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Entre “cá” e “lá”:
estudo comparado de casos - espaços públicos
centrais em São Paulo e no Porto.
João Teixeira Lopes
Professor de Sociologia na Faculdade
de Letras da Universidade do Porto
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Partindo da cidade: as opções
do sociólogo enquanto etnógrafo
O que faz um estrangeiro ao chegar
a uma nova cidade, pressionado pela ansiedade de construir, organizar e
controlar mentalmente um novo território? Compra um guia turístico
e procura orientar-se. Assim o fiz quando cheguei à megalópole:
São
Paulo, a cidade em transe, mais rápida do que a sua própria
sombra, abrir-se-ia, enfim, ao meu conhecimento. Mas eis que o texto me
devolve ao arquétipo e ao estereótipo: "São Paulo
é a única cidade que tem feijoada Kosher, preparada com supervisão
de um rabino (...) anticucho, coração de boi picado com molho
de amendoim (...) bar com correio elegante entregue por anões".
Mas eu era mais e menos do que um estrangeiro: sociólogo-etnógrafo
urbano, supostamente armadilhado dos recursos substantivos e adjetivos
capazes de me habilitarem ao mergulho no terreno. Na verdade, de uma imersão
se tratava. Preparada embora com delicadeza (ampla revisão do estado
da arte e da bibliografia brasileira e internacional; consulta de fontes
secundárias, nomeadamente documentos e históricos e várias
conversas trocadas por mail com colegas brasileiros da Universidade de
São Paulo), nada me garantia que, no final, viesse à tona.
Tudo me distanciava, com sinceridade,
do que Teresa Caldeira apelida de estilo «euroamericano» (Caldeira,
2003: 19), enquanto busca homérica do exótico e da «alteridade
distante». Pelo contrário, em tudo me interessava o estabelecimento
de uma tensão entre «alteridade distante» e «alteridade
próxima» (a par de outra: situação/contexto;
e de outra, parcialmente sobreposta: micro/macro) aplicável a ambos
os casos em estudo (espaços públicos centrais das cidades
de São Paulo e do Porto).
Do mesmo modo, encontrava-me firmemente convicto de em nada abdicar da
minha socialização anterior no campo científico, nomeadamente
na tríade das dimensões epistemológica, teórica
e metodológica. Adepto que sou do método abdutivo (Pinto,
1994) sabia que o conjunto do que aprendi me seria útil e que, particularmente
enquanto sociólogo-etnógrafo, não me podia dar ao
luxo do desperdício. Mas estava consciente, de igual modo, de que
esse conhecimento anterior iria ser desestabilizado e reconstruído.
Nesta outra tensão, entre dedução e indução,
torna-se fundamental jamais blindarmos o background incorporado à
novidade, ao insólito, ao desafio, à surpresa, ao choque
- categorias, enfim, que cabem no conceito de serendiptidade proposto por
Merton e que nos levam a encontrar, embora não tão frequentemente
quanto desejaríamos, aquilo que não esperávamos. É
ofício do sociólogo-etnográfo, por conseguinte, transformar
a novidade, o insólito, o desafio, a surpresa e o choque em novos
problemas que a pesquisa tentará aclarar.
Nesta apresentação
do estado de partida, cabe-me ainda referir que, sem renegar a possibilidade
de efetivas comparações e de generalizações
a partir da extensão dos casos (o programa de investigação
abarca dois anos) e da sua densidade (from within), interpelava-me
a consciência de que todas as transferências entre contextos
diversos e do seu estudo para o corpus da teoria social implicam
o acionar de teorias da tradução (Santos,
2003). Ora, nesse mister, não raras vezes o tradutor entra em simbiose
com o traidor. Defenderei, assim, como procurarei demonstrar, uma possibilidade
de transferência reflexivamente monitorizada.
Gostaria ainda de voltar, a partir
de Teresa Caldeira, a uma sociologia-etnografia de deslocações,
em que os movimentos, as partidas e os retornos reconstroem os objetos,
os processos de pesquisa e os próprios habitus dos investigadores.
Na verdade, não poderemos, como Marco Pólo perante o imperador
em as Cidades Invisíveis de Calvino, "transformar em método
o silêncio" (Caldeira, 2003) sobre as nossas
próprias pertenças sociais (de classe, de gênero, de
etnia.) mas também sobre as cidades e as sociedades que habitamos.
Se Marco Pólo, nos seus longos relatos sobre as mais variadas urbes,
acalentava no não-dito a imagem de Veneza, a Sereníssima,
falarei do Porto ao analisar São Paulo e de São Paulo ao
estudar o Porto.
Uma última palavra: a imersão
de que há pouco falei levou-me a exercitar o método do andante
(Lopes, 2008; De Certeau, 1990;
Solnit,
2000), muito próximo do que Mónica de Carvalho apelida de
«narrativa itinerante» (Carvalho, 2004),
fortemente alicerçado na observação direta metódica
e sistemática, na ativação teoricamente orientada
e vigiada dos sentidos, nas conversas informais, em algumas entrevistas
a informantes privilegiados, na fotografia social, para além do
trabalho prévio, já mencionado, de consulta de fontes secundárias
tanto qualitativas como quantitativas. A outro nível, as narrativas
itinerantes abordarão os terrenos empíricos como configurações
(no sentido que Elias lhes confere: redes de interação e
interdependência, das mais simples - encontros, conversas - às
mais complexas - sociedades urbanas) e terão onipresente a preocupação
de compreender trajetórias de sujeitos no diapasão dos espaços-tempos
e cenários de interação, isto é, as singularidades
que os contextos estimulam, ao acionarem certas disposições
em detrimento de outras (Lahire, 2001; Velho,
2008).
