| Entre instituições: breve reflexão sobre o fazer etnográfico |
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Fábio Mallart Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP - Universidade de São Paulo. O presente texto, tendo como base as reflexões suscitadas acerca dos trabalhos apresentados na mesa Entre Quatro Paredes, pretende discorrer sobre determinadas questões que perpassam tais produções textuais. Em um primeiro momento, parece profícuo atentar para a própria expressão que designa a mesa, uma vez que Entre quatro paredes remete ao modelo goffmaniano de instituição total [1], com suas tendências ao fechamento e oposição entre dentro e fora. Como bem observa Raphael Sabaini em “Entre - presídios: troca e hierarquia nas instituições prisionais de Itirapina, SP”, trabalho no qual o autor analisa a figura do agente de segurança penitenciária, enfatizando as relações hierárquicas estabelecidas entre tais atores sociais, as fronteiras que delimitam as instituições prisionais não mais se encerram em si mesmas, a oposição entre interno e externo dilui-se e passa a caracterizar-se pelo intercâmbio entre dentro e fora. No entanto, tal crítica à noção proposta por Erving Goffman torna-se anacrônica se se esquece das profundas mudanças histórico-sociais que afetaram as instituições de controle social nas últimas décadas, em especial, as prisões. No que concerne às instituições prisionais brasileiras, como enfatiza Sérgio Adorno na introdução à obra “Valetes em slow motion”, “a tradicional clausura das prisões em torno de si, fonte inesgotável de tensões entre o mundo externo e o mundo interno, cede pouco a pouco lugar a uma maior permeabilidade, representada pelo respeito ao direito de correspondência, à maior circulação de jornais e revistas e sobretudo ao acesso à TV, cuja simples presença promove significativas mutações na organização cotidiana dessas agências de controle social” (1998:14). Vale ressaltar que o surgimento de facções criminosas, como é o caso do Primeiro Comando da Capital (PCC), atuando no interior de presídios, bem como fora deles, possibilitou transformações significativas em relação ao sistema penitenciário. Na pesquisa supracitada, realizada em Itirapina, município localizado no interior do Estado de São Paulo que abriga duas instituições prisionais [2], o autor chama a atenção para dados interessantes: além do agente penitenciário exercer uma profissão que goza de status na cidade, boa parte dos jovens de Itirapina almeja ocupar o cargo no futuro, o que elucida uma vez mais a profícua conexão entre dentro e fora. Além disso, Sabaini nota que todos os membros da diretoria possuem moradia no interior de ambos os estabelecimentos prisionais, enfatizando que estes são os únicos funcionários que usufruem de tal benefício. Ao postular que o agente penitenciário é a principal ponte entre dentro e fora das prisões, o pesquisador salienta que tal ator social circula entre o legal e o ilegal, uma vez que transita entre os detentos, classificados como pertencentes ao ilegal, e as relações extramuros com amigos e parentes, entendidos como pertencentes ao universo do legal. Tal classificação necessita ser melhor problematizada pelo autor, haja visto que estas são categorias situacionais e, portanto, mobilizadas de maneiras distintas pelos diversos atores sociais envolvidos no cotidiano da prisão. O acesso do pesquisador às instituições prisionais, hospitalares e escolares apresenta-se como o primeiro obstáculo à realização de estudos, ainda que, atualmente, a dificuldade de inserção pareça reduzida. Aos entraves burocráticos, que muitas vezes incluem autorizações judiciais, soma-se a relação nem sempre amistosa com os diversos atores sociais que circulam em tais espaços institucionais. Neste sentido, torna-se importante refletir acerca da inserção do pesquisador em campo. Em “Na companhia do vírus: os desafios de uma experiência antropológica no Hospital das Clínicas de Botucatu”, Juliana Corvino propõe-se a discorrer sobre o cotidiano hospitalar vivenciado por crianças e adolescentes portadores do vírus HIV/AIDS, observando a interação entre estes atores sociais e a equipe multiprofissional que atua no hospital. A autora enfatiza que uma das maiores dificuldades para pesquisadores que realizam estudos na área médica é justamente a inserção em tais equipes. O estudo proposto por Márcio Zamboni, Maria Cristina Leite e Otávio Câmara, “Concepções de pessoa no C.E.I. Aluysio de Menezes Greenhalg”, corrobora com tal problemática. Se, em um primeiro momento, os pesquisadores narram os empecilhos e o consequente fracasso na tentativa de adentrar em uma instituição escolar, posteriormente, ressaltam a relativa facilidade encontrada ao realizarem uma segunda incursão etnográfica em uma instituição educacional distinta. Tal contraste sugere a seguinte questão: afinal, o que faz com que o antropólogo seja aceito em determinados contextos? Refletir a respeito da inserção do etnógrafo em campo implica em problematizar a posição que este ocupa em um contexto específico. O lugar em que o pesquisador está situado, ou seja, a posição de onde observa, configura-se como uma questão metodológica chave. A pesquisa em tais ambientes institucionais pode propiciar o acesso a regras de conduta e categorias específicas que, mobilizadas pelos atores sociais, organizam o cotidiano das instituições. É o caso, por exemplo, do trabalho desenvolvido por Tássia Gusmão em “Envelhecimento em instituição de longa permanência”, em que a autora analisa o processo de