As pílulas de Frei Galvão
foram o motivo pelo qual o mesmo foi canonizado em 11 de Maio de 2007 como
Santo Antônio de Sant´Anna Galvão pelo Papa Bento XVI,
em visita ao Brasil. Apesar de ter sido canonizado com o nome supracitado,
no uso popular, continua-se a utilizar Frei Galvão ou São
Frei Galvão, uma vez que o nome canônico aparenta ser um tanto
quanto complexo ao gosto dos fiéis. Lembremos que, antes mesmo da
canonização, era o nome do Frei e não o do Santo que
se divulgava entre os inúmeros devotos e usuários das pílulas.
Essa canonização veio ratificar o poder miraculoso das pílulas
distribuídas no Mosteiro da Luz - localizada na esquina da Rua Jorge
Miranda com a Avenida Tiradentes, bairro da Luz, região central
de São Paulo -, e colocou a região - objeto de revitalização
cultural e de gentrificação (como definido por Bidou-Zachariasen,
2006; Leite, 2006 e Frúgoli
Jr., 2001) - no roteiro religioso de São Paulo. A etnografia
realizada no segundo semestre de 2007 localizou-se, então, entre
dois eventos de suma importância para o Mosteiro: a canonização
de Frei Galvão e a descoberta de duas “múmias” no Mosteiro
no primeiro semestre de 2008.
A santidade de Frei Galvão
foi reconhecida pela Igreja após a comprovação de
milagre no caso
de Sandra Grossi de Almeida – que já havia sofrido três
abortos espontâneos devido à malformação do
útero que teve seu bebê após uma gravidez de altíssimo
risco. O êxito do parto, com o nascimento de seu filho Enzo, foi
atribuído à intercessão de Frei Galvão por
meio de suas pílulas. O caso foi reconhecido como “cientificamente
inexplicável no seu conjunto”, segundo os atuais conhecimentos científicos,
pelos peritos médicos da Congregação das Causas dos
Santos.
Antes de iniciarmos nossas ponderações
etnográficas, faz-se necessário delinearmos os pressupostos
metodológicos adotados quanto à pesquisa de campo. O tema
da religião abarca extensa bibliografia ao longo da história
das ciências humanas, entretanto nosso intuito foi o de refletir
sobre os aspectos materiais, muito mais do que sobre os representacionais
da crença religiosa. Evitamos, aqui, fazer divisões entre
representação versus realidade, fé versus ciência,
material versus imaterial e preferimos levar a sério os nativos,
quanto ao que dizem e ao que fazem. Para cumprirmos tais objetvos, é
necessário, também, ponderar a primeira questão que
surge em relação às pílulas: “Elas funcionam?”.
A intersecção entre
religião e eficácia traz a questão da crença.
Apresentar relatos nos quais afirmamos que “os fiéis acreditam que
a pílula do Frei Galvão funciona” seria um certo academicismo
em busca de explicações de acordo com padrões científicos
de simples causa e efeito. Pode-se, mesmo, extremar esse argumento e dizer
que “eles não ‘acreditam’: é verdade! É um saber sobre
o mundo.” (Gow apud Goldman, 2006:16). Apesar
de essa discussão levantar questões contemporâneas
ainda não respondidas, sobretudo a crítica aos grandes divisores
(Latour, 1994), encontramos, em Malinowski, uma definição
sobre a pesquisa da “crença” que nos parece útil:
O princípio geral
e mais importante relativo à crença que fui levado a respeitar
e considerar no decurso dos meus estudos de campo é este. Qualquer
crença [...] não constitui um pedaço de informação
isolado que se recolhe de uma qualquer fonte causal, de qualquer informador
fortuito, e se estabelece como axioma para traçar com uma única
curva de nível. Pelo contrário, cada crença reflete-se
em todas as mentes de uma dada sociedade, e manifesta-se em muitos fenômenos
sociais. [...] existe uma ‘dimensão social’ para uma crença,
que deve ser cuidadosamente estudada; a crença deve ser analisada
à medida que se movimenta nesta dimensão social; deve ser
examinada à luz dos diversos tipos de mentalidades e das diversas
instituições em que pode ser localizada. [...] Além
disso, as crenças e as ideias não existem só nas opiniões
conscientemente expressas dos membros de uma comunidade. Encontram-se personificadas
nas instituições sociais e manifestam-se no comportamento
dos nativos, devendo, por assim dizer, extrair-se de ambos” (Malinowiski,
1984:257).
