| Percepções da diversidade |
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Mauricio Acuña e Samantha Gaspar[1] “Voy a contarte en secreto quién soy yo, Os jovens participantes do Open Space Identidade certamente tiveram uma grande surpresa ao saberem que, além da exposição dos pôsteres elaborados para o evento, iriam debatê-los neste novo espaço criado pelos organizadores do VIII Graduação em Campo. Acostumados ou, pelo menos, conhecedores do padrão de apresentação de pôsteres em outros eventos, a expectativa era a de aguardar olhares e perguntas interessadas de possíveis interlocutores. Poderia ter sido um quase contar em segredo sobre quem são e o que fizeram. Porém, a convocação para o Graduação em Campo é uma experiência à parte e, de fato, foi o que eles puderam sentir ao serem chamados para apresentar e debater seus trabalhos, em voz alta. O nome do painel – Open Space – não poderia ser mais literal e apropriado, uma vez que, dispostos em círculos nos saguões do prédio da Filosofia e Ciências Sociais, tanto os autores dos pôsteres como os debatedores e visitantes, puderam compartilhar seus pontos de vistas e despertar a atenção de outras pessoas que passavam pelo local no momento das discussões. Neste contexto, a palavra Identidade buscou lançar certa unidade ao conjunto dos doze esforços de pesquisa selecionados para a sessão, ocorrida numa tarde de setembro. Considerando a intenção dos organizadores de ampliar o debate, em voz alta, dos que já na Graduação se arriscam à experiência de alteridade que a etnografia proporciona, a palavra Identidade, longe de buscar uma homogeneidade, se prestou, no caso do presente Open Space, a um amplo leque de possibilidades de construção das categorias identitárias, uma vez que, como assegura Barth, “a persistência da unidade depende da persistência (...) [das] diferenças culturais” (Barth, 1998: 226). As inúmeras análises apresentadas com base em incursões etnográficas apontam para uma curiosidade que parece ilimitada, visto que a nota predominante da discussão passava sempre pelo mesmo interesse do poeta: quiero saber quien eres... Nove pesquisas foram apresentadas e discutidas. Não apenas os objetos de estudo eram variados, mas também as próprias filiações institucionais dos participantes, o que contribuiu sobremaneira para o desenvolvimento de instigantes debates e trocas de experiências durante (e também após) o evento. Gabriela Voltan Ribeiro, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), apresentou a pesquisa intitulada Capoeira e redes de sociabilidade em Campo Grande –MS, na qual, por meio da utilização do método etnográfico, buscou apreender as redes sociais que os capoeiristas constroem através de seus laços de sociabilidade. A pesquisadora traçou não apenas os espaços nos quais as redes de sociabilidade dos diferentes grupos de capoeiristas são produzidas, mas também, como, a partir da constituição das mesmas, se engendram lutas de identidades. Já Consuelo Silva dos Santos, da Universidade Cândido Mendes (UCAM), com o trabalho denominado Conceitos de hierarquia e igualdade numa vila nem tão mimosa assim..., através da pesquisa em publicações, do trabalho de campo e da realização de entrevistas, buscou desvelar as relações de hierarquia e de igualdade que permeiam as disputas entre as prostitutas e os moradores da região denominada Vila Mimosa. O trabalho de Verônica Kaezer da Silva, da Universidade de Brasília (UnB), chamado Crianças e as suas estratégias para a construção de sentido – um estudo etnográfico sobre concepções e práticas infantis no Recanto das Emas, teve como objetivo vislumbrar, por meio da etnografia, como um grupo de crianças apreendem, valoram e alteram suas práticas cotidianas, ao largo de instituições como a família e a escola. A autora se propôs, assim, a refletir acerca das noções de infância e de criança tal como aparecem em nossa sociedade, descortinando qual o espaço de agência que é experienciado pelos infantes. “Do tocar ao sentir”: a música e a emoção como afirmação e (re)construção da identidade