logo do Núcleo de Antropologia Urbana da USPLogo USP
AddThis Social Bookmark Button
Sociabilidade e Lazer

Giancarlo Marques Carraro Machado [1]

Rafael Adriano Marques [2]

O Open Space “Sociabilidade e Lazer”, realizado durante o VIII Seminário Graduação em Campo (NAU/USP) [3], reuniu diversos trabalhos de pesquisadores provenientes de distintas partes do país, que tomaram o contexto urbano como pano de fundo em suas análises. Em meio aos diferentes temas e recortes, houve a possibilidade de estabelecer aproximações e distanciamentos entre os trabalhos, por meio de algumas questões que os perpassavam.

A fim de melhor delimitar os eixos temáticos da seção, identificamos duas frentes de pesquisa que aparentemente tratavam de coisas distintas, mas que, por meio de um olhar mais preciso, apontavam para certas similitudes. Por um lado, temos aqueles trabalhos sobre festas, nas quais estão circunscritas relações entre sagrado/profano; espaço religioso/espaço não religioso; privado/público; dentro/fora, entre outros, onde a cidade e seus equipamentos, em todos os casos, aparecem como o locus de realização para tais eventos. Por outro lado, temos os trabalhos que analisam as dinâmicas em torno de jogos, que são marcados por uma calculabilidade e exatidão e/ou por uma sociação lúdica (Simmel, 2006) entre os participantes.

No que diz respeito às festas, o trabalho “Corpus Christi: manifestações simbólicas na arte dos tapetes”, de Elza Aparecida de Oliveira (UERJ), procurou analisar o significado de uma expressão artística que é parte de uma manifestação sagrada, ou seja, os tapetes confeccionados para a celebração do Corpus Christi, na cidade de Magé (RJ). A partir de um símbolo dominante (o tapete), têm-se diferentes lógicas em jogo, sejam elas religiosas, políticas, econômicas, entre outras. Com isto, pode haver uma dinâmica de relações que envolvem diferentes atores. Muito mais do que somente analisar o significado de imagens em um espaço não-religioso, é importante observar esta ressignificação do espaço público em algo sagrado, em uma determinada época do ano. Deste modo, sagrado e profano poderiam ser relativizados, a partir do momento em que os concebemos como posições dinâmicas. Os tapetes, por sua vez, são unidades de um ritual, que é a procissão, tornando-se focos para a interação.

Em De comer rezando e de rezar comendo: uma reflexão sobre a Semana Santa e o turismo gastronômico na cidade mineira de Tiradentes”, de Denise Moraes Pimenta (UFMG), assim como no trabalho anterior, também foram analisadas práticas rituais em um espaço público, nas quais abrangem algumas dicotomias. De um lado temos procissões e missas, que fazem parte de um contexto de festas religiosas onde a comedoria se torna algo marcante, o que possibilita a construção de formas de sociabilidade. Por outro, o turismo na cidade de Tiradentes (MG), que aparentemente gera uma série de conflitos, principalmente em torno da utilização do espaço. Os turistas estacionam carros ou outras coisas em um espaço que não respeita a fé religiosa local, e com isto, atrapalha o percurso das procissões e ladainhas. A nosso ver, conjetura-se que há duas lógicas que podem se complementar ou então, até entrar em disputa: de um lado os moradores locais, em especial, os religiosos (os de dentro). De outro os turistas, com suas diversas motivações (os de fora). Há também diferentes circuitos (religiosos e turísticos) com trajetos que se cruzam em dado momento. E é neste cruzamento que se dão as disputas, os desentendimentos. Mas, como é resolvida esta tensão pelo espaço, entre religiosos e turistas? Será que aí então, a comida, tal como anunciada no título da pesquisa, oferece boas pistas para pensar em uma resposta? Uma análise mais detalhada destes circuitos e as possíveis continuidades entre os mesmos podem revelar algo.

Ana Paula L. Belone e Júlia Vilaça Goyatá (UFMG), com a apresentação “Festa, cidade e religiosidade: o Natal e a Semana Santa em Minas” tentaram situar as festividades natalinas e aquelas relacionadas à Semana Santa, no encontro entre Minas, a cidade e a festa. Embora tratem de algumas questões comuns aos trabalhos anteriores, um ponto interessante foi a metodologia utilizada pelas pesquisadoras na análise: tomou-se como ponto de partida o ato de viajar e a experiência etnográfica envolvida e contada a partir do mesmo. Durante os ciclos festivos cristãos de cidades como São João Del Rei (MG) e Tiradentes (MG), as viagens possibilitaram uma série de relações, de discursos, de vivências, que marcaram uma sociabilidade de acordo com a dinâmica de cada contexto, seja em uma “roça” ou em uma “cidade grande”. Neste ato de viajar, pode-se, sobretudo, repensar a cultura de cada um destes locais, questionando o seu viés naturalizador, orgânico e permanente (Clifford In Arantes, 2000).

