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Gentrification: processo global, especificidades locais?

[1]

Samantha dos Santos Gaspar[2]

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social

USP - Universidade de São Paulo

voltar ao topoResumo

Este artigo é um balanço bibliográfico não exaustivo acerca da gentrification, por meio do qual delineio tanto seus modelos vigentes quanto as formas como ela se estrutura em distintas localidades. Inicialmente, apresento as características gerais que a literatura sociológica e antropológica, debruçada sobre o tema, costuma apontar-lhe; em seguida, explicito os dois principais modelos de renovação urbana, exemplificados pelas cidades de Nova York e Barcelona. Passo, então, à análise de como a gentrification se desdobra na América Latina, tendo por base os contextos da Cidade do México, Buenos Aires, Recife e, prioritariamente, São Paulo. Por fim, apresento comparações entre as realidades encontradas na América Latina e as de Nova York e Barcelona.

Palavras-chave: gentrification, políticas públicas, consumo cultural.

voltar ao topoCaracterísticas gerais de um fenômeno global

“Nos últimos anos, as pressões para o ajuste às normas do mercado global têm criado programas de reestruturação urbana surpreendentemente similares. (...) Em qualquer região do mundo, a paisagem resultante é, ao mesmo tempo, mais similar ou global, e mais diferente ou local do que antes parecia ser” (Zukin, 2000b:105).

O presente artigo tem como objetivo apresentar um balanço bibliográfico, ainda que não exaustivo, acerca do fenômeno da gentrification[3]. A finalidade é evidenciar, por meio desse exercício, como o conceito de gentrification, ao ser utilizado para a compreensão do fenômeno em distintos locais, não se mostra unívoco, recebendo, ao contrário, uma polissemia de significados e interpretações de acordo com o contexto a partir do qual ele é mobilizado.

Revisito, para tanto, alguns dos trabalhos que se debruçaram sobre as ressignificações urbanas contemporâneas, tendo como lócus três contextos específicos: as cidades anglo-saxãs[4] exemplificadas pelo caso de Nova York; as da Europa continental ilustradas pelo exemplo de Barcelona; e as da América Latina, por meio da Cidade do México, Buenos Aires, Recife e São Paulo. Pretendo, assim, iluminar algumas das especificidades que o fenômeno adquire ao ser desenvolvido em solo latino-americano, privilegiando, nesse balanço, o caso paulistano.

Como revela Bidou-Zachariansen pautando-se em Neil Smith, “atualmente a gentrificação é reconhecida como um elemento que se destaca na transformação dos centros urbanos” (Bidou-Zachariansen, 2006:22). Segundo a autora, o termo gentrification foi cunhado por Ruth Glass na década de sessenta para designar o processo em que famílias de classe média, em vez de continuarem ocupando os subúrbios residenciais, vinham morar nos bairros centrais de Londres,  antigos e desvalorizados, resultando assim na modificação da composição social dos locais, com a substituição das camadas menos abastadas pelas da classe média. Portanto, inicialmente, o conceito dizia respeito a um processo visível nas grandes cidades anglo-saxãs, referente a uma crise da suburbanização e à volta das classes médias ao centro.

De modo geral, as análises contextualizam a gentrification como pertencente ao período pós-fordista, do capitalismo de acumulação flexível[5], e também de mudanças na estrutura familiar, no qual há

o aumento do número de mulheres que trabalham, a frequência de casais com duplo salário e o crescimento da individualização dos modos de vida. São também numerosos os que vinculam esse processo urbano – de modo central – à ascensão das classes médias superiores, ascensão esta que remonta ao início do século XX nos países industrializados e se acelera na fase de pós-industrialização (Bidou-Zachariansen, 2006:24).

Diante dessas transformações, os “novos polos de crescimento”, entendidos como áreas passíveis de desenvolver o processo de gentrification

correspondem, frequentemente, a espaços urbanizados suscetíveis de atrair – em razão da oferta de equipamentos culturais, lazer, consumo e concentração de oportunidades de emprego que eles representam – camadas altamente qualificadas, muito solicitadas por essas novas formas de desenvolvimento nos países primeiramente industrializados, mas também nos países emergentes (Bidou-Zachariansen, 2006:24).

De fato, como é explicitado por Swyngedouw & Kesteloot,

esta reorganização socioeconômica da sociedade em função de um novo regime de acumulação provoca a emergência de um novo modo de vida urbano e novos tipos de consumo. Esta nova ideologia se exprime na individualização da vida social e cultural, mas também na reestruturação do quadro construído. Grosso modo, ela valoriza o patrimônio histórico representado nas edificações dos centros urbanos, mas este é adaptado para ser ocupado por uma nova classe média de residentes... (Swyngedouw & Kesteloot apud Bidou-Zachariansen, 2006:25).

Se inicialmente a gentrification dizia respeito a um processo atrelado às cidades anglo-saxãs, ela se generalizou, tornando-se “a política em numerosas cidades” (Smith apud Bidou-Zachariansen, 2006:29, grifos do autor), isto é, uma “estratégia urbana global” (Cf. Smith, 2006:73-80). Assim, o que antes era produto da ação de forças imobiliárias e de atores privados, transformou-se, em inúmeras cidades do mundo, em políticas urbanas de revalorização das áreas centrais, com o objetivo de torná-las mais atrativas economicamente. É dentro desse contexto, e pautando-se, além de Smith, em autores como Zukin, Featherstone e Harvey, que Rogério Leite conceitua gentrification

como aquelas intervenções urbanas voltadas ao city marketing ou à transformação de degradados sítios históricos em áreas de entretenimento urbano e consumo cultural. Objetivando modernizar recursos potenciais para melhor inserção na ‘concorrência inter-cidades’ (Fortuna, 1997), através do uso estratégico do patrimônio, a mais recorrente característica dessas intervenções urbanas tem sido uma (re)localização estética do passado, cujo padrão alterado de práticas que mimetizam o espaço público torna o patrimônio uma mercadoria cultural, passível de ser reapropriada pela população e pelo capital (Leite, 2006:24, grifos do autor).

Leite sustenta que as políticas de enobrecimento demandariam uma nova reflexão a respeito da cidade uma vez que se torna hegemônica a forma de interação dos usuários dos espaços recuperados. Segundo o autor, tal questão se configuraria como problemática porque as políticas, supostamente visando “recuperar certa dimensão pública e política da cidade, favorecendo a plena convivência dos diferentes usuários” (Leite, 2006:25), efetivamente gerariam alternativas diferentes para o uso do espaço. Essa variação seria decorrente das distintas possibilidades de consumo dos cidadãos, o que acabaria por favorecer alguns grupos em detrimento de outros, havendo o perigo de “supressão da natureza pública do espaço” (Leite, 2006:25), já que, “em geral, o Estado não intervém, através das políticas de gentrification, para assegurar a equidade dos usos do espaço, mas para realçar privilégios” (Leite, 2006:42). Assim, o poder público, agindo em prol do aumento da diversidade social, produziria na verdade novas formas de exclusão.