étnica nos afoxés, trabalho apresentado por Paula Lira de Albuquerque da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), por meio de entrevistas e de observação participante, buscou compreender o sentimento de pertença e o processo de construção de identidades étnicas dos participantes de grupos musicais denominados afoxés, apreendendo como a música participa na formação de vínculos entre os indivíduos. No trabalho Etnografia sobre os casamentos entre muçulmanos e não-muçulmanos em Florianópolis-SC,Mariana Knierim Correia, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), valeu-se da etnografia para se debruçar sobre as práticas matrimoniais entre imigrantes muçulmanos e não-muçulmanos, utilizando-se da análise de interditos e prescrições como forma de compreender a lógica sob a qual tais práticas operam. Em Nem futebol, nem carnaval: considerações sobre a imagem dos brasileiros nos periódicos espanhóis, Nayamim dos Santos Moscal, da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), buscou refletir acerca dos discursos construídos pela imprensa espanhola sobre os brasileiros, no interior dos quais inúmeras representações etnocêntricas estariam sendo produzidas e reproduzidas, em um contexto marcado por processos migratórios. Renata Viana Neves, da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESP), na pesquisa intitulada Notas sobre as motivações do consumo das classes médias, a partir de entrevistas e observações, analisou as relações e dinâmicas que possibilitam o engendramento dos gostos das classes médias. A autora nos chamou a atenção, ainda, para a reciprocidade adaptativa que consumidores e dispositivos do capitalismo mantêm entre si. Outro trabalho apresentado foi Percepções da sociabilidade de um antigo cenário de prostituição localizada: significado do território e dos arranjos nas relações entre os indivíduos no Farol do Mucuripe / Fortaleza-CE, de Caio Anderson Feitosa Carlos, da Universidade Federal do Ceará (UFCE). O pesquisador valeu-se da etnografia para apreender as relações de sociabilidade que são tecidas entre os sujeitos vinculados à atividade prostituinte e os demais indivíduos pertencentes à comunidade estudada, encontro que possibilitou a construção confluente de inúmeras percepções e identidades, marcadas também pelo espaço no qual elas são gestadas. Por fim, temos o trabalho de Alexandre Peres de Lima, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), intitulado “O tempo de justiça doméstica”: o compadrio e a construção da pessoa como territorialização étnica de uma comunidade quilombola urbana de Porto Alegre. Por meio da etnografia, da observação participante, de entrevistas e do estudo das relações de parentesco que formam a comunidade Família Fidélix, o pesquisador evidenciou como esta se territorializa a partir de redes de reciprocidade que seriam engendradas entre os espaços domésticos, tendo o compadrio como eixo organizador. Tais redes se apresentam divididas entre os espaços públicos e privados, havendo certa demarcação através da qual os primeiros seriam categorizados como masculinos e, os últimos, como femininos. Todos os trabalhos apresentados apontavam para estratégias de configurações de identidades a partir de variadas dimensões, tais como territorialização étnica, trabalho, infância, nacionalidade, práticas desportivas, consumo e música. Cada um dos autores fez uma exposição inicial de si e de sua pesquisa, seguindo-se à discussão de questões previamente elaboradas pelos debatedores. Estas procuravam explorar os seguintes aspectos dos estudos: objetivos, recorte do objeto, metodologia empregada, abordagem teórica mobilizada e conclusões formuladas. Sempre procurando estabelecer pontes dentre as escolhas feitas por cada pesquisador, o debate permitiu complementar uma série de ângulos não abordados nos pôsteres, seja pela limitação que os mesmos impõem, seja por novas perspectivas que foram geradas no interior mesmo do debate. Entre as propostas lançadas ao debate, uma que suscitou muitas reflexões diz respeito à avaliação do