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Natureza & Cultura, versão americanista
– Um sobrevoo
Renato Sztutman
Professor do Departamento de Antropologia
da USP
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O problema
A pergunta que orienta esta apresentação
– e que pode soar ingênua – é a seguinte: o dualismo que se
estabeleceu entre a natureza e a cultura – algo que, no mínimo,
diz muito sobre nós mesmos, ocidentais, modernos, euroamericanos
etc. – é bom para pensar as sociocosmologias ameríndias?
Tendo em vista a produção americanista das últimas
décadas podemos nos antecipar e afirmar que a resposta é,
claramente, NÃO. O que interessa aqui passa a ser, justamente, como
chegamos a esta resposta que, por seu turno, tampouco é unívoca.
Estabeleçamos que estas sociocosmologias
– que não devem jamais ser concebidas como desvinculadas da prática,
ou seja, que devem ser antes concebidas como cosmopráxis – apresentam
alguns pontos em comum. Vejamos:
1) No tempo do mito,
diz-se, animais, plantas e outros seres que tendemos a denominar não-humanos
eram humanos, pois se comunicavam plenamente com os humanos, partilhando
com eles tudo o que havia no mundo. Este ponto foi discutido por Lévi-Strauss
em vários momentos de sua obra sobre a mitologia ameríndia,
em especial na tetralogia Mitológicas, sobre a qual ele medita,
de maneira bastante esclarecedora, na entrevista que concedeu a Didier
Éribon (Lévi-Strauss & Éribon, 2005).
2) No tempo atual, embora
diferenciados – sobretudo por suas formas corporais – estes animais, plantas
e outros seres que tendemos a denominar não-humanos ainda se pensam
como humanos – ainda portam algo como uma alma humana – e muitas vezes
podem se revelar como tais. Isto consiste, por exemplo, na ideia de “animismo”,
tal como apresentada por Philippe Descola, tanto em seu trabalho etnográfico
sobre os Achuar (Jivaro) como em sua obra comparativa (Descola, 1986; 2005).
3) Ora, se esses “outros seres”
podem se revelar aos humanos como humanos, isso se dá, muitas vezes,
porque eles tendem a ver os humanos como não-humanos. Ou ainda,
isso se dá devido à ideia de que a humanidade é uma
questão de perspectiva; perspectiva que pode ser roubada, perdida.
Eis o argumento central da reflexão desenvolvida por Eduardo Viveiros
de Castro e Tânia Stolze Lima sobre uma forma de pensamento por eles
designada de “perspectivismo ameríndio”. Se esta reflexão
teve sua origem na etnografia tupi, ela pôde ser vislumbrada nas
terras baixas da América do Sul como um todo (Viveiros de Castro,
1986; 1998; 2002 e Lima, 2002; 2005).
4) Nessas paisagens ameríndias,
pessoas como os xamãs – ou pajés, se quisermos manter a palavra
de origem tupi – podem ter acesso a essa humanidade dos tais não-humanos,
que se apresentam de variadas maneiras; por exemplo, como “donos das espécies
naturais”, “donos da caça”, espíritos auxiliares ou patogênicos
e daí em diante. Ora, esses xamãs – que não consistem
exatamente em especialistas rituais, já que o xamanismo parece ser
ali menos uma posição a ser ocupada do que uma qualidade
(ou agência) a ser apropriada – definem-se, frequentemente, pelo
fato de se submeterem a processos de metamorfose propiciados, por vezes,
pelo uso de substâncias psicoativas como o tabaco e os alucinógenos.
5) Certos estados, como o
sonho e o adoecimento, passíveis de serem experimentados por todos,
constituem poderosos canais de comunicação com esses outros
seres. Como a alucinação e a embriaguez, estes estados são
sempre perigosos, pois implicam o risco de não retorno, de uma transformação
mais radical. Se xamãs são aqueles que podem, com mais facilidade,
gerenciar seu próprio trânsito, eles são necessários,
muitas vezes, para intervir nos trânsitos malsucedidos de seus congêneres.
Não por acaso, muitas vezes foram referidos na literatura etnológica
como mediadores, diplomatas, curadores ou mesmo médicos.
Tendo em vista todas essas recorrências
(aqui perpassadas por certa simplificação), é
preciso tecer algumas ressalvas:
1) Estamos, aqui, diante
de povos que praticam a caça como modo fundamental de “subsistência”,
para não dizer de existência. Nesse sentido, a relação
entre caçador e caça – relação de predação
que compreende sempre dois termos, predador e presa – revela-se como a
base para a concepção de outras modalidades de relação.
2) A relação descrita
acima implica a necessidade de o caçador conhecer o animal a tal
ponto que ele o conceba como sujeito pleno; que ele se imagine tomando
a posição do animal.
3) A atribuição de
humanidade, de subjetividade (alma? consciência?) a esses outros
seres é, em larga medida, resultado de um processo de interação
intensiva.
4) Não se trata, portanto,
de uma simples projeção de ideias, mas de ideias que nascem
na interação, na relação real (ou social) entre
humanos e não-humanos.
5) O foco não recai apenas
nos animais de caça. Há outros tipos de interação;
por exemplo, com peixes, com plantas cultivadas, com plantas alucinógenas,
com espíritos – muitas vezes “imagens”, “espectros”, “duplos” de
espécies naturais ou mesmo de humanos, mortos, parentes ou inimigos
–, ou até com artefatos.
6) Estas interações
não envolvem, porém, todas as espécies, mas sobretudo
as mais significativas na experiência. Por exemplo, os protótipos
da predação – jaguares, sucuris e harpias – que fazem com
que o homem ocupe o lugar de presa. E também os porcos-do-mato,
especialmente as queixadas, que se emprestam para pensar a “condição
humana”, uma vez que vivem de modo gregário e encontram-se, na floresta,
em forte estado de vulnerabilidade .
Diante deste panorama, a resposta
para a pergunta colocada (se o dualismo natureza e cultura é bom
para pensar as sociocosmologias ameríndias) é, provavelmente,
NÃO. Ou, melhor: não é boa para pensar, ao menos,
do modo pelo qual tendemos, os modernos, a conceitualizar esse dualismo.
Isso pressupõe muitos níveis analíticos, e o problema
se mostra mais complexo do que podemos imaginar. Se o dualismo natureza
e cultura não é bom para pensar as sociocosmologias ameríndias,
significa que eles se
furtam a fazer qualquer distinção deste tipo? Significa
que eles não estabelecem distância alguma entre o que tomamos
por natureza e por cultura, por humano e não-humano?
O dualismo natureza e cultura é
algo bastante enfatizado pelos modernos no sentido de algo que organiza
seu pensamento. Bruno Latour alega que a separação entre
natureza e cultura (pensada por ele como “purificação” ou
mesmo como “repartição ontológica”) está na
base da constituição da ciência moderna e mesmo da
modernidade como um todo, já que o “acordo constitucional” referido
pelo autor diz respeito à separação decisiva, no século
XVII, entre ciência e política; a primeira, engajada em revelar
a natureza (alheia à ação humana) e a segunda em construir
os coletivos humanos (para além das paixões humanas). Latour
insiste em que “jamais fomos modernos”: jamais conseguimos separar natureza
e sociedade. Fizemos, sim, proliferar os híbridos, ainda que
tenhamos decidido mantê-los escondidos. O fato é que continuamos
articulando em rede elementos heterogêneos. Latour alega que estamos
caminhando para um mundo não-moderno – seja lá o que isso
possa significar! E isso significa que o tal “acordo constitucional” passa
por uma crise considerável, uma vez que deixamos de nos representar
de modo adequado a partir dele (Latour, 1994). Tudo se passa como se o
problema da insuficiência do dualismo natureza e cultura para pensar
outros povos, entre eles os ameríndios, sinalizasse, também,
a insuficiência de nossos modos de representação e,
sobretudo, de nossos aparatos conceituais. Estes deveriam ser submetidos
a uma espécie de “terapia”, de modo a se libertarem de projeções
usuais.