Espaços públicos
urbanos centrais: do que falamos?
Não por acaso as cidades escolhidas,
ao invés das outer ou edge cities (as exópoles
de que Soja fala...), incluem-se na configuração das cidades
com centro, independentemente do seu estado urbanístico e das conexões
econômicas, sociais e culturais dos mais amplos processos de urbanização
e da sua ligação aos Estados-nação e à
economia-mundo, bem como a uma particular concepção do papel
do Estado na produção do espaço em contexto de capitalismo
tardio e pós-fordista.
De certo modo, ambos os centros
emergem e modificam-se dentro dos parâmetros de um modelo historicamente
consignado como «europeu», apesar das intensas diferenças
que adiante realçarei. O centro das cidades condensa uma constelação
de significados fortes (Frúgoli, 2006: 20)
em função dos quais o poder se impõe, os espaços
se produzem e apropriam, as economias funcionam, as culturas circulam.
Esta simbiose material-simbólica influenciará, decisivamente,
a vida das cidades. Depois do centro, tudo a ele se refere. Desde logo,
a periferia. Existirá, pois, como hipótese, uma singularidade
nos espaços públicos centrais. Na perspectiva aqui adotada
afastamo-nos parcialmente da concepção habermasiana de espaço
público, uma vez que o autor alemão (Habermas,
1980) define, antes de mais, a emergência de uma esfera pública
burguesa e de uma «sociedade civil» abstrata e formal constituída
primordialmente no e pelo discurso. Aproximamo-nos, assim, das críticas
feministas quando referem que a racionalidade universal abstrata veiculada
por Habermas carece de uma política da diferença, assente
na extensão dos direitos liberais da modernidade a uma miríade
de grupos sociais excluídos, maxime, invisíveis e inexistentes
pela classificação e percepção hegemônicas.
Simultaneamente, não existe um discurso ou um agir comunicacional
sem um corpo socializado e respectiva performance espaço-temporal.
Falta, na proposta de Habermas, sensibilidade para pensar a espacialização
das práticas sociais quotidianas em cenários de interação
concretos e vividos (Lopes, 2008): uma teoria do corpo
no espaço-tempo. É como se retomássemos a célebre
frase de Foucault: o espaço é tido como o morto, o fixo,
o não dialético, o imóvel... Ou Lefèbvre, que
critica asperamente as representações que o enunciam como
«um meio vazio», «um contentor sem conteúdo»
(Lefèbvre, 2000: XVII). Ou, ainda, da banda
da geografia, o reparo de Edward Soja à «silenciada espacialidade
do historicismo» (Soja, 1999: 13).
Entendamo-nos, pois: o que pretendo,
ao estudar espaços públicos urbanos centrais, em São
Paulo e no Porto, é compreender, primeiramente, as consequências
nos encontros quotidianos, nos seus códigos, expressões e
rituais, das modernas e recentes configurações do capitalismo
de acumulação flexível. Estudar o centro de cidades
expostas à desindustrialização, terceirização
e revitalização urbana através das iterações
situadas é como colocarmo-nos no centro do furacão, ou seja,
no âmago dos processos de acumulação flexível
do capitalismo tardio. Distancio-me, através desta opção,
de autores como Sophie Watson (Watson, 2006) que
buscam o reencantamento emancipatório ou simplesmente cívico
da modernidade tardia nos espaços públicos periféricos,
descentrados, por vezes mesmo “invisíveis” nos recônditos
meandros da cidade. De certa maneira, pretendo ir de encontro à
forma como o poder se exerce na e pela centralização da produção
do espaço. Para tal, a concreta materialidade do espaço
será abordada como mediação da ação
humana e sem qualquer deriva mecanicista ou fétichização.
José Guilherme Magnani afirmava precisamente tal orientação
ao estudar as práticas de lazer nos «pedaços»
das periferias paulistas, em obra já clássica: «existe,
portanto, entre as instituições e valores sociais dominantes
e o plano do concreto vivido, um complexo sistema de mediação
que processa, em ambos os sentidos, as múltiplas formas de interação
entre o «nós» do pedaço e o «eles»
dos centros de poder da sociedade abrangente» (Magnani,
1998: 138). No entanto, não renunciarei, pela sua persistente pertinência,
às velhas questões, sempre atuais, da potencialidade dos
espaços públicos na formação de efêmeras
comunidades de estranhos, no limbo da proximidade e da distância,
relembrando Simmel; na passagem do citadino ao cidadão, na multiplicação
de possibilidades de conhecimento e confronto da diversidade (de classe,
de gênero, de etnia, de estilos e modos de vida...), no jogo da indeterminação,
da aleatoriedade e da surpresa.
Por fim, uma derradeira explicitação:
proponho-me fazer mais uma etnografia de cidades do que nas cidades, retomando
a sugestão de Ulf Hannerz (Hannerz, 1980).
