Não existe maneira
de compreender o mundo
sem antes detectá-lo por meio do sistema
de radar
de nossos sentidos (ACKERMAN: 1996, p.15).
Em minha tese de doutorado “Entre
arabescos, luas e tâmaras – performances islâmicas em São
Paulo” defendida em 2007, considerei que os sentidos audição,
tato, paladar, olfato, visão são re (modelados) no cotidiano
islâmico, tanto para aqueles que nascem muçulmanos, portanto
os descendentes de árabes, quanto para os revertidos .
Venho pesquisando o Islã em São Paulo desde 1998 e nesses
quase 11 anos, observei atentamente as mudanças corporais que advêm
da imersão nesta religião. No início, meus trabalhos
eram voltados para o tema da imagem fotográfica e o modo como os
muçulmanos se relacionam com ela; a partir deste trabalho (2001),
passei a produzir audiovisuais que
retratassem o cotidiano islâmico e sua simbólica religiosa
a fim de estabelecer relações entre imagem e performance
islâmica.
Os muçulmanos têm um
modo peculiar de experimentar e experienciar sua religiosidade, como a
quebra
de jejum, prática islâmica que intensifica as sensações
corporais, incorporando hábitos, do mesmo modo que fazer as cinco
orações diárias (salat),
o hajj –
peregrinação a Meca, etc. (Ferreira: 2007). Todas essas prescrições
do que comer e beber e de como se comportar fazem do corpo islâmico,
algo “maleável”, “disciplinável” dentro dos preceitos da
religião, que significam, na verdade, entrega, e não meramente
submissão, como corriqueiramente são entendidos. (Ferreira, 200b).
Rodrigues (2006, p.95) afirma que “todas as experiências do homem
são mensagens percebidas por intermédio dos sentidos e devem
ser decodificados de alguma forma”. O autor adverte que cada sociedade
atribui pesos diferentes a estes códigos sensoriais especiais, sendo”
[...] natural que algumas culturas enfatizem um determinado sentido em
detrimento de outros, mas é bom esclarecer que entre os sentidos
há certa colaboração”.
Se contrairmos as narinas de maneira
a impedir que qualquer odor chegue aos receptores olfativos, ficaremos
impossibilitados de distinguir entre o gosto de café e o de uma
solução fraca de quinino, ou entre suco de maçã
e suco de cebola – café e quinino têm em comum certo amargor,
e a cebola e a maçã têm certa doçura em comum,
o que é tudo o que recebe um individuo de nariz fechado (Rodrigues ,
2006, p.96).
Os sentidos são a porta
de entrada para o mundo e a postura vertical do homem fez com que ele percebesse
seu meio de modo diferente. O homem em pé vê coisas que curvado
ou sentado talvez não veja, mas a alteração na postura
do corpo não diminui ou amplia os sentidos, apenas: diferencia-os.
Essa diferenciação, que se entrelaça a processos culturais
variados, leva-nos a compreender que as diferenças sensoriais de
um grupo em relação a outro estão referidas a posturas
que favorecem (ou não) outras significações, outros
sentidos. O homem horizontalizado do Islã experimenta outras sensações
e outros modos de sentir e transmitir o mundo, pois sua percepção
concreta da vida, permeada pela religiosidade, aproxima instâncias
que, para o homem ocidental, mantêm-se alheias - ou pelo menos apartadas
- das práticas cotidianas.
É preciso olhar para o embodiment
— como fez Csordas (1990), que se refere às múltiplas formas
e manifestações da incorporação da cultura.
Para ele, existe um “vazio”, entre o conjunto de referentes culturais e
os imponderáveis da experiência, que se atualiza na disposição
silenciosa dos corpos. A religião é, para ele, um bom
modelo para pensar, não só o plano corpóreo, mas também
o incorpóreo das experiências de estar-no-mundo. O exemplo
dado por ele é o da glossolalia
, fenômeno característico da religião carismática,
pelo qual o fiel compartilha o não-dito. Para o autor, este é
um modo do homem assumir um estar-no-mundo (1990, p.40).
O antropólogo David Howes
(1991), em coletânea por ele organizada, dedica-se a pensar o corpo
e os sentidos; no seu caso específico, muito mais os sentidos e
como eles engendram a mudança no corpo em determinadas sociedades.
“The drum is a body”. Filósofos ,
antropólogos, sociólogos têm se dedicado a estudar
as questões do corpo e dos sentidos, porém não pretendo
fazer aqui uma exegese deste material, preferindo ocupar-me das leituras
que mais me auxiliaram neste processo de descoberta do corpo e das sensações
dos muçulmanos. Pelo corpo se lê a sociedade e o indivíduo,
pois o corpo é revelador das sensações e dos sentidos
que nele se inscrevem.
Meu argumento observa que os sentidos
são refinados, remodelados, tanto na entrada quanto pela permanência
na religião, contribuindo para a constituição do ser
islâmico. É preciso ter em mente que a religião passa
pelo corpo
e altera os sentidos e a corporalidade, pois é capaz de modificar
suas técnicas (do corpo), a expressão dos sentimentos, a
gestualidade, as regras de etiqueta, as técnicas de tratamento,
as percepções sensoriais, as marcas na pele, a má
conduta corporal (Le Breton) etc. A corporalidade está no centro
dessas temáticas. A respeito da corporeidade movente dos muçulmanos,
chamo a atenção para alguns elementos que, embora não
elaborados conscientemente pelos próprios fiéis, foram perceptíveis
na pesquisa e na finalização deste trabalho. Digo não-conscientes
porque muitos não pensavam sobre suas mudanças sensórias
ou corporais, antes de minhas perguntas.
Christine Greiner narra o inusitado
caso de um contador que lhe relatou o quanto era difícil para ele,
durante sua rotina diária, sentado à mesa de trabalho, lembrar-se
de que tinha corpo . Ela ressalta o fato de que uma dor de dente em pessoas
sedentárias deveria fazê-las lembrar da existência do
próprio corpo, mas não é o que acontece. Para muitas
pessoas, sentir o corpo é coisa de atleta e de bailarino (2006,
p.15). Foi, de fato, o que pude constatar. Pensar no corpo e em suas alterações
com a mudança de religião, ou mesmo para aqueles nascidos
na religião é incomum . Trata-se, para eles, de “algo que
se faz e pronto”, mas isso não significa que uma reflexão
a respeito de algumas dessas mudanças não seja importante;
ao contrário, é fundamental, quando se quer compreender a
entrega a Deus. A tarefa do antropólogo é sobretudo buscar
esse sentido.
