

"Mãos ao auto!!!Isto
é um asalto
!!
e queru um resgate muitoo caro: uma mensagem fofa e um depoimento... HAhahaha
Bjos".(Mensagem
recebida em meu Orkut de um aluno do curso de informática pesquisado).
Pensar a sociabilidade virtual
dos jovens das classes populares é a proposta deste artigo. Tal
recorte emergiu de minha pesquisa etnográfica sobre um Projeto de
inclusão digital realizado entre jovens que frequentam um curso
de informática oferecido por uma instituição religiosa,
situada no Morro da Cruz, conhecido bairro periférico de Porto Alegre.
Convivi por 18 meses com esses jovens,
cuja maioria realizava suas primeiras experiências no chamado
“mundo virtual”. Embora o estudo envolvesse novas tecnologias computacionais
(o ciberespaço, ou “realidade virtual”), o objetivo principal foi
mostrar como tais jovens usam, interpretam e/ou reinterpretam esses novos
saberes em suas práticas cotidianas no espaço social e geográfico
do qual fazem parte, assim como apontar as tensões e negociações
embutidas nesse processo. Com o intuito de refletir sobre a sociabilidade
virtual desses jovens e a reformulação dos processos de socialização
tradicionais proponho, primeiramente, o diálogo com alguns teóricos
clássicos, entre eles Georg Simmel, que desenvolveu conceitos-chaves
(como sociabilidade e interação). Ao elaborá-los o
autor demonstrou que tais fenômenos não são estáticos
e dados, mas construídos nas relações das ações
cotidianas.
Dessa perspectiva, partindo da constatação
das grandes transformações existentes no mundo e na cultura
modernos e novas práticas de interação/socialização
existentes que tensionam os processos de socialização tradicionais,
procuro responder a questão: qual é a importância da
sociabilidade virtual para os jovens? Quais suas especificidades e diferenças
entre os jovens das classes populares?
Este artigo procura, então,
contribuir para o entendimento de como esses jovens estão operando
a nova comunicação proporcionada pela Internet e a interação
social advinda do contato interpessoal mediado pelo computador a partir
do exemplo observado no curso de informática. Para tanto, decididamente,
o meio pelo qual esses jovens se relacionam, interagem e socializam tem
nome e endereço: o site de relacionamentos Orkut.
Este site, que fornece as melhores pistas para o entendimento da sociabilidade
virtual e contribui, ainda, para a compreensão da crescente popularidade
do referido site no Brasil, já se transformou em um fenômeno
pelo número de participantes e um raro caso de liderança
brasileira no mundo digital. Todavia, essa realidade está mudando.
Os dados da pesquisa Ibope/NetRatings indicam que o Orkut continua
líder absoluto desse mercado no Brasil, mas outras redes começam
a aparecer na lista. Em abril o Orkut recebeu 15,2 milhões de acessos,
segundo o Ibope, seguido pela Sonico.com, com 1,7 milhões de usuários
únicos, e o MySpace, com 868
mil.
Apesar desse site manter liderança
no país, outras redes sociais apresentam grande crescimento e já
são uma ameaça ao Orkut. Entre abril de 2007 e o mesmo mês
de 2008, o número de usuários da rede social Orkut, do Google,
caiu 34% na América Latina. Os dados são da consultoria ComScore.
O site de relacionamentos perdeu oito milhões de perfis durante
o período analisado. E a explicação dada dessa migração
de usuários, principalmente entre os jovens das camadas médias
e altas, é a procura por maior privacidade, visto que no Orkut estariam
muito expostos - não podendo escolher nem selecionar aqueles que
estariam autorizados a visitar sua página com dados pessoais, lista
de amigos, comunidade, fotos, etc. Apresento a hipótese de que,
juntamente ao argumento da privacidade está a procura da distinção.
Populariza-se cada vez mais a ideia (vinculada pela mídia e a concorrência),
de que “o Orkut virou coisa de pobre”.
A Sociabilidade em Simmel
O interesse central do sociólogo
alemão Georg Simmel - cujo desafio era entender como a sociedade
é possível - pode ser resumido na problemática do
indivíduo, do individualismo e da sociabilidade. Sua obra
é “marcada pela multiplicidade de direções, pluralidade
de perspectivas, defesa do fragmento e oposição a toda pretensão
de sistema”, segundo Frúgoli Jr. (2007p.
8). O autor discutiu também, numa variedade de ensaios, temas como
dinheiro, moda, filosofia da história, epistemologia, teoria da
cultura, arte e religião. Sua metodologia ficou conhecida como microssociologia,
uma vez que analisou a sociedade através dos fenômenos do
nível micro. Além disso, desenvolveu uma tradição
conhecida como formalismo, que estabelece como prioridade o estudo
das formas. Em seu texto sobre Problemas Metodológicos Fundamentais
da Sociologia - Como as formas sociais se mantêm (Simmel,
1983), o autor primeiramente apresenta sua concepção de Sociologia,
respondendo às críticas sobre seu caráter científico,
tentando estabelecer um campo analítico para a disciplina. Para
Simmel, a Sociologia deve procurar sua especificidade não na matéria
da vida social, mas em sua forma, com o intuito de, assim, entender o funcionamento
da vida social.
Nessas considerações
abstratas das formas sociais é que se assenta todo direito de existir
da Sociologia (...) As formas que tomam os grupos de homens, unidos para
viver uns ao lado dos outros, ou uns para os outros, ou então uns
com os outros – aí está o domínio da Sociologia. (Simmel,
1983, p. 47)
Desse modo, o objeto da Sociologia
não é a vida dos indivíduos, mas a realidade formada
por interações ou sociações. Esta sociação
é a forma, realizada de inúmeras maneiras, pela qual
os indivíduos se agrupam em unidades que satisfaçam seus
interesses. A sociedade deve ser entendida, então, mais amplamente
do que “um conjunto complexo dos indivíduos e dos grupos unidos
numa mesma comunidade política” (idem,
p. 48). É preciso entendê-la como uma ação recíproca
entre os indivíduos. E a tarefa da sociologia é a descrição
das formas dessas interações, tendo como um de seus principais
conceitos o de sociabilidade, que seria uma forma pura de interação
mantenedora das relações sociais.Ou seja, a sociedade formar-se-ia
a partir da interação entre indivíduos surgindo a
partir de impulsos ou em função de certos propósitos.
Sejam os instintos eróticos,
interesses objetivos, impulsos religiosos, propósitos de defesa
ou ataque, de ganho ou jogo, de auxílio ou instrução,
e incontáveis outros, fazem com que o homem viva com outros homens,
aja por eles, com eles e contra eles, organizando desse modo, reciprocamente,
as suas condições – em resumo, para influenciar os outros
e para ser influenciado.(...) Desse modo, a sociação é
a forma (realizada de incontáveis maneiras diferentes)pela qual
os indivíduos se agrupam em unidades que satisfazem interesses.
