A Igreja Universal e seus demônios:
um estudo etnográfico
Ronaldo de Almeida
Editora Terceiro
Nome
São Paulo, 2009
O livro A Igreja Universal
e seus demônios une a profundidade do olhar etnográfico
ao rigor histórico e à análise sistemática
de dados estatísticos, configurando um quadro contextual da expansão
das igrejas pentecostais brasileiras, tendo como centro as práticas
rituais da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). O texto do antropólogo
Ronaldo de Almeida, é um desdobramento de sua dissertação
de M estrado defendida na Unicamp em 1996, bem como o resultado de pesquisas
que realizou junto ao Centro de Estudos da Metrópole (CEM).
A expansão acirrada das igrejas
pentecostais reposicionou o protestantismo nos estudos de religião,
suscitando uma série de pesquisas que tentaram compreender o fenômeno.
O texto em questão não apenas compõe esse debate,
como também expõe outras possibilidades de análise
ao situar a Igreja Universal e seus ritos como agentes privilegiados para
se pensar esse processo. A hipótese inicial do autor ao eleger a
Universal como objeto principal de sua investigação empírica
diz respeito ao potencial dessa agência religiosa para tornar público
o crescimento da mensagem pentecostal.
O título pode dar a impressão
de que o texto apresenta, tão-somente, uma análise dos conhecidos
rituais de possessão. Contudo, mais do que isso, vemos um estudo
etnográfico que expressa vários níveis comparativos.
Primeiro, refere-se à diversidade religiosa existente em São
Paulo e no Rio de Janeiro, ao lado de uma caracterização
não somente da Igreja Universal, mas, também, de outras denominações
religiosas importantes, como a Assembléia de Deus e catolicismo.
Neste sentido, o livro é relevante para a compreensão da
IURD e sua dinâmica ritual e de poder, e também permite esclarecimentos
sobre o campo religioso brasileiro em aspectos mais gerais, dentre os quais
se destacam o conflito e o relacionamento entre religiões cristãs
e religiões afrobrasileiras, bem como o diálogo com outros
segmentos da sociedade brasileira (mídia, economia, política
etc.).
Os capítulos que compõem
a obra estruturam-se de modo a permitir que o leitor tenha, primeiramente,
uma visão geral da constituição do pentecostalismo,
seja no âmbito da prática religiosa, seja no âmbito
dos modelos teóricos. Somente depois de estruturada essa parte é
que podemos mergulhar na prática ritual da Igreja Universal para,
em seguida, compreendermos a relação estrutural estabelecida
entre a doutrina praticada na Igreja Universal e as práticas das
religiões afrobrasileiras. Por fim, o texto apresenta um panorama
de acontecimentos controversos protagonizados pela Igreja Universal que
fortalece ainda mais a hipótese inicial do livro acerca da centralidade
desta instituição no processo de expansão das igrejas
pentecostais.
No primeiro capítulo encontramos
uma sinopse da constituição das primeiras agências
pentecostais. Para Almeida, a mensagem pentecostal desenvolveu-se no Brasil
por meio da Congregação Cristã e da Assembléia
de Deus, no início da segunda década do século XX.
Foi nesses primórdios, através dessas denominações
religiosas, que o pentecostalismo adquiriu uma ênfase espiritualista
e emotiva, sem se preocupar em responder às questões
sociais e políticas então vigentes, pregando, ao contrário,
a necessidade de “afastamento do mundo”. Essa neutralidade com relação
aos assuntos políticos garantiu o apoio explícito que os
pentecostais, e também os protestantes históricos, receberam,
então, do regime militar.
A partir de 1950, o pentecostalismo
entrou em uma fase de expansão e diversificação. A
principal característica desse processo seria a dissidência
causada por conflitos internos ao próprio movimento. Outras características
da prática pentecostal apresentadas no texto dizem respeito ao não-envolvimento
em certos níveis associativos – como partidos, sindicatos, união
de moradores e lazer –, e à existência de uma rede de solidariedade
e reciprocidade entre participantes de um mesmo templo, principalmente
em áreas de grande vulnerabilidade social e migração,
como é o caso da favela de Paraisópolis, na cidade de São
Paulo.