Os sentidos são “bons para
pensar”
[...]A cada instante
decodificamos sensorialmente o mundo, transformando-o em
informações
visuais, auditivas, olfativas, táteis ou gustativas.
Assim, certos
sinais corporais escapam totalmente ao controle da vontade
ou da consciência
do ator, mas nem por isso perdem sua dimensão
social e cultural
(Le Breton, 2006, p.55).
Passo agora aos significados
dos sentidos do corpo. Segundo Bouhdiba (2006), o paraíso (islâmico)
é o lugar onde acontece o banquete dos sentidos; seria a reconciliação
do homem com a natureza, com a matéria. Tudo começa pelo
olhar e tudo termina nele. O odor também é valorizado no
paraíso, pois as fragrâncias recorrentes são o almíscar,
o gengibre, o âmbar e constituem a base do solo do Éden e
do corpo das huris .
A melodia universal que despertará a audição são
as recitações de textos sagrados (2006, p.110). O paraíso
é o tempo do prazer interminável. O Islã, segundo
Bouhdiba, não recalca a libido (p.113), pois a paz do paraíso
passa pela realização dos nossos desejos; mas, para se alcançar
o paraíso, e todas as delícias que advêm dele, é
preciso ser um muçulmano exemplar. Se o muçulmano seguir
todos os preceitos do Islã, é certo que, no dia do Juízo
Final, será recompensado. Sugiro que o paraíso, tal qual
é apresentado por Bouhdiba (2006), pode levar o muçulmano
a, de fato, cumprir todas as suas obrigações religiosas;
mas deve-se ressaltar que só o fato de fazer a Shahada
já indica merecimento deste paraíso.
Para ampliar a discussão sobre
os sentidos, postei um tópico a respeito do tema em comunidades
islâmicas do Orkut. Minha intenção,
ao fazer isso, foi a de me aproximar de um número maior de muçulmanos,
sabendo, é claro, que a grande maioria dos que se utilizam o meio
virtual é formada por jovens. Mesmo assim valeu a pena, pois, a
partir de então, pude classificar melhor os sentidos e cotejar essas
respostas com as que obtive, pessoalmente, em campo.
OS SENTIDOS DE SER MUÇULMANO
15/11/2005 05:10
Boa tarde, meu nome é Francirosy
Ferreira, sou antropóloga e estou escrevendo uma tese sobre o Islã
em São Paulo. Gostaria que muçulmanos revertidos ou não
escrevessem nesse tópico a respeito do sentido de ser muçulmano.
Estou pensando exatamente nos sentidos como: visão, tato, olfato,
audição, paladar. Como vocês classificariam esses sentidos
no cotidiano e no ritual religioso?
Se for possível autorizar
a publicação dessas informações, por favor
me avisem, colocando nome. Obrigada. Francirosy
Rami: A audição
é o último sentido que morre no ser...É o poder da
união entre os pais e o filho no útero da mãe.....É
a inspiração, ou a ligação dos anjos com o
humano. A audição é também um pouco perigosa,
pois não pode acreditar em tudo que se ouve (entre humanos) e o
imam
Ali (SAW) disse... “a distância entre a verdade e a inverdade é
quatro dedos” (distância entre o ouvido e o olho), por isso tenho
de ter o poder de “filtrar” o que ouço... (Orkut, 15/11/2005
07:13).
Em árabe, não ser
capaz de ouvir significa absurdo
(Ackerman:215).
No Islã, a audição
tem o poder de transubstanciação do fiel, pois Deus se comunicou
com o Profeta através do anjo Gabriel. O anjo pede que o Profeta
recite. É pelo ouvido que ocorre a comunicação. O
Profeta ouviu a voz do anjo, que falava a voz de Deus. Ouvir estabelece
uma relação com a fala.
Quando perguntei a Sheik
Jihad, sheik da comunidade de São Bernardo do Campo e vice-presidente
da WAMY (Assembléia
Mundial da Juventude Islâmica), que sentido ele considerava o mais
importante, respondeu-me “a audição”, porque ouvir é
o caminho do coração e o que entra deve ser alimento para
alma. Deve ser armazenado para ser distribuído (transmitido). Por
isso quando uma criança nasce o sheik sussurra em seu ouvido
Allahu
Akbar (Deus é Maior). É pelo ouvido que se aprende a
ver, tocar, estar no mundo. Na visão de mundo muçulmana,
o uso das imagens pode enganar os homens, desvirtuá-los do caminho
certo, da senda reta que é a que leva a Deus e não ao caminho
inverso, o da idolatria (Ferreira: 2006). Ouvindo desde pequeno as palavras
de Deus, o muçulmano vai armazenando o conhecimento, como diz Sheik
Jihad, e assim poderá transmitir de forma correta o que aprendeu.
Um exemplo disso é a recitação do Alcorão.
Para aprender a recitar os versículos é necessário
ouvi-los e pronunciá-los repetidas vezes: é o dhikr
(repetição) por excelência, como afirma Hanania (1999,
p.13) e o árabe é fundamento de vida.
A audição fica mais
aguçada em relação a algumas coisas, como a recitação
do Alcorão e do árabe. Aprendemos as diferenças entre
uma recitação e outra e procuramos os defeitos para consertá-los.
Uma amiga certa vez disse que até a audição dela melhorou
depois que começou a usar o hijab; mas, às vezes, eu penso
que isso é impressão dela... (Thais Jamyle, notas caderno
de campo, novembro 2006).
A audição envolve, também,
a música; não só a palavra religiosa transmitida.
No Islã não há uma liturgia pautada pela música,
como no catolicismo ou o candomblé. Mas é importante notarmos
que há restrição aos instrumentos de corda, sopro
etc., restando apenas a percussão como o som adequado a ser ouvido.
Os mais “radicais” chegam a dizer que música é haram
(pecado, erro). Perguntei a Mujahid (Alex), no Orkut:
Franci: Salam, música
é
haram no Islã? Li uma discussão em uma das
comunidades e fiquei perdida...tudo bem que o funk carioca possa
ser assim considerado, mas há tantas músicas etc.
Alex (Mujahid): Oi
Franci,
Não, na verdade não
é a música que é haram, e sim os instrumentos,
com exceção das que sejam acompanhadas de instrumentos de
percussão ou apenas cantadas. No Islam, temos os anashids,
que são músicas islâmicas, no caso do funk,
seria mesmo, por causa das letras, que induzem ao pecado.Tem alguns hadices
do Profeta que relatam sobre isso, quando era questionado por seus companheiros,
a explicação é que estes instrumentos, através
da música, vão tirar você do seu estado normal. E como
tudo na religião, que tira você do seu estado normal é
haram,
com determinadas músicas, não seria diferente. (Orkut
em 3/11/06)
“...o paladar é social”
(Ackerman, 1996, p.161).
