novos contornos, considerando que a antropóloga o adapta
às sociedades urbanas, nas quais existe uma multiparticipação
social em vários grupos que partilham de códigos distintos,
nem sempre coincidentes (p. 81). Falamos de uma análise situacional
de três casos com a intenção de analisar aprofundadamente
o “sistema dos ranchos” e as correlações estabelecidas com
o “sistema social” mais amplo. Desta análise surgem os três
focos de estudo deste trabalho: as temporalidades, as territorialidades
e as sociabilidades analisadas no Rio de Janeiro do começo do século
XX (p. 144).
Ao longo da leitura torna-se estimulante
conhecer as diferentes estratégias dos grupos sociais formais e
informais face aos poderes públicos na folia carnavalesca. Esses
agrupamentos entram num jogo de conflitualidades, mas, também, de
negociações com as instâncias públicas, revelando
o espaço de manobra que existe ao nível microssocial. A «viagem»
entre escalas é exímia: a revelação das “pequenas”
estratégias dos agrupamentos carnavalescos é feita em estreita
articulação com a análise das grandes decisões
políticas de apoio ao carnaval brasileiro pelo Estado numa lógica
de reforço da «competição cultural e identitária»
entre o Brasil e a Argentina.
A regulamentação dos
ranchos, consistente na legalização e registo obrigatório
dos mesmos, inicia aquilo que a autora chama de processo de “associativismo
nos moldes modernos” (p. 144). As rivalidades entre as “sociedades carnavalescas”
descrevem a força do tecido associativo do Rio de Janeiro no começo
do século XX. A segunda parte da obra trata especificamente do “sistema
social do processo de formação da cidade do Rio de Janeiro
cujas fronteiras entre externo e interno, colectivo e individual estão
expressas no espaço, no tempo e nas relações sociais”
(p. 144). A pesquisadora passa assim a explicitar como “o movimento dos
ranchos sinalizará não apenas os limites espaciais, como
também expressará uma dinâmica social onde as identidades
dos bairros, das ruas, dos subúrbios se definem gradualmente (p.
144). São ainda estudados os elementos plásticos como parte
do processo artístico de acção colectiva e as estratégias
de obtenção de financiamento e auxílios.
O grande esforço de comparação
histórico-antropólogica leva a autora aos paralelismos existentes
entre os ranchos carnavalescos e as escolas de samba que tão bem
conhecemos actualmente. Os ranchos terão sido “a primeira manifestação
carnavalesca, diversa, heterogénea e «popular» da República”
(p. 181), base do nascimento das escolas de samba. As duas formações
– ranchos e escolas de samba – desempenham, um papel semelhante na sociedade
brasileira, principalmente no que diz respeito à “contínua
relação, sempre tensa, entre os aspectos internos de seu
sistema (…) e os aspectos externos” (p. 184). Depois da contextualização
dos ranchos, Gonçalves concentra-se na estruturação
complexa do rancho num desfile, ou seja naquilo que ela chama dos “ranchos
vistos por dentro”, com os seus “cortes principais: o aspecto dramático,
o plástico-coreográfico e o musical” (p. 187), demonstrando
uma preocupação de análise formal e simbólica.
A pesquisa de Gonçalves revela
como é fundamental pensar o espaço social em relação
com o espaço físico. O espaço dos clubes, das Grandes
Sociedades carnavalescas, era frequentado pelas elites, enquanto a rua,
lugar dos desfiles das pequenas sociedades, era um campo muito mais heterogéneo,
no qual participavam várias camadas sociais da população
do Rio de Janeiro. Através da leitura desta obra podemos perceber
a cidade do Rio como um espaço separado por duas divisões:
a “zona sul”, onde imperavam as classes altas e a “zona norte e subúrbios”,
espaço por excelência das classes mais desprivilegiadas. A
Avenida Rio Branco, ainda hoje a principal artéria do Rio de Janeiro
constituía-se, já nessa altura, como o espaço central
urbano onde se encetavam as trocas culturais entre os vários estratos
da população.
Talvez o capítulo mais interessante
seja o quinto da segunda parte da obra: a antropóloga se centra
nas territorialidades entendidas como um sistema de classificação
social, auxiliando-se teoricamente na noção de “região
moral” de Robert Park. Ela identifica os grupos carnavalescos que disputavam
o espaço das ruas cariocas, analisando suas estratégias variadas.
