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Gênero

Rodrigo Gomes Lobo e Luísa Valentini

Mestrandos do PPGAS - Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social

No Open Space sobre gênero, lidamos com duas questões principais. A primeira foi descobrir o que é e como se faz um open space. A outra, como lidar com as diversas temáticas associadas à problemática do gênero que surgiram nos trabalhos apresentados.

Quanto à forma de apresentação, sabe-se que falar em público e organizar meses ou anos de trabalho num pôster com uma fonte legível e fotos significativas para o público não são tarefas das mais simples. As habilidades de escrita costumam ser mais valorizadas na formação do estudante que outras formas de apresentação que serão exploradas na publicização dos resultados de pesquisa em reuniões (como o Graduação em Campo) e que constituem parte importante do trabalho do pesquisador em ciências sociais. Referimo-nos aqui não só aos que apresentaram trabalhos, mas também a nós, comentadores, que pela primeira vez tivemos a responsabilidade de responder aos trabalhos expressando em público idéias que fossem úteis, interessantes e dotadas de alguma coerência, observando, além do mais, os padrões de linguagem e tratamento esperados no ambiente acadêmico. A forma nova de debate experimentada nesse evento somou, a essas, outras necessidades, como a concisão, o sentido de prioridade entre as muitas discussões suscitadas pelos trabalhos dos colegas e o cuidado para que todos pudessem falar e se sentissem contemplados nas discussões. Por outro lado, o open space permitiu uma qualidade de interlocução raramente encontrada em grupos de trabalho ou mesas no formato tradicional, quando os diálogos parecem acontecer de pessoa a pessoa, aos pares, menos que na forma de discussões gerais ao grupo.

Observando os resumos dos trabalhos reunidos nesse open space, é notável a diversidade de problemas e sujeitos de pesquisa mobilizados: casamento e raça, universidade e ambiente acadêmico, escola e formação de professores, religião e espaços públicos, instituições do Judiciário e do Legislativo, práticas esportivas, corporalidade e cultivo de si. Tais cruzamentos exigem do pesquisador uma observação minuciosa na pesquisa de campo, a atenção às possibilidades teóricas de tradução das suas impressões e, especialmente, a consciência da porosidade das problemáticas da antropologia a discursos de áreas diversas, como a médica e a jurídica e mais marcadamente, aos discursos militantes.

É delicado, para o pesquisador em antropologia, lidar com questões muito próximas da sua própria experiência dentro e fora da universidade, como as da persistente desigualdade de gênero nos ambientes público e privado, da homofobia, do racismo e da dificuldade em promover transformações na prática dos atores do governo no que se refere a essas formas de produção de diferença e de discriminação – mesmo quando estas últimas se manifestam de forma mais sutil e insidiosa, como nas práticas esportivas. Se a diferença motiva o antropólogo a indagar sobre mecanismos sociais, formas de pensamento e experiências, a desigualdade o afeta num nível mais profundo, menos suscetível a elaboração imediata, porque o atinge na sua sensibilidade. Uma das nossas principais indagações no open space foi como transformar essa experiência do pesquisador, quase sempre sentida em termos negativos – como insuficiência, frustação, impotência ou identificação com as partes “fracas” nas relações estudadas – em reflexões que não desconsiderem os diversos pontos de vista e sentidos das relações em jogo, nem, por outro lado, deixem de ter conteúdo crítico. Evidentemente, não encontramos uma resposta a essa questão, mas as soluções suscitadas nos trabalhos de cada um contribuíram para a percepção comum de que a sistematização das observações realizadas passa por um processo de amadurecimento no qual o pesquisador percorre suas anotações, a bibliografia e sua própria história, tecendo tramas diversas antes de chegar a algum resultado, que, imaginamos, tende a ser sempre provisório.

Dadas as peculiaridades dos trajetos e resultados dos trabalhos, coloca-se aos pesquisadores outro desafio clássico da antropologia, qual seja o de articular, em torno de um recorte restrito de análise – como uma escola, um tribunal, uma academia, uma amostra de casais ou uma pequena rede de atores sociais – uma discussão que repercuta questões produtivas não só para o pesquisador e os sujeitos pesquisados, mas também para os debates mais amplos das ciências humanas. Estes horizontes são provavelmente ainda um tanto embaçados para quem, como nós, apenas inicia sua aprendizagem no ofício antropológico, mas a conjunção de perspectivas provocada pelo compartilhamento de experiências, processos e resultados de pesquisa certamente contribuiu para o estabelecimento dos termos de uma interlocução que, esperamos, se estenda no futuro. O fortalecimento dessas oportunidades de encontro nos parece, assim, fundamental para a ampliação dos intercâmbios criativos e para revigorar os debates da antropologia contemporânea.