Ackerman (1996) diz que o paladar
é social; os seres humanos dificilmente escolhem jantar sozinhos.
A alimentação possui poderoso componente social. Se quisermos
dar a algum acontecimento um significado emocional, simbólica ou
misticamente, o alimento estará presente para santificá-lo
e enaltecê-lo. As atividades do cotidiano também estão
atreladas à comida, como “ganhar o pão de cada dia”, ou “merecermos
nosso sal”, isto é, nosso salário.
O jejum
purifica o corpo, homens e mulheres rezam mesmo não comendo, pois
a melhor comida é a oração. Come-se quando se reza.
A palavra é alimento. Deixa-se de comer para sentir o que
outro, que passa fome, sente.
Abro um parêntese para avançar
em questões ilícitas, isto é, coisas proibitivas no
Islã. Entre as coisas impuras ou proibidas temos a carne de porco
e as bebidas alcoólicas. A carne de porco é abominada por
judeus e muçulmanos. O veto hebraico está descrito no Levítico
(11.7), um dos cinco livros do Pentateuco, cuja autoria é atribuída
a Moisés. O suíno é um animal impuro “porque tem a
unha fendida, mas não rumina” (Douglas, 1991, p.71). No Alcorão
(Surata 5, versículo 3), temos: “Estão-vos vedados: o morticínio;
o sangue, a carne de suíno e tudo que tenha sido sacrificado com
a invocação de outro nome que não o de Deus”. Muitos
acreditam que esta proibição está ligada ao fato do
porco enlamear-se e devorar qualquer coisa, o que o torna repulsivo. Também
se pode indicar a transmissão da teníase, uma enfermidade
parasitária contra a qual os povos antigos se sentiam indefesos.
Outras explicações,
como a do antropólogo Marvin Harris (1974), defendem que o porco
não era compatível com a vida nômade, pois não
sendo ruminante, ele necessitava, regularmente, de alimento, tornando-se
um animal economicamente prejudicial ao grupo. Marshall Sahlins (2003),
em La pensée bourgeoise,
analisa o modo como os povos lidam
com os alimentos e com as vestimentas. Comer carne bovina ou de cavalo,
vestir seda ou jeans, tem mais implicações do que podemos
imaginar. Não só de ordem econômica, mas levando em
consideração o ethos simbólico de cada povo. Os
significados
imbricados no consumo de determinados produtos, na comestibilidade,
vão
além do referencial econômico e social, estando
também
na esfera da cultura e dos valores atribuídos a determinados
alimentos
e produtos, de um modo geral. A produção, diz Sahlins
(p.169): “é algo maior e diferente de uma prática
lógica
de eficiência material. É uma intenção
cultural”.
Para o autor, existe um locus privilegiado do processo
simbólico,
de onde emana um quadro classificatório imposto a toda cultura
(p.210).
Sobre as bebidas alcoólicas,
a proibição estende-se a tudo o que é intoxicante.
A palavra árabe khamr significa qualquer bebida inebriante que cause
intoxicação, tudo que confunda a mente (p. 111). No Alcorão
(Surata 5, versículos 90-91) temos:
Ó crentes, a bebida
inebriante, os jogos de azar, a dedicação às pedras
e adivinhação com setas de rabdomânica, são
manobras abomináveis de Satanás. Evitai-os, pois, para que
prospereis. Satanás só ambiciona infundir-vos a inimizade
e o rancor mediante a bebida inebriante e o jogo de azar, bem como apartar-vos
da recordação de Deus e da oração. Não
desistireis diante disso?
Esses dois versículos associam
essas práticas a ídolos e à procura de ajuda por meio
da adivinhação, declarando-os abomináveis. Apontam
o álcool como sendo o grande mal para os indivíduos, a família
e a sociedade. É proibido, também, comercializar bebidas
alcoólicas. Segundo Al-Karadhawi (s/d.:116), o método islâmico
é o de fechar todas as vias de acesso ao ilícito; também
é ilícito um muçulmano vender uvas a alguém
que irá fazer khamr com elas. É proibido dar e receber
álcool. O muçulmano deve evitar ir a uma festa em que serão
servidas bebidas alcoólicas.
No Islã há o reconhecimento
do parentesco de leite, como acontece com o de sangue. Os mesmos interditos
que ocorrem em relação ao casamento consanguíneo ocorrem
entre lactentes, suas amas-de-leite e toda sua família. Quem teve
a mesma ama-de-leite é considerado irmão ou irmã,
mesmo se não mamou no mesmo período. O aleitamento tem a
mesma amplitude da consanguinidade: as proibições do leite
são idênticas às proibições do sangue.
(Bouhdiba, 2006).
Ao apresentar pela primeira vez o
vídeo Allahu Akbar ao Sheik Jihad, este demonstrou muita
alegria ao ver seu “irmão” de leite - Sheik Salat -, falando sobre
o jejum. -“Meu irmão, veja!” - “Seu irmão?” - “Sim;
meu irmão. Irmão de leite é a mesma coisa que um irmão
de sangue”.
Podemos ainda explorar a ideia da
alimentação (paladar) relacionada ao tato: a amamentação
do bebê deve ser observada pela mãe, explica Nadia Hussein
a uma moça que acabara de ter filho. "Só pode dar o peito
enquanto o bebê estiver com fome, se ele estiver apenas fazendo manha
no peito não pode, porque isto é considerado haram".
Nada é mais marcante que
um cheiro (Ackerman, 1996, p.25).
Segundo Ackerman (1996, p.25), os
odores denotam suavemente nossas memórias. O olfato é um
sentido mudo, o que não tem palavras, o mais direto de nossos sentidos.
Ela considera que as pessoas que comem carne cheiram diferente daquelas
que são vegetarianas, assim como é diferente o cheiro de
crianças e adultos. Durante a minha pesquisa, sempre fiz as seguintes
associações: os muçulmanos só comem carne halal,
carne sem sangue; fazem jejum e isto muda o metabolismo; não comem
carne de porco; não consomem bebidas alcoólicas, vinagre,
enfim todas essas restrições constroem um corpo diferente.
Então, alguma diferença no corpo deveria haver.
Vemos somente quando existe luz suficiente,
degustamos o paladar quando colocamos coisas na boca, sentimos apenas quando
tocamos alguém ou alguma coisa, ouvimos somente quando os sons são
audíveis. Mas cheiramos o tempo inteiro, sempre que respiramos (Ackerman,
1996, p.26).