Como refere, “marcar espaço era ocupar lugares sociais nesse sistema
social” (p. 215). Seria o que Pierre Bourdieu chamaria de “efeitos de lugar”
(Bourdieu: 1999 [1993], p. 159).
O “pequeno carnaval” (constituído
pelos ranchos e cordões) ficava circunscrito nos limites dos bairros,
contrariamente às Grandes Sociedades que celebravam o carnaval com
sumptuosos cortejos no centro da cidade (p. 220). Todavia, a autora identifica
uma “circularidade da dinâmica territorial e social dos ranchos”,
isto é, o local de origem do rancho e o centro da cidade eram, com
a mesma intensidade, lugares de celebração. Essa constatação
leva Gonçalves a falar numa “dinâmica estrutural centrípeta”
formada a partir da festa carnavalesca (p. 204).
Apesar de haver dinâmicas de
separação territorial, a antropóloga alerta para a
complexidade das fronteiras entre os grupos e as organizações
carnavalescas que não pode ser reduzida a binómios como “salão
/ rua”, “carnaval isolado / carnaval das sociedades” ou “carnaval interno
/ externo” (p. 229). Nesse sentido, será necessário entender
a concomitância de dois movimentos territoriais: o que marcava a
distinção entre a casa e a rua (actividades internas e externas,
públicas e privadas) e o que pautava a expansão dos bairros,
sendo que estes se faziam representar enquanto parte da cidade, “ampliando
sua rede de circulação” tanto espacial quanto de relações
sociais (p. 230).
Passando das espacialidades para
as temporalidades, Gonçalves abre o terceiro acto desta obra com
a identificação dos dois tempos do carnaval dos ranchos.
Por um lado, o “tempo histórico” caracterizado por uma continuidade
progressiva no qual lugares e indivíduos “se constroem e são
construídos”. Por outro, o “tempo festivo” “aquele, em que por meio
do desfile dos ranchos, temas, homens de épocas históricas
longínquas (…) se tornam contemporâneos dos habitantes do
Rio de Janeiro e dos seus temas urbanos, os actualizando (p. 237). Assim,
a manifestação dos ranchos remete-nos para uma “circularidade”
temporal relacionada com a noção de “autenticidade”, de “espontaneidade”
e “naturalidade” das expressões culturais populares (p. 237).
A construção de uma
“determinada qualificação da cultura popular” legitimava,
na altura, aquilo que a autora designa como “grupos médios”, intermediários
entre os grupos de elite e os grupos “destituídos de educação
e civilidade” (p. 238) O conceito de cultura popular não era propriedade
de uma única camada social, mas de uma “interacção
entre segmentos sociais e níveis de cultura diversos” (p. 245).
A diversidade nas formas de participação carnavalesca e,
consequentemente, na construção colectiva da noção
de cultura popular relacionava-se estreitamente com “um determinado grau
de adesão à experiência urbana” (p. 243). Nele se baseou
a construção da “cultura urbana” carioca que marcou uma distinção
entre o contexto social do começo do século XX e a vivência
do século XIX, “onde as relações entre níveis
sociais eram menos fluidas” (p. 247). A cultura popular ganhou um “lugar
de primeira ordem de boa música popular”, ou seja, aquela que serve
de referência para músicos de outros níveis sociais,
de gostos até mais “sofisticados”. Os músicos atuando nos
ranchos se tornaram porta-vozes da cultura popular carioca e atores de
uma matriz cultural de referência, representada como o modelo autêntico,
genuíno.
Os cordões, os blocos e os
foliões “avulsos”, grupos de organização mais informal,
desempenharam um papel importante na medida em que demonstraram que a “agregação
social é obrigatória no carnaval, unindo inclusive os “avulsos”
e os grupos informais em uma única coletividade” (p. 255). Uma estrutura
social menos segmentada, mais inclusiva e expansiva como a dos ranchos
permitiu fazer uma mediação da passagem de “uma sociedade
mais «hierarquizada» ” para uma “sociedade mais «moderna»”
(p. 259) e, portanto, mais urbana.