Esses interesses, quer sejam sensuais ou ideais, temporários ou
duradouros, conscientes ou inconscientes, formam a base das sociedades
humanas. (Simmel, 1983, p. 166)
Destaco o pensamento de Simmel a
respeito da estrutura democrática de toda sociabilidade. Esta seria,
idealmente, uma interação entre iguais, como na metáfora
de um jogo; uma forma lúdica de toda a socialização
humana no qual se faz de conta que todos são iguais, ao mesmo tempo
em que se faz de conta que cada um possui uma importância em particular.
Conforme esclarece Frúgoli Júnior,
“sem quaisquer propósitos, interesses ou objetivos que a interação
em si mesma, vivida em espécie de jogos, nos quais uma das regras
implícitas seria atuar como se fossem iguais.” (idem,
2007, p. 9). No entanto, continuando com o autor, este faz uma importante
ressalva sobre o caráter democrático da sociabilidade:
Ainda que em Simmel as formas
de sociabilidade constituam uma esfera marcada pela suspensão momentânea
de posições sociais, paradoxalmente as mesmas também
permitem uma leitura na direção da formação
de circuitos “interclassistas”, implícitos na ideia de que tais
relações só poderiam efetivamente transcorrer no interior
de um estrato ou segmento social, tornando-se insuportáveis e dolorosas
quando vividas entre membros de classes sociais distintas, já que
pressupõem um mínimo de valores (ou “capital cultural;”)
compartilhados. Nesse caso, a qualidade de ser praticadas ou jogada “entre
iguais” desliza (ou oscila, se quiserem) entre uma construção
artificial e uma condição prévia. (Frúgoli
Júnior, 2007, p. 13).
Reforçando este argumento,
que utilizarei quando discutir as novas configurações dos
chamados sites de relacionamentos, Simmel nos lembra que esse “caráter
democrático” só pode ser realizado no interior de um “dado
estrato social”. A sociabilidade entre membros de classes sociais muito
diferentes é amiúde inconsistente. “Se a própria
sociação é interação, sua expressão
mais pura e mais estilizada se dá entre iguais”. (Simmel,
1983, p. 172-173). Como lembra Dornelles (2002
p. 8) em seu estudo sobre os chats, na época de Simmel (1858-1918)
não havia as tecnologias que proporcionam a interação
social virtual. O encontro com o semelhante se dava pelo contato pessoal.
Com a informática os indivíduos encontraram uma maneira diferente
até então vista de se relacionarem. Ela se dá a partir
de um novo ambiente de comunicação, que está em concordância
com um avanço técnico da humanidade.
Todavia, é possível
encontrar vários pontos de intersecção. Destaco a
maneira como Simmel situava o indivíduo na sociedade moderna, o
qual poderia ser entendido como um ponto de interseção em
uma “rede empírica de relações humanas operativas”
(Frúgoli Junior, 2007, p. 9). Além
disso, o autor reconhecia o conflito como elemento construtivo da sociedade,
mas, também, a troca, a aliança e a interação
em geral, que juntos constituíam a própria vida social através
da experiência. Portanto, o pensamento de Simmel pode ser transportado
para os chamados “ambientes virtuais” atuais e assim contribuir para o
entendimento das diferentes “trocas” realizadas pelos indivíduos
via fenômeno que representa a Web e sua consequente sociabilidade
virtual.
Sociabilidade no Cyberespaço
As tecnologias da
informação
e da comunicação (TIC) - basicamente o conjunto de
tecnologias
que permitem a aquisição, produção,
armazenamento,
processamento e transmissão de dados na forma de imagem,
vídeo,
texto ou áudio, que convergem para as redes que utilizam os
protocolos
da Internet, fenômeno global da atualidade -, operam profundas
alterações
no âmbito da cultura moderna: no trabalho, na
produção,
no lazer, no consumo, no comércio, na
socialização,
na transmissão dos saberes, na organização das
empresas
e dos Estados etc., desencadeando novas práticas de
comunicação/interação/socialização.
Vários são os teóricos que estudam o tema das
transformações
tecnológicas na modernidade, entre eles Bauman
(2001), Appadurai (1996), Ortiz (1994), Castells
(2005), Lévy (1999 e outros. A literatura
inicial acerca da Internet e de suas potencialidades a descrevia como revolucionária,
tanto pelas inovações quanto por suas implicações
sociais e políticas.
A exemplo dessa perspectiva, Pierre
Lévy (1999), filósofo, tem uma visão muito otimista
das possibilidades advindas da Internet e do cyberespaço. Estas,
ao constituírem-se em um novo espaço de sociabilidade, possibilitam
a construção de comunidades virtuais e novas articulações
através de redes sociais, favorecendo o surgimento da inteligência
coletiva. Para o autor, o problema seria a forma individualizada com que
a Internet vem sendo utilizada (e-mail, pesquisas etc.), defendendo
a ideia de que, atualmente, estamos entrando em uma nova fase da Internet:
a do trabalho conjunto, on-line, com proposições e
resoluções coletivas virtualmente constituídas, capazes
de promover o exercício da cidadania ativa. Conforme o autor “a
emergência do cyberespaço é fruto de um verdadeiro
movimento social, com seu grupo líder (a juventude metropolitana
escolarizada) e suas palavras de ordem: interconexão, criação
de comunidades virtuais, inteligência coletiva” (Lévy,
1999, p. 123).
Já segundo Castells
(2005 p. 255), a Internet constitui-se em um meio de comunicação
e de relação - essencial para a nova forma de sociedade em
que vivemos – denominada “sociedade em rede”. Nesse sentido, ela não
é simplesmente uma tecnologia, mas o meio organizativo que
permite o desenvolvimento de uma série de novas formas de relações
sociais e de comunicação. Para o autor: "Internet é
o tecido de nossas vidas neste momento. Não é futuro. É
presente. Internet é meio pra tudo, que interage com o conjunto
da sociedade e, de fato, apesar de tão recente (...), não
precisa de explicação, pois já sabemos o que é
Internet".
Com a implantação do
computador nas mais variadas situações cotidianas, possuir
conhecimentos básicos em informática tornou-se um pré-requisito
para atividades como o uso de telefone celular, transações
bancárias em caixas eletrônicas ou via Internet, serviços
governamentais, acesso e troca de informações, notícias,
mensagens, além de condicionar o acesso a postos no mercado de trabalho.