A ideia de que respiramos o tempo
todo e de que a respiração é importante, faz-me lembrar
a aula de Aida Hanania (em outubro de 2006), quando esta afirmou que, para
o calígrafo, a respiração é fundamental. Em
alguns momentos, é preciso prender a respiração para
caligrafar determinados versos.
<>
<>Ackerman (1996) afirma que culturas
islâmicas descobriram para a rosa símbolos mais espirituais.
Segundo a autora, Yunus Emre, místico do século XIII, afirma
que as palavras “Allah, Allah” devem ser pronunciadas cada vez que uma
pessoa aspire seu perfume. Afirma que o Profeta Muhammad era grande devoto
dos perfumes. As rosas misturavam-se bem com a água, servindo para
a produção de delicados refrescos. A flor passou a ser importante
condimento da cozinha islâmica, além de ser muito usada em
aparatos perfumados. Outra novidade que apresenta é o fato de que
a hospitalidade islâmica manda que um convidado seja aspergido na
porta de entrada com água de rosas.
<>
<>
Com o olfato é possível
perceber a limpeza corporal. Quem tira os sapatos para rezar não
pode deixar que o outro sinta o cheiro de seu pé. É preciso
estar limpo; mais que isso: é preciso estar purificado. Mulheres
menstruadas se afastam; ficam fora da sala de oração.
Rami: Através dele consigo
sentir a pureza da vida, ou a sua poluição, consigo sentir
tudo que Deus (swt) criou de bom para sua humanidade...o olfato
controla os meus sentidos que pode sentir apenas o que me é permitido...
(perfume de mulher que por mim passa, cheiro de comida no mês de
jejum...etc.)
Como percebemos.... em todos
os sentidos tenho de ter controle sobre os desejos... pois o desejo está
em todos os sentidos... (digo do desejo físico) e quando tenho controle
sobre esses desejos, ai sim, estou mais no caminho correto do Islam...
(Orkut, 15/11/2005)
Dize aos crentes que recatem
seus olhares, e conservem seu pudor, porque isso é mais plausível
para eles. Deus está bem inteirado de quanto fazem.
Dize às crentes que recatem
seus olhares, e conservem seu pudor, e não mostrem seus encantos
além do imprescindível, e que cubram o seio com seus véus
(Surata 24, versículos 30-31).
Em artigo escrito para os Cadernos
de Antropologia e Imagem (Ferreira, 2006), considerei que ainda temos muito
que aprender sobre o lugar olhado das coisas. Não é adequado
enxergar os valores religiosos a partir de nossas referências. O
Ocidente tenta ver com seus olhos quando deveria tentar calcular o lugar
de onde se olha “[...] Para pensarmos as sociedades islâmicas é
preciso entender a sua organização que “originariamente”
se dava em clãs, grupos familiares e nos quais a transmissão
oral era e é um fato considerável na sociabilidade árabe,
por isso a valorização dos recitadores, dos poetas”. Nesse
sentido, a sociabilidade está centrada na oralidade, assim como
no Ocidente, a visualidade, como bem apontou Caiuby Novaes (2000, p.2)
está atrelada à individualidade: “quanto mais uma sociedade
enfatiza a visão, menos comunitária ela será; quanto
mais enfatiza a audição, menos individualista será”.
A visão é, sem dúvida, o sentido mais usado na atualidade.
As pessoas têm necessidade de ver para crer; “ver com esses olhos
que a terra há de comer” (Caiuby Novaes: 2000). A visão remete
ao conhecimento, a uma certeza. Visão: janela da alma, como nos
apontou Chauí (1989).
Com o cuidado de não seduzir,
as mulheres do Islã só devem deixar à mostra seu rosto
e suas mãos .
A vestimenta, portanto, deve dissimular o corpo e marcar a diferença
sexual. Temos o véu para as mulheres e a barba para o homem. Se
a vestimenta islâmica passa a ser orgulho para as mulheres, a barba
(pêlos) é orgulho de adolescentes e de homens maduros, que
a portam como atração estética e como instrumento
de sedução, de prestígio que carrega, ainda, uma significação
religiosa e sedutora, segundo Bouhdiba (2006, p.54).
O profeta dizia: O zinà
dos olhos é o olhar; o zinà da língua é
a palavra; o zinà da mão é o toque, o zinà
dos pés é caminhar na direção de nossos desejos...também
é proibido ao muçulmano deleitar-se com voz harmoniosa de
uma mulher estrangeira (Bouhdiba 2006, p.59).
Prostrado, o muçulmano olha
para si mesmo, ao mesmo tempo em que olha para Deus. Segundo Bouhdiba,
olhar e ser olhado são objetos de um aprendizado precioso e minucioso;
ser muçulmano é controlar seu olhar e saber subtrair, ao
olhar do outro, sua própria intimidade; é viver incógnito
(2006, p.57). Em muitos momentos pude observar o modo como os muçulmanos
homens olhavam para mim, sempre procurando não fitar meus olhos,
o que, com o tempo, percebi que se tratava de um habitus, algo adquirido
e feito automaticamente e que varia muito, dependendo do grau de religiosidade
ou de proximidade com a nossa cultura. Rami escreve no Orkut o que pensa
da visão no Islã:
Através da visão
física ou moral posso me orientar no caminho do islamismo. A visão
física ajuda-me a ler e aprender mais, também a ver os atos
corretos ou errados meus e de outros seres, através da visão
posso educar meu jeito muçulmano a ver o que posso e tampar minha
visão ao que não posso ver, o islam. é também
a religião da verdade, e a visão é também o
sentido da verdade da vida. A visão moral (e acho que não
é o caso da tua pesquisa), mas essa visão deixa-me mais atento
com meus pensamentos a direcionar meu caminho na vida com a fé em
Deus (swt) (Em 15/11/2005; 07:11)
A visão ,
aqui, tem o sentido de que é através dela que se pode entrar
em contato com as palavras do Alcorão e dos outros textos que ampliam
o conhecimento do muçulmano. Ver para aprender. Aprende-se vendo.
Thais Jamyle destaca a mudança de comportamento e o fato de aprender
a se policiar em relação ao olhar. O que pode e o que não
pode ser visto:
Assim como a visão: evitamos
olhar diretamente para alguém do sexo oposto. Como sempre olhei
as pessoas nos olhos, isso foi meio estranho pra mim, e acho que muitos
muçulmanos tiveram outra impressão de mim no início.
O meu marido, quando se reverteu, ia à mesquita e ficava olhando
para as mulheres... não porque queria alguma coisa, mas por curiosidade.
Era a primeira vez que via mulheres de véu tão de perto.
E agora ele morre de vergonha de se lembrar disso. Também nos policiamos
para não olhar para fotos. Eu não precisei mudar muito...
