logo do Núcleo de Antropologia Urbana da USPLogo USP
AddThis Social Bookmark Button
A antropologia das “passagens”

Guilhermo Aderaldo[1]

A análise cultural é intrinsecamente incompleta e, o que é pior, quanto mais profunda, menos completa. É uma ciência estranha, cujas afirmativas mais marcantes são as que têm base mais tremula, na qual chegar a qualquer lugar com um assunto enfocado é intensificar a suspeita, a sua própria e a dos outros, de que você não o está encarando de maneira correta. Mas essa é que é a vida do etnógrafo, além de perseguir pessoas sutis com questões obtusas. (GEERTZ, 1978, p 39)

Quando recebi o convite para ser debatedor em uma das mesas do VIII Graduação em Campo, fiquei honrado e surpreso, pois era um aluno recém chegado à USP para a realização de meu doutorado[2] e, dada a tradição e importância do evento, fui igualmente acometido de certa ansiedade. Um sentimento que só aumentou quando, na reunião que fizemos (os organizadores do NAU e os debatedores convidados) poucos meses antes, eu soube que os trabalhos da minha mesa possuíam temas e direcionamentos substancialmente distintos, ao contrário das outras mesas. Sai daquela reunião um tanto quanto apreensivo diante do que iria ler e de como eu iria reunir os trabalhos em torno de um mesmo eixo discursivo.

Ao iniciar as leituras, no entanto, fui me tranqüilizando à medida que percebia diversas relações entre os trabalhos, bem como uma tocante sensibilidade e originalidade por parte de alguns autores. Houve, é verdade, uma certa dificuldade em sintetizar os trabalhos da mesa em torno de uma temática comum pois tratavam-se de temas e modos de análise bastante variados. Dois dos papers tratavam de temas relacionados aos modos de representação e usos dos espaços urbanos. Os outros se ligavam, de forma direta ou indireta, à temática da morte (como o texto de Maíra Vale (UNB) que vemos publicado nesta edição da Ponto Urbe)[3].

Apesar da variedade nos temas e modos de tratamento analítico, o que parecia unir os papers desta mesa, bem como atribuir sentido ao seu título “passagens” era, por um lado, a relação de “base trêmula” (tratada em todos os trabalhos) que colocava em contato a “prática etnográfica” e a experiência decorrente dela. Por “prática etnográfica” podemos entender uma ação programada, metodologicamente calculada, contínua, já a “experiência etnográfica” mostra justamente o contrário, dada sua descontinuidade e imprevisibilidade. Foi na “passagem” entre essas instâncias do trabalho etnográfico que pude enxergar a unidade aglutinadora dos trabalhos da mesa. De outro lado, todos eles tratavam de pesquisas realizadas em ambientes urbanos, o que significa que de maneira geral os pesquisadores se depararam em algum momento de suas etnografias com situações heterogêneas e fragmentadas, nas quais os choques culturais foram forçados pela multiplicidade de encontros de indivíduos que trazem pertencimentos étnicos, origens regionais, relações familiares e vínculos identitários distintos.

É o que podemos perceber, usando a própria fala e os artigos dos expositores, num tribunal onde grupos com categorias classificatórias e valorativas distintas (e assimétricas) buscam chegar a um consenso usando o Direito e os limites da prática jurídica como ferramenta de “passagem” entre mundos simbólicos, ou quando um grupo de góticos anda pela Rua Augusta mapeando o ambiente (onde se pode ou não entrar) em função dos outros grupos (muitos deles rivais como os Skin Heads) que costumam freqüentar cada espaço (O que essas “passagens” são capazes de revelar a respeito da cidade?). Podemos também imaginar a reação de um taxista quando se depara em seu taxi com uma pessoa “de fora” com hábitos e costumes completamente diversos e que lhe pede referências da cidade (qual cidade apresentar? Como criar um modo de apresentação do território urbano que contemple em um só gesto a “passagem” do território ao lugar simbólico que o taxista ocupa em seu interior?). O mesmo ocorre com um agente funerário que ao chegar a uma determinada localidade para retirar um corpo é impedido de executar seu trabalho por um grupo com costumes e crenças muito diferentes dos seus, mas que ao mesmo tempo, o permite reavaliar seus próprios valores com base na “passagem” que esses constrangimentos reservam. Também não é difícil pensarmos na peculiaridade de um pastor que vai até um terminal de ônibus na região central de São Luis/MA fazer suas pregações em meio às “passagens” contidas nos fluxos urbanos.