O mundo atingiu a marca de um bilhão de internautas em 2006. No
entanto, esse processo também criou seu avesso, “a divisória
digital; ou seja, a ideia de que a Internet está criando um mundo
dividido entre os que têm e os que não têm [acesso à
]
Internet” (Castells, 2005, p. 265). Sem ignorar
as desigualdades de acesso em todo o mundo, o autor ressalta que, pelo
menos em termos tecnológicos, as taxas de conectividade vão
deixar de ser um problema para a expansão da rede, visto que as
mesmas estão crescendo exponencialmente. O número de computadores
pessoais no mundo superará, pela primeira vez na história,
a barreira do bilhão até o fim de 2008, de acordo com os
dados da consultoria e companhia de pesquisas Forrester, divulgados nos
Estados Unidos. E a indústria, que cresce a taxa de mais de 12%
ao ano, venderá
seu segundo bilhão até 2015. Alguns especialistas apontam
que a Internet será, em pouco tempo, um serviço essencial.
Vianna
(2007), por exemplo, compara a Internet à caneta Bic (no
sentido de ser uma ferramenta básica para se fazer qualquer coisa),
enquanto outro autor argumenta que “(...) como fará parte da vida
das pessoas, a Internet passará a ser tratada como qualquer facilidade
do lar; como o gás de cozinha, a água das torneiras ou a
energia elétrica” (Barbosa 2005, p. 25).
Os dados sobre o acesso à
Internet no Brasil mostram, ainda, a reprodução da exclusão
social reinante. Assim, nos Estados mais pobres, como Alagoas, o acesso
à Internet de setores socialmente marginalizados, como a maioria
da população negra, é de apenas 0,5% do total do grupo.
No outro extremo, 77%dos brancos do Distrito Federal têm acesso à
Internet. A
capital é a região do país com maior índice
de desenvolvimento humano. Circunscrevendo o problema da exclusão
digital, Castells aborda o exemplo da Espanha, onde a exclusão é
uma questão de idade e de escolaridade. Não é o acesso
à rede o principal fator de exclusão, mas, sim, o acesso
à educação. “Sem educação, a tecnologia
não serve para nada” (idem). Especificamente na sociedade da Internet,
o complicado não é saber navegar, mas saber aonde ir, onde
buscar o que se quer encontrar e o que fazer com o que se encontra. Para
isso é preciso educação. Complementando:
A conectividade como elemento
de divisão social está diminuindo rapidamente. O que se observa,
contudo, naquelas pessoas, sobretudo estudantes e crianças, que
estão conectadas é que aparece um segundo elemento de divisão
social mais importante que a conectividade técnica: a capacidade
educativa e cultural de utilizar a Internet. Uma vez que toda a informação
está na rede – ou seja, o conhecimento codificado, mas não
aquele de que se necessita – trata-se antes de saber onde está a
informação, como buscá-la, como transformá-la
em conhecimento específico para fazer aquilo que se quer fazer.
Essa capacidade de aprender a aprender, essa capacidade de saber o que
fazer com que se aprende, essa capacidade é socialmente desigual
e está ligada à origem social, à origem familiar,
ao nível cultural, ao nível de educação. É
aí que está, empiricamente falando, a divisória digital
neste momento. (Castells, 2005, p. 267).
Desde a difusão da Internet,
em meados da década de 1990, vivenciamos profundas transformações
tecnológicas que trazem mudanças nas formas pelas quaisse
estabelecem as relações humanas, alterando a forma de comunicação/sociabilização
e os vínculos sociais tradicionais. Cria-se, então, um novo
espaço social: o cyberespaço. Este novo espaço comporta,
além do conjunto de redes de computadores que nos permitem acessar
informações, as redes sociais que nos permitem acessar pessoas.
Ou seja, é o local onde nos encontramos, interagimos e exercemos
a chamada “sociabilidade virtual”, fenômeno que vem gerando muita
discussão e polêmica. Em geral, mídia e senso comum
concordam com certos estudos que apontam os aspectos negativos do uso intensivo
da Internet, resultantes da possibilidade de simulação e,
também, de de desenvolvimento de “comportamentos patológicos”.
Estes resultariam do uso exagerado da Internet, que levaria ao risco do
vício – situação em que os usuários seriam
incapazes de controlar o número de horas conectados à rede,
isolando-se dos familiares e amigos. Essa visão se baseia na divisão
entre dois mundos: um artificial, desmaterializado e ilusório e
outro natural, corpóreo e real.
Um dos maiores críticos da
Internet, o sociólogo Zygmunt Bauman
(2003) denuncia em sua obra a forma pela qual o homem sem vínculo
– figura central dos tempos modernos – conecta-se. O livro Amor Líquido
– sobre a fragilidade dos laços humanos –, é
dedicado aos riscos e anseios de se viver juntos e separados em nosso líquido
mundo moderno. No livro ele expõe sua visão pessimista dos
chamados “relacionamentos virtuais”, “descartáveis, frágeis,
superficiais, pouco autênticos”. (p. 13). Diferentemente dos relacionamentos
reais, é fácil entrar e sair dos relacionamentos virtuais.
(...) Entrevistado a respeito da crescente popularidade do namoro pela
Internet (...), um jovem apontou a vantagem decisiva da relação
eletrônica: “Sempre se pode apertar e deletar”. (p.13).
Outra possibilidade de classificação
é a divisão geracional existente no mundo virtual. Ou seja:
entre os chamados nativos ou imigrantes digitais. Jovens e crianças
nascidas nas últimas décadas, que cresceram imersas na tecnologia
(Internet, videogames, CDs, celulares etc.) naturalizam e incorporam facilmente
essas tecnologias e são chamados de “nativos digitais”, conceito
de Marc Prensky, educador americano.
Já os adultos são considerados “imigrantes digitais”, uma
vez que cresceram longe desse tipo de sociabilidade virtual e aprenderam
e se formaram num mundo analógico possuindo, portanto, uma relação
de estranheza com a tecnologia. Entretanto, tal classificação
não abarcaria crianças e jovens excluídos por questões
econômicas, apesar de apresentarem grande interesse e facilidade
para com a tecnologia em geral. Uma importante contribuição
da teoria antropológica ao entendimento desse fenômeno são
as recentes pesquisas etnográficas buscando entender os processos
sociais, culturais e históricos nele envolvidos. Tais abordagens
deslocam o foco ao trazerem a pesquisa de volta do cyberespaço e
da realidade virtual para espaços geográficos e sociais.
Ou seja: além do aspecto tecnológico, a Internet pode ser
compreendida como um processo de troca social e simbólica. Nesse
sentido, é fundamental dialogar com Miller &
Slater (2004) que, a partir da etnografia realizada em diferentes cybercafés
de Trinidad, questionaram a distinção, comum em pesquisas
sobre Internet, entre real e virtual. O argumento desses autores é
que existe uma complexa integração entre on-line
e off-line. Tais interações criam laços de
continuidade e de pertencimentos para além da tela do computador,
o que significa estudar a apropriação social que a tecnologia
produz localmente, percebendo diferentes formas culturais possíveis
de serem desenvolvidas a partir dessa apropriação tecnológica.
