|
Taxistas na cidade de Belém (PA): narrativas
sobre o mundo urbano
Pedro Paulo de Miranda Araújo
Soares
Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará.
Flávio Leonel Abreu da Silveira
(Orientador)
Laboratório de Antropologia Napoleão Figueiredo, da Universidade
Federal do Pará.
|
O trabalho e a experiência
de campo junto a grupos urbanos têm surgido
como importantes elementos para a compreensão do fenômeno
das cidades no mundo contemporâneo, proporcionando a possibilidade
de observar a dimensão elástica e tensional dos tempos vividos
na urbe, tempos narrados por velhos e jovens moradores a partir de suas
experiências cotidianas. Nesse contexto, os motoristas autônomos
de Belém figuram como portadores de um conhecimento sobre a cidade
baseado na prática do deslocamento, revelando uma memória
coletiva ligada aos processos de urbanização e integração
da urbe a um Estado Nacional.
Emerge, então, o imaginário
construído a respeito da cidade de Belém no interior de uma
categoria profissional específica, bem como representações,
aspirações, devaneios e queixas comuns sobre o viver na cidade.
Assim, os pontos de vista desses profissionais aparecem expressos em narrativas
sobre as mudanças no espaço urbano, sobre as modificações
no ofício de taxista ao longo do tempo, assim como nas histórias
fantásticas acerca de fantasmas e assombros protagonizadas pela
personagem do taxista.
O trabalho de pesquisa segue a perspectiva
da etnografia urbana, tendo sido realizado – utilizando gravador digital
e câmera fotográfica – em dois pontos de táxi diferentes
localizados na Avenida Presidente Vargas, situada em uma região
central de Belém. Trata-se de uma via caracterizada pela efervescência
urbana, multiplicidade e intenso trânsito de sujeitos em deriva no
espaço citadino.
O contato e a convivência com
os motoristas desses locais, por sua vez, levou-me a conhecer outros dois
taxistas aposentados, que foram de fundamental importância para a
pesquisa. Para interlocutores procurei aqueles que possuíssem características
de bons narradores, ou seja, uma significativa experiência do vivido
– considerando as suas vivências na cidade ao longo do tempo como
profissionais do transporte – e o desejo de transmiti-la ao outro, por
intermédio do ato narrativo que repassa tais memórias.
Antes de ser um trabalho sobre taxistas,
esta é uma reflexão sobre a cidade de Belém, ou ainda,
sobre as narrativas que têm assento no mundo urbano belenense, entendidas
aqui como um esforço subjetivo empreendido por estes homens no sentido
de acomodar, interiorizar e formalizar as suas experiências de vida
no próprio devir do tempo. Os sujeitos da pesquisa, motoristas autônomos
de dois pontos de táxi e outros dois taxistas aposentados, possibilitaram,
através do trabalho de sua memória, um contato com a experiência
temporal da cidade de Belém no último século. É
lógico que para entender certos aspectos das narrativas destes homens
foi necessário conhecer minimamente seu universo simbólico
e o seu cotidiano de trabalho. De qualquer forma, conversar com tais personagens
sobre as práticas de seu ofício não constituiu uma
digressão. Muito pelo contrário: quanto mais falam de si
e de seu trabalho, mais narram a cidade de Belém em tempos passados,
presentes e, por vezes, futuros, pois as suas trajetórias pessoais
revelam a dinâmica agitada da própria urbe no tempo.
O ofício de taxista em
Belém (PA)
Trabalhos como o de Eduardo
Campos Rocha (2004) ocuparam-se do tema do transporte individual em
contextos urbanos – no caso deste autor, sua etnografia foi realizada na
cidade de Brasília – mostrando que a disposição e
o funcionamento deste tipo de serviço são condicionados historicamente
e compõem um tipo de paisagem específica. A partir do trabalho
citado, é possível perceber que as grandes distâncias
a serem percorridas, o modelo urbano que privilegia o transporte por automóvel
e a presença dos três poderes em Brasília transformam
o táxi no meio de locomoção predominante naquela cidade.
Em Belém, cujo modelo urbano
caracteriza-se pela predominância dos ônibus em detrimento
de outras formas de transporte, o táxi assume um papel diferenciado
em relação a Brasília; papel que vem mudando gradativamente
em conformidade com as alterações sofridas pela cidade ao
longo do tempo. Não se pode esquecer também que as transformações
do espaço urbano de Belém estão ligadas ao processo
de formação e integração a um território
nacional, aspectos que não podem ser esquecidos quando são
realizados estudos em sociedades urbanas contemporâneas (Peirano,
1983).