fazer etnográfico, principalmente no que se refere às dificuldades de inserção do pesquisador em campo e à compreensão dos variados sentidos atribuídos ao método etnográfico. A adesão a essa reflexão deveu-se ao fato de que quase todos os trabalhos utilizaram-se da etnografia. As pesquisas de Alexandre Peres de Lima, de Verônica Kaezer da Silva e de Caio Anderson Feitosa Carlos, por exemplo, ilustram algumas das diversas ponderações que foram aventadas a esse respeito no decorrer do Open Space. Alexandre Peres de Lima, em sua pesquisa sobre o compadrio e a construção da pessoa na comunidade quilombola Família Fidélix, salientou como sendo fundamental a observação continuada em campo. Tal inserção, em seu caso, foi proporcionada pela atividade anterior que vinha exercendo na comunidade como um dos pesquisadores da equipe responsável pela elaboração de laudo técnico que atestaria o reconhecimento deste território. Uma abordagem metodológica distinta pôde ser encontrada na pesquisa de Verônica Kaezer da Silva sobre as concepções e práticas infantis no Recanto das Emas, pois, para realizar a etnografia, ela dispensou a mediação de adultos, procurando dialogar diretamente com as crianças no contexto em que estas realizavam suas atividades cotidianas. Outra problematização a respeito do fazer etnográfico foi levantada por Caio Anderson Feitosa Carlos que, procurando descrever as percepções de sociabilidade numa região de prostituição em Mucuripe, deparou-se com uma série de dificuldades em suas tentativas de estabelecer contato com aqueles que vivenciam o cotidiano de tal cenário. Passando por um período de indiferença por parte dos nativos, a exemplo de outros casos relatados em etnografias clássicas – tais como as de Evans-Pritchard (1993) e Geertz (1978) –, após conseguir realizar entrevistas com algumas prostitutas, ele se viu subitamente cobrado pelo tipo de interpretação que elaboraria. Indagação que, segundo elas, decorria do fato de outros estudiosos procurarem-nas para entrevistas e depois não apresentarem retorno do que foi produzido a partir de tais encontros. Nesse caso, a solução encontrada pelo autor passou pelo estabelecimento de um compromisso de entregar a elas uma cópia final do texto etnográfico. As discussões suscitadas acerca da inserção do antropólogo em campo permitiram aprofundar algumas das diversas implicações do fazer etnográfico, que passam, por exemplo, pela chave da etnografia como uma construção de conhecimento em que os sujeitos pesquisados também querem participar como interlocutores do antropólogo – como apontado por Carlos. Outra questão referiu-se à autoridade etnográfica que, em certos casos, é consolidada por meio de um trânsito junto aos outros papéis desempenhados pelo antropólogo, para além da, ou concomitantemente à, realização da pesquisa acadêmica – como evidenciou a pesquisa de Lima. Por último, ainda pudemos refletir acerca da alteridade gerada pelo estabelecimento de interlocução com grupos sociais que, pelo senso comum, são vistos como destituídos de agência, como é o caso das crianças estudadas por Silva. Assim, não apenas estas relações tensas e delicadas entre observadores e observados emergem da presença daqueles em campo, mas também colocam em risco, a todo momento, os pressupostos e as hipóteses iniciais da pesquisa, uma vez que, de perto e de dentro (Magnani, 2002), novas questões surgem à reflexão, enquanto outras vão desaparecendo nas inúmeras anotações do caderno de campo. Bibliografiavoltar ao topoBARTH, Fredrik. “Grupos étnicos e suas fronteiras”. In: Poutignat e Streif-Fenart (orgs.) Teorias da Etnicidade. São Paulo: Editora Unesp, 1998. EVANS-PRITCHARD, E. Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota. São Paulo: Perspectiva, 1993. MAGNANI, José Guilherme Cantor. “De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana”. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, v. 17, n. 49, p. 11-29, jun. 2002. NERUDA, Pablo. Odas elementales. Buenos Aires: Losada, 1954. [1] Mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo. |