Meu marido baixa os olhos quando passa em frente a uma banca de jornal,
e quando há alguma cena imprópria na TV ele fecha os olhos
e espera a cena passar... Se é uma mulher nua, eu o aviso, mas quando
é um homem ele se dá ao trabalho de tapar meus olhos. (notas
de caderno de campo, novembro de 2006, Thaís Jamyle Pinheiro Dionísio.
Grifos meus).
Geertz (2001, p.162), citando a pesquisa
de Suzanne Brunner, afirma que a mudança no vestuário de
jovens muçulmanas fez com que se modificassem os sentimentos a respeito
de si mesmas e de seus atos. É um ser/estar no mundo que tenho verificado
nas transformações dos comportamentos, considera Brunner
(apud Geertz, 2001). Para ela, as mulheres que passavam a usar a
vestimenta islâmica jilbab, apresentavam motivações
diversas: religiosas, políticas e pessoais. Eram, em sua maioria,
jovens universitárias residentes na região central javanesa,
Jogyakarta e Surakarta .
A motivação dada como um beliscão (Geertz, 2001) é
um start que mobiliza a pessoa a mudar de vida: o que estou fazendo
da minha vida? Qual é a razão da minha existência?
Embora não seja tema deste artigo a reversão ao Islã,
é intrigante a motivação indicada para a busca desta
religião e não de outra. Ouvi muitas vezes dos revertidos
que foi a busca de respostas para a sua vida que os levou ao Islã.
Muitos me diziam que no Islã encontravam respostas que não
encontraram em outra religião. Diziam gostar das regras e do modo
de vida islâmico.
Nossa pele é o que fica
entre nós e o mundo (Ackerman, 1996, p.94)
Em Uma História Natural
dos Sentidos, Ackerman afirma que chamamos nossas emoções
de sentimentos e ficamos satisfeitos quando alguma coisa nos “toca”. Se
os problemas são espinhosos etc., têm de ser enfrentados com
luva
de pelica (1996, p.97). O toque ensina-nos a diferenciar entre eu e
outro e que existe alguém além de nós. Tocar é
tão terapêutico quanto ser tocado; a pessoa que executa a
cura, a que fornece o toque, é simultaneamente curada. Tocar também
é sinal de intimidade. Intimidade - palavra proibida no Islã,
onde só os casais e familiares se tocam; ou pessoas do mesmo sexo.
Pessoas de sexos opostos, mesmo se são casadas, só se tocam
na intimidade.
Durante a pesquisa de campo, sempre
tive o cuidado de não tocar nos homens estendendo a mão para
cumprimentá-los; procurava sempre certa distância corporal
deles, que impõem restrições ao contato entre homens
e mulheres. O con-tato é restrito, é reservado. No entanto,
não podemos esquecer que o tocar é fundamental no Ocidente,
principalmente em situações emocionais, quando tocamos do
modo que gostaríamos de ser tocados. Como afirma Ackerman, as mãos
são as mensageiras da emoção (1996, p.151).
Thaís Jamyle:
Bem, Franci, talvez seja melhor falar o que mudou no que falo, no que toco,
no que como e no que ouço. Isso vem um pouco da nossa reeducação
corporal. Primeiro aprendemos que não devemos tocar em homens desconhecidos
ou que não são da família... Então tive que
prestar atenção para não cumprimentar mais com beijinhos
ou dar a mão; às vezes isso é um problema, porque
somos pegos de surpresa e acabamos deixando... (notas caderno de campo,
novembro, 2006).
Ramy: O tato no islamismo
é a diretriz; mas ao mesmo tempo é perigoso, se não
souber usar ele dentro da linha islâmica... Posso tocar tudo que
me é de direito, e também tenho de saber o que não
me é de direito, e para mim tudo que me é de direito é
aquele que me é permitido a ser meu íntimo... tanto íntimo
no sentido masculino e feminino (digo humano) quanto íntimo no sentido
de coisas materiais.
A sexualidade, ao contrário
do que se possa imaginar, não está voltada apenas para a
procriação. No Islã, o coito não é penetração
no mundo do mal, mas do sagrado. A sexualidade tem um lugar importante
e de outra natureza. O casamento, para ser válido, deve ser acompanhado
de uma festa (walimã): cantos, danças, gritos de alegria
(Bouhdiba, 2006, p.31). O casamento, portanto, é o ato que concretiza
a ordem da existência e dá à sexualidade uma significação
nova. O nikãh é o coito transcendido.
Há um hadith do Profeta
que diz que um homem não pode ficar mais que quatro meses longe
da sua esposa, isto é: sem manter relações sexuais
com ela. Isto implicou que os homens que fossem à guerra voltassem
às suas tendas quando este período se encerrasse.
O ilã’ é um
juramento por meio do qual o marido torna ilícita sua mulher por
um período dado. O Alcorão admite a validade de tal juramento,
mas limita-o a quatro meses, ao fim dos quais o marido que não retorna
ao leito conjugal está ipso facto separado, definitivamente,
de sua mulher (Bouhdiba, 2006, P.34).
É certo que no Islã
o sexo é visto como algo natural e portanto necessário para
homens e mulheres. O prazer é permitido tanto para um quanto para
o outro, mas há regras estabelecidas quanto a higiene, quando, com
quem etc. O corpo é sinédoque do mundo e expressa o quente
e o frio; o úmido e o seco .
Contato, tocar o chão, o tapete
- cabe lembrar que quando o anjo abraça o Profeta Muhammad e pede
que ele recite, este só o faz quando não suporta mais o abraço
do anjo. O tato foi o momento de decisão que estabeleceu a comunicação
do Profeta com Deus. No momento da oração, o muçulmano
encosta a cabeça no chão. O contato com o chão o coloca
na situação de entrega a Deus.
Essa discussão sobre os sentidos
teve como propósito apontar os sentidos de ser muçulmano.
Deve-se considerar que o ser e o estar no mundo estão repletos de
símbolos e significados que, para serem entendidos é preciso
que se recorra a elementos básicos da constituição
do ser, que são seu corpo e seus sentidos. Constance Classen leva-nos
a ver que:
Sensory values not only
frame a culture’s experience, they express its ideals, its hopes and its
fears. Justice and life are conceptualized in terms of temperature or smell.
Death is a loss of heat or a loss of odour. Fertility and procreation are
colours. [...] As sensory values are social values,
sensory relations are also social relations […] Structures of power within
a society can also receive sensory expressions in the differential allocation
of sensory powers. (1993: p.136-137)
Compreender o modo de ser dos muçulmanos
exigiu de mim mais do que a leitura de textos acadêmicos, anotações
em caderno de campo ou produções videográficas e fotográficas.