Os autores demonstraram que o uso da Internet pode ocorrer de muitas formas
e que, por esse motivo, não pode ser tratado como dado e estável.
Nesse contexto, “constitui um problema para a etnografia, mas também
um problema com que só a etnografia poderia lidar” (Miller
& Slater, 2004, p. 63). Feitas essas considerações,
passo a descrever como se opera o processo que envolve a apropriação
de algumas das novas tecnologias conforme observei em pesquisa no
Instituto Murialdo.
Práticas de sociabilidade
virtual no Morro da Cruz
Partindo do que já foi exposto,
contextualizo, rapidamente, as condições materiais existentes
no Morro da Cruz. Nesse local, o cotidiano é marcado por problemas
de toda ordem (alimentação, educação, saúde,
trabalho), revelando um contexto de miséria material. Segundo o
Observa
POA, site oficial do município de Porto Alegre, que disponibiliza
ampla base de informações sobre o município - o bairro
São José, criado em 07/12/59, possui uma população
de 30.164 habitantes, sendo que 42% dos mesmos recebem até dois
salários mínimos mensais.
Ao contrário dos jovens das
classes médias e altas, os das classes populares, quando chegam
à adolescência, são convocados pela família
a colaborarem nas estratégias de sobrevivência do núcleo
familiar. O trabalho é uma das poucas possibilidades de mobilidade
social; porém, em virtude de ingressarem muito cedo no mercado,
fazem-no com baixa escolaridade, ocupando as mais baixas posições
e, consequentemente, remuneração. A busca de trabalho é
prioritária para os jovens pobres. Os que estudam, ao surgir uma
oportunidade de trabalho abandonam a escola pela necessidade de colaborar
para as despesas familiares (Pochmann, 2004, p.
231).
Para Soares
(2004), a saída da escola reduz as chances de acesso a empregos
e amplia a probabilidade de reprodução da condição
de pobreza. Sem completar o ensino fundamental, além de não
serem aceitos em cursos profissionalizantes e estarem condenados às
incertezas do trabalho informal, esses jovens representam os segmentos
mais expostos aos riscos da violência. O autor alerta para o fato
de que
O tráfico de armas
e drogas é a dinâmica criminal que mais cresce nas regiões
metropolitanas brasileiras, mais organicamente se articula à rede
do crime organizado. (...) As drogas financiam as armas e estas intensificam
a violência associada às práticas criminosas, expandindo
seu número e suas modalidades. (idem, p. 130-131).
Nesse sentido, a arma é um
recurso de poder e instrumento simbólico de distinção
e valorização. Não é difícil entender
o fascínio que o tráfico, as armas e mundo do crime exercem
sobre os jovens. Em pesquisa realizada entre jovens das classes populares
em Porto Alegre, em 2001, Soares (2004) apontou
que o modelo reinante entre esses jovens era o de “macho violento, arrogante,
poderoso e armado, instaurando um magnetismo perverso que enseja a emulação
da prepotência armada.” (idem, p. 152). Importa lembrar, ainda, o
que Fonseca (2004) apontava, ainda nos anos de 1980, em seus estudos etnográficos
do Morro da Cruz. A autora antecipava, há mais de 20 anos, a tendência
dos jovens a sublimar a aventura e ressaltarem o heroísmo existente
na vida “bandida”, identificando-se com os líderes do tráfico
local. Em seu Prefácio, Soares (2000) nos lembra que “no enredo
da violência, o crime não se vincula apenas à miséria,
desemprego, desigualdade e falta de escolaridade, mas, também, aos
símbolos, valores e afetos. Contudo, sem desconhecer as dificuldades
materiais e simbólicas por eles vividas, opto pela abordagem antropológica,
que implica recusar a determinação linear da cultura e dos
seus modos de vida. Nesse sentido, apresento os jovens do Murialdo,
não pela chave da “carência”, mas através das suas
práticas culturais que, em minha etnografia, aparecem relacionadas
às suas apropriações e ressignificações
dos novos saberes adquiridos a partir do curso de inclusão digital
realizado. Com a finalidade de ilustrar como acontece o trabalho educativo
desenvolvido nessa instituição situada no Morro da Cruz,
e no intuito de apresentar alguns personagens, julgo relevante descrever
algumas passagens do meu diário de campo.
O primeiro dia de observação
Após um breve telefonema,
marquei o dia da minha visita. Fui para o encontro sem ter nenhuma informação
sobre o trabalho que iria encontrar e assim que cheguei ao local deparei
com um prédio amplo, uma portaria e a foto de um padre. Logo me
esclareceram que se tratava de uma instituição religiosa
que proporcionava um programa de profissionalização. A porta
da sala de aula possui uma divisão com vidro e, após alguns
momentos de observação, José (educador social) veio
falar comigo. Entramos e José disse à turma: “Pessoal, pessoal,
um minuto de atenção! Esta é... como é mesmo
o teu nome?... Lúcia, ela é pesquisadora da universidade
e veio aqui conhecer o nosso trabalho. Dêem boa-tarde para ela!”.
Os 10 jovens saudaram-me rapidamente, em função de estarem
muito entretidos com os computadores. Embora a aula só começasse
às 14 horas, faltando ainda vinte minutos, praticamente todos já
estavam lá. Os meninos (entre 14 e 17 anos) divertiam-se com jogos
de luta, de estratégia e em rede, enquanto as meninas (entre 16
e 17 anos) ficavam no popular site de relacionamento Orkut. Após
a apresentação, José veio conversar e disse:
Já me estressei muito
brigando contra isso, mas agora não mais. Eles não têm
computador em casa e o que eles querem e gostam é o que tu estás
vendo... Jogos ou Orkut. Mas vou negociando e tentando mostrar e ensinar
outras coisas.
Logo percebi que tinha entrado
em campo com algumas pré-noções um tanto equivocadas:
1º) Os computadores (diferentemente da realidade que eu imaginava:
computadores velhos, lentos e aulas com apostila de programas de editores
de texto e planilhas de Excel); 2º) Os meninos (oito) e as meninas
(quatro) sentavam separados (não ficavam juntos) e não utilizavam
o computador da mesma maneira. Sentei-me perto de uma jovem, Laura, 16
anos, estudante da 7ª série, que me relatou não ter
paciência de jogar. Ela gosta mesmo é do Orkut, e me explicou
o porquê: “Já tenho mais de 120 amigos. Sempre tenho que
entrar no site para falar e responder mensagens que me deixam. É
muito tri.” Por fim, a aula terminou e observei que Laura permaneceu
quase todo o tempo tentando adicionar algumas de suas fotos digitais no
Orkut.