Portanto, a crença não
forma apenas ideias e representações mas, também,
comportamentos, ações e instituições. Ao descrevermos
a relação dos usuários e trabalhadores do Mosteiro
com as pílulas, voltamos nossa atenção a um campo
que permanece marginal na Antropologia: os estudos de cultura material.
Nosso artefato estudado, as pílulas do Frei Galvão, não
cai na separação entre representação mental
e realidade material, pois nosso intuito é, ao invés de explicar
seus sistemas ou relações sociais, demonstrar como os usuários
e os trabalhadores do Mosteiro pensam por meio das pílulas (como
propõem Henare, Holbraad & Wastell, 2007),
relacionando essa forma de pensamento com alguns autores clássicos
da antropologia. Mas o que são, afinal, as ditas pílulas?
Segundo a história contida
no santinho
,
distribuído junto com as pílulas, elas surgiram quando, certo
dia, um moço, que se debatia com fortes dores provocadas por cálculos
renais, pediu ao Frei Galvão que o abençoasse para ficar
livre da dor . [o Frei], lembrando-se do poder de intercessão da
Santíssima Virgem, escreveu num papelzinho o verso do breviário:
Post partum Virgo inviolata permansisti, Dei Genitrix Intercede
pro nobis [depois do parto, ó Virgem, permaneceste intacta:
mãe de Deus, intercedei por nós]. Em outro caso, fora procurado
por um senhor que pedia ajuda para sua mulher, em trabalho de parto, com
risco de vida. Lembrando-se do caso do jovem moço, escreveu num
pequeno papel, enrolou e pediu que tomasse esses papelinhos, como eram
chamados originalmente, uma vez que “não se trata de pílulas
de farmácia, mas devocionais”. O uso dos papelinhos prossegue há
mais de duzentos anos e, nos dias de hoje, é produzido pelas irmãs
do Mosteiro da Luz, da Ordem da Imaculada Conceição.
![Santinho de Santo Antonio de SantAna Galvão [frente e verso]](freigalvao1.jpg)
A distribuição das
pílulas acontece diariamente, das 9 às 11 horas e das 14:30
às 16:30 horas, numa sala ao lado da loja de souvenirs no Mosteiro.
O fluxo de pessoas é grande e a equipe de segurança, contratada
para tomar conta do Museu de Arte Sacra, organiza a fila que dá
acesso à sala, usando cones, junto ao jardim. Dentro da sala de
distribuição existem duas rodas pesadas de madeira, de mesmo
estilo que “roda dos desafortunados”
,
que rangem incessantemente no horário de distribuição.
Na parede da sala, alguns cartazes e placas protegidos por placas de acrílico
explicam o que deve ser feito. Em dias de semana apenas uma das rodas funciona;
normalmente a do lado esquerdo. Nos finais de semana - devido ao grande
movimento- ambos os lados funcionam. Separada por outra porta, no canto
esquerdo da sala de distribuição, encontra-se a instalação
do recém-inaugurado Memorial de Frei Galvão
,
com seus objetos pessoais, resultado da coleta de itens pessoais do santo
canonizado e organizados dentro de sancas de vidro na parede ou sobre móveis
em um longo corredor. Através desse corredor chega-se aos locutórios
– locais onde as freiras enclausuradas recebem visitas – salas grandes,
com uma grade que impede o contato total com o mundo “exterior”. O enclausuramento
das freiras é voluntário. De fato, este possui caráter
ambíguo, uma vez que, ao questionar como as freiras desenvolviam
suas atividades, foi-nos dito que elas realizam grande parte do trabalho,
mas contam com auxílio de pessoas, inclusive de homens, que frequentam
as “clausuras”. Na época da pesquisa, quatorze freiras enclausuradas,
acordavam às 04:30 da madrugada e faziam sua última oração
às 20 horas. Elas são responsáveis pelas orações,
produção e distribuição das pílulas,
mas contam com uma faxineira e uma cozinheira, além de um responsável
pela manutenção do espaço físico. Assim, as
freiras não estão totalmente separadas do mundo exterior,
embora mantenham um contato mínino.
As pílulas são distribuidas
através da roda de madeira descrita acima. A cada vez são
colocados três pacotes contendo três pílulas cada, junto
com um santinho explicando a história e o uso das pílulas,
e é comum deixar-se uma doação não estipulada
(em torno de dois reais, em grande parte moedas, ou mesmo velas). Cada
pacote serve para uma pessoa, já que as pílulas fazem parte
de uma novena, durante a qual devem ser ingeridas no primeiro, quinto e
último dia, junto com a recitação diária da
Oração da Novena da Santíssima Trindade.