Por seu caráter de cidade
colonial, o núcleo urbano originário de Belém expandiu-se
ao longo dos séculos conforme a atividade econômica em vigência
na região e o consequente aumento da população. O
crescimento urbano desordenado e a configuração caótica
das ruas e do trânsito observados nos dias de hoje, representam a
própria antítese de outras urbes como Brasília e Goiânia,
por exemplo. Estas, pelo menos a princípio, foram “planejadas” antes
de sua construção.
Nesse contexto, o taxista em Belém
surge como um “guardião da memória” (Benjamin,
1996), na medida em que, a partir de sua experiência como um profissional
que construiu uma carreira pautada pelo deslocamento na cidade, ele guarda
“mapas mentais” (Gell, 1985) de diferentes épocas
que revelam a dinâmica das transformações ocorridas
na urbe. Tais mapas muitas vezes se sobrepõem e dialogam entre si,
formando um acervo de imagens da cidade de ontem que interagem com as de
hoje, em projeção ao futuro.
O campo de atuação
do taxista é amplo, pois ele normalmente não se recusa a
fazer uma corrida
para um lugar que considere distante. Da mesma forma é fluido, pois
a criação e a pavimentação de novas ruas e
avenidas – fato constante em uma metrópole em transformação
como Belém – acarreta o aparecimento de novos núcleos populacionais,
para os quais devem ser conduzidos os seus moradores e os visitantes. Conforme
Walter Benjamin (1996), uma narrativa vincula, a princípio, um saber,
seja ele sobre terras distantes, seja sobre o passado. Sendo assim, o taxista
poderia se adequar ao perfil de portador desse tipo conhecimento, uma vez
que seu ofício demanda uma intensa circulação no espaço
urbano ao longo de anos de trabalho.
Pode-se dizer que conhecer um taxista
antigo – assim como qualquer atento habitante belenense – é conhecer
várias cidades de Belém. Ele pode observar o processo através
do qual a paisagem urbana muda conforme o tempo passa e uma concepção
de urbanidade tenta sobrepor-se à outra. Além disso, a abertura
de novas vias, por exemplo, facilita o contato com outros espaços
e realidades diversas, o que possibilita ao motorista – e consequentemente
aos interlocutores da pesquisa – o estranhamento frente a realidades distintas
da sua, constituindo o que Clifford (2000) chama
de “experiência da viagem” dentro de um mundo urbano complexo.
Como veremos, a urbanização
de Belém, assim como a “ocidentalização” da região
amazônica fazem parte de um processo relativamente recente de ocupação
do território e implementação de políticas
econômicas desenvolvimentistas (Vicentini,
2004). As consequências disso tudo são sentidas pelas pessoas
em sua vida cotidiana, mas, principalmente, pelos taxistas e outros profissionais
que têm o espaço público como locus de trabalho por
excelência e que, necessariamente, entram em contato de forma mais
direta com os problemas urbanos. Deve-se levar em conta, ainda, que seu
próprio carro é um “espaço público que se movimenta
por outros espaços públicos” (Rocha,
2004 p.47), o que implica a necessidade de um conhecimento específico
sobre a cidade, suas áreas e os sujeitos que as percorrem.
O problema da violência, bem
como o surgimento de uma “cultura do medo” (Eckert,
2000) parecem ser uma constante nas grandes cidades brasileiras. É
a partir daí que o medo passa a nortear boa parte das práticas
cotidianas e engendra uma série de conhecimentos sobre a rua, bem
como estratégias para driblar o encontro com o espólio ou
a morte. No caso de Belém, os relatos dos taxistas entrevistados
apontam para o crescimento da violência a partir do fim da década
de 1970, e tendem a colocar a migração nordestina como o
principal fator responsável pela insegurança na cidade. O
“estranho”, neste caso o migrante, teria agido de duas formas, como afirma
o taxista Otávio: “Quando começou na década de oitenta
começaram a matar taxista. Taxista começando a ser ladrão.
Isso prova em jornais da época”.