Philippe Descola corrobora a ideia
de uma crise da noção corrente de natureza, neste início
do século XXI, e, por conseguinte, do naturalismo como ontologia
que sustenta a existência de uma esfera capaz de transcender a ação
humana (Latour, 2001). Essa crise (menos oficial do que oficiosa, para
voltar aos termos de Latour) poderia ser deduzida a partir de diversos
sintomas. Passemos por alguns, ainda que de modo superficial. Um deles,
comenta Descola, pode se atestado nos estudos de etnoecologia que atentam
para a inoperância da noção de “natureza virgem” ou
“intocada”, uma vez que a ação humana interfere tanto na
conformação dos ambientes como na produção
contínua da biodiversidade. A floresta (muito se discutiu sobre
este tema) submete-se a um processo constante de “antropização”.
Em suma, populações como as ameríndias transformam,
ativamente, o ambiente em que vivem e não podem ser reduzidas a
sujeitos passivos diante de uma natureza intocável. Descola lança
foco, também, sobre o desenvolvimento da psicologia experimental,
que passa a verificar estados mentais tidos como propriamente humanos em
populações tidas como não-humanas. Tais pesquisas
autorizariam ideias como as de que podemos encontrar cultura e tecnologia
entre os chipanzés, assim como linguagem entre baleias e golfinhos .
Outro sintoma importante, agora em outro domínio, seria o avanço
da biotecnologia no mundo moderno e, por conseguinte, a possibilidade de
transformar o substrato biológico do homem; por exemplo, por
meio de técnicas como a reprodução in vitro, a clonagem,
a intervenção no genoma humano, o advento de homens-máquina
ou ciborgues etc. Tal assunto tem sido bastante discutido na antropologia
contemporânea, cada vez mais sensível ao problema da constituição
das ciências modernas, bem como a questões de gênero
e sexualidade, regiões em que o dualismo natureza e cultura parece
vacilar. Toda essa discussão tem ganhado espaço especialmente
nos trabalhos mais recentes de Marilyn Strathern, que se debruça
sobre temas como parentesco euroamericano e sistemas de propriedade intelectual .Tudo
se passa como se fatos internos à própria ciência e
ao mundo moderno contribuissem para a crítica da separação
moderna entre natureza e cultura e, nesse sentido, para a maior sensibilidade
ou abertura aos ensinamentos, às lições das sociocosmologias
ameríndias. Mas a maior sensibilidade ou abertura a esses ensinamentos
não significa isenção de malentendidos. Afirmar que
o mundo moderno vê-se invadido por todos esses sintomas e alegar
a crise de sua ontologia naturalista (ou mononaturalista, como prefere
Latour, seguindo Viveiros de Castro) não significa atestar a morte
desta ontologia, que continua a operar em muitos domínios. Há
imensa dificuldade de nos livrarmos da ideia de natureza como algo inato
e, portanto, como algo exterior à ação humana. Essa
é uma das constatações de Roy Wagner em sua comparação
dos ideais da ciência com o pensamento dos povos da Nova Guiné
(Wagner, 1977). Mesmo quando sustentamos a importância de pensar
a responsabilidade do homem perante o mundo natural, como no caso dos movimentos
ecologistas e ambientalistas – bastante variáveis entre si –, não
conseguimos abrir mão deste princípio estruturador. Ora,
nem todos os povos vêem-se atados a uma ontologia como a dos modernos.
Outros povos, como os ameríndios, estariam acostumados a conceber
o que chamamos de natureza como um domínio fortemente dependente
da ação humana, em interação constante com
o domínio humano. Desse modo, se quisermos manter o termo ocidental
“natureza”, que nem sempre encontra tradução nas línguas
indígenas, devemos lembrar que a “natureza” de uns não é
a mesma que a “natureza” de outros e isso conduz a uma série de
malentendidos. Um deles é, por exemplo, imputar aos povos ameríndios
uma vocação ecológica, de inclinação
conservacionista. Não há como negar que estes povos tenham
desenvolvido uma relação menos destruidora com o “mundo natural”,
bem como uma prática de conhecimento com relação a
este mundo que tem muito a nos ensinar. O ponto é que o modo pelo
qual eles conceitualizam suas relações com o, assim chamado,
“mundo natural” é bem diferente da maneira pela qual nós,
os modernos, tendemos a conceitualizar nossas relações. Note-se
que Philippe Descola tornou-se responsável pela cadeira intitulada
“Antropologia da Natureza”, no Collège de France. Com isso, ele
pretende mostrar justamente que a natureza (o “mundo natural”) é
definida de modo diverso conforme transitemos por diferentes ontologias,
sendo o nosso naturalismo – convicto ou em crise – apenas uma delas.
Fugindo de dualismos, Descola percebe
quatro modos de identificação entre o homem e o “mundo natural”,
aos quais ele denomina ontologias. O naturalismo seria uma dessas ontologias,
ao lado do animismo, do totemismo e do analogismo. O ponto é que
todas elas coexistem, apesar das diferentes ênfases. Não seria
errôneo afirmar que se entre os modernos predomina o naturalismo,
entre os povos amazônicos predomina o animismo (Descola, 2005). O
argumento de Descola é, grosso modo, o de que o dualismo natureza
e cultura, tal como o concebemos, não pode se verificar nas sociocosmologias
de boa parte das populações humanas, dentre elas, as ameríndias.
Os modernos não fariam mais do que projetar sobre estas populações
este dualismo que não lhes diz respeito. O argumento de Descola
é debatido por autores como Eduardo Viveiros de Castro e Tânia
Stolze Lima, que geraram concomitantemente o conceito de perspectivismo.
(Como veremos, estamos com Viveiros de Castro e Lima diante de uma teoria
etnográfica, diante da construção de um conceito antropológico
a partir do conceitual nativo ).
Entendo, por meio da leitura que venho realizando da obra destes dois autores,
que o perspectivismo não é um monismo e, sim, a reconceitualização
de um dualismo. Porém, um “dualismo em perpétuo desequilíbrio”
– este seria, aliás, um princípio que subjaz ao pensamento
ameríndio, como propõe Lévi-Strauss (1993) .
Em outras palavras, trata-se de um dualismo provisório, em que os
pólos não são jamais fixos, devendo ser refeitos a
cada novo momento.
Para Viveiros de Castro e Lima, antes
de postular uma identificação entre humanos e o “mundo natural”,
é preciso pensar nos modos pelos quais os ameríndios produzem
afastamentos diferenciais, distanciamentos entre mundos. Como propõe
Marilyn Strathern tendo em vista o caso de Mount Hagen (Terras Altas da
Nova Guiné), separar esferas como o “doméstico” e o “selvagem”
(tradução provisória que ela encontra para a oposição
entre mbo e romi) como figura na língua destes povos
– não significa atribuir ao pólo selvagem um caráter
inerte, portanto passível de ser controlado pelos homens. O problema
do dualismo natureza e cultura, para os modernos, seria, segundo Strathern,
o esvaziamento de agência, de intencionalidade da “natureza”, que
poderia, assim, ser controlada, manipulada pela “cultura”. Segundo Strathern,
em vista de Hagen, teríamos de pensar, na contracorrente das noções
que nos são caras, uma relação não-hierárquica
– avessa, portanto, à gramática do controle – entre natureza
e cultura. Os melanésios não estariam preocupados em postular
a existência de um domínio inerte, alheio à ação
e à intenção humanas. Eles não tornariam equivalentes
selvagem e “natural”, doméstico e “cultural” .
