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“Periferias” e Relações Urbanas

Carlos Gutierrez e Pierina Soratto

Mestrandos do PPGAS - Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP

O Open Space “Periferias” e Relações Urbanas, realizado no dia 11 de Setembro, contou com trabalhos que abordaram, em diferentes aspectos, as relações urbanas e simbólicas entre periferia e centro, além dos problemas relacionados à normatização do espaço público. A disputa entre agentes sociais, entidades religiosas e Estado pode ser encontrada no trabalho Melquisedec e moradores de rua: interação social entre dois grupos urbanos, da UFU – Universidade Federal de Uberlândia, dos alunos Aline Aparecida Miguel, Clarissa Araújo Faria, Danielle Vieira Lima e Marcelo Rodrigues Lemos.

O objeto da pesquisa, exposto na apresentação, aborda a interação do ministério Melquisedec, de orientação católica, e moradores de rua da cidade de Uberlândia. Por meio da observação participante, os pesquisadores observaram a distribuição de alimentos à população de rua, a doação de roupas e também o encaminhamento de dependentes químicos a clínicas de recuperação. No debate que se seguiu, a sugestão dada foi recortar o local onde se dá a interação entre os diversos atores, no caso, a Praça da Bíblia, área da cidade com maior número de moradores de rua. Vale salientar também a importância da análise das estratégias utilizadas pelos religiosos em sua aproximação.

Outro ponto importante para o aprimoramento do trabalho é a presença do Estado, que deve ser abordada, pois sua ação normativa do espaço, que consiste na retirada dos moradores das ruas, por meio do uso da força policial, é um entrave para a ação missionária e também afeta a sociabilidade estabelecida pela população de rua. Os moradores, segundo observação dos autores, ressignificaram a rua como local para a realização de brincadeiras, cantos e dança, no que são apoiados pelos religiosos.

A pesquisa não deve deixar de lado o embate existente entre a esfera do poder público e a esfera da religião, na disputa pelo espaço urbano, traço marcante do presente trabalho. Além disso, os autores devem observar a questão da eficácia do processo de ressocialização, no caso, tentar compreender porque a maior parte dos moradores de rua abandona a instituição de recuperação e retorna às ruas da cidade.

A questão da moradia e legalidade de loteamentos também foi abordada no Open Space, no trabalho As disputas pelo sentido da história: o processo de regularização dos condomínios horizontais do Bairro Grande Colorado, Distrito Federal, da aluna Herika Chagas, da UnB – Universidade de Brasília. A autora coloca como objeto da discussão o conflito em torno da posse de terras e os agentes envolvidos nesse processo: moradores, governo e imobiliárias, associadas aos que se intitulam como proprietários legítimos. “As ideologias, por oposição ao mito, produto coletivo e coletivamente apropriado, servem interesses particulares que tendem a apresentar como interesses universais. (…) As diferentes classes e frações de classe estão envolvidas numa luta propriamente simbólica para imporem a definição do mundo social mais conforme com seus interesses” [1].

A tentativa de construir um determinado discurso histórico, segundo os esquemas de percepção e interesses dos agentes envolvidos no processo, visa produzir uma verdade reificada e incontestável. Logo, a fala dos diversos atores é extremamente importante para a pesquisa, a fim de compreender as estratégias legitimadoras de cada um, e as regras que regem esse processo.

Em seu trabalho, a aluna divide os condomínios, que se encontram em áreas contestadas, em três categorias: os de classe baixa, média e alta. Foi sugerido à autora que analisasse a estrutura de cada um, como estão dispostas as casas no terreno, se há equipamentos de lazer para os moradores, espaços de encontro que permitam o encontro e a discussão em torno da regularização da moradia, já que a pesquisa se propõe a analisar, por meio da observação participante, a dinâmica das assembléias.

A importância da análise dos condomínios de classes populares está no conflito existente em torno de moradores e governo sobre a questão da urbanização da área, já que ambos têm visões divergentes sobre o projeto urbanístico a ser adotado, o que consiste em um material extremamente relevante para a pesquisa.