Nesse contexto, o pai de Otávio,
o senhor Pedro Chaves, foi o pioneiro em uma medida já existente
em outras cidades do Brasil, criando a ATAPR – Associação
dos Taxistas da Praça da República. A existência de
“pontos de táxi” em Belém remete aos primórdios da
profissão de motorista na cidade, isto é, à figura
do chofer ou da presença do carro de praça. Segundo
Otávio e outros taxistas, o ponto de táxi sempre existiu
como local de referência para o motorista, evitando que este rodasse
a esmo pela cidade desperdiçando combustível. O ponto
também era e é um espaço de sociabilidade (Simmel,
2006), assim como um “lugar de memória” (Nora, 1989), pois trata-se
de um local onde há uma intensa convergência de experiências
e imagens que entrelaçam trajetórias individuais e coletivas
relacionadas ao habitar e ao labutar na cidade. Pude notar que os taxistas,
enquanto deixam seu carro na fila à espera de passageiros, jogam
dominó ou conversam. Por vezes os vi se reunirem em volta de um
taxista mais experiente, seu Manoel, e de forma jocosa o instigarem a contar
histórias. Questionavam e se mostravam céticos àquelas
“mentiras”. Porém, todos queriam ouvi-las. É no ponto – e
no cotidiano de trabalho – que são veiculadas as narrativas sobre
a cidade e que são formadas opiniões sobre a dinâmica
urbana de Belém.
Conforme a recente legislação
sobre o transporte de táxi vigente em Belém, todos os pontos
são abertos, isto é, qualquer motorista pode estacionar seu
carro em um dado ponto e esperar um passageiro. Todavia, na prática
não é isso o que ocorre, pois a criação de
associações e cooperativas tem como alguns de seus objetivos
o afastamento de “estranhos” e a manutenção das relações
com uma clientela específica. Foi nisso que o senhor Pedro Chaves
pensou ao sentir a mudança das condições de trabalho
para os motoristas que labutavam em seu ponto e, a partir daí
em 1984 fundou a ATAPR.
Este senhor já falecido teve
em mente os seguintes objetivos: organizar o já antigo ponto de
táxi e oferecer um serviço de qualidade aos clientes ao Hilton
Hotel, que seria erguido em frente ao ponto; evitar a presença de
taxistas de procedência desconhecida no local e cadastrar todos aqueles
que ali trabalhavam; cadastrar e trabalhar com clientes conhecidos, evitando
o contato com passageiros da rua ,
os quais podem representar perigo ao patrimônio ou à vida
do motorista.
Esse conjunto de medidas constitui
um aparato que visa preservar o motorista contra a violência urbana.
No entanto, a criação de associações e cooperativas
também representa uma alternativa para o trabalho dentro de um mercado
visivelmente hipertrofiado, como é o caso da cidade de Belém.
Os próprios taxistas ressaltam: “Antigamente, era uma fila de pessoas
pra pegar um táxi. Hoje em dia é uma fila de táxi
esperando um passageiro”. (Seu Itamar, taxista da ATAPR).
Segundo os números do SINTEPA
– Sindicato de Taxistas do Estado do Pará – disponibilizados por
Neto, um taxista membro do corpo administrativo da instituição,
há em Belém atualmente 5.427 permissões de taxista.
Tal número não é confiável, visto a grande
quantidade de profissionais que não a possuem. O número ideal
de táxis na cidade de Belém deveria ser de 3.500. A oferta
do serviço é então maior que sua procura. Do total
de taxistas cadastrados, 80% (aproximadamente) são vinculados a
cooperativas e associações. Dos aproximadamente 300 pontos
existentes na cidade, apenas 140 correspondem a associações
e cooperativas. A frota de táxis corresponde a 5% da frota total
de carro em uma cidade que possui 1.408.847 habitantes .
Estes são, portanto, o contexto
e as condições de trabalho dos taxistas em Belém do
Pará. É a partir deste quadro que também emergem as
narrativas com as quais trabalho neste texto.
Narrativas sobre a Belém
do passado
As narrativas sobre o passado da
cidade de Belém já constituem a própria expressão
do ponto de vista desses motoristas sobre a experiência temporal
de Belém. Elas revelam as aspirações, os desejos,
os devaneios sobre a cidade. Aqui não é somente o taxista
que fala, mas o antigo morador da cidade. Seu Laranjeiras (82 anos), taxista
aposentado, em entrevista na sua residência, dá pistas disso :
Seu Laranjeiras -
As, as ruas, ah, não tinha rua... A, as ruas que eram asfaltada
era, as únicas ruas asfaltada em Belém até mil novecentos
e... até mil novecentos e sessenta e quatro, sessenta e cinco,
era a Brás de Aguiar e a Rodovia Sinap, que ia do
Telégrafo pra o aeroporto. Elas eram as únicas ruas
asfaltadas em Belém. O resto de Belém, as ruas que eram calçadas,
era com paralelepípedo. Você não conheceu o paralelepípedo?