Os detalhes etnográficos e a sua multiplicação descritiva
sob a observação atenta do investigador obrigam a uma interpretação
holística, na procura dos contextos que lhes conferem cabal sentido.
As praças e os discursos
dos arquitetos enquanto «autores»: da Praça do Patriarca
e do “arquiteto contrariado"...
Delimitando ainda mais, o estudo
cingir-se-á, em São Paulo, à Praça Patriarca
e às conexões que esta estabelece com um conjunto de ruas
e praças adjacentes do «triângulo histórico»,
em particular a Praça da Sé e a contígua Praça
Clóvis. No Porto, onde o estudo se encontra em fase exploratória,
enfoque dirigir-se-á à Avenida dos Aliados e ao conjunto
que esta forma com a Praça da Liberdade e a Praça General
Humberto Delgado.
Em ambos os casos, verificaram-se
significativas transformações urbanísticas, partindo
da constatação generalizada da crise do centro histórico.
A mais antiga (1970-78) ocorreu na Praça da Sé e Praça
Clóvis, a partir de um conjunto de intensas obras levadas a cabo
ainda pelo poder da ditadura militar. Por um lado, pretendia abrir-se uma
estação intermodal, ligando o metropolitano ao autocarro
(em boa medida para potenciar as rodovias que nesse período foram
construídas, nomeadamente os gigantescos viadutos que esquartejaram
a cidade, dando primazia ao transporte privado). Por outro lado, colocar
impedimentos físicos quer à tradicional concentração
de população de rua, quer às manifestações
políticas que aí se vinham realizando, bebendo da carga simbólica
do lugar. Na gigantesca empreitada foram mesmo destruídos prédios
de 28 andares, como o Mendes Caldeira e edifícios com valor histórico,
no caso o Palacete Santa Helena. Inicialmente transformada em espaço
vazio, a Praça Clóvis é investida, de acordo com os
princípios modernistas, de elementos “relevantes”, nomeadamente
um grande espelho de água e um conjunto de catorze esculturas de
reputados artistas brasileiros. No entanto, tal aconteceu “em detrimento
de uma visão mais estrutural e orgânica” da praça,
perdendo-se, igualmente, a oportunidade de “ter o uso relacionado aos edifícios
refletido no uso da Praça” (Bruna e Righi,
2006:220). Desta forma, a “escala inadequada, dificuldade de manutenção,
frieza e aridez” (idem: 223), juntamente com a fragmentação
(desníveis, canteiros, esculturas, fontes, aberturas para a ventilação
da estação do metropolitano) prejudicam a “apreensão
do espaço como um todo” (idem: 226), votando-o, potencialmente,
à mera circulação viária, uma vez que a própria
Praça da Sé ficou cingida ao adro da Igreja. No entanto,
como adiante veremos, não se cumprirá propriamente o desiderato
inicial, o que só acentua o papel das mediações societais
e culturais entre a materialidade do espaço físico e o acionar
das práticas sociais. Como refere Teresa Caldeira “[a Praça
da Sé] simboliza tanto a força como a deterioração
do espaço público e é, consequentemente, um símbolo
do caráter disjuntivo da democracia brasileira (Caldeira,
2003: 327). Entretanto, mais recentemente, perante a continuidade da disjunção
entre o discurso público (apologia da reabilitação
e do “regresso ao centro”, unindo, ainda que com intensa conflitualidade,
governo local, média e alta burguesia comercial e financeira, reunida
na Associação “Viva o Centro” e movimentos sociais de base
popular congregados na Associação “Centro Vivo”) e a realidade
(persistência da degradação e da perda de qualidade
urbanística) encomendou-se ao arquiteto Paulo Mendes da Rocha, Prêmio
Pritzker de 2006, a requalificação da Praça do Patriarca ,
local que já se pode considerar na charneira entre a parte “velha”
e a parte “nova” do “centro tradicional. Na verdade, a encomenda partiu
da “Associação Viva o Centro”, com o apoio de diversas prefeituras,
uma vez que a obra demorou dez anos – 1992/2002 - desde a concepção
até a sua concretização parcial (o plano original
era mais vasto). Tal intervenção permitiu, segundo alguns
informantes que contatei na área da arquitetura e urbanismo, aumentar
a legibilidade da praça e de alguns dos seus elementos constituintes,
limpando-a de ruído, uma vez que é despojada, com exceção
de um elemento quase escultórico, uma espécie de cobertura
extremamente leve e elegante, curvando-se de tal forma que fornece a sensação
de tocar no pavimento. Tal cobertura, qual pórtico de passagem,
ergue-se sobre a entrada/saída das escadarias Prestes Maia
que fazem a ligação entre a Praça e o vale do Anhangabaú
e que, no seu interior, abrigam uma das secções do Museu
de Arte de São Paulo. Simétricas à cobertura, duas
árvores acentuam a sobriedade do conjunto. Outros informantes, ligados
à preservação da memória da cidade, criticam,
no entanto, a perda de vista para o imenso corredor que une o “velho” e
o “novo” centro tradicionais, em particular quando se “desce” a Praça,
que tem uma ligeira inclinação.
