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Entrevista com o Padre Christian Alexandria Agreda

Realizada no dia 14 de setembro de 2009

Padre Christian tem 51 anos. Nasceu em Cajamarca, no Peru, e foi ordenado em 1990. Trabalha em Takiwasi desde 2003, a pedido do Bispo de San Martin, que anteriormente realizava as missas em Takiwasi.

Padre Christian trabalha em Takiwasi na “reabilitação espiritual e moral das pessoas que querem ajuda para esclarecer seus problemas, suas dúvidas, sejam dúvidas de fé, na sua maneira de se comportar, coisas motivadas pelas sessões de ayahausca. Para isso estou aqui, para ajudar. Para muitas pessoas sua cura, sua liberação se dá pela parte espiritual”.

Para que se tenha uma pequena perspectiva, o trabalho em Takiwasi está baseado em três pilares: psicoterapia, uso de plantas e convivência ou ergoterapia.

A psicoterapia tem dois momentos básicos:

  1. sessão individual de terapia com psicólogo, que acontece uma vez por semana;
  2. oficinas como Biodança, Máscaras, Escaladas, etc. A psicoterapia faz a catalisação do entendimento adquirido, seja nas sessões de ayahuasca, seja nos outros momentos do tratamento.

Na convivência (ou ergoterapia), que vai das 08:30 às 12:30h, são realizados trabalhos físicos, como limpeza e manutenção de Takiwasi, etc., o que força os pacientes a trabalhar em grupo.

O uso de plantas se dá em três momentos:

  1. purgas: sessões de vômito visando a desintoxicação. São utilizadas várias plantas, como a yawar panga, o tabaco, a rosa sissa, a açucena. Cada planta tem uma característica distinta, e se utiliza visando limpar uma determinada parte do organismo e do psiquismo.
  2. dietas: as dietas são momentos de isolamento na mata. Os dietadores passam oitos dias sem ingerir sal nem açúcar (na verdade se come uma papa de arroz uma vez ao dia, acompanhada de plátanos verdes cozidos), tomando plantas. São utilizadas várias plantas, como a ushpawasha sanango, chiric sanango, mucura, ajo sacha, etc. cada uma, mais uma vez, com uma característica e efeito, visando uma determinada ação terapêutica;
  3. as sessões de ayahuasca, onde se ingere uma bebida preparada através da infusão de pedaços de Banisteriopsis caapi com folhas de Psychotria viridis (ver Mercante, 2006 para maiores detalhes).

Existe uma literatura ampla sobre Takiwasi, e não é meu objetivo aqui realizar uma revisão da mesma. Para maiores detalhes ver: Giove (2000), Mabit, Giove & Vega (1995) e Mabit (2002, 2006, 2007).

voltar ao topoMarcelo: Seus superiores então sabem que o senhor participa nas sessões de ayahuasca?

Sim, sim. Foi o Bispo, que já morreu, que me deu este trabalho, e o atual Bispo sabe que é um trabalho [o trabalho de Takiwasi] que merece toda ajuda, por que é um trabalho que ajuda as pessoas a se reabilitarem, não apenas nas suas enfermidades corporais, mas também nas espirituais e morais. As pessoas descobrem suas enfermidades por meio do tratamento da Mãe Natureza, do tratamento com as plantas. Elas descobre que a maioria dos males, 90, 98% são o resultado de uma história de problemas de maus espíritos que precisam ser removidos.

voltar ao topoMarcelo: No Brasil se bebe muita ayahausca, mas nunca pensei que veria um Padre participando de uma sessão. Isso é comum aqui no Peru?

Não, isso é uma exceção. Por que razão? Porque aqui há um sistema de conhecimento, somos conscientes do trabalho dos curandeiros. Desta forma, tomamos consciência que as plantas falam de Deus, falam da fé, e que ao tomá-las nos tornamos mais conscientes de como fazer o tratamento. O que estamos fazendo com os pacientes é uma obra de Deus. Pouco a pouco os curandeiros também têm tomado consciência que a planta é a força da fé e a força da natureza. Deus trabalha, Deus cura, Deus liberta através também da força da Natureza. O curandeiro tem também que ordenar sua vida, ter uma vida consagrada, um matrimônio, uma vida de piedade, indo à Missa, fazendo orações, lendo a palavra de Deus, enfim, conhecendo essa fé, alimentando essa fé. A Mãe Natureza exige que os seres humanos conheçam mais a fé, porque aí justamente está toda a força. Se não tens fé, podes tomar toda a ayahausca do mundo, ver todas as coisas, e continuas igual. Naquele momento te sentes mais leve, sentes uma alegria, estás liberado, mas depois de um mês voltas a sentir-mal. Se não é a fé, se não é a parte espiritual você não terá muita força.

voltar ao topoMarcelo: Você toma purgas?