Um dos traços inovadores do
trabalho de Gonçalves consiste na maneira como ela analisa uma formação
cultural já extinta – os ranchos, tendo em conta a sua importância
política e as consequências da mesma na construção
da sociedade e da cultura popular urbana. Essa pesquisa mostra como o estudo
das mudanças sociais e da constituição de novas configurações
e de relações sociais precisa de ter em conta as sociabilidades
informais.
A comparação meticulosa
entre este agrupamento e outros presentes na cena da folia carnavalesca
baseia-se nas similitudes entre os mesmos mas também nas especificidades
de cada um. Os ranchos eram caracterizados por vários elementos
que lhe conferiram singularidade: o “cortejo linear”, o “enredo”, e a “música”
(as músicas tocadas e cantadas nos ranchos não acompanhavam
o tema proposto pelo enredo) (p. 266).
No sétimo capítulo
a antropóloga se centra no desaparecimento dos ranchos mas tem como
horizonte mais alargado da discussão a questão clássica
da “duração” das formas culturais ou, da sua “permanência”
versus “decadência”. A conclusão surpreendente da antropóloga
faz-nos pensar ainda mais atentamente na importância da informalidade
para a vitalidade de determinadas formas culturais. A partir do momento
em que os ranchos são tornados oficiais com a fundação
da Associação dos ranchos carnavalescos em 1933, se inicia
seu processo de desgaste, culminando com seu desaparecimento em 1941.
A oficialização dos
ranchos levou a dificuldades que os condenaram ao seu fim. Nomeadamente,
a criação de uma Federação incluindo as pequenas
e as grandes sociedades levou a um condicionamento das prioridades das
primeiras face aos interesses dos grandes clubes. A imposição
da cobrança de ingressos limitou também a participação
ampla e heterogênea da sociedade carioca no “pequeno carnaval”, sentenciando
os pequenos grupos carnavalescos como os ranchos à morte. A estes
factores juntam-se a progressiva falta de apoio financeiro por parte dos
comerciantes e dos poderes públicos, à medida que os custos
dos desfiles aumentaram.
Os ranchos construíram-se
com um status de «pureza» e «autenticidade» particulares.
A autora refere que o “elo emocional” existente entre a sociedade carioca
e os ranchos se perpetuou nas escolas de samba, “compreendidas, nesse sentido,
como uma atualização dos ranchos” (p. 273). Por outro lado,
esse “elo emocional” concretizou-se com a «ressurreição»
do Rancho Flor do Sereno que desfilou em 2001 e 2002 na Avenida Atlântica.
É interessante tomar conta
dos conflitos de definição em torno da noção
de rancho que surgiram aquando da organização desse desfile.
O confronto entre gerações levou a uma discussão assente
em ideias de autenticidade e pureza e o seu estudo levanta pertinentes
questões que, por questões de limitação temporal
e de meios, a antropóloga não pode desenvolver aprofundadamente
nessa pesquisa. Atualmente, os ranchos continuam preenchendo um espaço
específico no âmbito mais vasto das comemorações
carnavalescas: eles se distinguem das escolas de samba, cujos desfiles
se tornaram privilégio das camadas sociais com maior poder financeiro,
mas também dos blocos de carnaval de rua, os quais são mais
amplamente participados mas também menos construídos de um
ponto de vista artístico.
A negociação perpassa
toda a obra: a autora foca vários processos de negociação
em torno de definições e de situações no processo
de constituição do sistema dos ranchos. Mais do que ver só
competição e polarização nestes processos sociais,
a antropóloga consegue analisar os espaços abertos, híbridos,
incertos da vida social, os quais têm uma importância muito
maior do que lhe é comumente atribuída nas Ciências
Sociais.
Concluindo, a autora sublinha a prática
carnavalesca ritualizada como expressão das negociações
entre temporalidades, territorialidades e sociabilidades, tendo conciliado
a ideia de nação com a ideia de metrópole.
“Os ranchos pedem passagem” na obra
de Renata de Sá Gonçalves premiada pela Prefeitura da cidade
do Rio de Janeiro e publicada pela mesma entidade. Mas mais do que os ranchos
diríamos que é o carnaval carioca do começo do século
XX no seu todo que “tem a passagem”. Tomando o caso de uma forma cultural
popular – os ranchos – a autora ilumina o contexto mais vasto das expressões
populares carnavalescas e o processo de constituição urbana
do Rio de Janeiro.