A percepção desses sentidos aguça nosso modo de ver
e de sentir. É a religião do corpo, e muitos podem considerar
que todas as religiões são religiões do corpo; mas
eu diria que no Islã o corpo deve ser ressignificado para se tornar
outro, para ser outro. Há uma reformulação desse corpo
a ponto de ele, de fato, passar para outro lado que não o da simples
reprodução do gesto. É um estar no mundo que é
diferente. A mudança implica todos os sentidos; mudam-se os costumes
alimentares, a maneira de tocar as pessoas, apura-se o olfato, a visão
passa a ser direcionada de outra maneira, procura-se ouvir outras coisas
que, antes da entrada na religião, não aconteciam para um
revertido. Para um muçulmano de nascimento, esses elementos são
trabalhados desde a infância. No entanto, é bom lembrar que
mesmo nascendo em família muçulmana, muitos deles são
brasileiros e, portanto, o modo de elaborar os sentidos é outro;
e muitos devem ter ouvido que os brasileiros são sinestésicos,
pois se abraçam o tempo todo. Educar uma criança nos moldes
islâmicos não deve ser tão fácil assim, se a
cultura onde vivem é tão diferente, mas também não
impossível, como pude destacar em minha tese de doutorado (Ferreira:
2007) e nos vídeos.
Os sentidos são apontados
como importantes e, ao mesmo tempo em que são bons são, também,
perigosos, existindo um tênue limite, nesse aspecto, no que tange
à importância daquilo que se ouve, que se come, que se toca
etc. Há uma vigilância quanto ao que deve e ao que não
deve ser feito pelo muçulmano, e isso implica entender os sentidos
de modo mais amplo. Não basta valorizar a audição;
é preciso saber que ela está próxima à boca
e que isto pode ser perigoso se mal administrado.
Quando pensei no sentido de ser muçulmano,
tinha em mente uma construção cotidiana desse ser. Tal questão
levou-me a vários caminhos perceptivos. O primeiro foi entender
que existe um processo de compreensão desse reverso, do seu próprio
corpo e de sua existência, mas há, também, aqueles
que são treinados (ou não) desde pequenos, e, grosso modo,
pode-se inferir que há vários modos de aprendizado quando
nos referimos ao corpo.
Por uma Antropologia dos sentidos
(islâmico) – algumas notas
Parece óbvio afirmar que os
sentidos no Islã são constituídos de modo diferente
e, portanto, elaboram corpos diferentes. Mas vale caracterizar o que aponto
como diferente e quais foram as diferenças que observei. A primeira
que devo destacar é a visão: se no Ocidente ver é
o modo predominante, e portanto este é considerado o sentido mais
fundamental, no Islã é a audição. Não
é à toa, que o Profeta ouviu o anjo. O muçulmano indica
em vários momentos a importância da audição-fala.
Ouvir para falar corretamente. Se a audição se destaca no
Islã, o tato nem tanto, pois não se toca qualquer coisa,
em qualquer lugar; há regras para o toque que acabam por modelar
o corpo, mais explicitamente; se os homens não estendem a mão
para cumprimentar as mulheres que não são da sua família,
temos então um corpo diferente, um comportamento a ser apresentado.
Aqueles que entram para a religião têm que aprender a não
estender a mão, a demonstrar um recato no gesto, no olhar, na fala.
Não há beijos e abraços, como estamos acostumados
no Brasil. A não ser homem com homem e mulher com mulher, pois as
relações, no Islã, são homossociais.
A comida, por sua vez, é algo
central na cultura árabe; não se nega comida. Há sempre
fartura à mesa. O comentário de Nadia Hussein no final do
vídeo Vozes
do Islã: “Eu não sou uma árabe exemplar,
não é Franci?”, estava se referindo ao fato de não
ter preparado um lanche especial para me receber em sua casa. Um simples
chá, para um árabe, é motivo para um banquete e nisto,
nós brasileiros, temos muito em comum com eles; aqui também,
a fartura à mesa é algo valorizado culturalmente. A comida
árabe desperta o olfato, o cheiro de esfihas e kibes
é realmente de dar água na boca. Desperta o paladar. Seus
aromas estimulam sensações, provocam memórias e despertam
afetos. A cultura entra pela boca. Conquista-se pelo estômago. Nada
mais natural que o jejum para fazê-lo pensar no “pão de cada
dia”. Não comer irá treinar ainda mais os sentidos, pois
quanto mais fome sentirmos, mais despertos estarão nossos sentidos
e o comer no final do dia nos traz um prazer imensurável.
O ver e o tocar estão relacionados;
ver desperta desejo, a própria libido. Cobre-se o corpo para não
ser visto, para não ser desejado. Não ver para não
ousar tocar. Se não vejo, não desperto o desejo que há
dentro de mim, portanto, não tocarei. A distância toma conta;
é preciso usar outros elementos para estabelecer a atração,
ou desviar o olhar, como me diziam algumas moças no acampamento
islâmico do qual participei em 2004 (Ferreira, 2009). “A gente finge
que não está olhando”. O certo é que quase tudo que
é oculto desperta interesse, atração. Não ver
não significa que o desejo seja posto de lado, ao contrário,
a possibilidade de não ver-tocar, desperta ainda mais o interesse
pelo outro. Os mais religiosos desviam o olhar frequentemente, não
estendem a mão, ficam constrangidos quando são obrigados
a entrar em contato, porque estabelecem um profundo respeito com o corpo
do outro. Tocar no corpo de alguém é como tocar a sua alma,
é fazer parte do outro, é estar na intimidade. E isto só
é possível nas relações matrimonias e familiares.
[...] Elas são para
vós vestimentas, e vós sois para elas vestimentas. (Surata
2, versículo 187).
A conclusão primeira a que
chego, depois de tantos anos de pesquisa, refere-se à ordem dos
sentidos no Islã. Audição, paladar, olfato, visão
e tato transformam-se nos seguintes pares de relação: audição-fala;
paladar-olfato; visão-tato. São esses pares que modelam o
corpo, estabelecendo a comunicação. Propor uma análise
simbólica dos sentidos teve por objetivo responder qual o sentido
de ser muçulmano. Para responder a isto, muitas vezes, em campo,
senti que estava fazendo as perguntas erradas; hoje percebo que não
se tratava de fazer as perguntas certas (ou não) e sim que, para
os nossos “sujeitos” e no seu ponto de vista, algumas perguntas não
têm a menor importância, pois conhecem a cultura e seus respectivos
valores. Consideramos especial algo que, para eles, faz parte do dia-a-dia
e, por isso, não se formulam questões nem pensam a respeito.