Fotografia 1 – A (re) invenção
da Praça do Patriarca
A ligação do arquiteto
ao centro da cidade ganha, pelas suas próprias palavras, um cunho
acentuadamente político:
“Essa sociedade amarga abandonou
o centro da cidade e se enfiou no mato [referência implícita
referência aos novos bairros e condomínios fechados que alastram
fora da cidade de São Paulo]. As empresas se mudaram lá para
baixo [em direção à zona Sul], mesmo as avenidas novas
são extremamente caipiras, elas têm um ar de subúrbio
rico e abandonaram o centro da cidade. Se você deixar degenerar,
você reduz o valor imobiliário, compra tudo de novo, reconstrói
a cidade...Há quem viva só disso” .
Simultaneamente, a projeção
do despojamento e da sobriedade assume também, ainda no discurso
do arquiteto, uma dimensão ética e interventiva:
“A arquitetura não
é feita para ser histriônica. Não interessa a uma cidade
que requer tantos artefatos urgentes (casa para todos, escolas etc.) que
se coloquem cerejas sobre seus desastres. É uma virtude mostrar
a simplicidade” .
É em função
desse compromisso que o arquiteto-autor se move num campo limite de possíveis,
em particular por referência a um patamar utópico, sendo que,
a consciência de tais constrangimentos, aumenta, porventura, as suas
margens de liberdade:
“Você pode perceber
como sofre um arquiteto, quão longe dos nossos horizontes está
a cidade atual. Isso amargura a nossa existência e faz ver que o
fator essencial e objetivo da arquitetura e do urbanismo é político
(...) o arquiteto, em essência, é um contrariado” .
...à Avenida dos Aliados
e ao arquiteto enquanto artista
A Avenida dos Aliados forma, juntamente
com a Praça da Liberdade e a Praça do General Humberto Delgado,
um tecido urbano contínuo que se constituiu numa das fases de maior
reestruturação da cidade (o projeto foi lançado em
1914 e a Avenida aberta em 1916) e de criação de um “novo
centro”, numa zona relativamente alta da cidade (classificada, ainda assim,
como “baixa”, pelos portuenses), por oposição ao “velho centro”,
na Praça da Ribeira. A placa central era ajardinada, com uma série
de canteiros, existindo, no topo Sul, uma estátua (Juventude) que
os portuenses apropriaram como “a menina dos Aliados”
Fotografia 2: A anterior configuração
da Praça da Avenida dos Aliados
Circundando a Praça encontram-se
edifícios (quase todos construídos em granito) com valor
arquitetônico individualizado
servindo de sede a instituições bancárias e culturais,
bem como a cafés e residenciais.
O projeto de Álvaro Siza Vieira
(igualmente prêmio Pritzker, em 1992) e Souto Moura, partiu do pressuposto
da inviabilidade de reconstrução da Praça tal como
existia. Tal deve-se, em parte, às duas bocas da estação
do metropolitano (motivo que esteve diretamente na origem da necessidade
de requalificação da Praça), o que implica uma diminuição
da Placa Central, incompatível, aliás, com a espessura dos
anteriores canteiros e com a escala do antigo jardim.
Assim, desenhou-se uma placa contínua
de paralelos ou cubos de granito em forma de cauda de pavão, substituindo
a anterior calçada à portuguesa. Como remate da Praça,
Siza Vieira desenhou uma fonte rodeada de bancos (abstração
de uma célebre fonte parisiense), cadeiras (igualmente assumindo
o mobiliário dos jardins urbanos parisienses, numa atitude que um
informante classificou de mais retrô do que o próprio retrô)
e seis alinhamentos de árvores.
Fotografia 3 – Atual aspecto da Praça
da Avenida dos Aliados (dia de festa)
De igual modo, verificou-se um intenso
trabalho de redesenho de mobiliário urbano adjacente: cobertas de
paragens de autocarros; bancos; recipientes de lixo; cadeiras e até
mesmo a reutilização dos antigos candeeiros, desta feita
otimizados no que à qualidade e intensidade da luz se refere.
Fotografia 4: A «nova»
Avenida
Importa, agora, conhecer as representações
do próprio Siza Vieira sobre esta obra, em particular, mas também
sobre a cidade, o urbanismo e o papel que o arquiteto e a arquitetura desempenham
na contemporaneidade. Para o efeito, utilizaremos, uma vez mais, fontes
secundárias, nomeadamente entrevistas em órgãos de
comunicação social. Desde logo, em entrevista a propósito
das obras de recuperação do chiado ,
em Lisboa, Siza destaca uma dimensão que colide, precisamente, com
o cerne das críticas que lhe são feitas no que respeita a
um pretenso autismo de “autor”:
“Há o conhecimento da atmosfera
de uma cidade, problemas específicos, aspectos humanos, contactos
pessoais. Acho que a atenção e capacidade de percepção
e compreensão se agudizam, porque o estímulo é muito
forte. Há a curiosidade natural de ver um meio novo, certo encantamento.
Todas as cidades são bonitas, até as feias (...) O Porto
é a cidade mais incômoda que eu conheço, mas eu gosto
muitíssimo da cidade do Porto. Não há cidades feias,
há cidades difíceis. (...) De maneira que isso constitui
estímulo muito forte, agudiza a capacidade de percepção,
desencadeia as ideias, no fundo. E a ideia é o importante na arquitetura.