O prestígio que a jovem está
procurando pode ser definido pelo que Gilberto Velho chamou de “aura social”.
Tradicionalmente, esse conceito se relacionava ao pertencimento a uma “boa
família; ter boa raça ou sangue”. Era um valor vinculado
ao bom desempenho de papéis, como ser bom pai, avô, filho,
mãe etc, tendo como referência “paradigmas culturais preexistentes”
que conferiam autoestima e prestígio e permitiam a elaboração
de uma “identidade sólida, respeitada e gratificante”. (Velho,
p. 46)
Circunscrevendo o tema para a formação
da identidade para os jovens, Soares (2006) destaca
a formação da identidade juvenil como um processo penoso
e complicado:
[...] A construção
de si é bem mais difícil que escolher uma roupa, ainda que
a analogia não seja de todo má. (...) Roupas, posturas e
imagens compõem uma linguagem simbólica inseparável
de valores. Ninguém cria sozinho ou escolhe para si uma identidade
como se tirasse uma camisa do varal. Não é algo que se vista
e leve para casa. A identidade só existe no espelho, e esse espelho
é o olhar dos outros, é o reconhecimento dos outros. (...)
Por isso, construir uma identidade é, necessariamente, um processo
social, interativo, de que participa uma coletividade e que se dá
no âmbito de uma cultura e no contexto de um determinado momento
histórico. Por consequência, sendo a identidade de uma experiência
da relação que se dá na esfera da intersubjetividade,
dos símbolos, das linguagens, da cultura, ela é, sempre,
uma experiência histórica e social. (p. 137)
Tensão e negociação
na apropriação de novas tecnologias
Durante minha observação
participativa, convivi com cerca de trinta jovens; porém, transcrevo
aqui apenas duas trajetórias de alunos por serem representativas
do contexto pesquisado. Esses jovens compartilham muitas características
(faixa etária, local de moradia, serem estudantes de escola pública
e de baixa renda familiar), e apresentam singularidades e diversidades
expressas através de suas respectivas interações com
a tecnologia. Usando do mesmo argumento de Gilberto
Velho (1981), que ao estudar as camadas médias apontou para
as “diferentes motivações vinculadas a trajetórias
e leituras específicas do sistema simbólico que constitui
a cultura de que participam”, em meu estudo também encontrei grandes
diferenças e variações entre os jovens. Como no estudo
citado, “o objetivo seria demonstrar que, dentro de um universo que segundo
critérios socioeconômicos como renda ocupação
poderia ser visto como homogêneo” também encontrei “fortes
descontinuidades em termos de ethos e visão de mundo”. (idem, p.
41)
Após o primeiro dia
de aula, o passo seguinte foi a construção de seus respectivos
[perfis no
]
Orkut. Ressalto que não houve nenhum tipo de explicação
teórica sobre informática. José, o educador social,
acredita que este processo (criação de um e-mail válido,
escolha de senhas, preenchimento do formulário do referido site
e a transferência das fotos) é a melhor maneira de se iniciar
um processo de inclusão digital, a partir das suas realidades.
"Não demonizo nada.
Nem os jogos nem o Orkut. Eles fazem parte da proposta pedagógica
na qual acredito. A partir daí, pode-se ensinar muitas coisas. Mas
não é muito fácil. É uma negociação...
Tu vais sentir na pele: Pessoal, um minuto de atenção! Todos
vocês conhecem a Lúcia. Pois bem, podem pedir ajuda para ela
também. A partir de hoje ela vai colaborar também" (José).
Comecei a atender aos chamados de
“ajuda” refletindo sobre as implicações de minha nova “função”
na sala de aula, qual seja: o relacionamento direto com os alunos para
a solução das suas demandas relacionadas à informática.
Pessoalmente sou uma simples usuária e não tenho conhecimentos
especiais sobre computadores. No entanto, ao argumentar com José
sobre minha incapacidade técnica, recebi como resposta a máxima:
“Em terra de cego, quem tem um olho é rei...”
Rudney, 15 anos, estudante da 8ª
série, não tinha e-mail, mas já havia frequentado
algumas vezes a Lan House do morro da Tuca. ‘Tô louco pra
entrar nesse negócio de Orkut. Tenho um monte de amigos que já
têm. Deve ser tri!”. Ele era um dos alunos que mais solicitava
a minha presença. “Fica aqui, profe. Não sai. Hoje tu
vai ficar só comigo. “Nem responde para os outros...”, dizia
com ironia. Ele gosta muito de Hip-hop e tem uma banda. “Tocamos por
aí; quero ser músico, famoso, ter dinheiro e mulher. Já
pensou? Mas sei que primeiro preciso ter um e-mail e um Orkut..." Como
Rud (seu apelido) não tinha nenhum conhecimento, foi demorada a
operação de digitação, a compreensão
das funções das teclas, os nomes em inglês. Seu desabafo
é revelador: “Não pensei que fosse tão complicado.
Precisa de tudo isso? Quem é esse tal de Yahoo? Tem
que saber inglês pra mexer? Pra que querem saber tudo isso de mim?Sei
lá qual é o meu CEP. Nem sei o que é isso!” Continuamos
tentando. A escolha de um e-mail válido também foi
demorada. A primeira tentativa foi a do seu nome: rudiney@yahoo.com.br
que, obviamente, foi negada. “Mas por que? Não é esse
o meu nome?” Expliquei que deveriam existir milhares com o mesmo nome.
“Vamos tentar outro nome”, disse eu. “Mas não é
por computador? Só eu tenho esse nome aqui na sala”. Novas explicações
e novas tentativas. “Tá legal, agora vou escrever o meu nome
inteiro... Profe, olha o que a máquina está dizendo: operação
não concluída”. Repetimos a operação, o
que levou bastante tempo uma vez que, como já relatei, há
variações na rede que o Murialdo utiliza e, especialmente
nesse dia, a conexão estava lenta, com interrupções
e consequente perda das informações já preenchidas.
Por fim, compusemos juntos um e-mail misturando o seu nome, as iniciais
do sobrenome e números. “Conseguimos finalmente”, vibrou.
Seguindo a orientação de José, mandei um e-mail, que
tinha que ser respondido pelo aluno. Rud ficou emocionado por ter, sozinho,
conseguido acessar o site e receber a mensagem. Sua resposta, por e-mail,
foi um simples “oi”. E disse: “Tô cansado, profe. Esse negócio
de digitar é difícil. Mas valeu. Não vai me
esquecer, hein? “Na aula que vem, tem o Orkut”. Porém,
na aula seguinte, a cena se repetiu. Não se lembrava do e-mail.