Dialogando com Featherstone, Leite assegura que os projetos de requalificação urbana, “por realçarem os aspectos mercadológicos do patrimônio, alteram também o sentido público e político do espaço urbano, ao tomar o cidadão como consumidor, atualizando os nexos entre cultura de consumo e produção de mercadorias” (Leite, 2006:28).

Essa preocupação a respeito da possibilidade de supressão do caráter público dos espaços enobrecidos é frequente entre os trabalhos sobre tal fenômeno, aparecendo também, por exemplo, na descrição que Bidou-Zachariansen traça do estudo de Hélène Rivière d’Arc sobre o centro de São Paulo. Segundo aquela, levando-se em conta a preponderância das camadas populares na composição desse espaço, “programar a mistura social, promover equipamentos culturais e atividades turísticas, revalorizar o patrimônio histórico e o espaço público, corresponde de fato a um apelo às famílias mais ricas para que elas venham  residir, ou pelo menos,  frequentar esses bairros” (Bidou-Zachariansen, 2006:50). Isso porque, embora o lema de muitas dessas intervenções urbanas seja o da criação de diversidade social, ao atrair as classes mais abastadas para o local, geralmente a resultante desse processo é o aumento do valor não só do solo, mas das condições de vida da área, isto é, do valor exigido para a manutenção da sobrevida na região. Com isso, grupos mais populares se veem obrigados a deixar tal localidade por causa desse aumento do custo de vida.

A idéia de utilização estratégica do patrimônio cultural, realçando esteticamente um determinado passado em detrimento de outros igualmente existentes, assim como o caráter mercadológico das transformações empreendidas no espaço, não aparece apenas nos textos de Leite, mas também encontra consonância nas reflexões de outros autores, como, por exemplo, Sharon Zukin (2000a; 2000b). Para a autora, a preservação do patrimônio inscreve-se dentro de um embate a respeito de qual memória será conservada. Uma vez que o centro é geralmente concebido como testemunho essencial da história e memória pública da cidade, o problema reside no fato de que um mesmo sítio histórico pode abrigar diversas “narrativas históricas”, de maneira que “quando se reivindica um espaço histórico, recupera-se uma interpretação específica da história, do ponto de vista de um grupo social específico” (Zukin, 2000b:110). E assim,

os grupos que conseguiram recuperar um espaço histórico e impor sua interpretação de uma narrativa da história pública também reivindicam o espaço físico dessa narrativa. No mais simples sentido material, um grupo pode proteger sua própria área, excluindo outros grupos, ao reivindicar o ambiente construído (Zukin, 2000b:110)

voltar ao topoNova York e Barcelona: dois modelos distintos de gentrification

Grosso modo, a literatura acadêmica costuma retratar o fenômeno denominado gentrification de duas maneiras: ora atrelando-o a modificações na composição das camadas sociais residentes no espaço enobrecido, com a expulsão dos moradores mais pobres e a vinda de indivíduos de classe média e média alta, ora atentando para o consumo cultural propiciado pelas instituições e pelos diversos estabelecimentos comerciais, como bares, restaurantes etc. presentes na região, e para a sua frequentação por essas camadas sociais, nesse caso vinculando a gentrification ao lazer, ao turismo e à cultura de luxo, e tendo o Estado como o principal ator na condução do processo.

O primeiro caso seria emblemático das cidades anglo-saxãs, sendo o exemplo clássico a cidade de Nova York, estudada por autores como Sharon Zukin (1989) e Neil Smith (2006). O segundo estaria mais presente na Europa continental, e nesse caso o exemplo mais conhecido é Barcelona, que aqui será examinado por meio do trabalho de Nuria Claver (2006) e Bidou-Zachariansen (2006). Dentro desse panorama, a questão muitas vezes colocada pelos estudiosos refere-se à possibilidade de que o fenômeno seja estendido ao contexto latino-americano. É possível falar em gentrification no contexto brasileiro? em caso positivo, quais seriam suas especificidades em relação aos casos que tomamos como modelares?

Analisando o enobrecimento do bairro de Nova York denominado Soho, Sharon Zukin (1989; 2000a; 2000b) denomina “pioneiros” os primeiros atores sociais que se mudaram para a área e com isso acabaram dotando-a de uma nova atmosfera, ligada aos novos usos e novos estilos de vida que passaram a existir no local. Estes eram principalmente intelectuais e artistas. Em suas palavras, “novos consumidores primários (...) reivindicaram um direito alternativo a essa área – uma reivindicação baseada não na ocupação ou em títulos, mas na apreciação do espaço (ou da forma construída) como produto para consumo cultural” (Zukin, 2000a:89).

Renovada simbolicamente, a região passou a atrair novos moradores (de classe média e média alta) e investimentos imobiliários, nesse processo acarretando o aumento do preço dos aluguéis e do custo de vida em geral, o que resultou não só na expulsão dos antigos moradores (geralmente de classe baixa), mas também de alguns dos próprios pioneiros que ressignificaram o local. “No início dos anos 80, a paisagem urbana já se tinha expandido da aquisição de imóveis residenciais do enobrecimento para enormes projetos de construções novas; os ‘pioneiros urbanos’ de Nova York e Londres foram substituídos, com aprovação do governo, pelos yuppies” (Zukin, 2000a:86). Dentro desse contexto, Zukin assegura que o enobrecimento acaba por redefinir “o significado social de um lugar especificamente histórico para um segmento do mercado” (Zukin, 2000a:87, grifos da autora).

Para Zukin, nem sempre a expulsão dos antigos moradores é premeditada ou deliberada por parte dos novos. Entretanto, “mesmo quando os agentes abastados dessa estruturação não desejam expulsar os moradores pobres do local, o ‘enobrecimento’ é um processo que resulta num mercado imobiliário em torno do ‘lugar’ de diversidade social e cultural criado por artistas, intelectuais e classes trabalhadoras. Numa paisagem cada vez mais homogênea, a diversidade tem o valor de mercado” (Zukin, 2000b:108), valor este que muitas vezes impede justamente a diversidade social que inicialmente o fomenta.