Após serem recebidas, as pílulas
são guardadas em compartimentos quaisquer. Não foi observado
nenhum tipo de cuidado sagrado com os pacotes, que eram colocados na bolsa,
em niqueleiras ou carteiras ou em sacolas comuns. As pessoas saem da sala
e seguem para a loja de souvenirs ou para a capela. Durante a semana, muitos
apenas buscam as pílulas e vão embora. Pede-se que se entre
na fila para pegar as pílulas apenas uma vez ao dia. Isso
é expresso por cartazes colados em vários locais e explicados
pelos funcionários e seguranças. Entretanto, percebe-se que
algumas pessoas o fazem mais de uma vez, fato que, quando descoberto, gera
confusão. Alguns dizem que respeitam o limite determinado, pois
assim estão respeitando e sendo obedientes, e ser obediente faz
parte dos preceitos religiosos. Outros, os que não atendem ao pedido,
pensam que essa negociação é possível, quando
se trata de casos urgentes e desrespeitar essa regra não ferirá
seus princípios e, muito menos, afetará o Santo, pois é
justamente uma manifestação da sua crença e da necessidade
urgente. Outras pessoas, com relatos próximos ou mesmo pessoais
de cura e eficácia das pílulas, estão interessadas
em levar as pílulas para distribuir em sua região – seja
em São Paulo ou outros estados -, “para quem precisa”. Assim,
a quantidade de três pacotes é insuficiente para a grande
demanda e trabalho de divulgação que dizem fazer. Outro modo
de burlar a restrição é pedir que outros peguem os
pacotes. Nesse caso, faz-se uso das pessoas ao redor, acompanhantes de
outras pessoas e até mesmo dos pesquisadores.
A etnografia em grupo nos possibilitou
visões variadas sobre o Mosteiro e a distribuição
das pílulas, além da inserção em horários
e dias variados, o que permitiu perceber os diferentes fluxos
.
Aos finais de semana o movimento
é maior, havendo inúmeros ônibus de excursões
vindas do interior do Estado. O Mosteiro parecia, nesses casos, parte de
um verdadeiro ponto de roteiro turístico e as pessoas chegam em
grandes grupos, com máquinas fotográficas e camisetas com
cores e estampas padronizadas. Há barraquinhas de artigos religiosos
na porta, vendedores de fitas de Frei Galvão percorrendo as filas
e vendedores de picolé. Durante os dias da semana o movimento é
menor, embora forme grandes filas. As pessoas vêm de diversas regiões
da cidade ou de outras cidades e podem estar em meio a outros trajetos
como o de compras na região da Rua 25 de Março
ou de ida ao consultório médico. Por contraste, o tempo de
permanência nos fins de semana é muito maior do que durante
a semana.
Próxima à sala de distribuição
há uma capela onde as pessoas entram para deixar suas preces, agradecimentos
e fazer suas orações. Há missas diariamente e também
missas especiais para comemorar o dia do Santo, aniversário da morte
de Frei Galvão (e todo o dia 23 de cada mês). Na grade da
capela há inúmeras faixas e cartazes, trocadas de tempos
em tempos pelos funcionários , agradecendo graças concedidas
pelo Santo.
As pílulas são feitas
pelas próprias freiras ali, no Mosteiro, em papel de arroz com os
escritos já mencionados, e colocadas três em um papel,
sulfite, dobrado, doados por um senhor. Em Guaratinguetá, cidade
natal do Frei Galvão, também há a distribuição
das pílulas. Lá, porém, segundo um informante, as
pílulas são feitas por leigos autorizados. É possível
perceber um caráter diferencial e preferencial pelas pílulas
feitas no Mosteiro. As mesmas podem ser enviadas pelo correio - basta enviar
um envelope selado com o endereço do destinatário - e o carteiro
carregando o malote é presença constante durante a semana.
Entretanto, parece não haver muito interesse nesse método,
pelo menos entre as pessoas que as buscam no Mosteiro – mesmo aquelas que
se deslocam de outros estados e cidades. Estar lá, buscá-las
pessoalmente, na roda de madeira e das mãos das próprias
freiras, parece imprimir maior noção de eficácia
às pílulas. Além do mais, se o caso é urgente,
não se sabe quanto tempo demorará sua entrega pelo correio.
O conjunto físico que compreende
o Mosteiro da Luz localiza-se numa área em processo de gentrificação.