Todas essas situações, surgidas no decorrer das pesquisas dos expositores da mesa, nos remetem à importância da “experiência etnográfica”, pois é ela que nos alerta para o fato de que fazer antropologia não é sinônimo da construção de um pensamento fixo sobre “o outro”, como foi em seus primórdios. Trata-se de colocar não apenas nossas opiniões e posições, mas o nosso próprio olhar na frente do espelho. É necessário interrogar nossa própria noção de alteridade bem como as categorias conceituais com as quais costumamos trabalhar e a única forma de reconstruir/repensar nossas categorias (tais como “sociedade”, “identidade”, “cultura”, “periferia”, etc.) é o enfrentamento analítico dos choques culturais vivenciados na etnografia, na medida em que a encaramos de fato como “teoria vivida”, como diria a professora Mariza Peirano (2006) (UNB).

Nosso papel como antropólogos consiste na necessidade de pensarmos nos modos pelos quais a diferença é construída e particularizada nos mais variados contextos, afinal, a linguagem não trata apenas da relação entre palavras e coisas. Ela é internalizada no corpo e naquilo que o cerca. Uma entrevista, uma conversa não apenas descrevem o mundo por meio de equivalentes verbais. Para ilustrar a dimensão disso, Mariza Peirano (2008) usa o exemplo do etnógrafo que anos depois do trabalho de campo

(...) revê histórias contadas ou entrevistas realizadas anteriormente, e que estão apenas transcritas (ou que foram transcritas por outra pessoa), e relembra o contexto dessas falas - i.e., a escolha do lugar, as pessoas presentes, o ritmo da voz, os personagens relembrados no relato etc. e observa que aquilo que parecia um simples relato pode ser, por ex., uma reivindicação, um ato de legitimação, uma declaração de posse, dirigida não necessariamente ao etnógrafo, mas aos demais presentes (PEIRANO, 2008).

Ainda em relação a isso me vêm à mente a lembrança do belíssimo documentário “Santiago” (2006) de João Moreira Salles, pois nele temos um exemplo riquíssimo acerca da complexidade de um contexto comunicativo e do limite das palavras neste universo. O filme é uma espécie de acerto de contas entre a maturidade do documentarista e as pulsões arbitrárias de sua juventude e desta forma trata-se também de uma necessidade ética que o documentarista consagrado tem de fazer justiça a Santiago e a sua própria arte (o documentário). O tema de fundo trata da complexa relação entre João Moreira Salles e Santiago, que havia sido o mordomo de sua abastada e tradicional família. Santiago é um personagem excêntrico e de considerável erudição. Escreveu histórias copiadas de livros sobre a aristocracia e as artes dos mais diversos lugares por mais de 30 anos. Ele também possuía algumas estranhas manias, que o filme vai revelando como constitutivas de sua personalidade, dado o lugar ambíguo que ele ocupava como um empregado “especial”, o mordomo, mas sem fazer parte da família. Ao longo do documentário somos levados ao processo de montagem de uma primeira versão do filme, realizada em 1992, e a narrativa vai à maneira de um pincel de arqueólogo retirando preciosidades justamente daquilo que se esconde, dos silêncios, dos ordenamentos e da arbitrariedade exercida pelo “jovem” documentarista na desesperada ânsia de construir um Santiago que vivia em sua cabeça (um personagem) e silenciar outro que se encontrava a sua frente. A retomada do filme 13 anos depois (em 2005/2006) aponta para um lindo desfecho onde é revelado o choque entre dois documentaristas com visões opostas. O João Salles 13 anos antes é superado magistralmente pelo João Salles atual. Em um determinado momento do filme, onde vemos a imagem de Santiago, já cansada e distante, repetindo por diversas vezes alguns gestos e palavras imperativamente ordenadas pela voz do diretor ao fundo, João (13 anos mais velho) diz: “Essa é a última filmagem que fiz com Santiago. Ela me permite fazer uma observação final. Não existem planos fechados neste filme. Nenhum close de rosto. Ele está sempre distante. Penso que a distância não aconteceu por acaso. Ao longo da edição entendi o que agora parece evidente. A maneira como conduzi as entrevistas me afastou dele. Desde o início havia uma ambigüidade insuperável entre nós, que explica o desconforto de Santiago. É que ele não era apenas meu personagem e eu não era apenas um documentarista. Durante os 5 dias de filmagem eu nunca deixei de ser o filho do dono da casa e ele nunca deixou de ser o nosso mordomo.”

