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Judaísmo na periferia: lazer e formas de sociabilidade

Carlos Andrade Rivas Gutierrez

Mestre em Antropologia pelo PPGAS - Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP - Universidade de São Paulo

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Um grupo de pessoas, pertencentes a congregações pentecostais e neopentecostais, passa a se identificar como descendente de cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo, principalmente à força, durante a Inquisição) e cria a sinagoga Beith Israel, no bairro de São Mateus, periferia de São Paulo. Lá, conforme seus próprios esquemas de percepção, praticam o judaísmo ortodoxo. Mas, ao buscar o reconhecimento da comunidade judaica de São Paulo, são impedidos de retornar à religião. No presente artigo, busco analisar a interação entre os fiéis em seu pedaço e como a sociabilidade específica da periferia influencia a dinâmica da vida religiosa. Dessa forma, podemos observar a formação de um habitus judaico próprio, que resulta em uma vivência particular do judaísmo, diferente da encontrada no circuito Higienópolis-Bom Retiro, bairros que concentram a comunidade judaica considerada oficial.

Palavras-chave: Marranismo urbano; judaísmo; novas identidades; periferia; religiosidade popular; festividade.

voltar ao topoAbstract

The aim of this study is the analysis of a new agent’s entry at the judaic field and his relations inside this field and with the city. A group came from Pentecostal religions starts to identify himself as bnei anussim, in other words, descendents of jews who were forced to convert to christianity during the Inquisition. They try to be recognized by jewish authorities, but the attempt fails. After that, they created their own synagogue Beith Israel, at Sao Mateus neighborhood, a poor suburb area in Sao Paulo. There, they practice Orthodox Judaism, according to their own way of perception. In this article, I try to analyze the interactions between the members of the synagogue and their neighbors and how this specific sociability is important to the dynamic of the religious life. Therefore, we can survey the formation of a different and particular jewish habitus, distinct from the habitus found inside the Higienópolis-Bom Retiro’s circuit, neighborhoods that concentrate the established jewish community in Sao Paulo, Brazil.

Key-words: judaism, new identities, poor suburb; popular religiosity; urban marranism.

voltar ao topoIntrodução

No início dos anos 90, na capital paulista, de acordo com seus relatos, o pastor da Assembléia de Deus, Marcos Moreira da Silva, começou a se questionar a respeito de algumas tradições de sua família, de origem nordestina. Não compreendia por que foi circuncidado[1] no oitavo dia após seu nascimento, além de hábitos como, por exemplo, acender velas às sextas-feiras. Ao buscar informações sobre o assunto, principalmente nos trabalhos da historiadora Anita Novinsky (1983) e do jornalista Hélio Cordeiro (1997), passou a identificar-se como descendente de cristãos-novos, ou seja, judeus sefaradi[2] convertidos ao cristianismo durante a Inquisição.

Após ter contato com essa bibliografia, principalmente pela internet, a fim de esclarecer as dúvidas existentes em relação ao significado dos costumes de sua família, o pastor Marcos Moreira teve certeza de que ele e outros que possuíam determinada ascendência familiar do Nordeste do país eram bnei anussim[3], descendentes de judeus portugueses  forçados a se converter ao cristianismo e que rumaram ao Brasil.

Dessa maneira, começou a reavaliar sua própria fé, aprofundando-se na leitura da Torá (Antigo Testamento) e do Talmud Babilônico, também conhecido como “Torá Oral” - transcrição dos relatos orais de diversos sábios judaicos. Decidiu abandonar a Assembléia de Deus por considerá-la uma blasfêmia e formou uma sinagoga, de nome Beith Israel, no bairro de São Mateus, na periferia paulistana, atraindo outros fiéis, que se identificam como judeus, a maior parte deles também oriunda de igrejas protestantes. A partir daí, o ex-pastor adotou o nome de rav[4] Mordechai Moré[5].

O grupo liderado pelo ex-pastor decidiu seguir o judaísmo ortodoxo, já que, na visão nativa, seria a maneira correta de obedecer aos mandamentos divinos que eles, como judeus, deveriam seguir. Procuraram então rabinos ortodoxos em São Paulo em busca da teshuvá[6], mas estes rechaçaram a hipótese, pois, segundo o Beit Din (grupo dos rabinos mais influentes e importantes), aquelas pessoas não tinham como comprovar a ascendência matrilinear judaica, pois não possuíam um certificado de casamento judaico, ou qualquer outro documento que atestasse isso. Dessa maneira, negaram o retorno e propuseram a conversão[7].