Smith (2006) constrói um panorama parecido com Zukin sobre a renovação dos bairros de Nova York. Segundo o autor, o fenômeno apresentou três ondas. Na primeira, entre os anos 50 e 70, o processo ocorreu de maneira esporádica e pontual, com artistas mudando-se para os bairros antes desvalorizados, como Greenwich Village e Soho. A segunda onda decorreu do interesse que os promotores imobiliários passaram a ter por essas áreas. Para o autor, desde então, e, com a terceira onda desenvolvida a partir da década de 90 o quadro consolida-se, “a gentrificação não era mais uma anomalia local do mercado imobiliário de uma grande cidade, ela se desenvolvia como um componente residencial específico de uma mais ampla reformulação, econômica, social e política do espaço urbano” (Smith, 2006:69), generalizando-se.

Enquanto no caso nova-iorquino o enobrecimento urbano foi iniciado, esporadicamente, isto é, por “pioneiros” e sem planejamento prévio (tanto estatal quanto do setor imobiliário), sendo depois apropriado por agentes imobiliários e, após, recebendo o respaldo e a ajuda do poder público, Barcelona evidencia como no caso europeu o Estado geralmente possui papel-chave na iniciativa e condução de todo o processo. Segundo Claver (2006),

em Barcelona, diferentemente dos casos anglo-saxões, é o valor simbólico do centro que está em jogo. O centro antigo nunca foi completamente abandonado pelas classes médias, embora sua presença esteja circunscrita a alguns lugares precisos. (....) No decorrer dos anos noventa assistiu-se a uma ‘recuperação’ do centro, associada à renovação do distrito por meio de políticas públicas que contribuíram para reduzir os riscos assumidos pelos promotores imobiliários que haviam investido nesses espaços. Por outro lado, enquanto centro da cidade, o bairro exerce um forte poder de atração sobre a população imigrante recentemente chegada a Barcelona. Hoje nos encontramos diante de um centro muito mais heterogêneo e multifuncional que, para além de sua função residencial e de localização dos principais monumentos públicos, constitui a zona comercial por excelência e o principal espaço de lazer e de cultura da cidade (Claver, 2006: 145-146).

A autora mostra que o poder público teria começado o processo de reabilitação da área central da cidade, estimulando assim o mercado imobiliário. Por outro lado, a prefeitura também promoveu fortemente os centros culturais, incentivando a abertura de bares, restaurantes etc. com o intuito de aumentar o turismo (principalmente na esteira dos Jogos Olímpicos de 1992) e o consumo cultural de maneira geral, constituindo o que a autora denominou de “modelo misto de renovação”, uma vez que o discurso público seria o da mistura de pessoas, e não o da expulsão de determinados segmentos sociais (Claver, 2006:162). Claver afirma que embora os indicadores de atividades econômicas na região ainda sejam relativamente baixos, a segregação social se configuraria como um prognóstico possível, já que o poder público não se mostraria interessado em construir, nesse espaço, projetos para novas moradias populares.

Bidou-Zachariansen (2006) elabora um panorama sobre a situação atual de Barcelona, enfatizando o fato de essa cidade não se enquadrar no caso descrito por Ruth Glass nos anos 60 para Londres. Isto é, embora haja um constante aumento da valorização econômica da área, “a ‘regeneração’ deste centro antigo [de Barcelona] ocorreu a partir do voluntarismo das políticas e não pelas práticas ‘espontâneas’ de famílias de ‘pioneiros’ e, principalmente, porque as famílias de classe média que habitam o bairro ainda são poucas” (Bidou-Zachariansen, 2006:40-41). Dessa forma, a autora propõe classificar o caso como sendo uma “gentrificação do convívio”,

no sentido de que muita gente da classe média frequenta o bairro renovado, suas butiques, cafés, restaurantes, galerias, assim como numerosos turistas (pertencentes às mesmas classes sociais). Mas a situação ainda não se estabilizou, e pode-se prever que no final o preço do solo vai atingir níveis demasiado elevados para que as camadas populares possam aí permanecer, embora as intenções declaradas sejam de diversidade social (Bidou-Zachariansen, 2006:41).

Silva (2006) constrói um esquema sobre os dois processos que influenciam o fenômeno da gentrification (e que não necessariamente aparecem juntos), ajudando a delimitar melhor as diferenças encontradas nos diversos contextos nacionais. Segundo a autora, a gentrification poderia ser desenvolvida devido à demanda, isto é, pelas “estratégias das classes médias de (re)conquista de territórios e de volta à cidade depois de décadas de encantamento pelos conjuntos e loteamentos fechados, estimuladas pelo setor imobiliário” (Silva, 2006:8). Essa classe média não seria a tradicional, mas sim os yuppies, isto é, “famílias jovens, com maior escolaridade” (Silva, 2006:8). Também poderia ocorrer devido a estímulos por parte da oferta “e das decisões dos produtores de espaços – as estratégias dos governantes, em acordo com o setor privado, para tornar as cidades competitivas, dotando os centros de características que os tornariam atrativos para aquelas classes, seja para moradia ou para consumo e lazer” (Silva, 2006:8).

Poderíamos, então, dividir o fenômeno da seguinte forma: a gentrification pela demanda, tendo como principal motor a reconquista habitacional das áreas centrais pelas classes abastadas (ou seja, por atores privados), como um fenômeno típico do mundo anglo-saxão; e a gentrification pela oferta, encontrada prioritariamente no contexto das cidades europeias continentais, sendo efetuada pelo poder público – geralmente em  parceria com a iniciativa privada – com o intuito de alterar a imagem da área central e assim, estimular a vinda das classes média e média alta para moradia, consumo e lazer (sendo as duas últimas as atividades que comumente acabam por predominar).

Desse modo, enquanto nas cidades anglo-saxãs o fenômeno tem origem esporádica, efetuado por atores privados e tendo como principal consequência a vinda das classes média e média alta para morar na região, nas cidades europeias continentais ele é provocado pela intervenção estatal, como uma estratégia de tornar centros urbanos competitivos na “concorrência intercidades”[6] (Fortuna, 1997:234), tendo como principal resultado o consumo cultural, o turismo e o lazer, muitas vezes decorrentes da revalorização do patrimônio histórico, acarretando a “gentrificação do convívio”, isto é, de visitação e de frequentação.

voltar ao topoAmérica Latina: gentrification com especificidades locais?

Tendo em vista os modelos mencionados, como é que a gentrification se desenvolve quando transposta para o contexto da América Latina?

A fim de contribuir para elucidar tal indagação, serão brevemente explanados os casos da Cidade do México – estudado por Hiernaux-Nicolas (2006) – e de Buenos Aires – pesquisado por Carman (2006) – e, no contexto brasileiro, retomaremos o caso de Recife – por meio dos trabalhos de Leite (2004; 2006) – e também, mais detidamente, o contexto paulistano, através das análises efetuadas por Frúgoli Jr. & Sklair (2009) e de minha pesquisa de Iniciação Científica[7].