envelhecimento em tal contexto, assim como as relações que os idosos mantêm com seus familiares. No abrigo pesquisado, categorias “nativas” como independência e autonomia operam como um sistema classificatório que permite aos funcionários distinguir os idosos que ali se encontram e, portanto, agrupá-los. A reflexão acerca das categorias agenciadas pelos atores sociais implica em um constante distanciamento por parte do antropólogo no que concerne às noções de senso comum. A categoria idoso, por exemplo, não deve ser apreendida em si mesma, na medida em que é produto de um longo e lento processo histórico. Categorias como esta, assim como menor infrator, criança ou adolescente, não se constituem apenas no interior de seus respectivos estabelecimentos institucionais, mas surgem imbricadas em um conjunto de processos históricos que articula instituições judiciárias, de assistência social, escolares, etc. Como enfatiza Pierre Bourdieu, “por não submetermos a linguagem comum, principal instrumento da 'construção do mundo dos objetos', a uma crítica metódica, expomo-nos a considerar como dados determinados objetos pré-construídos na e pela linguagem comum” (2004:33). Tão importante quanto a problematização relativa à inserção do antropólogo em campo é a reflexão acerca dos métodos de pesquisa empregados pelo etnógrafo. Refiro-me, especialmente, à realização de entrevistas, questão suscitada pelos pesquisadores ao longo das discussões. Chama a atenção o fato de que os autores se propõem a trabalhar com distintas técnicas de entrevista, tais como a utilização de roteiro semi-dirigido, entrevista informal e questionário, mas não problematizam suas respectivas escolhas. Bourdieu, ao elucidar os problemas relativos à interação entre o pesquisador e o outro que este interroga, explicitando os princípios colocados em prática na pesquisa, enfatiza que “muitas dezenas de anos de prática de pesquisa sob todas as suas formas, da etnologia à sociologia, do questionário dito fechado à entrevista mais aberta, convenceram-me que esta prática não encontra sua expressão adequada nem nas prescrições de uma metodologia frequentemente mais cientista que científica, nem nas precauções anticientíficas das místicas da fusão afetiva” (1997:693). Ponderar sobre a relação que se estabelece entre pesquisador e sujeitos pesquisados ao longo da prática de entrevista significa atentar para a dissimetria que está no princípio de tal relação. Basta levar em consideração o fato de que se a entrevista pode ser entendida como uma espécie de jogo de perguntas e respostas, aquele que a inicia, no caso o pesquisador, estabelece a regra do jogo, “(...) é ele quem, geralmente, atribui à entrevista, de maneira unilateral e sem negociação prévia, os objetivos e hábitos, às vezes mal determinados, ao menos para o pesquisado” (BOURDIEU: 1997:695). A esta dissimetria inicial soma-se, como ressalta o autor, a dissimetria social proporcionada pelas distintas posições ocupadas, tanto pelo pesquisador quanto pelos sujeitos entrevistados, em relação às diferentes espécies de capital, em especial, o capital cultural. Outra questão que merece atenção redobrada por parte do pesquisador refere-se à formulação das perguntas que serão feitas aos entrevistados. As informações anteriores obtidas pelo antropólogo no que diz respeito às condições sociais das quais o entrevistado é o produto são fundamentais para a formulação de perguntas, assim como para a observação das práticas cotidianas. Afinal, a compreensão das categorias mobilizadas em um determinado contexto é indispensável para que o pesquisador possa analisar a ação dos agentes envolvidos. Ao ter em mente que “(...) não há perguntas neutras” (BOURDIEU, 2004:55), o pesquisador necessita submeter seus próprios questionamentos a um intenso exercício crítico. Caso contrário, pode incorrer no erro de, por exemplo, induzir o entrevistado a respostas que estão implícitas, de antemão, em suas próprias perguntas. “O sonho positivista de uma perfeita inocência epistemológica oculta na verdade que a diferença não é entre a ciência que realiza uma construção e aquela que não o faz, mas entre aquela que o faz sem o saber e aquela que, sabendo, se esforça para conhecer e dominar o mais completamente possível seus atos (...) ” (BOURDIEU, 1997:694). Ao longo do texto procurei elencar algumas questões que perpassam os trabalhos apresentados. O foco central de minha argumentação esteve em torno da inserção do antropólogo em campo, assim como das técnicas metodológicas empregadas pelo pesquisador em determinado contexto, em especial, a realização de entrevistas. Considero que tais questões são relevantes e devem ser insistentemente problematizadas, pois implicam no estatuto do conhecimento científico produzido. Bibliografiavoltar ao topoBOURDIEU, Pierre. A miséria do mundo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 1974. GOIFMAN, Kiko. Valetes em slow motion. Campinas: Edunicamp, 1998. [1] Goffman define o termo “instituições totais” como “[...] um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada”. O autor classifica as instituições totais em cinco grupos: 1) asilos, albergues e orfanatos; 2) hospitais psiquiátricos e sanatórios; 3) prisões e campos de concentração; 4) internatos, quartéis e campos de trabalho e 5) conventos e mosteiros. [2] Sabaini refere-se às penitenciárias Dr. Antônio de Queiroz Filho (PI), que conta com aproximadamente 600 detentos e 200 funcionários e João Batista de Arruda Sampaio (PII), que abriga 1.800 detentos e 250 funcionários. |