Depois, é importante transformar as ideias em coisas que venham
a ser parte de um corpo vivo que é uma cidade”
Como Baudelaire ou Walter Benjamin,
Siza Vieira afirma praticar a deambulação como forma de conhecer
a cidade:
“Tenho muito pouco tempo
para passear, neste trabalho há muito de reuniões que coordenam
uma série de donos de obra e projetistas. Não tem dado para
passear como eu gosto, sem programa, que é uma das formas de a gente
se aperceber da cidade, vaguear, perder-se”
Por outro lado, ao invés dessa
liberdade de “vaguear pela cidade”, o arquiteto reconhece na obra um produto
contraditório, tenso e resultado de vários conflitos que
vão desde funções que urge conciliar, até a
pressão dos empreiteiros e, principalmente, dos donos da obra que
pugnam por uma rapidez que contraria a qualidade. Mas não deixa
de reivindicar a liberdade de contrariar o gosto dominante ou de desagradar
multidões, o que o aproxima de certo discurso que encontramos em
certos segmentos do campo artístico, nomeadamente nos que valorizam
um determinado capital de autonomia e de culto da “arte pela arte”:
“Alguma coisa nós
precisamos, mas também não precisamos de uma multidão.
Às vezes basta que gostem duas ou três pessoas, no limite
bastará uma. Na verdade, o que se passa é mais complicado:
uns gostam, outros não gostam mesmo. Também se não
fosse assim, isso significaria certa morte prematura, no meu caso tenho
58 anos. Porque as pessoas, por vezes, contam que A ou B faça uma
coisa tranquilizante, que já viram, que gostaram. E se não
é assim, ficam em pânico”.
De igual modo, perpassa, ainda, certa
ideologia de valorização do saber pericial e abstrato do
arquiteto, face à subjetiva instabilidade dos “leigos”:
“Um edifício é
uma coisa onde se vive, é uma coisa de dia e outra de noite. A impressão
da imagem é uma coisa muito frágil, muito mais frágil
em quem não tenha uma preparação especializada. É
uma reação afetiva, subjetiva, e um edifício ultrapassa
a afetividade e a subjetividade”.
Quanto ao estado atual do centro
histórico do Porto, a posição de Álvaro Siza
Vieira, expressa noutra entrevista ,
não difere substancialmente da opinião emitida por Paulo
Mendes da Rocha a respeito de São Paulo:
“O centro da cidade está
em ruínas, as casas estão destelhadas. Fala-se muito na recuperação
do centro histórico, mas não vejo forma, porque os conceitos
adotados não são os mais adequados. Acho que a recuperação
não está na direção certa. Estão a descaracterizar
a cidade em vez de a recuperar; utiliza-se mesmo, em alguns casos, caixilhos
de plástico em vez de madeira, veja lá!... Creio que o Porto
de hoje está muito distante do Porto da altura em que foi classificado
de Patrimônio Mundial da Humanidade”
Em suma, num e noutro caso, as representações
do espaço, conceito proposto por Lefèbvre para nomear as
práticas periciais da sua produção (por arquitetos,
engenheiros, tecnólogos...) coincidem numa certa desilusão
dos arquitetos em análise face aos processos mais amplos de requalificação
dos centros históricos. Um critica a “sociedade caipira”, outro
interpela empreiteiros, donos da obra e o gosto dominante. Em ambas as
situações, no entanto, os arquitetos envolvem-se ativamente
em projetos emblemáticos o que, sem dúvida, adensa ainda
mais a ambiguidade em torno dos espaços centrais destas cidades.
Usos, apropriações,
produção secundária do espaço: o caleidoscópio
do centro de São Paulo
O centro de São Paulo, em
particular no diálogo que se estabelece entre a Praça do
Patriarca, o Pátio do Colégio e a Praça Clóvis
e a Praça da Sé, afigura-se de uma polifonia desconcertante.
Desde logo, pela multiplicidade e mistura de funções: residências,
das mais formais aos cortiços, instituições bancárias,
comércio de rés do chão, comércio de shopping
Center, comércio de rua, mendicidade, policiamento... Mas também
pela pluralidade de usos. Existem homens e mulheres que fazem do seu corpo
um anúncio publicitário (“homens-placa” que, conforme indicação
de um informante, fazem parte da paisagem urbana desde há décadas) ;
movimentos sociais que colocam as suas faixas no espaço público assim
como grupos religiosos ;
policiamento ostensivo e intenso, meninos-prodígio ;
pregadores ;
catadores de lixo e de material reciclável muitas vezes puxando
carroças carregadas de entulho já acomodado em sacos; magotes
de homens esperando pelos recrutadores de mão-de-obra paga ao dia ;
teatro de rua promovido pela prefeitura ,
clowns de rua por conta própria, enfim, uma plêiade de tipos
sociais, linguagens, interações e contextos.
Em várias ocasiões
emergem situações de cooperação. É o
caso dos camelôs, autênticos nômades da cidade, que vendem
um pouco de tudo, notando-se, no entanto, uma predominância de CDs
e DVDs piratas. Perante a percepção de que se aproxima uma
rusga policial, acionam-se os códigos de rua e
as mantas ou tendas são desmontadas num ápice, para regressarem
pouco tempo depois, como o refluxo da maré... Foi-me possível
observar, ainda, em certas circunstâncias, uma táctica de
aproximação entre camelôs e comerciantes tradicionais
de rés do chão, uma vez que, em complementaridade, atraem
mutuamente clientes.