Quando percebemos que eles sabem
e conhecem de um modo diferente do nosso, achamos que estamos formulando
as questões erradas. No entanto, estamos sim nos deparando com a
realidade de sermos todos antropólogos e nativos, cada um a sua
maneira e guardadas as devidas proporções. Como Viveiros
de Castro nos estimula a pensar:
Se, em lugar de admitir
complacentemente que somos todos nativos, levarmos às últimas,
ou devidas, consequências a aposta oposta - que somos todos 'antropólogos'
(Wagner, 1981:36), e não uns mais antropólogos que os outros,
mas apenas cada um a seu modo, isto é, de modos muito diferentes?
O que muda, em suma, quando a antropologia é tomada como uma prática
de sentido em continuidade epistêmica com as práticas sobre
as quais discorre, como equivalente a elas? Isto é, quando aplicamos
a noção de "antropologia simétrica" (Latour 1991)
à antropologia ela própria, não para fulminá-la
por colonialista, exorcizar seu exotismo, minar seu campo intelectual,
mas para fazê-la dizer outra coisa? Outra coisa não apenas
que o discurso do nativo, pois isso é o que a antropologia não
pode deixar de fazer, mas outra que o discurso, em geral sussurrado, que
o antropólogo enuncia sobre si mesmo, ao discorrer sobre o discurso
do nativo?
(2002, p.115).
<>
Vê-se que o cotidiano islâmico
não é simples; requer e articula vários elementos,
que devem ser observados à risca, sem erro e com a maior dedicação
possível, pois o resultado de tudo isso é o corpo entregue,
recuperado, uma vida que retorna ao seu lugar, que retorna a Deus, que
se reverte. Este é o sentido de ser muçulmano: um eterno
retorno em busca da senda reta, que não é atividade fácil;
contudo a persistência será reconhecida no dia do Juízo
Final, pois no paraíso todos serão recompensados. Por meio
do aprendizado, dos conflitos, dos ruídos chega-se ao Paraíso.
<>
<>
<>
O Islã é uma
atenção constante devotada a seu próprio corpo, a
educação muçulmana é um adestramento que o
torna atento de maneira permanente ao funcionamento da vida vegetativa.
Beber, comer, urinar, peidar, defecar, copular, vomitar, sangrar, barbear-se,
cortar as unhas... tudo isso é objeto de prescrições
minuciosas... Há fórmulas para recitar antes, durante e depois
de cada ato. Há maneiras a ser seguidas, gestos a realizar, um estilo
a respeitar... Isso chega à obsessão. (2006, p.78-79)
Para o muçulmano, sua entrega
a Deus só traz benefícios; o principal deles é que
estarão aptos a conhecer e identificar Deus. Deus é maior
e, portanto, nada, nenhuma aliança feita na terra é maior
que ele. Sua vida transcorrerá em harmonia, aprenderá a seguir
regras com o jejum, terá autocontrole dos pensamentos, do corpo.
Em Meca saberá o que é ser universal, pois lá, não
interessando a nacionalidade, todos são iguais perante Deus. As
festas retornam, porque assim permite o calendário, tudo retorna
a Deus: do carneiro sacrificado ao corpo do muçulmano.
Aprende-se a ser muçulmano
à medida que se transforma o corpo e se alteram os sentidos. Essas
modificações vão alterar as performances já
constituídas. Alguém que está aprendendo a ser, não
deve elaborar boas performances, mas isto não é o mais importante
no Islã; o mais importante é fazer e buscar o conhecimento
para fazer melhor a cada dia, mesmo sabendo que nunca se chegará
à perfeição. Como disse , a busca da senda reta é
essencial para o muçulmano, é o caminho correto que leva
a Deus e ao paraíso.
Para concluir: os sentidos do muçulmano
estão atrelados ao sentido, à identidade, ao poder e à
experiência, como bem pontuou Geertz:
[...] o “sentido”, a “identidade”,
o “poder” e a “experiência” estão inextricavelmente emaranhados,
implicando-se mutuamente, e é tão impossível fundamentar
ou reduzir a religião a esta última, a experiência,
quanto a qualquer dos demais. Não é na solidão que
se constrói a fé (2003, p.164).
Compreender um muçulmano é,
sobretudo, entender sua estética corporal, sensorial, suas “identidades”,
suas relações de poder, seus arabescos, fluxos e a própria
experiência de ser/estar no mundo.
Notas
Trata-se
de uma categoria nativa para indicar o ato de retornar a Deus. Todo homem,
segundo os muçulmanos, nasce muçulmano, mas alguns tendem
a se afastar do reto caminho, quando fazem o caminho de volta, eles dizem
que esses reverteram, retornaram ao Islã.
É
um fenômeno em que o indivíduo crê expressar-se em uma
língua desconhecida.
A
classificação dos sentidos, proposta por Aristóteles
é bem interessante. Para ele, a hierarquia dos sentidos nos seres
humanos está definida pela visão, audição e
olfato, enquanto nos animais essa hierarquia se define pelo sabor-paladar
e tato-toque (apud SYNNOTT, 1991, 65). É possível
pensar o corpo na concepção marxista pela qual o corpo e
os sentidos do trabalhador estão submetidos à pressão
capitalista (Synnott, 1991). Ver também Csordas (1990), Foucault
(1977).
Segundo
Le Breton (2006: p. 92), o corpo é a interface entre o social e
o individual, entre a natureza e a cultura, entre o fisiológico
e o simbólico; por isso, as abordagens sociológica ou antropológica
exigem prudência particular e o discernimento preciso das fronteiras
do objeto. Para Le Breton, o corpo é uma ficção cultural
e a corporeidade é uma modalidade cultural incorporada. “La sociologie
du corps est um chapitre de la sociologie plus particulièrement
attaché à la saisie de la corporéité humaine
comme phénomène social et culturel, matière de symbole,
objet de representations et d’imaginaires” (Le Breton, 2004, p.3).
Neste texto há duas terminologias: corporalidade e corporeidade.
a primeira mais é usada pelos antropólogos e a segunda por
Le Breton em seus escritos. Quando estiver me referindo ao texto de Le
Breton, privilegiarei a terminologia utilizada por ele.
São
seres femininos tanto quanto possível; suas feições
são multicoloridas: brancas, verdes, amarelas e vermelhas. Seus
corpos são feitos de açafrão, de almíscar,
de âmbar e de cânfora e seus cabelos são de seda bruta
(Bouhdiba , 2006, p.102).
Profissão
de Fé do muçulmano: não há Deus senão
Deus e o profeta Muhammad é seu mensageiro.