Nem eu. “Mas como é que tu não lembra? Eu, tudo
bem, sou meio burro, mas a senhora?” Respondi, brincando, que era tão
“burra” quanto ele... (risos) e nova tentativa. Depois me lembrei de sua
mensagem, do “oi” enviado e recebido. Ele se espantou, pois pensava que,
ao ler, a mensagem era apagada. Todavia, surgiram novos problemas: Rud
não se lembrava de sua senha. “Que droga, não se pode
errar nenhuma letrinha que não vai”... Enfim, foram inúmeras
as tentativas, até que José interferiu e aconselhou a criação
de novo e-mail, o que levou Rud a ficar muito bravo. “Vou desistir,
profe. Vou pedir para ir para a padaria (outro curso disponibilizado
pela instituição dentro do mesmo Programa); pelo menos
a gente come e se sobra levamos pra casa. Isso aqui está muito chato”.
Passada a frustração, iniciamos a feitura do e-mail. Dessa
vez foi mais fácil e ele retomou o entusiasmo pela aula. Quando
o sistema pediu uma senha, aconselhei-o a escrever algo que fosse importante
para ele, a fim de facilitar novos acessos. Rud concordou. Em segundos,
preencheu as solicitações a respeito dos seus dados. “Pronto.
Já escolhi uma senha que nunca vou esquecer: é o nome do
meu melhor amigo que mataram no mês passado. Boa ideia, né?”
Lucimarta, 17 anos, destacou-se no
grupo por sua desenvoltura. Tinha algum conhecimento de informática
e seu envolvimento com o computador iniciou-se na escola. Essa aluna fazia
parte do grêmio estudantil e por isso tinha algumas “vantagens”,
como ter acesso mais frequente à sala de informática. Além
disso, contou-me:
Sempre dou um jeito de entrar
no meu Orkut. Converso e trovo com um vizinho meio chato, mas sempre acaba
acreditando nas mentiras que conto: que é urgente, que é
a última vez, essas coisas. Aqui no Morro é muito caro a
conexão. Só funciona linha discada e por isso ele só
deixa entrar tarde, depois das 10 horas da noite, e bem pouquinho.
Uma das características já
apontadas em vários estudos sobre as vilas de classes populares
no Brasil é a proximidade existente entre os moradores, a solidariedade
entre os parentes e vizinhos, operada através de uma rede de reciprocidade
que tem como ponto de partida a proximidade e a convivência (ver
Fonseca, 2004). As novas tecnologias também fazem parte dessa rede,
seja com o empréstimo desses objetos ou na constatação
do empoderamento existente de quem possui um computador e uma conexão.
Como o antigo "televizinho", agora surge os vizinhos.com que usam diversas
estratégias para acessarem seus e-mails e recados no Orkut.
Lucimarta disse-me ainda que, de
tanto frequentar uma Lan House “boa”, (localizada na Avenida Central
do Bairro e com conexão rápida para a Internet) fez amizade
com o responsável, que estende seu horário em quase uma hora;
e também frequenta o Telecentro local. Quanto ao seu Orkut, ela
foi uma das primeiras a aderir. Suas palavras: “Ninguém conhecia
e eu já era viciada”. Lucimarta tem mais de 400 amigos no Orkut
e é membro de mais de 300 Comunidades:
Tô até pensando
em fazer uma faxina. Tem gente demais, a maioria eu reconheço que
eu nem conheço e nem falo. No começo é aquela emoção
que tu estás vendo. Depois a gente cansa um pouco. Na real, atualmente,
eu só converso, converso mesmo, é com dois amigos. E olha
que eles são meus vizinhos, moram nas ruas de cima. Mas a gente
não se encontra. Só no Orkut.
Em uma ocasião, Lucimarta,
com suas estratégias, não desceu para o lanche coletivo patrocinado
pela instituição. Esse intervalo é muito esperado
pelos alunos, por ser um importante momento de socialização,
em que todos os jovens dos diversos programas se encontram e conversam.
O diferencial dessa instituição é a qualidade dos
produtos oferecidos durante a “hora do lanche” (produzidos pela padaria/escola
local) e também pelo pátio e a área verde disponível.
A aluna, porém, preferiu não descer e continuou ao computador.
Ao indagar o porquê de tal atitude, respondeu-me com novo questionamento:
Profe, tu não gosta
de encontrar amigos? Lá em baixo tu não estava com várias
pessoas? Pois eu também, eu to encontrando e conversando com os
meus amigos, só que pelo computador. No fundo é a mesma coisa...
Discuto a seguir: para uma contribuição
empírica sobre os discursos referentes à sociabilidade virtual,
o site de relacionamentos Orkut. Em linhas gerais, o Orkut pode ser definido
como uma rede social construída virtualmente com o objetivo de ajudar
seus membros a criar novas amizades e manter relacionamentos. A interação
social que acontece no Orkut é inédita, já que proporciona
um tipo de sociabilidade em que o encontro de indivíduos não
depende das variáveis tempo e espaço.
A Internet já proporciona
a comunicação desvinculada do tempo e do espaço, porém
o Orkut inova por trazer essa possibilidade para a sociabilidade ao potencializar
as redes de amizades. Uma adolescente de 14 anos, em artigo a um jornal
,
afirmou que “o Orkut é a pracinha de hoje em dia. Ao invés
de irmos para as ruas, estamos todos plugados no Orkut”. Seguindo o pensamento
da garota (que diz inclusive ter parado de fazer programas ao ar livre
para ficar em casa), os jovens procuram o mundo virtual dos computadores
para fugir da violência urbana. Vários são os estudos
acadêmicos que explicam a popularidade do Orkut no país, tais
como as reflexões abaixo arroladas:
Poderíamos nos perguntar
de onde vem a extrema popularidade do Orkut, ao menos no Brasil, cujos
internautas representam cerca de 70% dos frequentadores mundiais. Poderíamos
pensar que ela é fruto da conjugação de vários
elementos e de sua articulação com esses tempos de modernidade
líquida, como quer Bauman: tempos de velocidade e precariedade,
instabilidade e vulnerabilidade. Assim, o Orkut tem o selo da instantaneidade,
que é, em grande medida, o selo da Internet; não são
necessários processos prolongados para entrar e sair de comunidades,
trocar fotos, postar mensagens e respondê-las, etc. (Silveira,
2006, p. 5).
