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“Meio Ambiente e Políticas Públicas”

André Drago e Bruna Angotti

Mestrandos do PPGAS - Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP

“Meio-ambiente” – o termo parece, hoje, ocupar lugar de honra e pauta nos mais diversos debates. De boca em boca, transforma-se numa daquelas preocupações onipresentes, obrigatórias: o capital parece finalmente interrogar-se sobre as condições e conseqüências de seu advento contínuo, e cumpre decidir como orçar e repartir as perdas ambientais – algumas inestimáveis; solicita-se ao Estado, e estes se solicitam entre si, a tomar o partido de um desenvolvimento sustentável em suas políticas públicas; organizações e associações da sociedade civil, nacionais e internacionais, partem em defesa dos animais, de ecossistemas e de populações que, supõem alguns, guardariam com a natureza um vínculo fundamental e obliterado entre “nós”; as próprias fronteiras ontológicas entre “natureza” e “sociedade/cultura” são interpeladas; “verde”, “reciclável”, “da floresta” adquirem a potência de qualidades morais, senão estéticas.

Essa vertigem “verde” não passa despercebida entre os antropólogos: os trabalhos apresentados a propósito do open space “Meio-Ambiente e Políticas Públicas” no VIII Graduação em Campo (2009) demonstram-no. Pelo menos em boa parte deles, percebem-se tentativas de refletir acerca dessa “explosão de discursividades”, como disse Ana Flávia Pulsini, e do significado que a noção – “Meio-Ambiente” – assume no fazer político dos mais variados atores – Estado, cidadãos, ambientalistas etc. Assim, Amaral, Bessa & Csemark (Fazendo política com a natureza: água e ambientalismos no Distrito Federal) perguntam-se “como a diversidade de sujeitos que possuem em comum o signo ‘ambientalista’ fazem política sobre a água no DF?” – ou ainda, que seria a “água” nesses discursos divergentes que ora se opõem ora confluem? Ozaias Antônio Batista (O discurso dos moradores do bairro de Cidade Nova, Natal/RN, em torno das políticas de saneamento: uma visão antropológica), por sua vez, tenta captar a visão de moradores de um bairro periférico em Natal concernente às políticas de saneamento a eles dirigidas e entender suas reivindicações. Percebe, ele próprio recorrendo a um “ambientalismo” implícito, que demandam “projetos de cunho imediatista, os quais devem interferir diretamente na realidade social dos residentes”. Ivan Trizi Amorim (O bairro da Vila Carioca como uma comunidade contaminada), de modo semelhante, dedica-se ao estudo dos efeitos “da poluição” no bairro da Vila Carioca (SP) e “busca trazer os impactos sociais e psicológicos que uma contaminação pode trazer para a vida de um grupo de pessoas”. De sua parte, Tâmara Lopes Martins Camargo (O Novo Sentido de Comunidade na Experiência Etnográfica da Ecovila Santuário Ecológico da Cafuringa) considera movimentos que, no interior de ambientes urbanos, “buscam formas alternativas de sentido e organização, sem necessariamente romperem laços com o contexto citadino”; trata de saber como as pessoas que compõem a tal Ecovila “dizem ressignificar [sic] suas experiências ambientais, psíquicas, rituais, afetivas, entre outras”. Incorre, obviamente, numa crítica à “relação histórica [...] que nossa sociedade desenvolveu com o Meio Ambiente”: “existe um arsenal tecnológico para se afirmar a primazia da cultura na modulação dos ambientes, colocando os indivíduos numa suposta distância em relação à natureza, apesar destes serem também organismos naturais”. Enfim, a boa pesquisa de Ana Flávia Pulsini Louzada Bádue (Décroissance: entre economia, política e meio ambiente) investiga “negociações e conflitos na construção do conceito de natureza e das propostas ambientais a partir do movimento francês Décroissance”. A conclusão que retira de seu material particular poderia, em verdade, figurar como nossa própria impressão da massa de estudos apresentados: o conceito de meio ambiente, nas variadas formulações discursivas em que o encontramos, não é fechado, mas cada ator político parece esforçar-se em delimitá-lo, como se fosse, a todo o momento, perdê-lo para os discursos contra os quais se colocam.

É preciso ainda dizer algumas palavras a propósito de outros dois trabalhos apresentados, mais ligados ao pólo “Políticas Públicas” que ao de “Meio Ambiente” de nosso open space. Marassi & Siqueira (Política de Remanejamento e Desempenho Escolar) avaliam negativamente o efeito da notória política de remanejamento – distribuição de alunos conforme comportamento individual – sobre o desempenho escolar de crianças e adolescentes numa escola de Juiz de Fora (MG). Lembra-nos que “o desempenho escolar não depende dos dons individuais, mas da origem social dos alunos, ou seja, [que] os alunos não são indivíduos abstratos que competem igualitariamente, mas, atores socialmente constituídos”. E conclui: “o grau de sucesso alcançado pelos alunos não poderia ser explicado por seus dons pessoais”. Kellin Greize Segalla Zornita (O trabalho de fabricação do sentido) dedica-se, por seu turno, à investigação de “um processo de construção coletiva dos sentidos de uma experiência compartilhada: a execução de um trabalho proposto de um projeto de intervenção social. O foco de observação desse processo incide sobre a prática de uma pesquisa-ação, proposta institucionalmente pela Incubadora de Cooperativas populares da USP aos atores envolvidos no projeto”.

Gostaríamos de concluir expondo brevemente a questão que, no também breve debate, apareceu com mais força. Como parece que trabalhando com “políticas públicas” deve-se, sempre, avaliá-las – seus impactos, a perspectiva dos cidadãos por elas atendidos a seu respeito –, as controvérsias orbitaram em torno do papel da crítica em antropologia. Diante do que lhes parece ser como que um imperativo em antropologia contemporânea, a saber, o de seguir o nativo, dar-lhe voz, remeter-se ao seu discurso, discutiam qual seria o espaço reservado ao próprio antropólogo, aos seus posicionamentos. Ora, parte destes pesquisadores empenha-se mais que “academicamente” em seus temas: tomam, eles próprios, diante dos sujeitos políticos que estudam, uma posição e parecem igualmente advogar, cada qual, por suas próprias noções de “meio ambiente” – logo entende-se a premência atribuída à crítica. Difícil dizer se chegaram, quanto a isto, a um consenso, ou ainda, o que cada um levou consigo “de volta para casa”. No que concerne a nós, o contato revelou-se instrutivo na medida em que permitiu-nos acessar um tópico que dificilmente vem à tona em encontros como este, mas que parece afligir e preocupar, verdadeiramente, estes iniciantes. Fizeram-nos o obséquio de recolocar em nossas cabeças uma pergunta que pode, no curso da idade e do labor cotidiano, escapar à reflexão, a saber: “qual é o lugar da crítica em antropologia?”.