Que fazer, então, com a ideia de que isso que denominamos “mundo
natural” possa ser pleno de intenção, consciência e
agência? Eis o problema mais interessante.
Esquemas de identificação:
animismo e totemismo
Sigamos as trilhas do conceito de
animismo de Philippe Descola para, então, voltarmos ao conceito
de perspectivismo, proposto por Eduardo Viveiros de Castro e Tânia
Stolze Lima. E passemos, apenas tangencialmente, pela controvérsia
produzida entre eles .
A gênese do problema, em Descola,
reside em sua monografia sobre os Achuar, povo jivaro da Amazônia
equatoriana. Monografia esta voltada para o estudo da relação
entre simbolismo e práxis entre formas de conceber (classificar,
por exemplo) e de experimentar (viver) o “mundo natural”. Não se
trata, para Descola, de se ater exclusivamente à dimensão
do simbolismo, isto é, do “mundo natural” como fonte inesgotável
de símbolos “bons para pensar” as relações sociais,
mas, antes, de pensar a relação entre os homens e o “mundo
natural” como uma relação social plena, real. Os Achuar dizem
que as mulheres são mães das plantas que cultivam em suas
roças; identificam-se, assim, com Nankui, criadora e “dona” destas
plantas. Em suma, conceitualizam suas relações com estes
seres em termos de consanguinidade. Já os homens concebem-se como
cunhados dos animais de caça, traçando com eles relações
de afinidade. Conclui-se, daí, que os seres que habitam o “mundo
natural”, ao interagirem com os humanos, são tidos como parceiros
sociais plenos.
Com efeito, entre os Achuar as relações
de parentesco se estendem para o mundo não-humano, integrando a
vida humana à ecologia. Nisso consiste a ideia de uma “natureza
doméstica” (avessa, aliás, à de “natureza domesticada”):
o prolongamento do mundo familiar ao “mundo natural”. A continuidade postulada
entre humanos e espécies naturais se dá pela noção
achuar de wakan, que Descola traduz, provisoriamente, por “alma”. Todos
os seres do cosmos achuar possuem wakan, o que os faz gente (aents) e oferece
indícios de sua humanidade anterior, atestada no tempo do mito,
tempo que tende a retornar, irromper sobre o tempo atual. Wakan, alma,
significa, antes de tudo, faculdade de entendimento e comunicação
e, também, consciência, intencionalidade e agência.
Se os homens se separaram das outras espécies no tempo do mito,
se foram se diferenciando por meio de suas formas corporais e específicas,
teria restado, ainda, a possibilidade de comunicação propiciada
por uma miríade de encantamentos, designados como anents (Descola,
1986; 1993).
Descola partiu do caso achuar para
pensar o animismo ameríndio de modo geral e, buscando um quadro
comparativo bastante amplo, enfrentou a tarefa de inventariar os diferentes
modos de identificação e relação entre o homem
e o “mundo natural” ou, em outros termos, modos de identificação
e relação entre os existentes. Todo este esforço culminaria
na redação de seu livro Par-delà nature et culture,
de 2005 .
Voltamos, aqui, à questão inicial desta apresentação:
para Descola, o dualismo natureza e cultura que organiza o pensamento dos
modernos não funciona em todo lugar; ou, ao menos, não do
mesmo modo em cada lugar. Este dualismo partiria de exigências propriamente
ocidentais, de uma filosofia moderna da natureza que parte, justamente,
da ideia de uma natureza una e transcendente, capaz de englobar as culturas
devendo, estas, serem tomadas sempre no plural. Descola propõe,
a esse respeito, que pensemos em quatro ontologias diversas para dar conta
desta identificação entre os existentes; entre o homem e
o “mundo natural”. Haveria o naturalismo que predomina entre os modernos.
Haveria o analogismo, que predomina em certas partes da África,
na Mesoamérica, na Índia, na China, entre outros lugares.
Haveria o totemismo, que predomina na Austrália e, finalmente, o
animismo, tão presente na Amazônia, na Sibéria, na
Ásia do Sul, em certas partes da Nova Guiné, alhures. Descola
insiste em atentar para o fato de que tudo são tipos ideais, o mundo
jamais podendo se reduzir a eles, uma vez que as condições
para cada esquema de identificação já estariam todas
dadas em cada caso. A coexistência entre esses esquemas jamais deixaria
de operar sendo possível alegar, inclusive, que uns se mantém
dominantes, ao passo que outros permanecem recessivos. Examinemos o problema
do animismo, que é aquele que se destaca nas paisagens ameríndias.
Em primeiro lugar, Descola distingue
o animismo como ontologia do totemismo como método de pensamento
(como lógica classificatória) , tal como definido por Lévi-Strauss.
Segundo Descola, Lévi-Strauss, em obras programáticas como
O totemismo hoje e O pensamento selvagem, teria menosprezado essas ontologias
e sobretudo esse aspecto da identificação e relação
do homem com o “mundo natural”, em proveito da lógica classificatória,
do dispositivo de estabelecimento de descontinuidades entre séries
humanas e não-humanas. Em outras palavras, ele teria privilegiado
o eixo horizontal da classificação dos existentes (que aposta
nas descontinuidades) em detrimento do eixo vertical da “religião”
(cujo alicerce reside na aposta em refazer o contínuo).
Em Par-delà nature et culture,
Descola volta aos Ojibwa, povo de língua algonguina da América
do Norte, de onde vem o termo ototeman (que significa “aquele de minha
parentela”), do qual derivou a palavra (ou conceito) totem. Lembremos que
a relação dos Ojibwa com o “mundo natural” foi discutida
por Lévi-Strauss no primeiro capítulo de O totemismo hoje,
no qual é apresentado o cruzamento de dois diferentes sistemas:
o sistema totem e o sistema manido, o primeiro prestando-se a designar
clãs patrilineares por meio de nomes de animais, o segundo atribuindo
a cada indivíduo um “espírito guardião”, pautando-se
por uma espécie de panteão sobrenatural algo hierarquizado.
Guiado pela etnografia recente de Howell, Descola alega que para os Ojibwa,
mais importante que o sistema totem é o sistema manido, que nada
mais seria que um modo de identificação de tipo anímico,
pressupondo uma relação de pessoa a pessoa entre um ente
humano e um não-humano (relação efetuada, vale ressaltar,
no plano do sonho). Para os Ojibwa, enfatiza Descola, os animais possuem
alma, são pessoas; no entanto, eles diferem das pessoas humanas
devido à sua forma física; à sua fisicalidade. Enfim,
para Descola, o animismo como ontologia não é um totemismo,
método de pensamento que opera pela lógica classificatória,
pautado no paralelismo das séries humanas e não-humanas,
no estabelecimento de descontinuidades. O totemismo, tal como definido
por Lévi-Strauss é, em suma, um método de pensamento
que opõe série natural e série cultural a partir do
estabelecimento de “semelhanças entre diferenças”. Lembremos
que, neste esquema, a diferença entre um animal X e um animal Y
equivale à diferença entre um clã A e um clã
B, o que não significa, de modo algum, que haja identificação
ou relação real entre animal X e clã A, permanecendo,
esta, na ordem da metáfora (Lévi-Strauss, 1987). Já
o animismo, enfatizado por Descola, é um modo de identificação
entre humanos e não-humanos por meio de uma interioridade compartilhada;
sua alma.