Hiernaux-Nicolas (2006) afirma estar ocorrendo um processo de retomada das áreas centrais da Cidade do México pelas camadas da classe média, atrelado ao “surgimento de novas atividades comerciais e de serviços (lojas, restaurantes, bares etc.), ou ligadas ao lazer (museus, galerias de arte etc.), assim como a algumas experiências residenciais” (Hiernaux-Nicolas, 2006:230).

O autor evidencia que o processo foi desencadeado pela administração municipal e seguido pelos investidores privados. Hiernaux-Nicolas traça um panorama  mostrando como os investimentos imobiliários seriam ainda muito embrionários. “O que parece um sucesso mais evidente é a retomada do centro pelas atividades comerciais, de serviços e de lazer, entre outras, mas principalmente as culturais, pelo setor privado, pelas universidades e pelo governo da cidade” (Hiernaux-Nicolas, 2006:254).

Mesmo a frequentação nos estabelecimentos comerciais recém-abertos não geraria uma real circulação e apropriação da área, podendo assim ser questionado se, de fato, em tal contexto, estaria ocorrendo um processo de gentrification em termos de visitação e de frequentação, como aconteceria no exemplo europeu. O autor mostra como as boates e os restaurantes só são bem-sucedidos se contarem com estacionamentos e manobristas, já que a classe média que os frequenta não se atreveria a andar por “um centro deserto após as oito da noite” (Hiernaux-Nicolas, 2006:254), o mesmo motivo que, segundo ele, obliteraria o interesse desses indivíduos por morar na área. O autor conclui que esse não seria um processo sem retorno, ou seja, “é possível que os revezes econômicos ou a força dos setores populares ponham freio a esta retomada” (Hiernaux-Nicolas, 2006:259) do centro pelas classes mais abastadas.

Carman (2006) analisa a revalorização do bairro de Abasto, de Buenos Aires. Seu estudo concentra-se no período que começa em 1997, quando se iniciam obras a fim de transformar o Mercado de Abasto em um shopping center. A autora busca elucidar “de qué manera el patrimonio histórico-cultural del barrio devino en arena de las disputas entre diversos actores sociales que allí habitaban durante los años previos a la inauguración del shopping” (Carman, 2006:135). Segundo Carman, a introdução maciça do que denominou de “fuerzas del mercado” renovou as disputas pelo espaço, engendrando a configuração das identidades sociais de seus moradores.

Para a autora, o enobrecimento ocorrido em Abasto somente pode ser compreendido no contexto da “política de lugares e da memória” que foi desenvolvida em Buenos Aires por “grupos públicos y privados que detentan poder material y simbólico, y que contribuyen a la instauración de una red desde la cual se visibilizan e invisibilizan recorridos y grupos sociales” (Carman, 2006:138). Dessa forma, certos espaços seriam postos em evidência, enquanto outros ficariam na penumbra, sendo o poder público, em parceria com grupos privados, o responsável por tal política. “La visibilización de ciertos espacios con competencia específica operó en la producción de sentidos y signos como marca efectiva para los barrios enaltecidos, y como ausencia de marca para los que no lograron tal reconocimiento y permanecieron en una zona de sombra” (Carman, 2006:139).

Em Abasto, o renovado interesse pelo bairro, resultando numa política de estetizar e revalorizar  seu patrimônio histórico, fez com que as classes médias interessadas no processo passassem a ver parte de seus moradores como “usurpadores” desse patrimônio, estigmatizando-os. Os “intrusos” seriam os indivíduos de baixa renda que viviam de maneira ilegal nos casarões e que agora passavam a ganhar interesse e visibilidade econômica, junto com a criação de uma nova identidade para o bairro, vinculada ao seu antigo morador mais ilustre: Carlos Gardel. Assim, os grupos imobiliários privados, com respaldo do poder público, passaram a expulsar esses moradores, de uma maneira que a autora denomina como “desalojo ‘cash’”, já que, na maioria dos casos, houve pagamento de uma “indenização”, o que deu “una legitimidad a los ocupantes al menos en lo concerniente a la apropriación material de esse inmueble, al hecho de haber transcurrido buena parte de la vida en aquel sitio” (Carman, 2006:153).

Segundo Carman, a ilegalidade desses moradores aumentava à medida que o patrimônio se tornava mais visível, isto é, “la activación patrimonial del barrio provocó entonces una iluminación por defecto de las ocupaciones” (Carman, 2006:160, grifos da autora). Ao mesmo tempo, esses mesmos “intrusos” criavam discursos que os legitimavam como sendo os “auténticos vecinos del barrio” (Carman, 2006:158). No caso de Abasto, portanto, a reapropriação do espaço por grupos privados foi concomitante com um forte processo de estigmatização dos indivíduos que não se encaixavam no público-alvo pretendido, isto é, as classes média e média alta.

No que se refere ao Brasil, como Frúgoli Jr. & Sklair (2009) sintetizam fazendo referência aos estudos de Antonio Arantes, Osmundo Pinho e Rogério Leite,

os trabalhos mais conhecidos que dialogam com o tema da gentrification (...) têm enfocado intervenções havidas em áreas centrais de cidades nordestinas, como Salvador ou Recife, marcadas por patrimônios históricos revalorizados, através de intervenções coordenadas pelo Estado, voltadas sobretudo ao incremento do lazer, consumo e turismo, envolvendo certo grau de parcerias com agentes privados, e acarretando formas de apropriação social posteriores que indicam certamente novos usos mais elitizados de frequência e consumo, mas que se entrelaçam com distintas ocupações dos espaços públicos por parte das classes populares, várias delas recriadas a partir de tais intervenções (Frúgoli Jr. & Sklair, 2009:121).

No que diz respeito especificamente ao caso pernambucano, Leite apresenta uma análise sobre as políticas de enobrecimento urbano desenvolvidas no Bairro do Recife. Esse autor aponta para o fato de que na Rua do Bom Jesus, principal espaço de desenvolvimento da “revitalização” do bairro, “era perceptível a existência de dois espaços simbolicamente segmentados, demarcados pela rua que delimitava suas duas calçadas” (Leite, 2006:31). A primeira, por Leite denominada de “calçada-luz”, é aquela que foi enobrecida, na qual “perfilavam as edificações restauradas, transformadas em elegantes e sofisticados bares e restaurantes, inacessíveis ao padrão econômico da maioria da população brasileira. (...) A dimensão cenográfica da ‘calçada-luz’ era visível pela calçada oposta” (Leite, 2006:31), a “calçada-sombra”, na qual “tudo lembrava uma cidade comum” (Leite, 2006:31), com bares vendendo comida barata, casas lotéricas, presença de meninos em situação de rua etc., e na qual a população local que da primeira calçada era excluída, poderia permanecer (Leite, 2006:31). Leite sustenta que

Era possível observar, naquele ínfimo espaço, que as representações que seus frequentadores faziam de si e dos outros estavam fortemente marcadas pelas possibilidades de acesso a padrões culturais de consumo, cujos limites emergem da transformação do patrimônio em mercadoria cultural. Enobrecidas, as antigas edificações pareciam distantes do cotidiano dos moradores do bairro (Leite, 2006:31-32).