Pedro - Em alguns lugares
ainda tem... na Cidade Velha...
Seu Laranjeiras - É,
é, pois é; era aquilo. E Almirante Barroso, que nos
anos 50 ela foi encimentada; uma pista era encimentada de São
Brás até na Bandeira Branca, ou seja, na Dr.
Freitas adonde tem aquele viaduto. Até ali era encimentado.
O resto era rua toda sem asfalto, cheia de buracos; não é
como tá hoje. Hoje tá muito bonita Belém; ficou mais
asfaltada, tudo asfaltado. Dantes num tinha isso. As ruas que davam mais
condições pra você andar era Generalíssimo,
Avenida Nazaré, né, a São Jerônimo
[...] As outras ruas, a Boaventura era rua muito acidentada... A
Boaventura, a... Diogo Moia eram ruas que terminava aqui na, na,
na Alcindo Cacela, terminava lá, porque pra frente era tudo
era igapó .
[...]
É, tirando disso, tinha a
boate, tinha a Mosa. A Mosa era aqui, na, na Alcindo Cacela. Tinha
o Chapéu Chinês e a Mosa era aqui na Vileta,
uma casa grande que tinha lá; ainda tem essa casa bem na esquina
da Vileta com a Almirante Barroso. Era uma casa bonita, um
bangalô bonito; era uma boate. Só funcionava de 10 horas da
noite pra frente e ia até de madrugada... Também não
ia qualquer um lá; só ia pessoas de direito, né, pessoas,
advogado, engenheiro, médico, pessoas que num eram formado, mas
que tinham poder aquisitivo bom, né, é que iam lá.
Não ia qualquer um não (risos). Era considerado longe, né?...
[...] Era longe; só ia de táxi. Aí, o táxi
ia levar.
A fala de seu Laranjeiras aponta,
pelo menos até o ano de 1964, a existência de apenas duas
ruas asfaltadas em Belém: a avenida Brás de Aguiar e a Rodovia
Sinap (correspondente ao trecho da rodovia Arthur Bernardes, que liga o
bairro do Telégrafo ao Aeroporto Internacional de Val-de-Cãs).
Partindo desta assertiva, sua memória percorreu diversas ruas tendo
sempre como referência o material do qual eram constituídas
– o paralelepípedo –, as reminiscências de outra concepção
de urbanidade e modernidade – os trilhos dos bondes – e a possibilidade
de percorrê-las de automóvel, uma vez que determinadas vias
eram constituídas de “mato” e terrenos alagadiços.
Portanto, o “mapa mental” (Gell,
1985) acionado por seu Laranjeiras se constrói em íntima
relação com a sua profissão, pois ele examina as ruas
da Belém de outrora conforme a sua trafegabilidade por automóvel.
Seu Laranjeiras também levou em conta a existência de locais
como bares e boates – alguns só acessíveis de táxi
– que representavam, durante a noite, fonte de sustento para o taxista.
Ou seja: o ponto de vista específico de um motorista, neste caso,
se manifesta na confluência das lembranças de seu deslocamento
na urbe.
De um modo geral, os taxistas entrevistados
sentem-se contemplados com certas modificações no espaço
urbano. Levando em consideração a experiência de seu
Laranjeiras, lidamos com senhores que vivenciaram uma cidade “pequena”,
cujas vias públicas não ofereciam tanta trafegabilidade como
ocorre atualmente. Portanto, era comum ouvir no diálogo com eles,
que “Belém cresceu muito!”, ou que “a cidade tá muito bonita!”
e, mesmo, que as condições de trabalho para os taxistas estão
melhores. De fato, a abertura de novas ruas aumenta a abrangência
do oferecimento de seus serviços. Entretanto, a liberdade de locomoção
dos motoristas de táxi na Belém dos dias de hoje é
cerceada por fatores como a crescente violência urbana e a grande
concorrência dentro de sua própria classe. Paradoxalmente,
o ponto de táxi também acaba por restringir a atuação
dos taxistas a uma área específica. Nas palavras de Eduardo
Rocha, evita-se o encontro com estranhos, sejam eles passageiros ou motoristas
de táxi desconhecidos, pois nas ruas “o outro representa o estranho,
o perigo” (2004, p.65).