Sim. Tomo Yawar Panga, Rosa Sisa, Tabaco. De acordo com a indicação dos terapeutas. Sigo seus métodos, me submeto. Eu tenho confiança. Da mesma forma que eu entendo da parte espiritual e moral, o curandeiro também sabe o que dar aos seus pacientes. E eu sou um paciente igual aos outros, não sou superior nem inferior, sou um a mais. Sou um paciente. O mesmo se passa com as dietas, eu tomo o que eles me dizem para tomar.

voltar ao topoMarcelo: Para que servem as purgas?

As purgas servem para limpar. Se és uma alcoólatra, saem seus males, se és um “fumador”, o mesmo, se és um homem desordenado, também. E limpa a mente, o coração, os sentimentos, depende do que estás tomando. As plantas mestras deixam seu corpo limpo, ajudam a limpar a parte mais difícil, nosso lado escuro, que não conhecemos.

A primeira vez que tomei Yawar Panga, ela quase me mata. Na segunda vez, a mesma coisa. Na terceira vez ela me tratou muito bem. Compreendi que a Yawar Panga nos faz mal quando estamos muito intoxicados, e se depois de tomá-la você volta a se sentir o mesmo, é porque tu estás te intoxicando na sua peleja com seus diabos, que estão dentro de ti: você não quer removê-los. Se você se aproxima da planta com carinho, dando autorização para que ela remova estes diabos, ela não te trata mal. Porque os diabos saem por si mesmos, e a planta não tem que retirá-los.

voltar ao topoMarcelo: Para que servem as dietas?

Para muitas coisas. Para baixar de peso. Para baixar colesterol, mas também para moldar o espírito, dar um tempo para que a pessoa se desintoxique de tantas coisas, e deixe que a planta trabalhe. Não é somente o trabalho físico, mas também o espiritual e o moral da pessoa. Todas as dietas que fiz marcaram minha vida. Muita coisa que nas sessões de ayahausca estava meio nebulosa, nas dietas saíram todas.

voltar ao topoMarcelo: Para que servem as sessões de ayahausca?

Para limpeza. A sessão é uma preparação para ver tudo que tens. E se são coisas muito fortes, tens que vomitar. E se não são fortes, te prepara para que na segunda sessão já vás trabalhar no que tens que liberar. A planta te faz sentir, te faz ver o que tem sair, e tu tens que tomar tuas decisões. Se você não se decide, o problema não será resolvido, porque depende de ti. A planta, nas purgas, te limpa, e a ayahuasca te leva um pouco mais além, mais elevado, mais forte, te faz entrar no lado escuro da vida, o lado desordenado, que te molesta, o que realmente sentimos que nos faz mal. Nas sessões, primeiro se tem um panorama, e depois entras com as decisões de mudar as coisas.

A primeira vez que bebi ayahuasca foi aqui em Takiwasi, e eu não beberia em nenhum outro lugar. As plantas trabalham, seja lá onde for, mas eu respeito muito o curandeiro. Se é um curandeiro que não conheço, não tenho garantias. Porque são muitas energias.

voltar ao topoMarcelo: O que são as visões da ayahuasca?