Leite também apresenta as distintas e inesperadas formas de apropriação do espaço enobrecido por partes das classes populares que dele deveriam ser banidas, fenômeno que o autor denominou de “contra-usos”. Aproximando as definições de Certeau de “estratégia” e “tática” com as de “paisagens de poder” e “vernacular” de Zukin[8], o autor sugere que

as ‘táticas’, quando associadas à dimensão espacial do lugar, que as torna vernaculares, se constituem em um contra-uso capaz não apenas de subverter os usos esperados de um espaço regulado como de possibilitar que o espaço que resulta das ‘estratégias’ se cinda, para dar origem a diferentes lugares, a partir da demarcação socioespacial da diferença e das ressignificações que esses contra-usos realizam (Leite, 2004:215, grifos do autor).

O autor afirma que esses contra-usos se configurariam como “contranarrativas” às proposições oficiais tanto de utilização do patrimônio quanto de planejamento urbano, sendo capazes de produzir sentidos políticos e de fomentar a repolitização da área que foi objeto de políticas de gentrification.

Como Frúgoli Jr. & Sklair (2008) informam, na segunda edição de seu livro Leite esclarece que retornou ao Bairro do Recife cinco anos após ter terminado sua pesquisa, e encontrou “uma paisagem deserta, ou em alguns casos, o retorno de grupos que ocuparam a região antes das intervenções” (Frúgoli Jr. & Sklair, 2008:11, tradução minha). Haveria, portanto, um quadro de abandono pelas classes médias do espaço enobrecido e o retorno de sua tomada pelas classes populares – processo que teria ocorrido também em Pelourinho, a área de Salvador que sofreu o mesmo tipo de interferência. Segundo os autores, para explicar tal situação, Leite aventa que esta derivaria tanto “do abandono estatal das políticas de investimento cultural nestas áreas” (Frúgoli Jr. & Sklair, 2008:11, tradução minha) quanto dos “contra-usos”, “entendidos como reações aos processos de gentrification” (Frúgoli Jr. & Sklair, 2008:11, tradução minha).

Passemos a reconstruir com mais vagar o contexto paulistano, no qual o principal lócus de requalificação urbana encontra-se no bairro da Luz. Neste caso, o poder público invariavelmente se portou como o agente central na tentativa de renovação da região. Além disso, desde o início – nos anos 80, com o governo estadual de André Franco Montoro e, posteriormente, na administração de Mário Covas, o processo se intensificou, passando inclusive a contar com a parceria privada representada pela Associação Viva o Centro –, a estratégia principal foi a dotação de âncoras culturais na área, isto é, a restauração e criação de instituições culturais de peso, tais como a Sala São Paulo, a Pinacoteca do Estado e o Museu da Língua Portuguesa, capazes de trazer novo afluxo de determinados tipos de frequentadores (desejados), sendo esperado que isso conseguisse atrair empreendimentos privados para a região, formando assim um “círculo virtuoso” de investimentos.

Uma vez consolidada a identidade cultural do perímetro, a partir de 2005 a administração municipal começou a desenvolver o Projeto Nova Luz, cujos objetivos são a atração de investimentos privados que acelerassem a construção de prédios comerciais e residenciais na região. As alterações na área ainda são tímidas, parecendo muito indefinida tanto a data da vinda das empresas selecionadas pela prefeitura para ocuparem a área, quanto a sua própria efetivação.

Frúgoli Jr. & Sklair resumem o Projeto Nova Luz da seguinte maneira:

Mais recentemente, a atual gestão local de São Paulo tomou tal área como prioritária para uma política mais ampla de requalificação, dando continuidade a uma política iniciada pelo governo do Estado há duas décadas, de transformar a Luz num ‘bairro cultural’. No início de 2005, ocorreu uma série de ações de repressão, fiscalização e controle no bairro, e ao final daquele ano, a Prefeitura anunciou, para a região, um programa de incentivos fiscais, intitulado ‘Nova Luz’, com o intuito de atrair novos negócios, serviços e comércios. Por volta de dois anos depois, tiveram início as primeiras demolições no perímetro da assim chamada ‘Nova Luz’ [Frúgoli Jr., 2000; Folha de São Paulo, 9/3/2005; Prefeitura do Município de São Paulo, dez./2005a e dez./2005b; Kara-José, 2007] (Frúgoli Jr. & Sklair, 2009:122).

A declaração do prefeito Gilberto Kassab de que a “Cracolândia” não existiria mais, bem como a transferência da sede do Comando Geral da Guarda Civil Metropolitana (GCM) para a região, denotam a estigmatização da área e de seus moradores por parte do poder público, compartilhada tanto pela mídia quanto pela maioria dos frequentadores e visitantes da Sala São Paulo por mim entrevistados; situação que também ocorreu em Abasto e no Bairro do Recife. Estes, se algumas vezes absolvem os moradores, declarando que seriam pessoas “normais”, acabam culpando os usuários de drogas[9] e os moradores de rua pela degradação e violência presentes na região, alguns tendo pedido inclusive mais policiamento – solicitação atendida pela prefeitura com a vinda da sede da GCM –para reverter o suposto quadro de abandono da área. Sobre tal questão, Frúgoli Jr. & Sklair elucidam que

no caso da Luz, a atual gestão local (PSDB-DEM) parece valorizar explicitamente intervenções desenhadas para atrair uma população de maior poder aquisitivo ao bairro, bem como priorizar a expulsão de certos setores da população atual da região central (Frúgoli Jr., 2006b), sem nenhuma tentativa de enfrentar as questões de fundo sócio-econômico situadas no cerne da precariedade que caracteriza as vidas da maioria das pessoas atualmente vivendo no bairro (Frúgoli Jr. & Sklair, 2009:131).

Se os esforços efetuados pelo poder público para atrair novos empreendimentos e investimentos privados e, por extensão, um novo público (consumidor) ao bairro são constantes, coloca-se como questão o impacto real até agora sofrido pela região em face do consumo cultural. Isto é: o público-alvo pretendido pelo investimento em âncoras culturais – e agora, mais recentemente, pelo Projeto Nova Luz – realmente está vindo para a região, efetuando o consumo cultural pretendido? Se a resposta for positiva, então “até que ponto os grupos sociais vinculados à reabilitação urbana são capazes de impor sua perspectiva, transformando áreas decadentes em paisagens urbanas[10]?” (Rubino, 2004:293).