Narrativas sobre causos e visagens
Em tempos passados o encontro com
o “estranho” poderia ocorrer de outras formas. Nas noites, por entre as
ruas esvaziadas e mal iluminadas de uma Belém de urbanização
incipiente havia, para alguns antigos taxistas, a possibilidade de encontros
sobrenaturais com as visagens, isto é, assombros ou fantasmas. Histórias
como a que seu Ceará, taxista já falecido, contou a
Otávio também ajudam a compreender as mudanças e a
dinâmica do espaço urbano através do olhar dos taxistas.
Ele tava caminhando pela,
pela, naquela época a antiga Independência,
que é Nazaré hoje em dia... a Magalhães
Barata, que da 14 pra lá é a Magalhães
Barata. Então ele tava andando, caminhando, isso aí em
1940, 1945 mais ou menos. Naquela época, 10 horas da noite não
tinha mais viva alma na rua. Então ele tava caminhando pra chegar
ao mercado de São Brás, que era o único movimento
que tinha lá era o mercado de São Brás, que
tinha o curvão de São Brás. O curvão
era onde o trem fazia a curva, por isso que era o curvão.
Então lá nesse curvão existia movimento à noite.
Aí ele foi pra lá conhecer alguma, nem sei, beber, tomar
cerveja... E ele vê uma mulher bonita naquela casa que é de
esquina da Magalhães Barata com a José Bonifácio.
Era uma padaria, hoje eu não sei o que é agora...
mas ela é bem de esquina. Essa casa tinha umas quatro portas e a
casa é antiga, a parede é grossa. Então, ela tava
encostada na porta, né. E a parede por ser grossa batia aqui. Ela
tava escondida na porta naquela época. [...] Então ela tava
lá: branca, bonita... E o Ceará até morreu, finado
Ceará, que Deus tenha a alma dele em bom lugar. Então ele
(Ceará) dizia:
“Sabe, eu ia passeando,
tava afim duma menina. Ia lá pro mercado de São Brás
pra ver se eu conseguia uma menina, tomava uma cerveja com ela... Quando
eu vi, aquela moça bonita, pai! Cabelos longos, de branco, toda
branca. Aí eu olhei e mexi com ela:
'- Oi meu amor, como é que
você tá, tudo bem?’
Ela sorriu pra mim e disse ‘Tudo
bem.’
Começamos a conversar, isso
e aquilo outro, aí ela disse:
‘- Eu tenho que ir me embora...’
Aí eu querendo, louco, mulher
bonita, eu querendo fazer companhia pra ela, namorar com ela, eu disse:
‘- Poxa, você se importa de
eu ir deixar você na sua casa? Tá escuro”...’”
Naquela época a José
Bonifácio não era muito clara, não ela iluminada...
“Aí, Otávio, eu fui
andando com ela. Da Independência fui caminhando direto...
‘- Onde você mora?’
‘- Mais adiante.’
Aí fui andando, Otávio,
passei a Gentil, passei a Conselheiro, passei a Mundurucus
e perguntei:
‘- Onde é que você
mora? Que tá se aproximando o cemitério...’
E ela disse: ‘Olha, passando...
mais adiante.’
Eu não querendo... ma, me...
me amedrontar com ela, mostrar que eu tava com medo. Tá, eu passei
pela frente do cemitério. Com ela, conversando, mas eu nunca chegava
muito próximo, que ela não deixava. E por ser escuro eu não
via o rosto total, via parcial... mulher bonita! Mas eu ficava assim de
lado, que naquela época não podia encostar. Ficava andando,
como duas pessoas. Aí, quando ela chegou no final do cemitério,
ela disse assim mermo:
‘- Puxa, você me espere aqui,
que eu vou aqui só no mato...’ – Ou não:
‘- Não, vou aqui, vou entrar
aqui só um instantinho...’
Aí, Otávio, eu pensei
que ela fosse urinar, que eu só via mata, não tinha mais
nada! Eu disse: ‘Com certeza ela vai urinar ou alguma coisa’ e eu fiquei
esperando na frente ela entrar no mato pra urinar. E haja eu esperar e
o cemitério bem do lado e eu com medo e esperando ela, pensando
que ela vinha, tá entendendo? Aí ela demorou, demorou, demorou
e eu digo: ‘Não; aconteceu alguma coisa’. Eu fui ver lá.”