Se dizem “visões” porque vês tudo, vês teu lado escuro, o lado escuro da tua vida. Vês o que tu fizeste, o que estás fazendo, o que podes prevenir, o que deves corrigir. Às vezes vês coisas bonitas, que deves buscar, deves entender, deves moldar. Significa, algumas vezes, receber a Deus, ver a Deus, algumas pessoas vêm Deus, vêm a Virgem. O que significa isso? Significa que tens que buscar tua fé, organizar tua vida, ir à igreja. Ver tudo isso significa para mim, que a Mãe Natureza pede que o homem enfoque sua vida naquele que lhe deu seu ser, naquele que o mantém, de onde vem todas as energias, quem devemos encontrar e esperar tudo que necessitamos, essa força que cura, que transforma, que libera. A Mãe Natureza, no caso a Mãe Ayahausca, trata de enfocar na vida do homem, para que o homem descubra que o é ele que ele tem, na medida que vai aceitando, vai saindo seus problemas. E se não quer, nada acontece. Mas se a pessoa quer, e dá esse passo, se dá conta, ela vai te limpar. Tens que vomitar, que eliminar tudo.

Eu descobri depois de várias sessões, depois de tantas purgas, de tanta coisa, a ayahausca me fez vez que eu estava na boca do dragão. Que estava caindo ao fundo. Pouco a pouco fui descobrindo o que eu desconhecia. Eu sabia de moral, sabia de doutrina, que está tudo muito bem escrito, a santa madre igreja deixou tudo muito bem escrito. Não há equívocos em termo de doutrinas, mas sim há coisas mal entendidas, mal compreendidas, mal vividas. Na vida real se vive de costas a uma verdade, que muitas vezes, intelectualmente, a sustenta, a explica, a defende, mas na vida real, na parte real, na parte prática, na parte emocional, na parte sentimental, não se combina isso. Então passamos a entender que aí está a armadilha do mal. Que eu podia manipular, fazer tantas coisas, mas puder ver nessa visão que estava na garganta do dragão, que eu estava caindo ao inferno. Tinha que sair, sair, sair para onde? Desta escuridão para a luz, para aprender a ser um verdadeiro sacerdote, o que faço, como faço, e onde estou. Ter mais cuidado na forma de fazer as coisas na vida real.

voltar ao topoMarcelo: Qual a diferença de papéis que tem a missa e a ayahuasca, onde se separam e onde se juntam?

Se separam em tudo. Ayahuasca é ayahuasca, missa é missa. Ayahuasca é apenas uma sessão. Uma criatura, uma coisa pequena, mas com uma porta infinita. A eucaristia é uma coisa que também é pequena, mas aí está presente Deus, direta, precisa. Tem que se viver a fé. Aí estão os que querem, os que sabem, os que procuram, e se não sabem, perguntam. Na ayahuasca vão aqueles que às vezes nem sabem, vão porque querem se curar. Se vemos a partir da perspectiva de Deus, as duas são fontes, a coisa principal é a eucaristia, mas não é o único, porque a Natureza também é fonte.

voltar ao topoReferências

GIOVE, Rosa. Curanderismo amazónico en el tratamiento de toxicomanias. La liana de los muertos al rescate de la vida. Experiencia del centro takiwasi de 1992 a 1999. Tarapoto: Takiwasi, 2000.

MABIT, Jaques; GIOVE, Rosa; VEGA, J. Takiwasi: The use of Amazonian shamanism to rehabilitate drug addicts. In WINKELMAN, Michael & ANDRITZIKY. W. Yearbook of cross-cultural medicine and psychotherapy 1995. Theme Issue: Sacred plants, consciousness, and healing. Cross-cultural and interdisciplinary perspectives. Berlin: Verlag für Wissenschaft und Bildung, 1995, p. 257-285.

MABIT, Jaques. Using indigenous medicinal knowledge to treat drug addiction. MAPS Bulletin, ano 12, número 2, p. 25-32, 2002.

MABIT, Jaques. Ayahuasca helps cure drug addiction, 2006. Disponível on-line em www.takiwasi.com/docs/arti_ing/ayahuasca_helps_cure_drug_addiction.pdf. Capturado em 14 de fevereiro de 2006.

MABIT, Jaques. Ayahuasca in the treatment of addictions. In WINKELMAN, Michael; ROBERTS, Tom, Psychedelic medicine. New evidence for hallucinogenic substances as treatments, Volume 2. Westport: Praeger Perspectives, 2007, p. 87-106.

MERCANTE, Marcelo Simão. Images of healing: Spontaneous mental imagery and healing process of the Barquinha, a Brazilian ayahuasca religious system. Tese (Doutorado em Ciências Humanas), Saybrook Graduate School and Researhc Center, San Francisco, 2006b.

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