Tentando contribuir para a elucidação de tais questões, concentrei-me no mapeamento do consumo cultural de uma das âncoras culturais do bairro – a Sala São Paulo –, com o intuito de verificar as condições socioeconômicas de seus frequentadores e se eles são constituídos pelo público-alvo do Projeto Nova Luz. Assim, procurei perscrutar se as classes (média e média alta) que o poder público e a Associação Viva o Centro desejam ver se apropriando da região já a estariam frequentando, pelo uso dos equipamentos culturais presentes na Luz. Além da análise socioeconômica, tentei também apreender as opiniões e posicionamentos dos frequentadores acerca do bairro, de seus moradores e das políticas implementadas com o objetivo de revitalizá-lo.

Para tanto, construí um questionário, dividido em duas partes: uma estruturada, na qual mapeei o perfil socioeconômico do entrevistado, por meio de indagações a respeito de renda, grau de escolaridade, local de moradia etc., e uma semi-estruturada, através da qual pude apreender de maneira mais densa as representações e opiniões dos indivíduos, explorando os seus conhecimentos acerca do Projeto Nova Luz, se teriam interesse em morar no bairro, que ideias possuiriam sobre ele e seus moradores, se prefeririam que a Sala São Paulo se localizasse em outra região etc. Efetuei as entrevistas tanto com os indivíduos que faziam a visita monitorada do prédio quanto com os que frequentavam os concertos da Osesp. Isso porque meu intuito era analisar se esses dois eventos diferentes, em que não só horários, mas também os preços são diversos, atraem ou não públicos distintos do ponto de vista socioeconômico; e também se esses dois públicos sustentam ou não opiniões semelhantes.

No caso dos frequentadores dos concertos da Sala São Paulo, pude perceber que o seu nível de renda é relativamente superior ao daqueles que apenas fazem a visita monitorada do prédio. Levando em conta que são os primeiros que frequentam a casa de concertos com certa regularidade (muitos dos visitantes estavam indo pela primeira vez à Sala), seria possível enquadrar esses consumidores da Sala São Paulo como sendo pertencentes ao público-alvo dos projetos de requalificação da Luz, isto é, às camadas médias. Entretanto, seria difícil defini-los como pertencentes aos segmentos sociais que a literatura acadêmica identifica como sendo geralmente um dos principais agentes dos processos de gentrification. Em outras palavras, os consumidores da Sala São Paulo não podem ser denominados como yuppies, pois, embora tenham alta escolaridade e uma faixa de renda relativamente elevada, são pessoas mais velhas, podendo, de fato, ser consideradas como pertencentes à classe média tradicional. Quanto ao consumo cultural por parte da “população das ruas da Luz” (Frúgoli Jr. & Sklair, 2009:124), tais como “pequenos comerciantes, funcionários de estabelecimentos comerciais, frequentadores dos bares e serviços, transeuntes, seguranças e profissionais do sexo” (Frúgoli Jr. & Sklair, 2009:124), Frúgoli Jr. & Sklair revelam que “os equipamentos culturais do bairro não são em geral frequentados por tal população, que por vezes não consegue identificar a localização precisa dos mesmos, apesar da proximidade física” (Frúgoli Jr. & Sklair, 2009:126).

Outro ponto que merece atenção é o escasso aproveitamento que os frequentadores da Sala fazem do bairro como um todo. Além de valorá-lo de forma negativa (visão que também se estende, como já assinalado, para os supostos responsáveis por tornar a área uma “Cracolândia”), a maioria dos frequentadores de concertos entrevistados deixou claro que não costuma circular pelo bairro para além do entorno imediato da instituição cultural, algumas vezes tendo sido por eles apontada como crucial a existência do estacionamento nas dependências da instituição, o que sublinha o hermetismo da Sala São Paulo (e de seus consumidores) em relação à área na qual está inserida – realidade muito similar àquela delineada por Hiernaux-Nicolas sobre a Cidade do México.

De fato, não há efetiva apropriação e vivência do bairro por parte dos frequentadores, que, apesar de se dizerem satisfeitos quanto à localização da sala de concertos, se mostram em seguida temerosos em relação à violência que julgam existir fora dos muros da instituição. Tal questão também é explorada nas reflexões de Frúgoli Jr. & Sklair (2009). Caracterizando o consumo da Sala São Paulo, os autores afirmam que esta

atrai uma certa população às noites, que utiliza, quase que na totalidade, seus carros para locomoção, deixando-os no estacionamento do próprio prédio. A Pinacoteca, por sua vez, atrai um número considerável de visitantes, mas a grande maioria tem acesso à instituição através do metrô, com uma das saídas situadas logo à sua frente, sem qualquer necessidade de interação com o resto do bairro. Não se pode negar, então, que tenha havido mudança na população que frequenta circunstancial ou pontualmente o bairro, notadamente essa atraída por instituições ou eventos culturais, mas isso não configura, a princípio, uma mudança na vida pública do bairro em questão (Frúgoli Jr. & Sklair, 2009:129, grifos dos autores).

Outro dado perceptível por meio das entrevistas é o pouco interesse dos frequentadores dos concertos da Osesp de se mudarem para a região, algo que, acrescido do total desconhecimento que demonstraram ter do Projeto Nova Luz, coloca em xeque um prognóstico de vinda desses segmentos sociais para habitar o bairro.

Assim, se é possível analisar os frequentadores da Sala São Paulo como sendo passíveis de serem enquadrados dentro do público-alvo preferencial das políticas de requalificação urbana da Luz, pode-se concluir que, a despeito das tentativas efetuadas pelo governo, esse público não mostra interesse em apropriar-se da região nem por meio da visitação e dotação de novos estilos de vida à área e nem por seu uso residencial. Isso quer dizer que a implantação das âncoras culturais e seu subsequente consumo por parte das camadas mais abastadas, ao menos até agora, não foram suficientes para alterar a configuração da área. Não se poderia – ao menos até o momento – classificar o caso paulistano como constituindo um caso de “gentrificação do convívio”, como ocorreria na Europa continental, muito menos apontar um processo de alteração residencial nos moldes anglo-saxões.