Há nesse trecho, uma sensibilidade tocante que nos atenta para o fato de que as disposições perceptivas das pessoas não são dissociáveis da posição que ocupam no mundo social, uma vez que as estruturas mentais por meio das quais apreendemos o mundo são em essência produto da interiorização das estruturas desse mundo (BOURDIEU, 1999). Foi essa reflexão de João Salles que o permitiu, à maneira do etnógrafo de Peirano, 13 anos depois, lidar com suas antigas “anotações”.

A experiência como debatedor na mesa “passagens”, neste sentido foi extremamente rica, pois me ofereceu as condições de pensar em questões sobre as quais eu nunca havia atentado e conhecer pesquisadores com um imenso talento e sensibilidade. Nenhum dos textos tinha uma forma muito bem acabada e no fundo todos eles, cada um à sua maneira, traziam as marcas da “costura” do pesquisador. Traziam os registros dos sustos que suas “experiências etnográficas” haviam lhes pregado. E aqui mais uma vez uso a reflexão feita por João Salles a respeito de seu filme. Diz ele: “Num dos seus filmes, o cineasta Werner Herzog, diz que muitas vezes a beleza de um plano está naquilo que é resto, no que acontece fortuitamente antes ou depois da ação. São as esperas, o tempo morto, os momentos em que nada acontece. Desses restos, talvez o mais revelador seja aquilo que se diz a um personagem antes de toda a ação que seria para sempre o segredo do filme”.

Os trabalhos dos pesquisadores desta mesa deixaram para mim a rica lição da necessidade de uma desconfiança acerca de nossas certezas. É preciso um treino de todos os nossos sentidos, pois a “boa etnografia” (PEIRANO, 2008) quase sempre se revela onde não esperamos (é sempre bom lembrar do exemplo da bruxaria entre os Azande), do mesmo modo que podemos aprender o melhor exercício de nossa profissão bem longe do universo acadêmico e dos textos clássicos, como num bom filme.

Bibliografiavoltar ao topo

BOURDIEU, Pierre. “Espaço social e poder simbólico” IN: Coisas Ditas, São Paulo, Ed. Brasiliense, 1999. pp. 149-168.

GEERTZ, Clifford.A interpretação das culturas, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1978.

PEIRANO, Mariza. A teoria Vivida e outros ensaios de antropologia. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2006.
________________. “Etnografia ou a teoria vivida”. Revista Ponto Urbe, ano 2, versão 2.0, fevereiro de 2008, In: n-a-u.org/pontourbe02/Peirano.html

Material audiovisual citadovoltar ao topo

SANTIAGO, Dir: João Moreira Salles, duração 107 min, 2006

[1] Doutorando em Antropologia Social (PPGAS/USP) – This e-mail address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it

[2] Havia vindo de um mestrado também em Antropologia Social na UNICAMP, sob a orientação da professora Dra. Maria Filomena Gregori.

[3] Os trabalhos apresentados na mesa foram: O fenômeno da morte sob a ótica dos agentes funerários de Diego Silveira Coelho Ferreira e Fabrício Alves Farias (UFMG); Imagens e etnografia: sociabilidade entre os passageiros do terminal da Praia Grande/MA de Carolina Vasconcelos Pitanga (UFMA); Os limites da tradução jurídica na inscrição da morte como experiência de Maíra Cavalcanti Vale (UNB); Uma noitada no inferno: representações da morte na cultura gótica de Carusa Gabriela Dutra Bilatto (UFPR) e Taxistas em Belém (PA) e narrativas sobre a cidade: memórias do deslocamento de Pedro Paulo de Miranda Araújo Soares (UFPA).