Tudo se passa, para Lévi-Strauss,
como se pensar fosse estabelecer descontinuidades sobre o real, opor séries
naturais a séries culturais, enquanto viver fosse estar imerso no
contínuo. No último capítulo (5) de O totemismo hoje,
“O totemismo de dentro”, Lévi-Strauss retoma uma pergunta lançada
logo no início deste livro: “Por que, afinal, essa predileção
por animais e plantas?”. No capítulo 4, “Rumo ao intelecto”, ele
havia definido o totemismo como método de pensamento que coloca
em homologia uma série natural e outra cultural. Ora, se parássemos
aí perderíamos a dimensão do problema que aparece
com toda força no referido capítulo final, quando o autor
faz menção à identificação entre o homem
e as espécies naturais evocando a noção de piedade
– comiseração –, tal como proposta por Jean-Jacques Rousseau.
E, antes mesmo de evocar Rousseau, já havia atentado para a ressonância
entre o pensamento de um filósofo como Bergson e o pensamento dos
Sioux, outro povo de língua algonquina. Isso porque ambos os pensamentos
tomam as coisas e os seres como formas fixadas numa corrente de energia,
caracterizada como “movente”. Com Bergson, em simbiose com os Sioux, podemos
concluir que o contínuo e o descontínuo são, antes
de tudo, dois aspectos inextrincáveis do real, não havendo
como escolher entre eles, todo o esforço sendo o de torná-los
perspectivas complementares.
<>
<> Com Rousseau, em seguida, Lévi-Strauss
alega que a fonte de todas as operações lógicas –
passagem do animal ao humano, da natureza à cultura, do afetivo
ao intelectual – está nessa identificação com Outrem;
identificação que, talvez surpreendentemente, permita, justamente,
a Distinção. Tudo se passa como no caso dos venenos, tão
evocados nos volumes Mitológicas ;
venenos cujo cromatismo (reino dos pequenos intervalos, como reza a metáfora
musical) produz um efeito diatônico, qual seja: o estabelecimento
de novas distâncias, novas separações.
<>
<>
Essa ideia de identificação
– que não é exatamente a mesma que encontramos em Descola
– reaparece no final de A origem dos modos à mesa, terceiro volume
das Mitológicas ,
no qual Lévi-Strauss tece considerações preciosas
sobre certa filosofia moral que os ameríndios estendem ao “mundo
natural”. Ou, melhor: reconhecem nele. Haveria ali, em outras palavras,
uma moralidade que permearia a relação entre todos os existentes
do cosmos e que decorreria do fato de que as pessoas sabem que animais,
plantas e afins foram gente no tempo do mito e, de certo modo, continuam
a sê-lo. Lévi-Strauss extrai daí um “humanismo bem
ordenado” que não deixa de ser um pós-humanismo, já
que se trata de um humanismo em que o homem – sujeito de todo conhecimento
– dissolveu-se. Permitam-me citar um dos trechos finais da terceira Mitológicas,
em que estas ideias se fazem evidentes:
“Neste século em
que o homem teima em destruir inumeráveis formas de vida, depois
de tantas sociedades cuja riqueza e diversidade constituíam desde
tempos imemoriais seu maior patrimônio, nunca, com certeza, nunca
foi mais necessário dizer, como o fazem os mitos, que um humanismo
mais bem ordenado não começa por si mesmo. Coloca o mundo
antes da vida, a vida antes do homem, o respeito pelos outros seres antes
do amor próprio. E que mesmo uma estada de um ou dois milhões
de anos nesta terra – já que todo modo há um dia de acabar
– não pode servir de desculpa para uma espécie qualquer,
nem a nossa, dela se apropriar como coisa e se comportar sem pudor ou moderação .”
Note-se que ao lado deste pós-humanismo
reside uma espécie de cataclismologia que revela a ressonância
entre o pensamento do autor e dos ameríndios que ele passou anos
a estudar. O mundo há de se acabar e isso deverá ocorrer
no momento em que esta moralidade que une todos os existentes for destituída
de lugar. Como veremos, no final desta apresentação será
impossível não remeter a postura lévi-straussiana
ao discurso engenhoso de um xamã ameríndio, Davi Kopenawa
Yanomami, preocupado com a desumanização da floresta.
Em outro ensaio, Lévi-Strauss
insiste, rebatendo as acusações de idealismo frequentemente
a ele lançadas por seus críticos, que os elementos do ambiente
não são meros signos arbitrários nos mitos. Diferentemente,
o autor reafirma o laço entre o homem e o “mundo natural” ao alegar
que a natureza das coisas é de ordem êmica, sendo o espírito
e o material empírico sobre o qual este trabalha estruturados do
mesmo modo. O que permitiria ao homem pensar o mundo seria, assim, o fato
de o mundo ser estruturado da mesma maneira que o homem. Nas palavras de
Lévi-Strauss “reconhecer que o espírito não pode compreender
o mundo senão porque é um produto e uma parte desse mundo
não é pecar por mentalismo ou idealismo” (Lévi-Strauss,
1986. P.171). Haveria, nesta passagem, a negação da oposição
entre espírito e matéria, bem como a ênfase em uma
homologia entre o cérebro e o mundo. Trata-se, em outras palavras,
da recusa de separar os estados de subjetividade e as propriedades do cosmos.
Nesse sentido, a natureza não seria apenas “boa para pensar” – tal
a vulgata extraída do capítulo 4 de O totemismo hoje –, ela
seria antes a própria condição do pensamento. Como
vemos, Lévi-Strauss se deixa impregnar pela filosofia moral veiculada
nos mitos ameríndios para propor algo como uma nova ontologia em
que espírito e mundo, homem e “mundo natural” não mais se
destacam.
Poderíamos identificar em
Lévi-Strauss uma tensão entre, de um lado, uma continuidade
ontológica e, de outro, uma descontinuidade epistemológica
entre humanos e não-humanos. Haveria, decerto, um duplo movimento
no autor. Se em vários momentos o vemos afirmar a oposição
natureza e cultura como condição de todo pensamento (no caso,
de todo o simbolismo), em outros, o vemos propor justamente o contrário,
ou seja, que só é possível pensar porque há
uma identificação daquele que pensa com o mundo pensado e
esta já seria uma relação social. Alguns autores refletiram
longamente sobre essa tensão. O próprio Descola alega que
haveria, em Lévi-Strauss, “duas naturezas”: aquela que permanece
“boa para pensar” e outra, que se mantém homóloga ao espírito
(Descola, 2004). Patrice Maniglier, por seu turno, vislumbra uma transformação
algo cronológica na obra do autor que parte, em As estruturas elementares
do parentesco, de um humanismo propriamente moderno, fundado na oposição
entre natureza e cultura, para então dissolvê-lo, seja nos
quatro volumes das Mitológicas, seja nos ensaios mais teóricos
de O olhar distanciado (Maniglier, 2008) . Eduardo Viveiros de Castro,
de sua parte, identifica um movimento a um só tempo sincrônico
e diacrônico na obra de Lévi-Strauss, pois se há mesmo
uma passagem das obras “pré-estruturalistas” (As estruturas elementares
do parentesco, por exemplo – para as “pós-estruturalistas” – as
Mitológicas, sobretudo), isso não exclui o fato de esta tensão
ter estado sempre ali contida, mesmo nas primeiras obras .
Tudo isso nos leva à questão, muito bem colocada por Beatriz
Perrone-Moisés, de que não podemos desprezar a retórica
de Lévi-Strauss, uma vez que este confessa, no final de História
de lince, sua simpatia pela máxima montaigniana de que “toda a certeza
tem a forma a priori de um contradição” (Perrone-Moisés,
2008).