Segundo Rubino, estudos sobre áreas revitalizadas, no Brasil,

mostram que bairros e ruas ‘obsoletos’ tornaram-se espaços culturais e de consumo, lugares de encontro, bares, pontos turísticos, mas ainda não temos evidência suficiente para afirmar que, no tocante ao uso residencial, uma população de baixa renda tenha sido substituída por outra, de moradores ‘nobres’. Ainda que se trate de um processo de gentrification, é também uma mudança de uso, de função da área – ainda que mais ‘nobres’, os novos usuários estão ali muitas vezes de passagem, o que enfatiza a volatilidade do consumo visual, mas enfraquece o argumento do morador que carrega consigo um novo estilo de vida (Rubino, 2004: 293).

No caso da Luz, o quadro é ainda mais delicado, pois, se não se pode falar em mudança na composição social dos moradores (algo que parece – ainda – não ocorrer no contexto nacional), também não se pode afirmar que o panorama do bairro seja parecido com os outros casos brasileiros no que se refere ao consumo cultural. Isto é, se, como elucida Rubino, nos outros lugares há a formação de um circuito cultural e de consumo, com restaurantes, bares etc., criando espaços, ainda que efêmeros, de encontro (portanto, de convivência e de frequentação), no caso da Luz os únicos espaços de sociabilidade e de consumo criados para atrair as classes mais “nobres” são as âncoras culturais que foram introduzidas pelo poder público. Tal realidade permite apontar que o consumo cultural de instituições como Sala São Paulo, Pinacoteca do Estado e Museu da Língua Portuguesa não foi suficiente para conseguir atrair novos empreendimentos privados à região.

Por enquanto, é possível apenas afirmar que há de fato uma tentativa por parte do poder público e, por meio da Associação Viva o Centro, da iniciativa privada, de renovar a área, mas os resultados são ainda muitos tímidos para que se conclua haver na cidade de São Paulo um processo de gentrification em qualquer dos moldes aqui sumariamente delineados – constatação é consonante com Frúgoli Jr. & Sklair (Cf. 2009:131).  Segundo os autores,

Se, por um lado, o bairro não se encontra no meio de um processo de mudança estimulado pela chegada de parcelas das classes médias e por novas configurações no mercado imobiliário – como visto em vários casos europeus e norte-americanos –, por outro, tampouco passa por um simples processo da efetiva expulsão da população já presente nos moldes mais conhecidos na América Latina (Frúgoli Jr & Sklair, 2009:131).

Como os mesmos autores salientam, é muito difícil predizer o futuro da região da Luz:

A continuação da presente campanha de intimidação e estigmatização da população da Luz poderia resultar eventualmente na migração de grandes parcelas da mesma para outras regiões da cidade, como em outros casos brasileiros, ou então a administração pública pode, numa certa hora, vir a desistir do seu projeto para essa área, dirigindo suas atenções para outros bairros da cidade. E sempre temos que contar com a possibilidade de alguma administração futura redesenhar o presente projeto de requalificação do bairro, para realmente incluir a população já presente. Sem saber qual dessas possibilidades se realizará, dificilmente poderemos chegar a uma conclusão sobre os processos urbanos em andamento nessa região (Frúgoli Jr. & Sklair, 2009: 132).

voltar ao topoAlgumas conclusões

Por meio desse balanço bibliográfico não exaustivo, pode-se concluir que nos casos latino-americanos apresentados o principal agente do processo de requalificação urbana é o poder público, contando invariavelmente com a parceria da iniciativa privada; padrão que os aproxima do modelo de gentrification descrito pela literatura para compreender os exemplos encontrados na Europa continental. Além disso, também como no modelo europeu, o principal resultado não foi a atração, para as regiões que sofreram intervenções, de novos moradores pertencentes às classes média e média alta, mas sim a promoção de atividades vinculadas ao consumo, turismo e lazer.

Outro dado importante, visível tanto no caso de Abasto quanto no Bairro do Recife, bem como no da região da Luz, foi que esse processo contou com uma forte tentativa de estigmatização e expulsão dos antigos moradores de baixa renda. E, finalmente, como os casos da Cidade do México e do Recife revelam, a despeito do estímulo às atividades de consumo e visitação e do forte papel exercido pelo Estado na condução do processo tornarem os casos encontrados na América Latina assemelhados aos presentes na Europa continental, a frequentação por parte da classe média e média alta da área cujo enobrecimento era pretendido, embora ocorra, por ser volátil, parece não proporcionar uma efetiva vivência e dotação de novos sentidos ao espaço, fazendo com que, com relativa rapidez – como torna patente o exemplo do Bairro do Recife – ele possa voltar a apresentar a configuração existente antes do desenvolvimento das políticas de renovação da área. No caso de São Paulo, essa frequencia mostra-se bem mais restrita, e a apropriação e dotação de novos sentidos à região por parte desses novos consumidores são ainda mais tímidas e inexpressivas.

voltar ao topoBibliografia

a) Acadêmica

BIDOU-ZACHARIANSEN, C. Introdução. In: Bidou-Zachariansen, C.; Hiernaux-Nicolas, D.; Rivière d’Arc, H. (orgs.) De volta à cidade: dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos. São Paulo, Annablume, 2006.

CARMAN, M. La invención del barrio noble. In: Las trampas de la cultura: los “intrusos” y los nuevos usos del barrio de Gardel. Buenos Aires, Paidós, 2006.

CLAVER, Nuria. A Ciutat Vella de Barcelona: renovação ou gentrificação. In: Bidou-Zachariansen, C.; Hiernaux-Nicolas, D.; Rivière d’Arc, H. (orgs.) De volta à cidade: dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos. São Paulo, Annablume, 2006.

FORTUNA, Carlos. Destradicionalização e imagem da cidade – o caso de Évora. In: Fortuna, C. (org.) Cidade, Cultura e Globalização. Oeiras, Ed. Celta, 1997.

FRÚGOLI JR., Heitor & SKLAIR, Jessica. The Luz district in São Paulo: anthropological questions on the phenomenon of gentrification. Paper para o IX Congresso Internacional da BRASA (Brasilian Studies Association), New Orleans, mar. 2008. Disponível em: http://sitemason.vanderbilt.edu/files/gO5Hfq/FrugoliSklair.doc. Último acesso em: 02 mai. 2010.

_____. O bairro da Luz em São Paulo: questões antropológicas sobre o fenômeno da gentrification. In: Cuadernos de Antropología Social n. 30, FFyL, Universidad de Buenos Aires, 2009. Disponível em: http://www.scielo.org.ar/pdf/cas/n30/n30a07.pdf. Último acesso em: 02 mai. 2010.

HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo, Loyola, 1992.

HIERNAUX-NICOLAS, Daniel. A reapropriação de bairros da Cidade do México pelas classes médias: em direção a uma gentrificação?. In: Bidou-Zachariansen, C.; Hiernaux-Nicolas, D.; Rivière d’Arc, H. (orgs.) De volta à cidade: dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos. São Paulo, Annablume, 2006.