Aí diz que quando ele chegou
lá, que ele viu num espaço ermo um fedor horrível!
Um fedor horrível. Aí ele, pô, tampou e aquele fedor
entranhou. Na mesma hora começou a dar febre nele. E ele veio pra
casa e viu que, viu que a menina não vinha, né, aí
ele foi embora, começou a dar febre, frio. Ele com medo, calafrio,
febre... tá entendendo? Aí ele foi embora. Aí quando
ele começou a falar o relato, aí falaram pra ele que uma
menina que tinha morrido lá que tava fazendo visagem. E a febre
dele caracterizava que ele tinha visto uma visagem. E isso era o relato
que ele me disse, uma das histórias que ele me disse. Tem muito
taxista velha-guarda
que conta essas histórias, muitas eu me esqueci...
Na maioria das histórias e
causos sobre visagens que ouvimos, nos deparamos com a questão
do homem diante de uma situação de fronteira. Nos relatos
sobre aparições de visagens nas autoestradas – que não
figuram neste texto cujo recorte é apenas a cidade de Belém
– a questão da fronteira aparece com bastante nitidez, haja vista
que na perspectiva do viajante a estrada é um “não-lugar”
(Augé, 1994), isto é, local de anonimato e solidão
no qual o motorista se encontra enquanto não alcança seu
destino. Assim, a estrada aparece como espaço de fronteira
entre o mundo conhecido e o desconhecido.
No caso da narrativa de Ceará,
que se passa no mundo urbano de Belém, a fronteira é simbolizada,
primeiramente, pelo “curvão de São Brás”, lugar descrito
por autores da literatura regional como Dalcídio
Jurandir da seguinte forma: “Ficava atrás do Mercado de São
Brás. Baixa onde havia casas muito pobres” (2004, p.540). Em segundo
lugar, a fronteira é simbolizada pela presença do “curvão”
junto ao antigo terminal de trem – hoje rodoviária –, local de grande
fluxo de pessoas para onde Ceará havia se dirigido a fim de se divertir.
Por último, a fronteira se configura pela proximidade ao Cemitério
da Soledade localizado no Bairro do Guamá, parte da periferia de
Belém.
Autores como Alain
Corbin (1989) e Mircea Eliade (2000) trataram
o tema das fronteiras; o primeiro em análise de representações
sobre o mar e a praia no ocidente e o segundo ao escrever sobre cidades
construídas com base em arquétipos celestiais. Nos dois casos,
os lugares-limite representados pela costa marítima e pelo que está
além dos domínios da cidade – isto é, do espaço
domesticado pelo homem – remetem à perplexidade do homem frente
a territórios não desbravados. O mundo conhecido pelo homem
é resultado da criação divina e, mesmo, reflexo de
um mundo celestial imaginado. Além da fronteira encontram-se as
ruínas, os seres grotescos, a monstruosidade e, por fim, os mortos.
Da mesma forma, à medida que Ceará se afastava da “civilização”,
mais adentrava um mundo fantástico onde o encontro entre vivos e
mortos era então possível.
Grande parte das narrativas sobre
visagens e assombrações situa o aparecimento das mesmas em
áreas periféricas, pois segundo Otávio e outros taxistas
entrevistados, a existência de visagens pertence a uma lógica
“de interior”, isto é, ao modo de vida rural. Por essa razão,
tais histórias insólitas são sempre situadas em tempos
passados e em áreas menos urbanizadas, ou seja, são associadas
a um passado bucólico idealizado que contrasta firmemente com o
presente. Por fim, as narrativas sobre assombros também evocam a
questão dos “mapas mentais” (Gell, 1985), na
medida em que os fantasmas e locais assombrados constituem marcos ou referências
que auxiliam na orientação espacial pela cidade. Da mesma
maneira, a partir da fala destes senhores emergem representações
dos taxistas a respeito do “perto” e do “longe” em diferentes contextos
temporais de Belém, o que denota diferentes modos de vida e perspectivas
distintas de deslocamento pelo espaço citadino.