Foi projetado por Frei Galvão e,assim, logo compreendemos sua primeira
atribuição sagrada, que é a de padroeiro dos arquitetos.
A adjacência do prédio com a Avenida do Estado cria um ambiente
extremamente ruidoso, que confronta qualquer pré-noção
de sagrado. Existe uma gradação do ruido à medida
que se aproxima da sala de distribuição. De um exterior ruidoso,
com sons de buzinas e de motores de carros, entra-se em um espaço
intermediário, a fila, no qual o ruido e a movimentação
ainda não se assemelham a um local sagrado, evidenciado pela quantidade
de vendedores ambulantes, crianças correndo, estátua viva,
entre outros, chegando-se à sala de distribuição,
na qual o som audível é o da roda rangendo e o das moedas
caindo do outro lado. A capela, por onde as pessoas passam antes ou depois
de irem à sala de distribuição das pílulas
é, no geral, um local silencioso, apesar do ruído da rua
e do trânsito que, certas vezes, invade a tranquilidade do ambiente.
É possível, algumas vezes, ouvir as orações
e cantos das freiras, proporcionando um ambiente agradável para
quem está fazendo suas orações ou agradecimentos ao
santo. É nesse ambiente que as pessoas deixam papéis com
preces e agradecimentos em uma cesta repleta de outros papéis, posicionada
em frente ao altar, próximo de diversos vasos de crisântemos.
Algumas pessoas ajoelham-se e rezam em frente ao altar e fazem novas doações
em uma das diversas urnas ali existentes. Há, também, um
recipiente com água benta com a qual pessoas se benzem e/ou,
muitas vezes, esfregam partes do corpo possivelmente doentes: pernas, peito,
costas, braços, como se fizessem uma verdadeira limpeza, retirando
algo sujo e doente. Algumas pessoas saem emocionadas e até chorando.A
interação entre usuários, frequentadores e funcionários
é grande e foi o lócus privilegiado de nossa pesquisa.
Pudemos constatar que, para a grande
maioria dos atores envolvidos, a pílula não cura e, sim,
ajuda. Muitos são os que desconhecem o procedimento de usá-la,
atraídos devido à constante divulgação nos
meios de comunicação, especialmente após a canonização
do Frei e da vinda do Papa. Outros são conhecidos por pegá-las
e vendê-las. Sobre a eficácia ou não das pílulas
existe uma pluralidade de concepções. Um dos funcionários
do Mosteiro explicita que a pílula é um auxílio, ineficaz
caso a pessoa não siga uma vida “regrada”, e que cura não
apenas doenças mas, também, “sentimentos ruins”; que realizou
o verdadeiro milagre ao trazer fiéis de volta à Igreja. Outros
ainda dizem que a pílula funciona por somar fé, oração
e pílulas, e que a última, sozinha, seria ineficaz. Esse
processo de diversificação das concepções sobre
a eficácia da pílula é estimulado pela popularização
da mesma após a canonização de Frei Galvão
e sua constante aparição na mídia. Pôde-se mesmo
observar pessoas que traziam receitas médicas para poder obtê-las.
Em todas, no entanto, é possível perceber que o sofrimento
e a busca de sua atenuação ou cura era evidenciada. Aqui,
podemos compreender essa pílula como um elemento do sistema religioso
geertziano, para quem os “símbolos [...] oferecem uma garantia
cósmica não apenas para sua capacidade de compreender o mundo,
mas também para que, compreendendo-o, dêem precisão
a seu sentimento, uma definição às suas emoções
que lhes permita suportá-lo [...].” (Geertz,
1978:120).
Compreendemos como esses atores buscam
as pílulas por diversos motivos, atestando a função
da religião como pedagogia do “como sofrer, como fazer da dor física,
da perda pessoal, da derrota frente ao mundo o da impotente contemplação
da agonia alheia algo tolerável, suportável [...]” (idem:119).
Porém, o uso das pílulas do Frei Galvão é um
evento histórico recente, assim como todos os milagres de certa
forma o são. Resta-nos entender como esse tipo de evento, que ocasionou
numa transformação cultural – o Frei se tornou em Santo devido
aos seus milagres - é também uma reprodução
cultural dos preceitos religiosos católicos. Para não cairmos
numa falsa sensação de evolucionismo histórico de
“progresso científico” ou mesmo da “cientificação
da fé”, lembramos que Sahlins (1987) salienta
que um mesmo fato histórico pode ter diferentes interpretações
“culturais”, ou seja: no nosso caso, o fato histórico – o milagre
e a comprovação da eficácia das pílulas – só
será analisado pelo lado daqueles que o tomam como verdade.