Deparei-me, igualmente, com situações
agonísticas. Nem sempre os comerciantes se entendem. Os clientes
são, por definição, escassos e altamente disputados.
O conflito é igualmente perceptível entre a população
de rua e a polícia:
Junto à Prefeitura,
mesmo no encontro entre o viaduto do chá e a Praça do Patriarca,
um piquete de camelôs montou uma tenda de protesto abrigando ativistas
em greve da fome contra as investidas ditas “repressivas” da polícia
municipal a mando da Prefeitura, com o objetivo de expulsá-los dos
espaços públicos. Um dos ativistas, possivelmente há
vários dias em greve de fome, apresenta um aspecto claramente combalido.
Entretanto, um grupo de camelôs toca bombo, procurando chamar, sem
sucesso aparente, a atenção dos passantes. Mesmo ao lado,
uma delegação do Movimento dos sem Teto segura uma faixa
com palavras de solidariedade .
Outra situação colocou
frente a frente um sem-abrigo alcoolizado e um grupo de polícias
fortemente armado com metralhadoras. Apesar dos sorrisos iniciais, a situação
quase atingiu um clímax de tensão:
Um mendigo velho e pobre,
fortemente embriagado desafia um grupo de polícias armados de uma
esquadra móvel da Praça da Sé. Usa palavras para mim
ininteligíveis, mas que constituem simultaneamente insulto e desafio.
Os gestos vão crescendo, o corpo bamboleando aproxima-se a menos
de um metro dos polícias. A certa altura o ancião simula
uma rajada de metralhadora. Pensamento mágico? Inversão simbólica
da ordem instituída?
Teresa Caldeira concede que “as ruas
de São Paulo podem ainda estar cheias de gente, especialmente nos
bairros centrais de comércio e serviços” (Caldeira,
2003:323), mas, ao mesmo tempo, considera que as apropriações
observadas “não são exemplo de usos heterogêneos mas
da segregação e exclusão” (idem: 334), uma vez que
“no centro de hoje a população “chique” foi substituída
pelos «marginais», nada garante distinção e o
sentimento que resta é o de mal-estar com a proximidade” (idem:324).
Desta forma, configura-se um espaço público não-moderno,
uma espécie de somatório de “espaços restantes, os
únicos que os grupos sociais mais marginalizados - aqueles excluídos
das áreas protegidas e muradas – ainda podem apropriar” (idem: 334).
A própria “Associação Viva o Centro”, constituída
por elementos de uma fração da média e alta burguesia
comercial e financeira, inverte o uso político da apologia da diversidade:
se existe uma tão grande massa popular, a heterogeneidade só
poderá ser restituída através de processos controlados
de gentrificação que permitam o regresso ao centro de classes
sociais mais capitalizadas...Como observou Victor Eskinazi, técnico
da Associação, em entrevista informal:
“No Brasil vive-se um dilema
que é um impasse. Toda a gente rejeita a gentrificação,
mas sem um pouco de gentrificação não se consegue
recuperar o centro. Os Movimentos Sociais clamam por nenhuma gentrificação.
As imobiliárias querem todo o lucro possível. Temos de apostar
nas parcerias público-privadas em que o Estado dita as regras e
o privado entra com o dinheiro” .
As observações etnográficas
que levei a cabo não coincidem com este conceito de espaços
restantes. Na verdade, apesar da clara predominância dos pobres e
da população da rua, a acentuada diversidade da ocupação
funcional do espaço potenciava usos plurais e contraditórios.
Constatei inúmeras iterações, muitas delas a pretexto
da compra e venda, envolvendo sujeitos de pertenças sociais distintas.
Por outro lado, a organização da população
de rua em movimentos sociais fortemente implantados no terreno, a presença
de organizações não governamentais e de grupos de
voluntários religiosos, a par de eventos organizados quer por empresas
(playgrounds amovíveis, por exemplo), quer pelo Estado (animação
cultural de rua), contribuem, igualmente, para a percepção
de heterogeneidade, embates agonísticos e/ou cooperantes, pluralidade
de usos e apropriações próprios de um refazer constante
do espaço público. Presentes, de igual modo, as redes, os
trânsitos e as passagens entre “fachadas” e “bastidores” (caso dos
camelôs que surgem do nada e para o nada desaparecem), dando conta,
por isso, de um “complexo sistema de mediações” (Magnani,
1998:138) entre instituições e população; entre
legalidade, informalidade, clandestinidade e ilegalidade; entre, finalmente,
“nós” e “eles”, âncoras de (des)estabilização
de identidades espacialmente traduzidas. Importa, aliás, vencer
uma persistente ilusão da homogeneidade presente em categorias como
“pobres”, “classes populares” ou “população de rua”, na verdade
em que obliteram a coexistência de origens, percursos, projetos e
vivências consideravelmente distintos.