Porém, Mordechai e seus fiéis recusaram-se a aceitar a proposta, que implicaria, segundo eles, a negação de sua própria identidade judaica, pois assumiriam a condição de goym[8], o que, dentro de seus esquemas de percepção, é encarado como uma ofensa. Atualmente, os anussim aceitam a conversão, desde que seja realizada somente nos casos em que não se possa comprovar a matrilinearidade judaica.

Mesmo sem a aprovação das autoridades rabínicas, o grupo começou a praticar o judaísmo em seu próprio templo, dedicando-se a ensinar aos anussim, os costumes, ritos religiosos e tradições sefaradi, ou seja, introduzindo-os na religiosidade judaica. A escolha do local da sinagoga Beith Israel não é explicada somente pela falta de condições financeiras do grupo, já que a região é considerada pelos nativos como tendo uma alta concentração de “judeus em potencial”[9], pois o bairro de São Mateus, com mais de 150 mil habitantes, é um dos principais redutos nordestinos da cidade.

É importante problematizar o uso da história para significar tradições e o estabelecimento de monopólios de classificação social. A tradição a que ambos os grupos se apegam é, para Hobsbawn, uma “tradição inventada”, que inclui tanto as tradições realmente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas, quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período específico de tempo.

“A ‘tradição’ neste sentido deve ser nitidamente diferenciada do ‘costume”, vigente nas sociedades ditas ‘tradicionais’. O objetivo e a o característica das ‘tradições’, inclusive das inventadas, é a invariabilidade. O passado real ou forjado a que elas se referem impõem práticas fixas, tais como a repetição. O ‘costume’, nas sociedades tradicionais, tem a dupla função de motor e volante. Não impede as inovações e pode mudar até certo ponto, embora evidentemente seja tolhido pela exigência de que deve parecer compatível ou idêntico ao precedente. Sua função é dar a qualquer mudança desejada a sanção do precedente, continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história”. (Hobsbawn, 2008, p. 10).

De acordo com o autor, muitas vezes, “tradições” que parecem ou são consideradas antigas são bastante recentes, quando não, inventadas. Não se trata aqui de atribuir a invenção a um ou outro grupo, mas compreender que os agentes sociais em questão apegam-se à tradição para legitimar suas práticas e justificar seu pertencimento a um povo, a um determinado legado religioso e cultural. É impossível, além de não se tratar do objetivo desse artigo, mapear origens e indicar os detentores da “verdade histórica”. Porém, é necessário abordar, de maneira breve, o uso da história pelos agentes e suas implicações.

Segundo Bourdieu, toda a ação histórica põe em presença dois estados da história: a reificada, quer dizer, a acumulada ao longo do tempo nas coisas, máquinas, costumes, livros, teorias e a incorporada, que se tornou habitus. Dessa forma, a história institucionalizada só se torna atuante se algum agente a achar interessante e ver vantagens nela, reconhecendo-a e a assumindo. Nesse processo, encontramos os bnei anussim que se reconhecem e adotam um passado comum, com base em uma produção historiográfica específica: o marranismo no Brasil Colônia. Os judeus da comunidade considerada oficial também justificam sua identidade com base em uma história já dada pela Torá e o Talmud. Assumem-se herdeiros dessa “tradição”, o que confere à burocracia religiosa do “judaísmo estabelecido” o monopólio de classificar quem é judeu e também da apropriação adequada dos livros sagrados.

Os agentes que participam desse universo simbólico lutam para manter ou alterar sua posição na hierarquia desse espaço específico. Tanto os anussim como os judeus ditos oficiais, utilizam-se da história para justificar sua condição de judeu. O processo de significação da Torá e do Talmud, entendidos aqui como elementos da história reificada, é alvo de disputa por parte dos agentes, a fim de subverter ou manter a ordem que rege o campo judaico. De acordo com o esquema de disposições desses agentes, essa história reificada é incorporada na forma de habitus, ou seja, será vivenciada e entendida de maneiras distintas, estando de acordo com a posição e disposição dos participantes dessa esfera.

É importante ressaltar que a história não é objeto de luta somente para os envolvidos no campo judaico, mas também entre os historiadores que, dentro de seu campo específico, travam disputas em torno da produção do conhecimento histórico. Portanto, o material histórico, dependendo dos embates existentes no interior da esfera da disciplina, pode, segundo Hobsbawm, reificar tradições novas, garantindo a elas o status de “tradição antiga”. Isso irá refletir nas disputas de outros campos, pois fornecerá bens simbólicos que podem ser utilizados por diversos agentes distintos, com os mais diferentes interesses.

