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Antropologia Visual e Memória

Andrea Cavalheiro

Mestranda do PPGAS/USP

Luís Felipe Hirano

Doutorado do PPGAS/USP

Não faz muito tempo que as fotografias e os filmes começaram a ganhar um estatuto privilegiado e passaram a ter seu uso disseminado nas pesquisas dos alunos de graduação. Seja analisando a obra de cineastas e fotógrafos entre outros produtores, ou mesmo com uma câmera na mão e a teoria antropológica na cabeça, se quisermos parafrasear Glauber Rocha, são diversos os temas de interesse da Antropologia sendo investigados através do audiovisual. Até mesmo questões clássicas como a velha relação entre Antropologia e História podem ser exploradas pelas imagens, como documento de relações passadas ou para a construção da memória presente.

Esse amplo panorama é visível em cada trabalho apresentado no Open-Space Antropologia Visual e Memória. Do vídeo etnográfico às fotografias produzidas por estudantes estrangeiros; da filmadora como condição para o contato em campo à representação da metrópole nos cartões postais e produções audiovisuais sobre São Paulo. A diversidade de temas e usos da imagem demonstra a criatividade e a ousadia permitida ao se levar a sério um elemento que, por um bom tempo, ficou relegado aos apêndices das dissertações e teses.

Dentre os trabalhos apresentados nesse Open-Space, é possível identificar três modos de lidar com o recurso visual. O primeiro diz respeito à idéia de “antropologia compartilhada” de Jean Rouch, encontrando-se nessa vertente as pesquisas que compreendem a câmera de vídeo como constituidora das relações entre o antropólogo e o seu campo. Na pesquisa Experimentações Imagéticas: o registro de índios no Rio de Janeiro, de Alexandre Mello, Gustavo Chiesa, Nina Marques e Priscila Bittencourt, alunos da UFRJ, a câmera foi “condição de possibilidade de uma relação, facilitando, ou mesmo criando a situação” com Índios Kaipós, como eles enfatizaram.

Mariana Camargo, da UFSCAR,segue linha semelhante em sua iniciação científica, intitulada Entre o real e a ficção: uma etnografia de um filme etnográfico. Seu campo é inusitado. Olhando por sob os ombros da antropóloga e cineasta Ana Lúcia Ferraz, ela investiga o processo de criação de uma etnoficção. Como conta Mariana, no decorrer de oito anos de campo com artistas do Circo de Teatro Tubinho, Ana Lúcia Ferraz descobriu que a etnoficção possibilitava acessar outras dimensões de seus pesquisados. Tomando esse gancho, Mariana busca compreender o processo criativo dos artistas ao criarem seus próprios personagens para a etnoficção de Ferraz. O recurso audiovisual surge aqui como condição para a existência do campo. A jovem pesquisadora vai mais longe, ao buscar refletir sobre a teoria antropológica a partir da análise da produção de um filme etnográfico.

Ambas as pesquisas têm o mérito de lidar com o recurso audiovisual como produtor de relações sociais, observando como o processo de produção das filmagens e seu produto fazem parte da interação entre o antropólogo e seu campo, enquanto agentes não menos importantes que os nativos.

A segunda linha de trabalho adotada por esses alunos é a análise de fotografias e filmes como representações de metrópoles, países e grupos sociais. Imagens dos deslocamentos urbanos nas ruas, avenidas, linhas de trem e metrô foram interpretadas por Carolina Alves de Brito Lopes Oliveira, da UNIFESP, que percebeu o quão recorrentes são tais representações nos filmes sobre São Paulo, mostrando-se como elementos privilegiados para falar da experiência urbana. Nesse ir e vir frenético das grandes cidades, a própria câmera se desloca em diversos movimentos para acompanhar o ritmo de São Paulo. Já Bárbara Cristina Sá, também da UNIFESP, se propõe a pensar o urbano produzindo fotografias que captem a dimensão visível, indescritível, de seu campo – o bairro das Pimentas em Guarulhos, “situações e lugares que não estão apenas no que é dito, mas que estão inscritos nos corpos, gestos e olhares”. Ainda nesta chave, o trabalho de Jéssica Nathália de Paula, da UFU, analisa a visão dos estudantes estrangeiros sobre o Brasil e a cidade de Uberlândia a partir das fotografias que eles tiraram de seu intercambio. E o trabalho de Jonas Dias da Conceição, da FGV-RJ, que analisa as imagens produzidas por militares brasileiros no Haiti, procurando entender a questão do encontro com os haitianos, bem como a produção de uma auto-imagem para veiculação.

Estes quatro trabalhos são fortuitos na medida em que analisaram imagens feitas tanto pelo próprio pesquisador, quanto pelos sujeitos de pesquisa, revelando a capacidade destas em materializar símbolos e imaginários.

Um terceiro ponto abordado pelos alunos é a relação entre imagem e memória. Samuel Barquete, da UNICAMP, analisou cartões-postais de Campinas no início do século XX, observando como estes produziram uma imagem e uma memória da cidade atrelada à modernidade. Ana Paula Morel, Carolina Doria Cardoso e Leonardo Gonçalves, da UFRJ, estudaram as relações entorno da regularização fundiária da Vila Residencial da UFRJ, nas quais a fotografia despontou como um recurso fundamental para a construção de uma memória que legitimasse a permanência dos moradores. E Suruanna de Carvalho, da UFCE, abordou as relações sociais entorno das transformações urbanas de Fortaleza, destacando a perda e a re-construção da memória sobre o local. Neste panorama, os pesquisadores demonstram o potencial da imagem para construir discursos ligados à memória que enredam a produção de legitimação, identidade e imaginário – um prato cheio para a análise antropológica.

Muitos são os usos e temas das pesquisas que perscrutam o campo por meio das imagens. Ao privilegiar determinados aspectos, cada pesquisa revela as múltiplas possibilidades que o audiovisual traz para a Antropologia. A partir dessas investigações, o desafio é entender de que modo as pesquisas que privilegiam a câmera de vídeo como constituidora do campo contribuem para iluminar as análises que percebem as imagens como expressão de determinados imaginários e como construtoras de memórias. E vice-versa. Questão que pode ter vários desdobramentos e alguns caminhos possíveis.

Se por um lado a produção audiovisual sobre a cidade e as fotografias feitas pelos próprios agentes se constituem como representações de certos imaginários sobre a cidade e o Brasil, seria possível pensar em como tais imagens produzem e reproduzem memórias. Tal questão implica em vê-las não apenas enquanto produtos de seu contexto, mas como produtoras de contextos, ou como elementos de uma conjuntura que reforçam e transformam a estrutura, para lembrar Sahlins (SAHLINS, 1990). De outro modo, as pesquisas que problematizam a imagem no campo poderiam ser enriquecidas por reflexões sobre as interações desencadeadas pela câmera, à medida que são informadas por determinados imaginários. Ou ainda, de que forma o produto final dessas pesquisas também materializa representações, idéias e símbolos.

Imaginar que o antropólogo produz significados na interação com interlocutores tanto de “lá” quanto “daqui”, como diria Geertz, implica em refletir a nossa posição no campo. Questão polêmica abordada na discussão do Open-Space sob diversas formas que expressam um insistente dilema antropológico: quais são os desdobramentos do fazer etnográfico.

Longe de serem respondidas por essa apresentação, as discussões levantadas no Open-space poderão ser desenvolvidas pelas pesquisas e pelo crescente número de investigação, fortuitamente às voltas com os meios audiovisuais.