Eis, pois, traços de um centro
de cidade onde a produção secundária do espaço
(conceito proposto por Michel de Certeau) desafia, através das “tácticas
do fraco” as “estratégias do forte”, criando, dentro da intensa
dominação, margens não negligenciáveis de negociação,
jogo e autonomia. Traços, também, de uma urbe táctil
e sensível, de odores contrastantes e difíceis de identificar,
um “fantástico caleidoscópio constituído por fragmentos
de tempos diversos, territórios e realidades distintas (...) identidade
na diversidade, onde o todo não é apenas a mera soma das
partes mas é, ao mesmo tempo, mais e menos do que a soma das partes”
(Braz, 2004: 133). Aliás, desmentindo certa
ilusão do fetichismo do espaço, nada como lembrar as atuais
apropriações da Praça Clóvis. Apesar da fragmentação
do espaço imposta por um desenho urbanístico a que não
foram alheias as intenções do antigo regime militar de expulsar
a população de rua e de impedir as grandes concentrações
cívicas, os habitantes de hoje respondem quotidianamente através
de contra-usos (Leite, 2004 ) ocupando as fontes,
dormindo no desconfortável mobiliário urbano, contornando,
assim, os inúmeros obstáculos a uma circulação
livre.
Avenida dos Aliados e a narrativa
de perda
O trabalho etnográfico na
cidade do Porto encontra-se num estado ainda mais exploratório do
que em São Paulo. No entanto, nas várias conversas informais
tidas com comerciantes dos cafés e pensões circundantes sobressai
sistematicamente uma fala de intensa perda, uma espécie de luto
pelo desaparecimento da anterior Praça. A sobriedade atual do espaço
parece contrastar com os canteiros ajardinados de outrora. A calçada
portuguesa desapareceu e deu lugar aos cubos de granito, já classificados
como “triste miséria de calhaus” num blogue sobre a cidade... Na
verdade, a observação permite-nos constatar que as aglomerações
de pessoas são escassas e os usos pouco plurais. Predomina, de fato,
o atravessamento e a passagem, o que confere, como um urbanista nos confidenciou,
uma especial responsabilidade aos programadores e gestores do espaço
(a autarquia). Perante o despojamento e a «libertação»
do espaço, criar-se-iam condições para múltiplas
intervenções públicas.
Vários são os fatores
que poderão contribuir para este uso fraco. Por um lado, o cariz
recente da intervenção e a dificuldade acrescida de incorporação
de disposições afetivas e interacionais mobilizadas pelo
novo espaço. Por outro lado, o próprio rumor civil, altamente
propagado (no discurso comum e nos media) sobre a destruição
da memória e do passado. Como escreveu Hobbsbawm a propósito
do século XX (enunciado aplicável com inteira justiça
aos primeiros anos deste novo século): “a destruição
do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam a nossa experiência
pessoal à de gerações passadas – é um dos fenômenos
mais característicos e lúgubres do final do século
XX” (Hobsbawm, 2002). Finalmente, a potenciação de usos plurais
e heterogêneos requer uma maturação do próprio
projeto: as árvores cresceram pouco, o mobiliário urbano
não está totalmente disponível, não se instalaram,
ainda, cafés e esplanadas na Praça. Predomina, pois,
a percepção de uma tabula rasa. O que, convenhamos, não
tem inibido a discussão. Os arquitetos e outros especialistas são
praticamente unânimes quanto ao elogio do desenho. A blogosfera e
os media, no entanto, veiculam opiniões depreciativas. O
próprio Álvaro Siza Vieira participa na polêmica ,
em particular depois de uma manifestação no local e de um
abaixo-assinado que circulou pela Internet:
“O projeto da Avenida que
fiz, em conjunto com Souto Moura, causou polêmica porque coincidiu
com as eleições, o combate político. O projeto foi
apresentado e amplamente discutido na Câmara e não levantou
contestação; só houve quando ficou concluído.
Foi apanhado, como já disse, bem no meio das lutas políticas
(...) a manifestação tinha 29 pessoas, segundo noticiaram
os jornais. Depois, a contestação surgiu pelo desaparecimento
dos canteiros. Ora, em devido tempo, apresentamos o projeto publicamente
e explicamos a quem quis ouvir que não se justificava ter uns canteirinhos
na principal "sala de visitas" da cidade. Quando surgia uma manifestação
ou ajuntamento, como, por exemplo, quando o FCPorto ganha e agora já
tem acontecido muitas vezes, os canteiros, as flores ficavam imediatamente
destruídos. Apresentamos, como exemplo, o que acontece nas maiores
praças europeias onde os canteiros foram banidos. Não podemos
esquecer que as plantas vieram para a Avenida dos Aliados, nos anos 40,
num tempo totalmente diferente do de hoje”.
Considerações finais
Em ambos os estudos de caso encontramos
certas dimensões dos modernos processos urbanos: desindustrialização
e terciarização; acréscimo dos fenômenos de
conurbação e suburbanização no seio de áreas
metropolitanas (que transformam São Paulo numa “cidade global” ou
megalópole e o Porto numa “cidade-região, respeitando a diferença
de escalas); perda populacional no centro histórico, em particular
no que se refere a certos lugares de classe; narrativas de abandono e luto
em simultâneo com grandes investimentos públicos e público-privados
na chamada “revitalização” ou “regeneração”
urbana; aumento das desigualdades sociais e espaciais (vetor sudoeste em
São Paulo e dicotomia centro versus periferia; oposição
zona Oeste/zona Leste no Porto), com uma vasta disseminação
de estigmas associados aos espaços públicos centrais (popular
e perigoso, em São Paulo; envelhecido e despovoado, no Porto). Nas
duas cidades veicula-se, igualmente, uma carregada fala sobre a decadência
e a necessidade de revitalização dos centros, num processo
ambíguo e disjuntivo que faz sobressair a própria intervenção
intermitente, mitigada e deficitária do Estado, com tradução
no refluxo da “cidade-providência” (Domingues,
2003).