“A história faz-se nesta luta, neste combate obscuro em que os postos moldam de modo mais ou menos completo os seus ocupantes que se esforçam por se apropriar deles, em que os agentes modificam de maneira mais ou menos completa os postos, talhando-os à sua medida”. (Bourdieu, 2006, p.103.)

Os anussim de São Mateus não pretendiam apenas ter um espaço onde pudessem praticar a religião e manter uma rede de sociabilidade; o grande objetivo ainda não havia sido atendido: a aceitação pela comunidade judaica, socialmente considerada como oficial – é importante ressaltar que a questão da oficialidade não é algo natural, mas sim uma imposição da visão de mundo dos agentes sociais dominantes no campo judaico – e do Estado de Israel.

Dessa forma, Mordechai e seus fiéis fundaram a Fisba – Federação Israelita Sefaradi Bnei Anussim, instituição que tem como objetivo organizar os descendentes de cristãos-novos, segundo o esquema de classificação da entidade, em todo o país e representar seus interesses, ou seja, garantir a própria existência social do grupo, e lutar pelo seu reconhecimento junto a órgãos religiosos de Israel. A instituição já chegou a contabilizar 300 grupos no país e mais de 1.500 membros. Por conta de divisões internas, conflitos no campo religioso e outros fatores, o número de filiados sofreu uma queda, mas já se encontra em recuperação, segundo Mordechai. Atualmente, a sinagoga conta com cerca de 30 famílias, em São Mateus.

A sinagoga Beith Israel tem a intenção de formar uma comunidade judaica no bairro de São Mateus, revelando para a população seu passado judaico e trazendo os anussim, segundo a crença nativa, de volta à sua verdadeira religião. Para tanto, usam desde comunidades no site de relacionamentos Orkut para divulgar e incentivar o retorno ao judaísmo, como a oferta de cursos de cultura judaica na região.

Assim, muitos que buscavam o judaísmo e não eram aceitos pela comunidade, aproximaram-se da Beith Israel,  passando a viver o judaísmo ortodoxo, segundo seus esquemas de percepção, em um bairro periférico, o que implicará muitas dificuldades. Mesmo com o baixo poder aquisitivo, alimentam-se preferencialmente de comida kasher[10]. Veremos no decorrer do artigo como a dinâmica religiosa é afetada pela lógica do bairro e também o contrário, em uma relação dialética entre o judaísmo outsider e a periferia.

Para Mordechai, o fato de os anussim serem negros, pobres e de origem nordestina explica a negativa frente às tentativas de retorno e  acesso às sinagogas consideradas oficiais, do circuito Higienópolis - Bom Retiro. Desta forma, as intervenções promovidas por eles introduzem alterações não apenas no âmbito da periferia paulistana, assim como na dinâmica mais geral do campo judaico, de forma que um campo de conflito se estabelece.

Há também um problema secundário neste estudo, mas que se encontra completamente inter-relacionado ao primeiro que se trata da questão da luta pela identidade judaica, já que ao entrar no campo religioso, esse movimento, diga-se de passagem, extremamente burocratizado e racionalizado, no sentido weberiano, contesta a legitimidade dos rabinos e instituições judaicas que possuem o monopólio simbólico de definir quem é judeu e também a exclusividade na produção, reprodução e distribuição de bens simbólicos judaicos.

Segundo Bourdieu, toda prática ou crença dominada está fadada a aparecer como profanadora na medida em que, por sua própria existência e na ausência de qualquer intenção de profanação, constitui uma contestação objetiva do monopólio da gestão do sagrado e, portando da legitimidade dos detentores deste monopólio. (BOURDIEU, 2005).