Viana (2007)
ressalta um aspecto ao afirmar que foi o Orkut, acessado nas Lan Houses
populares, que contribuiu e está contribuindo para a chamada inclusão
digital brasileira, visto que as pessoas passaram a conhecer a Internet
ao usar o referido site. Colabora para o sucesso do Orkut o fato de ele
ser um site amigável, de fácil navegação, com
o diferencial de permitir o compartilhamento de fotos e de mensagens multimídias
(imagens, som), o que foi possível observar em campo. Os jovens
estavam ansiosos por criar “seus” Orkut’s e também em (re)fazer,
em alterar, enviar recados, enfim: mostravam avidez em se comunicar e participar.
Como contribuição para
a reflexão sobre o fenômeno Orkut, assinalo duas questões
empíricas à luz do conceito de territorialidade e de classe
social que elucidam como os jovens pesquisados apropriam-se desses novos
saberes em suas práticas cotidianas. A primeira refere-se ao incremento
das redes de sociabilidade locais operadas pelo Orkut; já a segunda
sobre as possibilidades dos jovens das classes populares acessarem e usarem
as novas tecnologias. Ao contrário do apontado em muitos estudos,
como, por exemplo, a pesquisa de Dornelles
(2008) sobre a virtualidade e suas revolucionárias práticas
de socialização (com alcance mundial) e capacidade de realização
de interações entre “diferentes segmentos sociais [...] e
diferentes referenciais simbólicos” (p. 169), as redes de sociabilidade
existentes no Muriado - mediadas pelo site de relacionamentos Orkut - operam
empiricamente por dinâmicas de sociabilidade no bairro, com uma lógica
muito mais local do que a exposta nesses estudos. Entre os jovens das classes
populares que pesquisei, o pertencimento e o reconhecimento que eles almejam
está mais vinculado à sua rede local (turma da escola, amigos
do bairro, família), como ilustram algumas Comunidades virtuais:
Amigos
do Morro da Cruz, As danadas do Partenon, Trabalho educativo
Murialdo. Silveira (2006) aborda essa
questão:
Em época em que tanto
se fala de desterritorialização – e a Internet foi uma das
instituições que mais contribuíram para a abolição
da noção de distância e da relevância do lugar
de origem ou moradia dos sujeitos –, pode parecer surpreendente esta busca
de territorialização de “entes virtuais”, como se essa fosse
uma estratégia de atribuição de corpo e substância
a esses sujeitos enunciadores (afinal, pessoas de carne, osso e nervos
ainda moram, mesmo que provisoriamente, em espaços). A âncora
– tão tradicional – do lugar de origem não parece ter deixado
sua função de fundear essas identidades-navegadoras (p. 10).
Ruben Oliven argumenta que “a criação
de manifestações culturais mundializadas não significa
que as questões locais estejam desaparecendo. Ao contrário,
a globalização torna o “local” mais importante do que nunca”
(Oliven, 2006, p. 1). Ou seja, junto do discurso
existente - “espaço de possibilidades de entendimento, de democracia,
de congraçamento, do lúdico” (Silveira,
2006 p. 2) – existe a apropriação local bem prática,
pontual e utilitária, como resumiu a minha informante Lucimarta:
Eu tenho celular, mas é
de cartão; só recebe ligações. Falo tudo pelo
Orkut. É muito mais barato. Mando parabéns pra todo mundo.
Imagina se fosse ligar? Eu ia ficar mais pobre ainda...
Alguns scraps (mensagens ou
recados deixados no perfil individual ou nos tópicos de discussão
das Comunidades) de meus informantes também reforçam esta
interpretação. Muitos os mantêm como índice
de popularidade uma vez que o seu número, junto com o número
de amigos são critérios de popularidade.
Sergei: “o meu, ki
horas é a festa la???? flow.” - “largo aqla vila di mão?
- F", - “eai vamos
estudar juntos a semana q vem ou não? bjs amiguxo hehehehh.
Lucimarta: “bah hoje eu tava
ai fui busca os cadernos com a bruna e fui na tua casa mas acho q naum
tinha ninguém....Bjinhux.
- e aqle cara q tu gostava (ou ainda
gosta) ainda ta te enrolando?
- E ai minha linda tenha um lindo
dia
Nesse sentido, segundo Castells (2005)
a Internet é um instrumento que desenvolve, mas que não muda,
comportamentos. Nas suas palavras:
Vale dizer que aquilo que
as pessoas faziam, elas continuam fazendo com a Internet: para quem as
coisas andavam bem, ficaram ainda melhores e para quem elas iam mal, continuam
igualmente ruins. Quem tinha amigos, também os tem na Internet e
quem os não tinha, tampouco os tem na Internet.(...) A Internet
é um instrumento que desenvolve, mas que não muda comportamentos;
ao contrário, os comportamentos apropriam-se da Internet, amplificam-se
e potencializam-se a partir do que são. Isso não significa
que a Internet não seja importante, mas não é a Internet
que muda os comportamentos, mas os comportamentos que mudam a Internet
(Castells, 2005, p. 273).
Assim, as recentes modificações
ocorridas neste site, advindas da pressão dos seus usuários
“por mais privacidade”, ilustram a relação existente entre
o on-line e o off-line. O surgimento de concorrentes também
confirma essa tendência. Os sites de relacionamento líderes
mundiais de acesso (Myspace e Facebook) possuem como argumento diferencial
a privacidade (o perfil do usuário só é visível
para quem está na lista de amigos) e a distinção.
A mensagem que a mídia está começando a vincular é
clara: “O Orkut virou coisa de pobre”.... Conforme depoimento de um ex-usuário:
O Orkut perdeu o sentido.
Começaram a chegar disparadamente mensagens como: ‘bom fds!’; ‘passei
aqui pra deixar um oi’; ‘feliz dia do amigo’; ´feliz dia do beijo’;...
e por aí vai. Nada contra desejar coisas boas aos amigos, mas pelo
amor de Deus! Nem Deus aguenta. Por fim, deixei o Orkut.
A esse respeito, são vários
os títulos de Comunidades que existem no Orkut, tais como: “O orkut
tá cheio de pobre”, “Orkut e celular todo pobre tem”, “Detesto pobre
metido a rico!”, “Não existe feio, existe pobre!”, entre outras.
Ou seja: a partir da constatação de que os “pobres”
estão acessando o Orkut, novas opções de redes sociais
são criadas para a elite. Isso ocorre porque há importantes
nexos entre práticas culturais e classes sociais, evidenciando as
relações de poder como categorias de dominação
operadas através do capital cultural. A violência simbólica
aparece, nesse caso, através do discurso (direito a) da privacidade
e, mais explicitamente, nas Comunidades já citadas. Em recente notícia
vinculada pela mídia:Internautas
podem agora selecionar os grupos autorizados a deixar mensagens, dá
a pista:
Agora o usuário pode
selecionar quem poderá escrever em sua página de recados:
todos, só os amigos ou também os amigos de amigos (...) Acabou
aquela história de todos poderem escrever recados para todos no
Orkut.