Em São Paulo os espaços
públicos centrais são superpovoados durante o dia, mantendo-se,
apesar da segregação e do medo da proximidade face ao diferente,
uma gama heterogênea, plural e conflitual de contatos, interações,
redes e apropriações. Nesse sentido, pode-se afirmar que
está presente uma das qualidades do espaço público
concreto e vivido (distante, por isso, das concepções abstrato-formais
do poder e da esfera pública): a potenciação de usos
múltiplos, subversivos e inusitados. No Porto, o tempo é
ainda de espera face a uma atitude quase generalizada de não-apropriação
ou de luto mais ou menos difuso. Em ambos os casos, todavia, existe uma
oportunidade que importa concretizar: pela intermitência e contradição
do papel do Estado na definição de políticas públicas
e por um relativo desinteresse do sector privado, a gentrificação
não tem vingado com o mesmo furor e grau de conquista e de expulsão
das classes populares que se verificou noutros contextos. Nesse sentido,
o cariz ambíguo dos espaços centrais estudados pode significar
não o fim do espaço público (como as teses catastrofistas
de Mike Davis proclamam), nem o fim do espaço público moderno
(como defende Teresa Caldeira), mas, sim, o de um espaço público
em devir.
Notas
Coordenador
do Instituto de Sociologia. Membro da Rede de Estudos Urbanos Brasil-Portugal.
A
Praça homenageia um dos patriarcas da independência brasileira,
José Bonifácio de Andrada e Silva. A sua estátua,
aliás, figura na extremidade alta da Praça, do lado oposto
à cobertura de Paulo Mendes da Rocha, tendo sido erigida graças
aos esforços da comunidade libanesa de São Paulo.
Um dos grandes propulsores do alargamento da cidade para fora dos limites
do centro, tido por alguns como o “Haussman
paulistano” .
Nome
tupi que significa “rio do Diabo”...
Fonte:
Arcoweb.
Foto: Nelson Kon.
Vd.
http://www1.folha.uol.com.br/
vd.
Revista
Pesquisa - FAPESP
Vd.
Folha
de São Paulo
Ostentando
peças escultóricas, cúpulas, lanternins, coruchéus...
Vd. www.si.ips.pt
Vd.
www.arkitectos.blogspot.com
Os anúncios fazem referência à compra de ouro; à
compra e venda de telemóveis (“celulares”); à disponibilização
de internet; à venda de atestados médicos “para admissão
e desadmissão”...
Numa delas, da autoria do MNN (Movimento da Negação da Negação)
pode ler-se: “Ocupa a escola falida, a Universidade falida, a fábrica
falida”.
Em algumas dessas faixas pode ler-se: “Não sou dono do mundo, mas
sou filho do dono”. Na Praça da Sé, várias faixas
verticais exibem os Dez Mandamentos. No Convento do Carmo, onde um homem
fala com Deus usando uma intensa expressividade corporal (gestos largos
e abertos em prece, mãos erguidas), figura um cartaz com a inscrição:
“Liga-te a Ele. Pode desligar o celular. Ele atende sempre”. É possível
encontrar, ainda, espalhados pelas praças, dísticos que anunciam
cerimónias religiosas em ginásios: “Dia da cura e libertação.
Preço da entrada: 1kg de alimento não perecível”.
Na Avenida Barão de Itapetininga, um menino de rua, microfone em
punho, por detrás de uma tela de papel de cenário onde está
pendurada uma grande máquina calculadora, escreve o resultado de
divisões complicadas, com várias casas decimais, explicando,
ao mesmo tempo, como alcança os resultados: “25 a dividir por cinco.
Qual é o dobro de 25? 50! Corta-se o zero, fica 5!)”.
Na Praça do Patriarca um homem de fato e gravata grita a Bíblia.
Aparentemente alheio a tudo e a todos, caminha de um lado para o outro
seguindo os transeuntes e clamando: “Só Deus é a verdade/Só
chegarás a Deus pela verdade/ A verdade é a palavra”. Na
Praça da Sé outro pregador junta algumas dezenas de pessoas.
Os
recrutadores são apelidados de “gatos”.
Na
altura, Julho de 2008, desenrolava-se o IV festival “Overdose Teatral”,
mobilizando grupos de teatro da cidade, como os sátiros e os parlapatões.
“Rapa” e “Gelo” figuram entre essas expressões codificadas que avisam
da proximidade da polícia.
Nota de diário de campo, Julho de 2008.
Idem.
Numa
observação que denota o seu posicionamento pessoal, o entrevistado
acaba por confessar que no Brasil é o sector privado quem dita as
regras, aconselhando-me a ler o livro de Otília Arantes sobre “a
cidade do pensamento único”...
Vd. www.arkitectos.blogsopt.com [2008/06]
Webgrafia
Saint
Globain Glass Portugal - Entrevista ao Arquiteto Álvaro Siza Vieira
Diário
de Notícias - Artes
Arquitectura
Hoje
Instituto
Politécnico de Setúbal
Matemática
e Jogos Estratégicos Matemáticos
Viva
o Centro
SampaArt
Arcoweb
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