Voltemos, pois, aos autores americanistas
recentes, que apostam mais firmemente no pólo da continuidade; na
ideia de que o “mundo natural” não é apenas “bom para pensar”.
E nesse ponto seguem os ensinamentos das cosmopráxis ameríndias.
Pois o importante é refletir não apenas sobre como os ameríndios
concebem a passagem da natureza para a cultura, mas também sobre
como eles a vivem. Ora, essa passagem ocorre todos os dias; se dá
no cotidiano e envolve ações. Como mostra Joanna Overing,
o xamã piaroa tem de transformar diariamente a carne de caça
em vegetal para evitar o canibalismo, afinal, os animais eram gente no
tempo do mito e o tempo do mito atua no tempo atual (Overing, 1995).
Voltemos a Descola para, em seguida,
retornar a Viveiros de Castro e, com ele, novamente a Lévi-Strauss.
Não satisfeito com a definição
do totemismo como uma lógica classificatória, Descola volta
à Austrália, paisagem do totemismo “clássico”, em
que grupos de parentesco veem-se ligados a um epônimo animal ou vegetal.
No que diz respeito à etnografia australianista, duas ordens de
fenômenos devem ser distinguidas. Haveria o totemismo como lógica
classificatória e, num plano diverso, o totemismo “propriamente
dito”, qual seja: aquele que, à revelia da sugestão de Lévi-Strauss,
opera como modo de identificação entre os homens e o “mundo
natural”. Longe de ser uma ilusão, a ontologia totêmica, à
diferença da animista, supõe a identificação
entre humanos e não-humanos em termos tanto de interioridade como
de fisicalidade .
O totemismo australiano consiste, enquanto ontologia particular, na partilha
de propriedades – fisiológicas e psicológicas – entre o totem
(espécie natural) e os membros do grupo totêmico, grupo exogâmico
no sentido clássico. As propriedades partilhadas por esses membros
não são derivadas, necessariamente, da entidade epônima,
sendo propriedades abstratas. Os membros do grupo totêmico partilham,
então, características morais e materiais que definem para
si uma essência identitária.
Em suma, totemismo e animismo não
podem ser descritos como princípios universais, mas, sim, como ontologias
particulares que expressam diferentes esquemas de identificação
e relação entre os existentes. No totemismo, membros do grupo
totêmico compartilham uma mesma humanidade e se conformam como coletividade
que se relaciona com outras coletividades complementares, a exogamia permanecendo
como uma regra entre elas. O princípio diferenciador entre os seres
é, aqui, o próprio grupo totêmico. Já no animismo
a condição humana seria estendida a todos os seres no cosmos
que, por seu turno, se diferenciam por suas fisicalidades. O modelo de
coletivos, aqui, não pode ser o de grupos exogâmicos, mas,
sim, o de coletividades múltiplas e endogâmicas .
Com respeito ao princípio
diferenciador do animismo, a fisicalidade, Descola remete à noção
de perspectivismo, tal como apresentada por Viveiros de Castro e Tânia
Stolze Lima. A vulgata do perspectivismo (deslindada por estes autores
entre os ameríndios, e não como uma possibilidade ontológica
geral) seria a seguinte: seres não-humanos que se veem sob
forma humana deveriam ver os humanos sob forma não-humana, uma vez
que a humanidade é uma posição e não uma substância,
uma propriedade intrínseca a certa porção de seres.
Um porco-do-mato, por exemplo, se vê como humano enquanto vê
o humano como jaguar ou como espírito predador. Ora, todos esses
existentes são, potencialmente, humanos (partilham a mesma condição
de humanidade [humanity]) apesar de não serem todos da espécie
humana (humankind) .
São todos sujeitos dotados de comportamento, intencionalidade e
consciência, estando inseridos em redes de parentesco e afinidade,
fazendo festas, bebendo cauim, reportando-se a chefes, fazendo guerra,
pintando e decorando seus corpos. O que está em jogo, aqui, portanto,
é a diferença entre perspectivas, o que nos envia a uma “filosofia
ameríndia da diferença”.
Relações diferenciantes:
perspectivismo
A crítica à oposição
natureza e cultura está presente tanto no animismo de Descola quanto
no perspectivismo de Viveiros de Castro e Tânia Stolze Lima. Mas
de maneiras bem diferentes. Se o primeiro se guia por uma ideia de (esquemas
de) identificação, os últimos inspiram-se – parcialmente,
ao menos – na filosofia deleuziana da diferença; da diferenciação .
Como já salientado, tanto
Viveiros de Castro como Lima partiram de suas etnografias sobre povos tupi
para chegar à conceitualização do perspectivismo ameríndio.
Viveiros de Castro já reconhecia, entre os Araweté do sudeste
do Pará, a intensa “troca de perspectivas”, menos entre animais
e humanos do que entre matadores e inimigos, homens e deuses, já
que o destino de todo ser humano araweté é um devir-deus,
seja no posmorte (no caso da maioria dos vivos), seja pelo ato homicida
(no caso dos matadores, guerreiros) .
Lima, de sua parte, percebeu, entre os Yudjá do médio Xingu,
que uma troca análoga de perspectivas se deslocava do plano da relação
entre vivos e mortos – potencializada nas cauinagens – para o plano da
relação entre caçadores e animais de caça (Lima,
2002 e 2005).
Inspirado pelas reflexões
de Tânia Stolze Lima, que explora as diferenças entre os conceitos
de animismo e perspectivismo ,
gostaria de atentar para um ponto: se a teoria do animismo refuta a interpretação
lévi-straussiana do totemismo, a teoria do perspectivismo (antes
de tudo uma teoria da teoria nativa, uma teoria etnográfica, vale
ressaltar) se debruça sobre o problema da passagem da natureza à
cultura; ou, melhor: do contínuo ao descontínuo e vice-versa,
tal como ela aparece nas Mitológicas .
A tetralogia de Lévi-Strauss
persegue, através dos mitos ameríndios, a um só tempo,
a operação das leis do Espírito (o tal “inconsciente
estruturante” que, no entanto, vai perdendo terreno) e as formulações
propriamente ameríndias quanto à passagem da natureza à
cultura. Vemos, aqui, o interesse de Lévi-Strauss pelas filosofias
ameríndias, sejam elas “filosofia moral”, “lógica das proposições”,
“ideologia bipartida”, “filosofia quente” ou “metafísica da predação” .
No final de L’homme nu, no entanto, Lévi-Strauss alega que a mitologia
diz muito sobre a sociedade de onde provém e sobre o funcionamento
do espírito humano e diz pouco sobre a ordem do mundo, a natureza
do real e a origem do homem e seu destino. Nesse sentido, afirmar que os
porcos são ou foram humanos diria pouco sobre os porcos e, menos
ainda, sobre os humanos.
Segundo Viveiros de Castro, que lê
Lévi-Strauss para além de Lévi-Strauss, essa constatação
seria problemática e mesmo contraditória com relação
ao conteúdo da tetralogia, visto que a explicitação
do modo de operação do espírito humano já traria,
em si, implícita, uma reflexão sobre a ordem do mundo. Em
suas palavras, “o que eles [os ameríndios] dizem – e, se preferir
o leitor, ensinam – é que não há por que escolher,
pois não há como separar entre a natureza do real e o espírito
humano, a ordem do mundo e o movimento da sociedade” (Viveiros de Castro,
2001 p.6). Nesse sentido, a ideia de “porco” iluminaria a de humano e a
humanidade dos porcos diria muito sobre o conceito de humano para os índios.