Por fim, nesta linha de pesquisas sobre festas temos ainda “‘É festa na Álvaro Adolfo!’: uma análise antropológica sobre o lazer na passagem Álvaro Adolfo no Bairro da Pedreira em Belém – PA, de Leonardo Vitor P. Macedo e Edson Dias da Silva (UFPA). Os autores trataram de um espaço que possibilita a criação de formas de sociabilidade, em especial entre os jovens, movidas por preferências musicais distintas. No circuito de lazer (Magnani In Magnani; Souza, 2007) abordado, temos a presença de bandas de rock, grupos para-folclóricos, grupos de carimbó, entre outros. Mas, ao invés de apresentar uma descontinuidade nas relações estabelecidas em virtude de algumas diferenças (principalmente musicais), o que se pode ter são trocas simbólicas e de experiências entre os grupos, que estão reunidos em pedaços (Magnani, idem; ibidem) no contexto em questão. Embora a utilização de alguns conceitos, tais como sugerido por Magnani (idem; ibidem) tenha sido um pouco confusa, os autores mostraram a heterogeneidade de um espaço urbano que, ao contrário de uma fragmentação, apresenta um diálogo entre aquilo que se apresenta, de certo modo, como diferente.

Relacionado com a temática jogos, Rafael Fermino Beverari (PUC-SP) revisita o futebol de várzea em São Paulo. Sim, ainda existe futebol de várzea por aí! “Futebol de várzea: berço de insubordinações” nos transporta para Pirituba, zona noroeste da cidade, aonde persiste tal prática. Ali, jogadores, moradores, políticos e demais atores reinventam a todo o momento os significados desse tipo de prática. Um mergulho nesse mundo certamente dilui as “fronteiras” entre sub-áreas disciplinares (antropologia do esporte, política, lazer...). Bola para frente!

“Jogos virtuais e o espaço urbano: novas formas de sociabilização”, de Kelly Araújo de Oliveira (UFU), lançam-nos em uma reflexão sobre os controversos jogos virtuais. A autora nos descreve como um clube de jovens jogadores de Tibia (que mistura um game com um sistema de comunicação instantânea)faz uma leitura muito particular do jogo. O objetivo inicial do game é suplantado, e outras regras são criadas a partir de relações de poder e prestígio que se estabelecem na comunicação entre jogadores. Joga-se por jogar, para dar indício a um novo jogo. E precisa de motivo melhor?

Giovana Gabriela Montezelo e Renata Gonçalves Silva (UFU), com o trabalho “O jogo de pôquer e o moderno estilo de vida” fazem uma interessante observação sobre como o jogo de pôquer torna-se uma importante forma de lazer para um grupo de jovens universitários. Sem dúvida, a disseminação do pôquer pelo mundo (por meio de inúmeros sites e programas de TV) torna ainda mais interessante a observação inicial feita nesta pesquisa. Talvez o “blefe”, característica mais ardilosa de um jogador, forneça um novo ponto de partida para a pesquisa. Afinal, quem nunca “blefou” na vida?

Vamos agora para o Mato Grosso do Sul. Em “O jovem e o lazer na periferia: um estudo de caso no bairro jardim Aeroporto”, Nayara F. Martins (UFMS) mostra como jovens da região criam espaços próprios de lazer continuamente questionados em sua “legitimidade”. Nesse contexto, um projeto do Governo Federal ganha dimensões que a burocracia estatal muitas vezes não é capaz de perceber. Nayara segue esses atores em suas criações de novas redes de sociabilidade que escapam a lógica de planejamento estatal. Aqui temos uma etnografia sobre o lazer, mas, também sobre o Estado.

Élen Ângela Silva e Florence Rocha V. Pereira (UFU), no trabalho “Por uma etnografia dos jogos de xadrez: a construção da identidade” mostram como o aparentemente pacto no jogo de xadrez é muito mais do que uma disputa intelectual. Além do jogo do tabuleiro há um jogo de identidades entre jogadores e grupo de jogadores nos torneios. Aqui o espaço é alargado para além dos mesmos. Nesses espaços alargados de jogo, joga-se com tanto empenho quanto no tabuleiro, mas, aqui as peças são outras.

Todos esses trabalhos nos deixam com uma certeza: o espaço de jogo e de festa (também) é infinito!

Referências bibliográficasvoltar ao topo

CLIFFORD, James. “Culturas viajantes”. In: ARANTES, Antonio A. (org.). O espaço da diferença. Campinas/SP: Papirus, 2000.

MAGNANI, José Guilherme Cantor. “Introdução – circuitos de jovens”. In: MAGNANI, José Guilherme Cantor.; SOUZA, Bruna Mantese (orgs.). Jovens na metrópole: etnografias de circuitos de lazer, encontro e sociabilidade. São Paulo, Editora Terceiro Nome, 2007.

SIMMEL, Georg. Questões fundamentais da Sociologia. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2006.

[1] Mestrando em Antropologia Social (PPGAS/USP).

[2] Mestrando em Antropologia Social (PPGAS/USP).

[3] Evento realizado de 8 a 11 de setembro de 2009, no Prédio de Ciências Sociais e Filosofia (FFLCH/USP).