Portanto, operando com o discurso
do caráter democrático da Internet estão as barreiras
que marcam as fronteiras existentes entre os diferentes grupos sociais.
Estas ocorrem na forma de barreiras materiais (falta de computador, conexão,
infraestrutura) e, como no exemplo do Orkut, em forma de barreiras simbólicas,
reificando, através do habitus, a lógica da separação
e da distinção desses grupos, que pode ser expressa através
de Comunidades do Orkut, tais como: “Rico X Pobre”
Nesse sentido, é esclarecedor
o pensamento de Bourdieu (1983) que explicita
a lógica da constituição do habitus:
Compreendemos, na mesma
lógica, que os conflitos de geração opõem não
classes de idade separadas por propriedades de natureza, mas habitus
que são produtos de diferentes modos de engendramento, isto é,
de condições de existência que, impondo definições
diferentes do impossível, do possível, do provável
ou do certo, fazem alguns sentirem como naturais ou razoáveis práticas
ou aspirações que outros sentem como impensáveis ou
escandalosas, e inversamente.
Continuando com o autor, os mecanismos
da reprodução social através do viés da distinção
situam bem esse fenômeno, sendo os julgamentos de gostos e de preferências
um meio de afirmar ou de conformar as desigualdades sociais.
De fato, por intermédio das
condições econômicas e sociais que elas pressupõem,
as diferentes maneiras, mais ou menos separadas ou distantes, de entrar
em relação com as realidades e as ficções,
de acreditar nas ficções ou nas realidades que elas simulam,
estão estreitamente associadas às diferentes posições
possíveis no espaço social e, por conseguinte, estreitamente
inseridas nos sistemas de disposições (habitus) características
das diferentes classes e frações de classe (Bourdieu,
2007, p. 13).
Ou seja, a partir da constatação
de que os “pobres” estão acessando o Orkut, novas opções
de redes sociais são criadas para a elite. Isso ocorre porque há
importantes nexos entre práticas culturais e classes sociais, evidenciando
as relações de poder como categorias de dominação
operadas através do capital cultural. A violência simbólica
aparece, nesse caso, através do discurso (direito a) da privacidade
e, mais explicitamente, nas Comunidades já citadas. Ou seja, as
desigualdades de classe existentes terminam sendo reproduzidas no mundo
virtual. Ou seja, o discurso referente aos jovens de classe média
e alta – “Orkut virou coisa de pobre” – e as novas opções
existentes no mercado para esse tipo de serviço sem os problemas
relativos às questões de “privacidade” e invasão de
recados mostram que a interação social com os pobres que
ingressam no Orkut é indesejável.
Existem, no entanto, diversos outros
demarcadores que ajudam a distinguir os membros de uma determinada classe
social. De acordo com Bourdieu (2005), o contexto
e o entorno da foto já são suficientes para dar “pistas”,
uma vez que dificilmente jovens da elite tiram fotos em passeios, como
por exemplo uma foto que mostra os alunos do curso em frente ao ônibus
da linha turística de Porto Alegre. Essa estratégia adotada
pela informante, portanto, poderia não servir para todos os jovens
de todas as classes, mas serviria como um reforço para a comunicação
com os seus pares. Além das fotos, os seus recados no site Orkut
e nas Comunidades aderidas apontam para um claro reforço da rede
local de sociabilidade. Isto pode ajudar a refletir sobre o modo
como indivíduos de classes populares vêm se apropriando
das novas tecnologias.
Conclusão
Este artigo, a partir da reinterpretação
do material etnográfico coletado e da contribuição
do pensamento de Simmel, procurou ampliar a compreensão de como
os jovens das classes populares se percebem, interagem e socializam no
chamado mundo virtual. Na esteira dessas constatações,
e valendo-me da tese de Castells (2005), concluo
que a verdadeira exclusão continua sendo cultural e educacional,
uma vez que a Internet, sendo uma ferramenta tecnológica, não
tem um poder mágico de transformação. Nessa perspectiva,
potencializa e amplifica, conforme o conceito de Velho
(2003, p. 40) “as disposições individuais existentes”.
Em termos de políticas públicas,
a inclusão digital do jovem é fundamental. Junto com a educação
e a cultura, tornou-se um direito universal que subsidia a entrada no mercado
de trabalho. Além disso, vários aspectos da sociabilidade
humana estão ocorrendo através dos recursos das tecnologias
de informação e comunicação, compondo novos
cenários de relacionamentos. Especificamente, constatei que os jovens
pesquisados aderiram às novas tecnologias e sobretudo à rede
de relacionamento Orkut como reforço das suas redes locais de sociabilidade.
Finalizando, cada vez mais se faz necessário discutir o papel de
uma Antropologia da Inclusão Digital. Esta oferece os instrumentos
da disciplina para que os agentes públicos entendam em maior profundidade
como se opera – singular e localmente – a apropriação tecnológica
pelos atores.
Notas
N.
R.
N.
R.
Desenho
baseado na codificação de caracteres de sete bits baseado
no alfabeto inglês - ASCII, que em português significa Código
Padrão Americano para o Intercâmbio de Informação.
Fonte: Wikipedia
Acesso: 14/07/2008.
Todos
os excertos transcritos (retirados das falas dos meus informantes ou dos
registros dos mesmos na internet) que aparecem ao longo do artigo foram
digitados sem correção gramatical. Para uma reflexão
aprofundada sobre a questão do preconceito lingüístico
a respeito da linguagem coloquial e a gramatical, veja Possenti
(1996).
Rudney
é filho de Jussara, mãe que conheci durante a entrevista
para a seleção do Programa e que tinha 12 filhos. Não
pôde completar o curso. Em agosto de 2007, o pai, conforme me informou
a assistente social, saiu da prisão em regime semiaberto e começou
a incomodar. O jovem precisou sair do curso para defender a casa, o pátio
e os irmãos menores, enquanto a mãe trabalhava.
Refiro-me
ao artigo “A febre do Orkut”, publicado no jornal Zero
Hora (Porto Alegre), sábado/23/12/2006.
Estabelecimento
comercial onde as pessoas pagam para utilizar um computador. Os frequentadores
são, na maioria, jovens que praticam jogos virtuais, servindo de
local de encontro e sociabilidade. Para maiores detalhes, ver Dornelles
(2008). Reportagens sobre o acesso à Internet das classes populares
mostram como as lan houses e os telecentros são abundantes
em bairros populares. Somente na favela
da Rocinha, na Zona Sul do Rio, existem cerca de cem salas e ” Lans
invadem favelas e aproximam inimigos no Rio”. Fonte: G1
(O
Globo). Acesso: 30/09/2007.
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