Os mitos contidos nas Mitológicas
falam da passagem da natureza para a cultura, ou melhor, do contínuo
para o descontínuo. Os mitos falam de um tempo em que “os animais
eram gente” e deixaram de sê-lo. Falam tanto de uma glória
– a aquisição da cultura pelos homens – quanto de uma tragédia
– a perda de comunicação entre os homens e os outros seres
(animais, plantas e espíritos). As Mitológicas referem-se,
em suma, a uma passagem da natureza para a cultura, mas que nunca se completa,
podendo ser revertida. Referem-se ao perigo da volta ao estado de continuidade,
à perda da condição humana pelos humanos. Como já
discutido, Lévi-Strauss apresenta uma série de figuras do
sensível – o arco-íris, os eclipses, as algazarras, os venenos
– que tem por característica a conjunção de esferas
separadas, como o céu e a terra, a noite e o dia etc.; todas elas
caracterizadas pela metáfora musical do cromatismo (os pequenos
intervalos, os semitons, os lusco-fuscos), que nos transporta a um território
invadido pela confusão entre categorias “culturais” e “naturais”.
Haveria um paradoxo nas Mitológicas.
De um lado, o contínuo é apresentado como caos, como regressão
à natureza, à desordem. Os indígenas atribuem
às figuras cromáticas um valor maléfico, alega Lévi-Strauss.
De outro lado, algo de muito importante se perde com a passagem da natureza
para a cultura; tamanha é a tragédia da incomunicabilidade.
É neste cenário que aparece o xamanismo – sempre aliado ao
uso do tabaco – como mediação necessária. Se, de modo
geral, os mitos de O cru e o cozido (primeiro volume)
estão mais centrados no tema da passagem da natureza para a cultura,
os de Do mel às cinzas (segundo volume)
discorrem sobre a regressão da cultura para a natureza. Neste último
livro, Lévi-Strauss sublinha a importância do xamanismo como
esforço de manter em comunicação esferas separadas
no tempo do mito, algo, aliás indispensável para a manutenção
– ou produção – da vida social, visto que, nestas paisagens
ameríndias, a cultura se estende à sobrenatureza.
Não seria errôneo afirmar
que o paradoxo das Mitológicas reflete o próprio paradoxo
do pensamento ameríndio, qual seja: partir da ideia de que é
preciso separar natureza e cultura e, ao mesmo tempo, restabelecer a comunicação
entre elas, isto é, sua continuidade. Talvez seja este, também,
o paradoxo do perspectivismo – esta teoria antropológica impregnada
da teoria ameríndia e vice-versa, simetricamente –, conforme atinado
por Viveiros de Castro e Tânia Stolze Lima. Este paradoxo seria o
seguinte: os animais (ou outras espécies naturais, mas não
quaisquer espécies) são humanos e, ao mesmo tempo, não
são humanos. Os animais são humanos que se disfarçam
sob um corpo animal e, ao mesmo tempo, não são humanos porque
deixaram de sê-lo no tempo do mito. Em outras palavras, humanos e
não-humanos partilham a condição humana – tal a lição
animista – e, ao mesmo tempo, se diferenciam pelos seus corpos – tal a
lição perspectivista. Isso leva Tânia Stolze Lima a
constatar que a afirmação “os Yudjá pensam que os
animais são humanos” é falsa. Em vez disso, seria mais adequado
afirmar: “para si mesmos, os animais são humanos”. Afinal, o perspectivismo
preza o fato de que não há realidade independente de um sujeito.
Nas palavras da autora: “Eu poderia, assim, dizer que os Juruna pensam
que os animais pensam que são humanos. [...] O ponto é que
os animais estão longe de serem humanos, mas o fato de se pensarem
assim torna a vida muito perigosa” .
A ideia de perspectivismo conduz
a pensar não apenas as semelhanças entre animal (porco-do-mato,
por exemplo) e humano, mas sua diferença, o processo de diferenciação
a que se submetem. Ou, como alega Viveiros de Castro: “Não é
para identificar [os animais] aos humanos, mas para diferenciá-los
de si mesmos, e a nós de nós mesmos” (Viveiros de Castro,
2002 p. 136). O perspectivismo implica pensar a passagem relativamente
reversível – ou, para usar uma imagem de Viveiros de Castro, “em
espiral” – do contínuo ao descontínuo, passagem não
de um estado de indiferenciação para um estado de diferenciação;
mas passagem de diferenças intensivas (internas) para diferenças
extensivas (externas). Os seres míticos misturam atributos humanos
e não-humanos e, no mito, as diferenças entre pontos de vista
são ora anuladas, ora exacerbadas. O tempo mítico é,
pois, um tempo em que as perspectivas não estavam fixadas: animais
eram gente; ou, melhor: eram animais-gente. Havia a gente-onça,
a gente-anta e toda essa gente deixou de sê-lo, tornando extensiva
a diferença entre gente e bicho. Na passagem para o tempo atual
houve, assim, uma diferenciação radical, uma perda de comunicação,
algo como uma fixação de perspectivas. O tempo mítico
é marcado por “diferenças infinitas”, internas a cada personagem,
simultaneamente gente e onça, gente e queixada, gente e sucuri.
Viveiros de Castro conclui: “O mito propõe um regime ontológico
comandado por uma diferença intensiva fluente e absoluta que incide
sobre cada ponto de um conjunto heterogêneo, em que a transformação
é anterior à forma, a relação é superior
aos termos e o intervalo é interior ao ser” (Viveiros de Castro,
2007 p.324). O tempo atual, por seu turno, é o tempo das “diferenças
finitas”, externas. Em vez da transparência dos tempos míticos,
a opacidade. Vemos um corpo animal como tal, mas na verdade ele esconde
uma forma humana. Vemos um corpo humano como tal, mas na verdade ele esconde
uma afecção jaguar. É então que Viveiros de
Castro lança mão do neologismo DiferOnça – ao referir-se
jocosamente a Derrida – para pensar essas diferenças intensivas,
internas. A DiferOnça, mais do que uma Diferença, é
um vetor de diferenciação intensiva, uma qualidade interna
ao sujeito. O contínuo no perspectivismo não é, portanto,
ausência de diferença, mas a diferença em estado contínuo,
em estado intensivo.
O desafio perspectivista deslindado
por Viveiros de Castro consiste no fato de que nenhuma posição
é segura no cosmos. Sendo a humanidade uma questão de ponto
de vista, uma posição intercambiável, paira no ar
sempre o perigo de “virar bicho”, “virar espírito”, “passar para
o outro lado”, algo como morrer. Tendo em vista este problema, Dominique
Gallois distingue entre os Wajãpi do Amapari (Amapá) a noção
de “transformação” (reversível) e a de “metamorfose”
(irreversível): a primeira seria desejada, ao passo que a segunda
seria temida. Decorre daí que nenhuma posição no cosmos
ameríndio é segura, já que este estaria marcado pela
incessante luta de perspectivas. “Se tudo é humano, então
tudo é perigoso”, comenta Viveiros de Castro em tom certamente roseano
(2008 p 88).
Há duas cenas de O homem urso,
documentário de Werner Herzog, que conduzem à ideia de perigo
aqui referida. Herzog narra a história de Timothy Treadwell, um
expert em ursos que, justamente, por buscar viver entre estes animais ferozes,
acabou sendo devorado por um deles. A primeira cena que me vem à
mente traz o depoimento de Sven Haakanson, diretor do Museu Alutiq de Kodiak
e nativo da região (provavelmente membro de um grupo de língua
alutiq). Interrogado por Herzog, ele afirma que Treadwell teria cruzado
uma barreira com a qual ele e seu povo teriam vivido durante cerca de sete
mil anos. Isso porque, para os povos da região, o território
dos ursos foi sempre respeitado, ursos e homens devendo evitar-se mutuamente.
