| A Graduação em Campo: breve comentário sobre a sessão “sexualizando” |
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Isadora Lins França Doutoranda em Ciências Sociais pelo Programa de Doutorado em Ciências Sociais – IFCH/Unicamp Foi um grande prazer participar como debatedora da sessão “sexualizando” do VIII A Graduação em Campo - Seminários de Antropologia Urbana. É muito importante que se abra espaço para que os estudantes de graduação possam apresentar e discutir seus trabalhos, incentivando a prática da pesquisa desde a graduação como parte integrante da formação dos alunos. Por outro lado, para nós, debatedores, também é uma ocasião bastante rica, já que podemos trocar experiências com quem está iniciando como pesquisador e transmitir um pouco do que aprendemos em nossas próprias trajetórias. Antes de qualquer comentário mais focado, vale a pena ressaltar a qualidade dos trabalhos apresentados na sessão na qual atuei como debatedora. Ambos demonstraram uma dedicação e valorização da pesquisa de campo que muitas vezes é incomum na graduação. Também revelaram um esforço na busca de caminhos teóricos que permitissem refinar o olhar para os dados de campo. Os trabalhos apresentados, nos seus diferentes níveis de desenvolvimento, têm potencial para se transformar em projetos de mestrado e se estender em pesquisas mais aprofundadas. Boa parte dos comentários direcionados aos autores deve ser visto, dessa maneira, como questões que podem ser elaboradas para o futuro, conforme os trabalhos forem se desenrolando. Ambos os trabalhos trazem uma reflexão sobre o próprio campo e o fazer etnográfico, que se revela nas dificuldades colocadas à entrada em campo ou mesmo na reflexão sobre as singularidades do campo. Compreendendo o próprio seminário como um espaço de troca a respeito de experiências iniciais dos pesquisadores, essa reflexão se faz ainda mais importante, pois pensar o próprio lugar do antropólogo em campo e da produção de dados é parte fundamental da nossa formação e nos torna menos propensos a encarar nossos resultados e conclusões como uma espécie de realidade cristalina dos sujeitos com os quais interagimos durante a pesquisa. Uma reflexão que vale ser feita está relacionada a como a simples presença do antropólogo em campo interfere na organização desse campo e na interação com as pessoas. Afinal, os dados produzidos e sua posterior análise são resultado de interações realizadas num determinado contexto e que, se podem revelar algo da vida dos sujeitos, das práticas em que se engajam e de como atribuem significado a elas, são também sempre situacionais. Outra questão que perpassa os trabalhos apresentados é como marcadores de diferença social operam no campo. Fico bastante contente em ver esse esforço de trabalhar conjuntamente diversos marcadores sociais da diferença, na intersecção entre eles. De toda forma, os marcadores de gênero, sexualidade e geração aparecem com mais força nos trabalhos e é possível sentir um esforço na aproximação com uma bibliografia que é extensa e multifacetada. Trata-se de um esforço que deve continuar no futuro. Os trabalhos também podem se beneficiar de uma discussão mais aprofundada sobre classe social e cor/raça - que me parecem ser marcadores importantes no contexto dos trabalhos apresentados - e mesmo a respeito da interação entre os diferentes marcadores de diferença, que resta ainda por fazer. Entretanto, fico feliz em perceber que os trabalhos não se detêm aos marcadores de diferença de forma fixa, mas há um esforço no sentido de matizar as análises e pensar sua produção sob uma perspectiva relacional. O problema do consumo também atravessa ambos os trabalhos, já que se referem a práticas de consumo e a pesquisa de campo realizada em lugares de sociabilidade e consumo. Existe aqui a necessidade de qualificar um pouco o olhar para as práticas de consumo e buscar referências no que tem sido produzido no âmbito da própria antropologia, avançando na análise dessas práticas como mediadoras de relações entre as pessoas e na análise dos significados atribuídos aos bens. Talvez essa literatura esteja menos acessível e mesmo a escolha por encontrar saídas teóricas que dessem conta das questões mais relacionadas a gênero e sexualidade tenha obscurecido a necessidade de se trabalhar com práticas de consumo de uma maneira mais densa. De certa maneira, é possível que um recorte temático – já que um trabalho foca mais claramente na mídia como tecnologia de gênero e outro na análise de espaços em que gênero e sexualidade ganham muita evidência como marcadores de diferença – tenha obscurecido a importância de se trabalhar com uma literatura sobre consumo, mas é importante que essa perspectiva possa ser retomada no futuro. Outro aspecto comum aos trabalhos foi a necessidade de trabalhar com categorias de classificação. No trabalho de Michele Escoura, as categorias de “adulta” e “criança” aparecem relativizadas, criando espaço para que seja possível compreender como elas se produzem no contexto da escola e como a própria pesquisadora se situa em campo a partir da produção dessas categorias. Já o trabalho do Bruno Puccinelli demonstra como categorias de classificação são sempre operadas de maneira situacional, como no caso em que uma mesma pessoa pode ser um dos “senhores mais velhos” ao sentar-se num dos cafés do Shopping Center analisado e uma “maricona” ao engajar-se na busca de trocas sexuais com outros homens no banheiro do mesmo estabelecimento. Neste último trabalho, a profusão de categorias de classificação gera uma certa confusão e mostra-se necessária uma reflexão do mesmo tipo que menciono acima em direção a categorias mais estabelecidas, tanto no mercado de consumo, como no movimento social ou nas políticas públicas, como a categoria de gays ou homossexuais. De todo modo, já há um caminho de desconstrução de determinadas categorias que me agradou bastante nos dois trabalhos. Espero que este breve comentário tenha dado a dimensão de como os trabalhos apresentados vêm lidando com temas importantes para a disciplina antropológica e ao mesmo tempo como não têm se furtado a explorar questões mais específicas relacionadas à pesquisa de campo e ao recorte escolhido. Se em alguns momentos observam-se lacunas e imprecisões, penso que advêm em boa parte do desafio que os pesquisadores se colocaram e da complexidade das questões que permeiam suas pesquisas. E se há algo que se pode afirmar é que tais desafios e questões acompanham qualquer pesquisa – o que pode ser distintivo nesse caso é a atitude de se lançar neles, ao invés de discretamente descartá-los. |