Considerações Finais
Ao serem instigados sobre os assuntos
das narrativas dispostas neste texto, os taxistas entrevistados demonstraram
uma grande variedade de reações às quais vão
desde o fascínio, curiosidade e naturalidade, até o total
desinteresse. Em várias ocasiões, assuntos como o das “visagens”
suscitou outras narrativas, as quais possuem relação mais
estreita com o cotidiano vivenciado atualmente pelos taxistas. No caso,
foram registradas narrativas sobre episódios de violência
contra o profissional e sobre estratégias utilizadas para movimentar-se
pelo espaço urbano de forma mais segura.
Isso nos permitiu intuir que o olhar
sobre um segmento social, como o dos taxistas, possibilita enxergar certos
reflexos relativos às formas sociais presentes nas sociedades urbano-contemporâneas,
onde a mobilidade, a descontinuidade e o caráter tênue e flexível
das fronteiras culturais (Velho, 2003), tornam os
sujeitos capazes do exercício de uma miríade de papéis
sociais veiculando visões de mundo bastante diversas, por vezes,
aparentemente contraditórios, ou complementares.
De todo modo, as narrativas apontam
para um modo de se deslocar na cidade, quando distâncias são
percorridas, seja a pé (seu Ceará/Otávio), seja de
automóvel (seu Laranjeiras). Junto à memória, que
transita entre o passado e o presente à procura de referências,
lugares e pessoas, a cidade dos taxistas encontra-se em constante movimento
e devir no espaço-tempo belenense, pois ela gira em torno da cabine
do carro, percorre meandros do tempo e encontra ressonâncias no ofício
do etnógrafo que (re)vive a cidade no diálogo com os narradores.
Notas
Unidade
usual de transporte no táxi.
Termo
utilizado pelos taxistas para designar o passageiro desconhecido encontrado
ao acaso, cuja corrida não é solicitada através do
telefone do Ponto.
Dados
encontrados no site do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE
Em
negrito encontram-se os nomes de bairros de Belém. Em itálico,
os nomes das ruas e locais mencionados na narrativa.
Espécie
de terreno alagadiço.
“Velha-guarda”:
termo utilizado para fazer referência a taxistas bastante experientes
que já têm certa idade.
Bibliografia
AUGÉ, Marc,
Não-Lugares – Introdução a uma Antropologia
da Supermodernidade. Tradução de Maria Lúcia
Pereira. Papirus. Campinas, SP. 1994.
BENJAMIN,
Walter. “O Narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai
Leskov”. In: BENJAMIN, W. Magia e Técnica, Arte e Política.
Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. São
Paulo: Brasiliense, 1980.
CLIFFORD,
James. “Culturas Viajantes”. In: O Espaço da Diferença.
Antonio A. Arantes (org). Campinas, SP: Papirus, 2000.
CORBIN, Alain.
O Território do Vazio: a praia e o imaginário ocidental.
São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
ECKERT, Cornélia;
A cultura do medo e as tensões do viver a cidade: narrativa
e trajetória de velhos moradores de Porto Alegre. Porto
Alegre: Banco de Imagens e Efeitos Visuais, PPGAS/UFRGS, 2000. 36 f. –
(Iluminuras; n. 18)
ELIADE, Mircea.
O mito do eterno retorno. Lisboa: Edições 70,
2000.
GELL, Alfred.
“How to read a map: remarks on the practical logic of navigation”. Man,
New Series, Vol. 20, No. 2. (Jun., 1985), pp. 271-286.
HALBWACHS,
Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro,
2006.
JURANDIR,
Dalcídio. Belém do Grão-Pará.
Belém: Edufpa; Rio de Janeiro: Casa Rui Barbosa, 2004.
NORA, Pierre.
Between Memory and History: les lieux de mémoire. Representations,
No. 26, Special Issue: Memory and Counter-Memory. (Spring, 1989), pp. 7-24.
PEIRANO, Mariza.
“Etnocentrismo às Avessas: O Conceito de ‘Sociedade Complexa’”.
In: Revista de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, 1983.
ROCHA, Eduardo
C. Estranhos Encontros: aproximação etnográfica
do táxi, sistema de transporte individual de passageiros.
2004. 80 F. Monografia (Bacharelado em Antropologia). Brasília:
Universidade Nacional de Brasília – Departamento de Antropologia.
SIMMEL, Georg.
Questões Fundamentais da Sociologia: indivíduo e sociedade.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
VELHO, G. Projeto
e Metamorfose: antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 2003.
VICENTINI,
Yara. Cidade e História na Amazônia. Curitiba:
Editora UFPR, 2004.

|
|