1968: Ditaduras Abaixo
Teresa Urban
Quadrinhos de Guilherme Caldas
Editora Arte e Letra
Curitiba, 2008
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O livro, conforme se pode ler na
apresentação, foi escrito por uma avó para seus netos:
com esta informação, seria de esperar uma história
contada ao pé da lareira, recheada de seres fantásticos,
utopias, heróis, batalhas. Tal impressão é, em parte,
verdade: só que a avó é Teresa Urban, militante de
esquerda, presa política nos anos da repressão, jornalista
com passagens pela revista Veja, pelo Estadão e pelo Jornal do Brasil,
entre outros veículos de comunicação, e, atualmente,
escritora e ativista de causas ambientais. E a história que ela
conta em 1968 Ditadura Abaixo tem, sim, heróis, batalhas,
ideais, ainda que o contexto não seja propriamente o de conto de
fadas: com base em documentos, fotos, recortes de jornais, depoimentos,
fichas do DOPS, cartazes e folhetos da época, Teresa constrói
um vivo relato dos eventos políticos protagonizados por jovens de
sua geração, no ano de 1968, no Paraná, e, especialmente
na capital, Curitiba.
Para costurar os fatos e organizá-los
numa estrutura narrativa, optou pelo recurso aos quadrinhos (de Guilherme
Caldas) que, intercalados com a farta documentação apresentada,
estabelecem um original contraponto, semificcional, com a massa de informações
(às vezes, pesada), muitas delas apresentadas em fac-símile.
Mas não é apenas o recurso aos quadrinhos que constitui a
originalidade do livro: a composição, do material iconográfico,
no estilo colagem, permite, também, uma leitura não
linear: pode-se folhear o livro em qualquer sentido e o que se tem, numa
espécie de caleidoscópio, é um panorama da Curitiba
de então, com seus cinemas, apresentações teatrais,
passeatas, reuniões estudantis, shows, festas, choques com a polícia
– uma Curitiba conservadora que teve de conviver com estudantes de todo
o país, descobrindo a política, quebrando tabus, experimentado
novas formas de expressão e, principalmente, contestando o regime
autoritário.
No seu aspecto didático, fiel
ao propósito inicial de contar uma história a uma geração
mais nova de leitores, Teresa apresenta um linha do tempo que, de certa
forma, constitui a amarração de todo o livro: o primeiro
capítulo, “Muito, muito antes de 1968”, traz, em forma de
tópicos, alguns dos acontecimentos que pontuaram a história
do Brasil desde o descobrimento até os anos de 1960; em seguida,
em “Pouco antes”, mostra um rápido quadro sobre o contexto internacional
por volta de 1964 e os anos que se seguiram ao golpe. “1968” constitui
a parte central do livro – 176 páginas – que termina com a lista
de desaparecidos e mortos pela repressão: é o capítulo
final: “Depois”.
Para além do propósito
de resgatar uma história próxima, mas ainda pouco conhecida,
e disponibilizá-la, principalmente para os que dela não participaram,
o livro de Teresa constitui o registro da forma como os fatos de 1968,
geralmente referidos ao que ocorreu nos grandes centros do país,
foram vividos num contexto fora do eixo Rio-São Paulo. Não
há dúvidas de que foi naqueles centros que os acontecimentos
adquiriram maior dimensão e visibilidade, mas em muitas outras
regiões e cidades a resistência à ditadura, não
menos intensa, teve seus lances e marcas particulares. Não se trata,
porém, apenas de buscar uma espécie de “cor local”, mas de
levantar fatos, pesquisar estratégias e recuperar aspectos cuja
especificidade e diversidade são fundamentais para que se tenha
um quadro mais completo daquele período. Nesse sentido, 1968:
Ditadura Abaixo tem o mérito de, por meio
de uma linguagem ágil, de tipo jornalístico, abordar um tema
que certamente está a pedir mais pesquisas e estudos sistemáticos.
Por fim, cabe registrar que o livro
tem um sabor especial para todos os que tomamos parte naqueles acontecimentos
– confesso que, ao receber a publicação, logo fui procurando
em que lista, reportagem ou arquivo policial aparecia meu nome, ao lado
do de Teresa e dos demais colegas de então. E já que esta
resenha aparece numa revista de orientação antropológica,
não resisto à tentação de mencionar duas referências
que estão na página 107 e que, de certa forma, mostram um
aspecto não apenas do clima, mas, também, das preocupações
do Movimento Estudantil em meio às lutas contra a ditadura: um ofício,
assinado por mim e por João Elísio de Andrade, respectivamente
presidente e vice-presidente do Diretório Acadêmico Rocha
Pombo, da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da UFPR, solicitando
a cessão de um auditório para “a realização
de uma conferência sobre Existencialismo, pelo professor João
Quartim de Moraes, da Universidade de São Paulo, no dia 10 de maio
de 1968”. E um trecho do balanço de atividades, ao fim de nossa
gestão nesse centro acadêmico: “Cursinho pré-vestibular;
Peça teatral Quando as máquinas param, de Plínio
Marcos, para a semana do calouro; Conferência do Frei Arcângelo
Base sobre a encíclica Populorum Progressio; Conferência
do Prof. Otávio Ianni, sociólogo da USP; Semana do Estruturalismo,
com o Centro de Estudos de Antropologia”. Comprovadamente, a Antropologia
também estava lá...
Professor
do Departamento de Antropologia da USP.
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