Se toda mudança é uma
continuidade, os modos de uso da pílula o atestam. Durante nosso
estudo ficou evidente que, se todos se dizem em busca de “ajuda” ou “cura”
através das pílulas, é sempre sublinhada a necessidade
de se seguir a novena e os preceitos católicos que são anteriores
a elas. Os modos de eficácia parecem estar inseridos também
nessa lógica, uma vez que não são poucas as pessoas
que afirmam que as pílulas funcionam como modo de reinserção
na vida e moral religiosa. Entretanto, a continuidade dos preceitos de
um bom religioso, que se afirma através do uso das pílulas,
guarda uma parte de inovação dentro do esquema dos usos e
eficácia das mesmas. No santinho distribuído com as pílulas,
o primeiro relato de eficácia é o caso de “um moço”
que sofria fortes dores devido a cálculo renal e as utilizou como
meio de aliviar a dor. Isso parece ir ao encontro do uso que as pessoas
fazem delas, concomitantemente, com seus tratamentos médicos e,
mesmo assim, dizem que a pílula funciona. Significativo é
o relato de uma senhora que, fazendo tratamento de câncer, relatou-nos
que a pílula funcionou para ela uma vez que ela não sofreu
tanto. A doença a ser curada parece estar mais relacionada às
concepções de badness (mal-estar) do que de sickness (doença)
(como definido em Hegenberg, 1998:90), já
que a cura opera não somente nos casos de doença física
mas sobretudo naquelas da alma.
O segundo caso de cura descrito no
santinho também nos parece uma “invenção cultural”
que se presta à reprodução. É o caso de um
senhor que pega as pílulas para a sua esposa que estava em trabalho
de parto de alto risco. Ficou evidente que muitas pessoas buscam as pílulas
para distribuição e não somente para consumo próprio.
É interessante pensar que partindo da idéia de que toda história
é, também, um mito, e vice-versa, a mitopráxis da
história das pílulas de Frei Galvão é um modelo
de e um modelo para, nos termos de Geertz (1978:105).
Além das concepções
dos pesquisados sobre o uso das pílulas, existe outro ponto importante
objetificado no modo como as mesmas são distribuídas e divulgadas.
Entre os inúmeros usuários das pílulas eram recorrentes
aqueles que já tinham recebido de um conhecido ou amigo e vinham
buscar mais para uso próprio. Outras pessoas, que utilizaram as
pílulas e receberam a eficácia vinham buscá-las para
distribuição como forma de agradecimento. Entretanto,
percebemos, como descrito acima, que a própria forma de distribuição
das pílulas contribui para a doação de parte delas,
uma vez que um, dentre os três pacotes distribuídos, é
suficiente para uma pessoa, constituindo um sistema de trocas de dádivas.
Assim cria-se um ciclo de trocas e doações, como se cada
pessoa receptora de um milagre quisesse depois retribuí-lo levando,
dessa forma, as pílulas para outras pessoas necessitadas.
O tema da dádiva nos reporta
a Marcel Mauss, que em seu Ensaio sobre a Dádiva,
analisa os sistemas de trocas de diversas sociedades. Essas trocas são
o que ele conceitua como fatos sociais “totais”: exprimem instituições
religiosas, políticas, morais, econômicas e estéticas
(2003:309). Em teoria são voluntárias, mas, na verdade, são
obrigatoriamente dadas e retribuídas, não sendo os indivíduos
que trocam, mas coletividades, pessoas morais.
Com isso é possível
fazer uma leve aproximação do sistema de troca-dádiva
do potlatch da Melanésia e Nova Guiné, citado por
Mauss, com o sistema de trocas encontrado no Mosteiro.