Por considerar a Igreja Universal
um exemplo bem ilustrativo do processo pentecostal de expansão e
diversificação, Almeida passa a analisá-la minuciosamente,
concluindo que essa denominação elabora um discurso altamente
combativo e beligerante, voltado, principalmente, contra as religiões
afrobrasileiras. Contudo, no confronto, a Igreja Universal acaba por tornar-se
parecida com as religiões combatidas, adotando inclusive, seu vocabulário
e algumas práticas que, apesar de adquirirem significados diferentes,
não deixam de se assemelhar ao universo simbólico combatido.
No capítulo dois, encontramos
uma reconstituição das principais práticas rituais
da Igreja Universal, visando explicar seu modus operandi.
O conflito inter-religioso torna-se mais explícito durante determinados
cultos da Igreja Universal, nos quais há exorcismos de demônios
associados às entidades da Umbanda e do Candomblé. Uma vez
que os infortúnios são interpretados como possessão
demoníaca, o momento da expulsão dos demônios torna-se
o ápice desses rituais.
As estratégias proselitistas
e de marketing adotadas pela Igreja Universal não incluem
apenas o exorcismo e a crítica às religiões afrobrasileiras;
também abarcam aspectos como a construção de templos
imensos em lugares de fácil acesso, próximos a serviços
urbanos importantes, além da exibição dos cultos em
programas televisivos, uso de diversos meios de comunicação
audiovisual e, ainda, a participação política com
apoio a candidatos pentecostais ou ligados à Igreja.
Os dois últimos capítulos
lançam mão da comparação da Igreja Universal
com outras agências religiosas por meio de dois eixos. O primeiro
deles continua apresentando um paralelo entre a doutrina teológica
acerca da possessão demoníaca e a prática nas religiões
afrobrasileiras. Porém, destaca-se não apenas o trânsito
religioso de frequentadores da Igreja Universal e dos terreiros, mas, também,
o modo como determinados elementos mágicos são incorporados
nas práticas rituais da Igreja. O texto ressalta inúmeras
semelhanças e dissonâncias entre a “incorporação”
(praticada nos terreiros) e a “manifestação” (praticada na
Universal). Toda essa configuração do trânsito de elementos
e de pessoas pode ser mais claramente observada na descrição
dos cultos de libertação, nos quais os ex-frequentadores
de terreiros ocupam uma posição de destaque, posição
esta que será constantemente legitimada por falas testemunhais que
comprovem um novo estado de vida. O texto nos mostra que a Igreja Universal
– diferentemente das demais igrejas do segmento protestante que enfatizam
a conversão – afasta-se dessa ideia e enfatiza a de libertação,
associada a um novo modo de vida.
Outro eixo, descrito no último
capítulo do livro, apresenta alguns acontecimentos que suscitaram
inúmeras controvérsias acerca da Igreja Universal, sua formação,
sua liderança e, até mesmo, sua legitimidade enquanto igreja
cristã. O mais famoso deles ocorreu em 1995 e ficou conhecido como
“O chute na Santa”, originando uma guerra polarizada pela Igreja Católica
e a IURD. Esses acontecimentos, mais que a divisão dos agentes religiosos
envolvidos, revelaram a relação direta entre agências
religiosas e outras agências sociais representadas por grandes emissoras
televisivas, evidenciando a constante conexão entre interesses econômicos
e religiosos.
Em suma, o autor afirma que a demarcação
singular do espaço assumido pela Igreja Universal no cenário
religioso brasileiro foi fundamentada pela tríade cura, exorcismo
e prosperidade financeira. Nessa tríade, o diabo é
associado a todos os infortúnios da vida, assumindo, nos rituais
de libertação, uma posição que chega a superar
a importância da figura divina.
Acreditamos que este livro é
um importante instrumento de análise para os estudos de religião
pelo fato de explicitar o modo como o cenário religioso brasileiro
é composto por relações conflituosas, circulação
de práticas e representações do sagrado. Mostra, por
meio do estudo específico das práticas da Igreja Universal,
que a expansão pentecostal se constitui como um fenômeno que
atinge inúmeras esferas sociais, modificando seus limites doutrinários
e universalizando sua prática.
Mestranda
em Antropologia Social no PPGAS-USP e pesquisadora do NAU.
Bacharel
em Ciências Sociais pela USP e pesquisadora do NAU.