Sobre
a relação entre cabelo e sexualidade ver Bastide, 1959
e Leach, 1983.
Pecado
capital.
Segundo
Bouhdiba (2006, p.87), a sociedade árabe, como muitas outras, sempre
teve má disposição em relação aos caolhos:
eles simbolizam a perda, mais ou menos bem merecida, do instrumento essencial
do contato com a luz! Deus pune os maus, os indiscretos bisbilhoteiros,
privando-os de um ou dos dois olhos. O caolho é aquele que é
parcialmente atingido. A psicanálise trouxe à luz esse tema
da punição simbólica pela perda de um olho.
Foi
o que percebi durante meu estudo de mestrado, estudando a comunidade do
Brás. Ver Ferreira, 2001.
Ver
Foucault, 1984, p. 105.
Reproduzo,
na íntegra, a nota 4 do texto de Viveiros de Castro (2002, p.141):
“Somos todos nativos, mas ninguém é nativo o tempo todo.
Como recorda Lambek (1998:113) em um comentário à noção
de habitus e congêneres, 'as práticas incorporadas
são realizadas por agentes capazes também de pensar contemplativamente:
nada do que 'não é preciso dizer' [goes without saying] permanece
não-dito para sempre". Pensar contemplativamente, sublinhe-se, não
significa pensar como pensam os antropólogos: as técnicas
de reflexão variam crucialmente. A antropologia reversa do nativo
(o cargo cult melanésio, por exemplo; Wagner 1981:31-34) não
é a auto-antropologia do antropólogo (Strathern 1987:30-31):
uma antropologia simétrica feita do interior da tradição
que gerou a antropologia não é simétrica a uma antropologia
simétrica feita fora dela. A simetria não cancela a diferença,
pois a reciprocidade virtual de perspectivas em que se pensa aqui não
é nenhuma 'fusão de horizontes'. Em suma, somos todos antropólogos,
mas ninguém é antropólogo do mesmo jeito: "está
muito bem que Giddens afirme que 'todos os atores sociais [...] são
teóricos sociais', mas a frase é vazia se as técnicas
de teorização têm pouca coisa em comum" (Strathern
1987:30-31)”.
Bibliografia
ACKERMAN,
Diane. Uma história natural dos sentidos. 2. ed. Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
ALCORÃO.
Português
– árabe. Tradução do sentido do Nobre Alcorão.
Trad. NASR, Helmi. Meca: Liga Islâmica Mundial. 2005.
Al-KARADHAWI,
Yossef. O lícito e o ilícito no Islam. São
Bernardo do Campo: Editora Alvorada, s/d.
BASTIDE, Roger.
Sociologia do Folclore brasileiro. São Paulo: Anhembi,
1959.
BOUHDIBA,
Abdelwahab. A sexualidade no Islã. São Paulo:
Editora Globo, 2006,
CAIUBY
NOVAES, Sylvia. Vi com meus próprios olhos, que esta terra
há de comer! Fascículo sobre visualidade que integra
o Material Educativo de Apoio da Mostra do Redescobrimento. 2000. p.1-4.
CHAUÍ,
Marilena de Sousa. Janela da alma, espelho do mundo. In: NOVAES, Adauto.
(Org.). O Olhar. São Paulo: Companhia das Letras,
1989. p. 31-63.
CLASSEN, Constance.
Worlds
of sense – Exploring the senses in history and across cultures.
New York: Routledge, 1993.
CSORDAS, Thomas.
Embodiment
as a Paradigm for Anthropology. Ettlos. Vol 18, n.1, pp. 5-47,1990.
DOUGLAS, Mary.
Pureza
e Perigo. Lisboa: Edições 70, 1991.
FERREIRA,
Francirosy C. B. Imagem oculta – reflexões sobre a relação
dos muçulmanos com as imagens fotográficas. 2001.
156f. Dissertação de Mestrado (Antropologia Social), FFLCH,
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.
FERREIRA,
Francirosy C. B.. A imagem do Profeta – Proibir por quê? Cadernos
de Antropologia e Imagem, Rio de Janeiro: UERJ, vol.22. 2006.
FERREIRA,
Francirosy C. B.. Entre Arabescos, Luas e Tâmaras – performances
islâmicas em São Paulo. 372f. Tese de Doutorado (Antropologia
Social), FFLCH, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.
FERREIRA,
Francirosy C. B.. O sacrifício do carneiro islâmico como objeto
transicional – notas antropológicas. In. Revista de Antropologia.
São Paulo, 2007. no prelo.
FERREIRA,
Francirosy C. B.. O estado liminar (cotidiano) do jejum no mês do
Ramadã. Literis,
vol. 1, p. 1-14, 2008.
FERREIRA,
Francirosy C. B. Experimentação do mundo. Revista de
Sociologia. Sociologia Ciência & Vida, São Paulo,
2008, p. 92 - 97.
FERREIRA,
Francirosy C. B.. Mais de Mil e uma Noites de experiência etnográfica-
uma construção metodológica para (pesquisadores-performers)
da religião. In: Etnográfica. Portugal, 2009.
No prelo.
FOUCAULT,
Michel. História da sexualidade II – O uso dos prazeres.
Rio de janeiro: Graal, 1984.
GEERTZ, Clifford.
Nova
luz sobre a Antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
GREINER, Christine.
O
corpo. Pistas para estudos indisciplinares. 2. ed. São Paulo:
Annablume, 2006.
HANANIA, Aida,
Ramezá. A Caligrafia árabe. São Paulo:
Martins Fontes, 1999.
HARRIS, Marvin.
Cows,
pigs, wars and witches. Nova York: Random House, 1974.
HOWES, David
(org.). The varieties of sensory experience - A sourcebook in the
Anthropology of the senses. Canada: University of Toronto Press,
1991
LE BRETON,
David. La sociologie du corps. 5. ed. Paris: Presses Universitaires
de France, 2004..
LE BRETON,
David. A sociologia do corpo. Petrópolis: Editora
Vozes, 2006.
LEACH, E. “Cabelo
Mágico” In: Edmund Leach. Sao Paulo: Ática,
1983. p.124-141.
RODRIGUES,
José Carlos. Tabu do corpo. 7. ed. Rio de Janeiro:
Editora Fiocruz, 2006.
SAHLINS, Marshall.
La pensée bourgeoise – a sociedade ocidental enquanto cultura. In:
SAHLINS, Marshall. Cultura e Razão Prática.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. p. 166-230.
VIVEIROS
DE CASTRO, Eduardo. O nativo relativo. Revista Mana, Rio
de Janeiro: Museu Nacional, vol 8, n.1, p. 113-148, abril de 2002.

|