O depoimento de Sven sobrepõe-se, no filme, a imagens de Treadwell,
num rio, aproximando-se sorrateiramente de um urso, que lhe parece indiferente.
A outra cena que me vem à mente é aquela na qual o próprio
Herzog interroga seu personagem, em voz over, quando este, diante de uma
raposa morta (provavelmente atacada por um animal de maior porte), lamenta
o ato de tamanha brutalidade, vendo nele uma exceção diante
do quadro harmônico oferecido pela natureza. Nesse ponto, Herzog
faz questão de distanciar-se de Treadwell: “Creio que o denominador
comum da natureza não é a harmonia, mas o caos, a hostilidade
e a matança”. Isso torna o diretor menos distante dos ameríndios
perspectivistas do que seu personagem, figura excêntrica que teria
alimentado o sonho de deixar a civilização humana para viver
entre os ursos .
Num mundo talhado pela predação
– pela luta de perspectivas, termo talvez mais amplo e mais apropriado
– se tudo é humano, eu posso não ser humano, posso ser animal.
Assim, se tudo é humano, tudo é, também, animal. Permitam-me,
sobre este ponto, traçar mais um paralelo com a filmografia moderna.
Uma situação análoga aparece nas cenas finais de Blade
Runner, de Ridley Scott. Não me refiro à versão standard,
de 1982, mas à versão do diretor, exibida ao público
em 1992. Rick Deckard, o caçador de andróides – guardião
da humanidade que luta contra os replicantes rebeldes –, é levado
a crer que pode ser, ele também, um andróide, alvo de sua
própria perseguição. Um origami na forma de um unicórnio
o transporta para um sonho recorrente: aquele de um unicórnio correndo
pela floresta: imagem que não tem referente no real, logo produzida
artificialmente em sua memória, o que revela que ele pode ser, como
a mulher que ama, mais um replicante.
A ideia de que o Outro – o não-humano, o andróide, o inimigo
– sou Eu, a ideia de que este Outro me é imanente reenvia ao perspectivismo
ameríndio como apresentado por Viveiros de Castro. O ponto é
que entre os ameríndios estas posições são
intercambiáveis, não sem um perigo extremo, ao passo que
na ficção científica em questão a confusão
de limites entre humano e não-humano é tida como um escândalo:
ao replicante que rouba a condição humana só resta
a repressão do Estado.
Se pensarmos que, no mundo moderno,
os não-humanos em questão – ou melhor, os humanos não-humanos
– são andróides, computadores, robôs, máquinas
e não porcos-do-mato, jaguares, anacondas, o paralelo se esclarece.
Ele se esclarece, também, se considerarmos a análise criativa
de Pedro Ferreira sobre a correlação entre o mundo dos xamãs
indígenas e o universo da tecnologia, mais especificamente, da música
eletrônica, techno, executada pelos DJs das grandes cidades, que
experimentam nas pistas de dança algo como um “transe maquínico”;
veem-se como parte de uma maquinaria. Operam um devir-máquina em
tudo análogo ao devir-animal. O que fariam esses DJs, e isso de
um modo consciente, seria efetuar uma leitura xamânica de nossas
maquinas, da nossa tecnologia (Ferreira, 2007).
O Outro sou Eu; o Outro me é
imanente. Voltemos às paisagens ameríndias, mais especificamente
aos Yudjá do médio Xingu, entre os quais Lima comenta o infortúnio
de seus caçadores, não de andróides, mas de bichos.
Um caçador não quer tornar-se porco; pelo contrário,
quer manter-se como tal. Ele não pode deixar que os porcos imponham
sobre ele a sua perspectiva, isso lhe seria mortal. Ao animal, alega a
autora, não pode ser dada nenhuma chance de tomar a palavra, pois
isso colocaria em risco a posição do caçador. As perspectivas
estão em luta, todos os seres do cosmos permanecem ávidos
para impor a sua perspectiva, para ocupar o ponto de vista da humanidade,
único propriamente passível de ser ocupado por um sujeito.
Estamos diante, aí, de uma cosmopolítica no mais do termo:
a política dada na luta por posições no cosmos. Diante
do perigo das caçadas, a lição de moral de um xamã
yudjá seria a seguinte: “Cuidado! Os porcos se parecem conosco;
portanto não os tratem como pessoas; senão vocês viram
porcos!” (Lima, 2002 p. 38)
Coda
Parece, a essa altura, ser ponto
pacífico a não possibilidade de projetarmos o dualismo moderno
natureza e cultura para a realidade dos povos ameríndios (mesmo
entre nós, é preciso lembrar, ele já aparece bastante
borrado...). Note-se que o problema não está no dualismo
propriamente dito (pois este pode se revelar em “perpétuo desequilíbrio”,
como já salientado), mas na exigência moderna de operar por
polarizações e limites rígidos entre o que se convencionou
chamar natureza e cultura, humano e não-humano, corpo e alma. Os
povos ameríndios invertem o modo de pensar predominante entre os
modernos. Em vez de mononaturalismo, de uma só natureza (universal)
para várias culturas (particulares), Viveiros de Castro propõe
que pensemos, diante dos ameríndios, um multinaturalismo, múltiplas
naturezas para uma só cultura ou Espírito. Pois, se o Espírito
é o lugar da comunicação metafísica entre todos
os existentes, os corpos fazem-se lugar da diferenciação,
da singularização, da especiação. Em vez de
pensar categorias puras, polares, os ameríndios pensariam em termos
de diferenças intensivas, internas. O não-humano seria, assim,
imanente ao humano, e essa porção imanente poderia ser acessada,
entre outras coisas, pelo xamanismo e suas técnicas de êxtase.
Quando projetamos nossas expectativas
com relação à natureza sobre a realidade dos índios
tendemos, portanto, a cair em malentendidos. Por mais que a ecologia e
o ambientalismo façam um apelo ético para a participação
e a responsabilidade do homem diante do “mundo natural”, a natureza em
jogo continua sendo uma “natureza-objeto”, que se revela, em última
instância, como recurso natural que deve ser tratado de maneira sustentável,
mas, ainda assim, visando o desenvolvimento produtivo. Mas se tudo são
malentendidos, há, como diria Sahlins, malentendidos produtivos.
Bruce Albert debruçou-se sobre um deles em um artigo genial, já
bem conhecido pelos etnólogos, em que analisa o discurso de Davi
Kopenawa Yanomami, xamã e líder político que se apropria
dos enunciados ambientalistas para construir a reivindicação
em defesa da terra indígena. Davi o faz mantendo-se fiel aos princípios
de sua cosmologia. Ele fala em defesa da floresta tendo em vista a corrida
do ouro e a invasão das terras yanomami pelos garimpeiros, cuja
atividade é associada à produção de uma fumaça
patogênica que ataca a floresta - sempre concebida como entidade
viva, composta por uma comunidade de espíritos, os xapiripë,
imagens vitais dos animais, auxiliares dos xamãs, sem os quais nada
é possível (Albert, 2000).
Como afirma Albert, Davi xamaniza
o discurso ambientalista ao mesmo tempo em que lhe dirige uma crítica
mordaz. Davi diz, por exemplo, que “a ecologia [esse discurso dos brancos
sobre a floresta] é, antes de tudo, palavras de Omama, o demiurgo
Yanomami”. Ele acrescenta, ainda, que os xapiripë são os responsáveis
pela entropia cósmica; sem eles tudo resvalaria no caos. Davi elabora
um discurso pleno de neologismos, apoiando-se sempre na lógica mítica,
que deslinda, por meio da evocação da imagem da queda do
céu, toda uma cataclismologia, toda uma profética. Para Davi,
o céu desabará se os brancos continuarem alheios aos ensinamentos
dos xamãs, o mesmo podendo ser dito aos Yanomami de hoje, muitas
vezes desinteressados pelo xamanismo e seu aprendizado. Mas é apenas
por meio do xamanismo que é possível ver – e, portanto, travar
comunicação com – os xapiripë. É o xamanismo
– sempre apoiado na inalação do yãkoana (pariká),
esta substância que dá acesso ao invisível, a realidade
suprassensível – que permite a interação dos homens
com a terra-floresta, uma vez que transporta os primeiros a um plano em
que a última se revela uma miríade de subjetividades plenas
de intenções.