O conceito de periferia não pode ser definido apenas por meio de uma noção espacial, mas também como unidade definida de maneira negativa pela dominação simbólica e econômica, mas os que dela participam podem lutar para alterar sua definição e inverterem o sentido e o valor das categorias estigmatizadas (BOURDIEU, P. 2006). O trabalho da aluna Evelyn de Almeida Campos da Universidade Estadual do Norte Fluminense visa compreender o funcionamento do mercado informal imobiliário nas regiões ditas favelizadas (que estão organizadas de maneira horizontal, diferentemente do encontrado na capital do estado do Rio) das cidades de Campo dos Goytacazes e também Macaé. A pesquisa pretende amparar os dados na recuperação histórica das comunidades, sua expansão e surgimento, por meio da obtenção de dados qualitativos, o que exige a realização da etnografia.

A inserção no campo deve ser motivo de importância para a pesquisa, já que, segundo a autora, a principal dificuldade etnográfica é justamente a inserção em campo e o trânsito entre os mais distintos pedaços[2] da favela, pois a presença das facções criminosas que controlam o tráfico de drogas tem todo um conjunto de regras que, em um primeiro momento, limitam a circulação do observador, dificultando a realização da pesquisa antropológica.

Um problema que deve ser abordado é o próprio uso da categoria favela. De acordo com a aluna, foi realizado um questionário com os nativos, para tentar descobrir como chamavam o local em que moravam e estabeleciam suas redes de sociabilidade. O nome mais votado foi favela. É importante ressaltar a importância da realização de entrevistas e conversas informais com moradores dessas regiões, já que a presença do pesquisador, com questionários e fichas de perguntas, pode induzir a resposta dada pela população.

Com base na pesquisa de campo, a aluna pode constatar que as regiões que contavam com a presença do tráfico de drogas eram denominadas favelas, desvalorizando os imóveis dessa área. Além disso, o trabalho, ainda em andamento, percebeu que havia um movimento de trânsito dentro da favela, para os locais considerados como “não favela”, o que significa uma ascensão social, de acordo com os parâmetros culturais daquela localidade.

No trabalho “Entre a favela e o ‘asfalto’: medo, decadência e ascensão social para moradores do Rio de Janeiro”, Marcella Carvalho, estudante da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), procurou analisar o fenômeno social que denominou como “mercados imobiliários limiares”, os quais consistem basicamente em moradias afetadas pela desvalorização decorrente de sua proximidade da favela, bem como a valorização de imóveis que se localizam mais próximo das vias urbanas asfaltadas.

Segundo Marcella Carvalho, os moradores mais antigos das favelas conseguem comprar imóveis no “asfalto” experimentando um sentimento de “ascensão social”, ao mesmo tempo em que contribuem para a própria desvalorização desses mercados imobiliários. Apesar de conseguirem o dinheiro necessário para adquirir propriedades nesses locais vizinhos das favelas, essas pessoas ainda carregam a marca simbólica de já terem sido “faveladas”.

A grande causa da desvalorização das moradias localizadas dentro ou nas proximidades das favelas diz respeito ao medo ou a sensação de insegurança que esses espaços provocam. A caracterização desses lugares como “perigosos” altera as preferências pelas moradias e, conseqüentemente, impõe mudanças e oscilações no mercado imobiliário. Portanto, o trabalho de Marcella Carvalho mostrou como o mercado imobiliário pode ser afetado pelo significado simbólico atribuído aos lugares e como isso modela a própria lógica urbanística da cidade do Rio de Janeiro.

O debate desenvolvido no Open Space em questão também contemplou o tema da construção da identidade de imigrantes bolivianos do Bairro dos Pimentas, localizado na periferia de Guarulhos. A discussão focalizou como imigrantes bolivianos conseguem articular seus valores e modos de vida com a dinâmica cotidiana da cidade na qual foram buscar as condições para a sua subsistência material e cultural. A discussão permitiu analisar como ocorre a reivindicação por uma singularidade enquanto nação estrangeira entre os bolivianos que estabelecem atividades como feiras e mercados informais na periferia urbana de Guarulhos.

Podemos concluir que a discussão fomentada pelo Open Space Periferias e Relações Urbanas contribuiu para a análise da construção do espaço urbano por meio das diversas estratégias dos atores sociais. Não apenas as grandes instituições sociais como o Estado e a Igreja Católica, por exemplo, figuraram como os grandes articuladores e modificadores da dinâmica urbana, mas também atores sociais mais específicos, como moradores de favelas, de condomínios e imigrantes apareceram nos trabalhos analisados como fundamentais para entendermos os diversos jogos de poder, a normatização do espaço e a atribuição de significado para as diversas relações urbanas.

[1] BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. p. 11.

[2] Ver MAGNANI, J. Festa no Pedaço.