Teoricamente a pessoa não é obrigada a retribuir as pílulas
ou oferecê-las a outras pessoas necessitadas simplesmente por ter
recebido a pílula e a dádiva. Entretanto, como observamos
na fala de muitos frequentadores, a busca das pílulas não
era para si; uma vez já abençoados pelos milagres do santo,
sentiam-se na obrigação de levar as pílulas a outros
necessitados, para que essa outra pessoa também pudesse ser abençoada,
como ela outrora o fora. Mauss diz que o mecanismo
mais eficiente dessa “economia” é, justamente, essa obrigação
de dar e retribuir o presente recebido. E a natureza dessa troca por dádivas
é retribuir a outrem o que na realidade é parcela de sua
natureza e substância: “A dádiva não retribuída
ainda torna inferior quem a aceitou, sobretudo quando é recebida
sem espírito de reciprocidade” (p. 294). Essa tríade formada
pelo dar, receber e retribuir cria uma refinada economia de honra, prestígio
e retribuição. Assim, à medida que o milagre alcançado
era específico – como a cura do câncer – a “divulgação”
entre os necessitados era maior, uma vez que “a ‘devolução’
é sempre maior e mais cara” (p. 294). Por exemplo: uma senhora de
76 anos, que vai sempre à capela assistir às missas e pegar
as pílulas, contou-nos já ter visto muitos milagres acontecerem.
Curou-se de doenças para as quais os médicos não encontraram
solução, segundo ela, como dores nas pernas e alergias de
pele. Depois disso, passou a tomar frequentemente e levar as pílulas
para pessoas conhecidas. Ela conhece pessoas que se curaram de câncer
com o uso concomitante das pílulas e afirma que um de seus filhos
se curou de depressão profunda tomando as pílulas e fazendo
a novena. Ela diz ir todos os dias à missa, rezar diversos
terços por dia e jejuar dois dias por semana, pois são dias
especiais. Outra senhora de 64 anos, que trabalha na Casa dos Idosos, é
uma figura conhecida no mosteiro. Conversa com várias pessoas e
foi indicada pelo informante do Mosteiro para nos dar um relato. Ela diz
que tomou a pílula, pela primeira vez, quando surgiu um caroço
em seu seio. Após uma biópsia, que constatou ser só
um “caroço de gordura”, passou a buscar para quem pede e precisa,
especialmente para os senhores que vivem na Casa dos Idosos. Às
vezes, até manda as pílulas do Frei Galvão para a
Bahia, onde tem uma amiga cuja filha, aos 19 anos, parou de estudar e trancou-se
no quarto. Como os médicos não sabiam o que fazer,
foi curada dois meses após tomar as pílulas. O relato dessa
senhora é bastante interessante; apesar de não ser questionada,
parecia dizer exatamente aquilo que achava que era o esperado: ou seja,
relatos de cura.
Pudemos perceber que as pílula
são o elemento norteador e regulador da ação e do
pensamento dos frequentadores que, ao buscá-las como forma de pedagogia
do sofrer (Geertz,1978:119), entram num circuito de dádivas que
movem o dar, receber e retribuir da crença, tecendo políticas
da fé e estabilizando relações com pessoas, Santo
e Deus, pensando sua vida, moral e fé por meio delas.
Notas
Graduanda
em Relações Internacionais - USP
Graduanda
em Ciências Sociais – FFLCH/USP
Graduando
em Ciências Sociais – FFLCH/USP
Trabalho
apresentado no VII Graduação em Campo, realizado nos dias
8, 9, 10 e 11 de Setembro de 2009.
Em
fevereiro de 2008, a imprensa divulgou a descoberta de duas “múmias”
numa das paredes do Mosteiro da Luz durante uma descupinização.
Uma das hipóteses para a conservação dos corpos, segundo
arqueólogo Sérgio Monteiro da Silva, é a de que tenha
havidoum processo natural, favorecido pela alta ventilação
e baixa umidade, já que não há indícios de
que elas tenham sido, de fato, mumificadas. A imagem chocou pela surpresa
e beleza da cena, uma vez que o achado inesperado é inexplicável,
pois todas as “irmãs” eram enterradas em um ossário desde
o século XIX, e belo, porque uma delas encontrava-se com a cabeça
reclinada sobre o peito da outra.
Vide
imagem.
Roda
dos desafortunados eram aquelas nas quais as mães podiam colocar
crianças recém nascidas sem serem vistas e sem verem as freias.
Existem inúmeras rodas como essa ao redor da construção
do Mosteiro e segundo um dos informantes ela tem inúmeros propósitos,
até mesmo passar mantimentos.
O
“Museu” do Frei Galvão foi inaugurado como parte das comemorações
do primeiro aniversário da beatificação após
a sua canonização, em 25/10/2007. Apesar da contradição,
os quase dez anos que se estenderam entre a beatificação
e a canonização colocaram a data de beatificação
como mais importante em relação à recém canonização.
Contagem
de pessoas na fila, durante 30 minutos, em um final de semana e um dia
de semana.
23/09 domingo 10:20-10:50. Total
de 152 .

Região
de comércio popular.
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