Davi brinca com as palavras dos
brancos e submete o discurso ecológico a uma crítica cosmológica
ou mesmo xamânica. Ele diz, por exemplo, que a palavra “meio-ambiente”,
que insistimos em empregar, significa simplesmente “floresta-natureza residual”,
ou seja: um “ambiente partido ao meio”. Albert salienta que Davi não
consente, em seu discurso exegético, nem uma ecologia científica,
que sonha com uma natureza não-antropizada, nem uma ecologia política,
que luta pela conservação ou preservação da
biodiversidade. A ecologia de Davi é, antes de tudo, uma ecologia
xamânica, baseada na relação social entre humanos e
espíritos xapiripë, imagens de animais, ou melhor, segundo
a glosa de Viveiros de Castro, uma região ou momento de indiscernibilidade
entre o humano e o não-humano. Viveiros de Castro encontra na fala
de Davi “uma humanidade molecular de fundo, oculta por formas molares não-humanas,
e fala dos múltiplos afetos não-humanos que devem ser captados
pelos humanos por meio dos xamãs, pois é nisto que consiste
o trabalho do sentido; literalmente [citando o próprio Davi], ‘são
as palavras dos xapiripë que aumentam nossos pensamentos’” (Viveiros
de Castro, 2007 p. 321).
Para fechar esta apresentação,
que já se alongou demais, prossigo com as palavras de Davi Yanomami:
“Antes a gente não pensava: ‘vamos proteger a floresta!’ Pensávamos
que nossos espíritos xamânicos nos protegiam. Só isso.
Esses espíritos foram os primeiros a possuir ‘ecologia’. Eles afugentam
os espíritos maléficos, impedem a chuva de cair sem parar,
calam o trovão... e, quando o céu ameaça desabar,
são eles que falam à ‘ecologia’. Eles protegem o céu
quando este quer se transformar, quando o mundo quer escurecer. Eles são
a ‘ecologia’ e por isso impedem as coisas. Nós tínhamos essas
palavras desde sempre, mas vocês, os brancos, inventaram a ‘ecologia’
e então essas palavras foram reveladas e propagadas por todo lado”
(Albert, 2000 p. 261). Vemos que esta defesa da “ecologia” parte, aqui,
de uma configuração yanomami; e que apenas existe com referência
aos espíritos xapiripë. (Reencontramos nela o pós-humanismo
profético das Mitológicas de Lévi-Strauss, ao qual
me referi há pouco.)
Podemos concluir, enfim, que todas
estas ontologias xamânicas (calcadas no que autores como Descola
e Viveiros de Castro denominaram, respectivamente, “animismo” e “perspectivismo”,
ainda que sob sentidos variáveis) estão longe de constituir
universos fechados. São, antes de tudo, instrumentos cognitivos
para enfrentar a história; no caso, história do confronto
entre mundos diversos, entre ontologias diversas, entre naturezas-culturas
diversas – se assim podemos chamá-las de modo a afastar o dualismo
enrijecedor que paira sobre nossas práticas de conhecimento.
Notas
Este
texto – que prefiro manter em sua cadência oral – é uma versão
transformada da aula que proferi em fevereiro de 2008 durante o concurso
para professor da área de etnologia indígena do Departamento
de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
da USP. O tema sorteado foi “natureza e cultura”, o famoso dualismo que
os antropólogos contemporâneos – e os americanistas, particularmente
– cuidam problematizar ou mesmo dissolver. Note-se que minha intenção
foi produzir uma reflexão aberta, no sentido de conectar certas
visões sobre o problema sem me preocupar em produzir uma síntese.
Contei com a oportunidade de apresentar este texto em duas outras ocasiões:
o seminário do Núcleo de Antropologia Urbana – NAU, ocorrido
em maio de 2008, na USP, em São Paulo, e o seminário “Sextas
na Quinta”, ocorrido em novembro do mesmo ano, no Museu Nacional, no Rio
de Janeiro. Agradeço, respectivamente, aos gentis convites de José
Guilherme Cantor Magnani, de Marcio Goldman e de Gabriel Banaggia,
que me estimularam a desdobrar as questões formuladas de início.
Agradeço, também, aos alunos e professores que estavam presentes
nestas ocasiões e que me ajudaram a pensar.
Pesquisador
do Núcleo de História Indígena e do Indigenismo (NHII/USP)
e do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (LISA/USP).
Veja-se,
sobre este propósito, a reflexão de Carlos Fausto, 2002.
N.R.:
os ameríndios.
Sobre
como os primatólogos concebem a “cultura” dos símios, ver
Silva & Sá, 2005.
Veja,
especialmente, Strathern, 1992.
Sobre
esta questão epistemológica, veja Lima, 2002.
Para
uma discussão deste “dualismo em perpétuo desequilíbrio”,
ver Viveiros de Castro, 2008.
“No
nature, no culture: the Hagen case” (Mac Cormack & Strathern,
1980).
Para
uma discussão da “controvérsia” entre Descola e Viveiros
de Castro, veja Latour (2009).
Veja,
também: Descola, 1992, 1998 e 2004.
Veja,
em especial, O cru e o cozido: Mitológicas I; op.
cit.
Op.
cit
As
origens dos modos à mesa. Op. cit.; p. 460.
VViveiros
de Castro, Eduardo.”Xamanismo transversal”, op. cit.
Veja
Descola, 2008.
Descola,
Philippe. Par-delà nature et culture; op. cit.
Para
uma distinção entre humanity e humankind na
cosmologia dos modernos, veja Ingold, 1995.
Veja,
a esse respeito, Viveiros de Castro, 2007.
Viveiros
de Castro, Eduardo. Araweté, os deuses canibais. Rio
de Janeiro: Zahar/Anpocs, 1986.
Veja,
sobretudo: Lima, 2006.
Veja,
a esse respeito, Viveiros de Castro, Eduardo. “Xamanismo transversal”;
op.
cit.
Faço
referência a expressões que aparecem em obras como A
origem dos modos à mesa: Mitológicas III, op.
cit,
História
de lince (op. cit.) e o Posfácio à
revista L’homme (154-155): “Question de parenté”.
Paris: LAS, 2000.
Op.
cit.
Op.
cit.
Lima,
Tânia S. O dois e seu múltiplo; op. cit.
p.
26.
O
homem urso (Grizzly Man. Direção de Werner
Herzog. EUA, 2005).
Blade
Runner (Direção
de Ridley Scott, roteiro de Hampton Fancher e David Peoples, baseado na
novela "Do Androids dream of electronic sheep?", de Philip K. Dick.
EUA, 1982 [versão do diretor: 1992]).
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Philippe. “Les deux natures de Lévi-Strauss”. In: Izard, Michel
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(ed.). Conceptualizing society. Londres, Routledge, 1992.
Descola,
Philippe. “Sur Lévi-Strauss, le structuralisme et l’anthropologie
de la nature (entretien avec Marcel Hénaff)”. In: Philosophie
(98) [Claude Lévi-Strauss: langage, signes, symbolisme, nature].
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