LEITE, Rogério Proença. Contra-usos da cidade: lugares e espaço público na experiência urbana contemporânea. Campinas, Ed. Unicamp, 2004.

_____. Margens do dissenso: espaço, poder e enobrecimento urbano. In: Frúgoli Jr., H.; Andrade, L.T.; Peixoto, F. A. (orgs.) As cidades e seus agentes: práticas e representações. Belo Horizonte, PUC - Minas/Edusp, 2006.

RUBINO, Silvana. “Gentrification”: notas sobre um conceito incômodo. In: Schicchi, M. C. S. & Benfatti, D. (orgs.). Urbanismo: dossiê São Paulo – Rio de Janeiro. Campinas, PUCCAMP/PROURB, 2003.

SILVA, Helena Menna Barreto. Apresentação. In: Bidou-Zachariansen, C.; Hiernaux-Nicolas, D.; Rivière d’Arc, H. (orgs.) De volta à cidade: dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos. São Paulo, Annablume, 2006.

SMITH, Neil. A gentrificação generalizada: de uma anomalia local à “regeneração” urbana como estratégia urbana global. In: Bidou-Zachariansen, C.; Hiernaux-Nicolas, D.; Rivière d’Arc, H. (orgs.) De volta à cidade: dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos. São Paulo, Annablume, 2006.

ZUKIN, Sharon. Paisagens urbanas pós-modernas: mapeando cultura e poder. In: Arantes, Antonio A. (org.) O espaço da diferença. Campinas, Papirus, 2000a.

_____. Paisagens do século XXI: notas sobre a mudança social e o espaço urbano. In: Arantes, Antonio A. (org.) O espaço da diferença. Campinas, Papirus, 2000b.

_____. Loft living: cultural and capital in urban change. New Brunswick, Rutgers University Press, 1989.

 

b) Midiática

A cracolândia não acabou, apenas mudou de endereço. Portal de Notícias da Globo. 23 mar. 2008.  Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL360760-5605,00.html. Último acesso em: 08 mai. 2010.

FERRAZ, Adriana. Projeto Nova Luz não chega à nova cracolândia. Agora, São Paulo, 24 abr. 2009. Disponível em: http://www.agora.uol.com.br/saopaulo/ult10103u555506.shtml. Último acesso em: 08 mai. 2010.

 

 


[1] Este artigo é fruto de minha pesquisa de Iniciação Científica, desenvolvida entre os anos 2007 e 2008 junto ao Departamento de Sociologia da USP, e que se tornou possível pelo financiamento da FAPESP e a orientação da Profa. Dra. Maria Helena Oliva Augusto. Agradeço a ela e ao Prof. Dr. Heitor Frúgoli Jr. pela interlocução, apoio e incentivo demonstrados. Também agradeço a Milena Estorniolo, Fábio Mallart e Eduardo Dullo pela leitura, sugestões e críticas às versões desse texto, que começou a ser reelaborado sob o estímulo do Prof. Dr. José Guilherme Cantor Magnani como um trabalho final à disciplina Práticas Culturais em Contexto Urbano, cursada em 2009. Todos os equívocos que porventura houver no texto são de minha inteira responsabilidade.

[2] Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo. Contato: This e-mail address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it .

[3] Para Rogério Leite, o melhor termo em português seria “enobrecimento”, embora “a tradução desse neologismo, derivado do inglês gentry, é ainda controversa no Brasil” (Leite, 2004:33). Tendo em vista tal indefinição terminológica, valer-me-ei, ao longo do texto, tanto do termo original gentrification quanto da tradução “enobrecimento”. Quando se tratar de citação, manterei a terminologia utilizada pelo(a) autor(a).

[4] Com a expressão “cidades anglo-saxãs” refiro-me não apenas às localidades urbanas pertencentes à Grã-Bretanha, mas também àquelas existentes em ex-colônias britânicas, como é o caso das metrópoles norte-americanas.

[5] A esse respeito, ver Harvey (1992), especialmente parte II.

[6] Valendo-se de Harvey e de Lash & Urry, Fortuna assegura que, “corolário da crescente autonomia de governação política das cidades, sob o pano de fundo da ‘acumulação flexível’ e da crise fiscal do Estado, (...) a concorrência intercidades diz respeito tanto à captação de investimentos como à fixação local de fluxos globais ou parcelas suas, como à produção de imagens próprias da cidade. O apelo é dirigido tanto aos residentes como ao exterior e pretende reforçar a posição relativa da cidade no mercado das competências urbanas” (Fortuna, 1997:234).

[7] O meu objetivo principal era o de etnografar o consumo cultural da Sala São Paulo (atual sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), articulando-o às políticas de requalificação urbana da região da Luz desenvolvidas pelo poder público em parceria com a iniciativa privada. Para tanto, efetuei, dentre outras atividades, uma série de entrevistas tanto com os indivíduos que faziam a visita monitorada ao prédio quanto com aqueles que frequentavam os concertos da Osesp.

[8] Conforme esclarece o autor, “por ‘estratégia’, entende Certeau um conjunto de práticas que articulam espaço e poder. Como as ‘paisagens de poder’ de Sharon Zukin (2000), elas criam demarcações físicas através das quais o poder se distribui e se consolida” (Leite, 2004:214). Já as “táticas” “podem ser entendidas como o que é ‘vernacular’ (dos sem-poder) no interior das ‘paisagens de poder’” (Leite, 2004:215).

[9] A tentativa de expulsão dos usuários de drogas da região acarretou na migração dos mesmos para um perímetro próximo, que foi denominado pela mídia de “Nova Cracolândia”. Ver, a esse respeito, dentre outras, as reportagens “A cracolândia não acabou, apenas mudou de endereço” (2008) e “Projeto Nova Luz não chega à nova cracolândia” (2009).

[10] Rubino faz referência ao conceito de paisagem de Zukin, segundo a qual a paisagem “é, em grande parte, uma construção material, mas também é uma representação simbólica das relações sociais e espaciais. A paisagem ‘coloca’ homens e mulheres em relação com os grupos sociais e os recursos materiais, bem como nos coloca – como observadores – em relação com os homens e as mulheres, as instituições e os processos sociais observados por nós. A paisagem é uma poderosa expressão das restrições estruturais de uma cidade. Com frequência, o que observamos como paisagem – aquilo que é construído, escondido e que resiste – é uma paisagem do poder” (Zukin, 2000b:106). Segundo Zukin, paisagens do poder “são um texto visível das relações sociais, separando e estratificando atividades e grupos sociais, incorporando e reforçando as diferenças” (Zukin, 2000b:106).