A não aceitação, a princípio, por parte das instituições judaicas organizadas e estabelecidas, leva o grupo de São Mateus a fundar a própria sinagoga. O grupo estudado rapidamente organizou seus quadros e até mesmo processos de formação sacerdotal, a fim de formar uma Federação pronta para angariar novos adeptos e também suprir a demanda dos que buscam a prática do judaísmo, mas que não conseguem ser aceitos nas sinagogas “tradicionais”.

voltar ao topoO judaísmo na periferia

Após uma breve introdução do objeto e de seu desenvolvimento, podemos tratar da especificidade de seguir o judaísmo ortodoxo na periferia. Muitos moradores veem os anussim com certa ressalva, pois são identificados por esses como “descendentes do povo que matou Jesus”. O fato é que já tiveram uma sinagoga apedrejada e foram forçados a se mudar de um amplo imóvel, no qual funcionava a sinagoga e o primeiro kibutz urbano do grupo, após o proprietário descobrir que eram judeus. Porém, muitos moradores evangélicos veem o grupo com bons olhos, já que, para eles, trata-se do povo eleito, citado no Antigo Testamento.

De qualquer forma, ao estabelecerem-se na região e dar início às atividades religiosas e comerciais, tiveram que se inserir no pedaço. Mordechai ingressou no Conseg – Conselho Comunitário de Segurança, de São Mateus, levando  os moradores do bairro a considerá-lo uma liderança respeitável, já que passou a encaminhar problemas dos vizinhos à subprefeitura responsável pela região. Além disso, muitos policiais são membros da comunidade, o que fez com que a população local sentisse uma certa garantia de que eram “gente de bem”.

“Olha, no começo, quando eu vi esse pessoal por aqui, estranhei muito. Eles usavam roupa estranha, falavam entre eles numa língua esquisita. Fiquei muito desconfiada, sabe? Aí quando eu vi que tinha um monte de policial lá, que era amigo deles, sosseguei. Vi que bandido não era. E comecei a olhar uns rapazinhos sempre com esse bonezinho (kipá) na cabeça, voltando de ônibus, com uniforme, mochila. Aí eu vi que era gente trabalhadeira, gente de bem. Antes o pessoal fazia muita fofoca, falava que era um povo ruim, mas depois a gente viu que eles eram gente de bem, cumprimentam todo mundo, antes eles eram mais fechado, na deles, mas hoje todo mundo conhece eles” (Dona Silvana, 63 anos, moradora de São Mateus).

O relato da moradora mostra a mudança de atitude da comunidade ao longo do tempo. Os anussim perceberam a necessidade de manter uma maior informalidade, ou seja, um contato maior com os goym, para serem aceitos no pedaço e participarem da rede de trocas que nele existe.

Segundo Magnani (1998), nos bairros ocupados por pessoas de baixa renda, na periferia dos grandes centros urbanos, o pedaço tem maior importância para os moradores do que em bairros mais nobres, já que, nesses últimos, os vínculos que ampliam a sociabilidade restrita da família nuclear não são os da vizinhança, mas sim os relacionados à esfera profissional. Na periferia, a população encontra-se sujeita às oscilações do mercado de trabalho e tem condições econômicas desfavoráveis. Logo, é mais dependente da rede formada por laços de parentesco, vizinhança e origem. Assim, o pedaço é um local em que essas pessoas conseguem assegurar suas necessidades, justamente por ser um espaço regido por relações sociais específicas.

Um fator extremamente importante para a aceitação do grupo no pedaço foi a caridade. Muitos moradores que precisam de atendimento médico vão até a sinagoga e pedem uma carta de encaminhamento da Fisba – Federação Israelista Sefaradi Bnei Anussim, conseguindo ser atendidos com mais rapidez. Segundo Mordechai, a subprefeitura respeita a comunidade judaica de São Mateus e agiliza a marcação de consultas. O fato é que o documento emitido tem sua eficácia simbólica e implica a necessidade de retribuição, no esquema da dádiva maussiana.

É importante ressaltar que ações de caridade no bairro não são calculadas pelos anussim, com a finalidade de conseguir estabelecer-se no pedaço. Segundo Bourdieu, apesar das ações serem orientadas a determinados fins, não são conscientemente dirigidas a eles, nem dirigidas por eles. O conceito de habitus supera a oposição consciente/insconsciente e estrutura/indivíduo, já que se trata de um conhecimento sem consciência, incorporado ao longo de toda a trajetória do agente. Desse modo, a caridade é praticada não tendo em vista um fim específico, mas se trata da maneira como o grupo percebe e pratica o judaísmo, o que resulta, neste caso, na entrada no pedaço e em sua sociabilidade específica.

Os goym, quando solicitados, sempre estarão de prontidão para fornecer algum remédio, emprestar ferramentas e material de construção, ajudar no transporte de algum objeto, oferecer caronas, entre outras diversas formas de retribuir o auxílio dado pelos anussim. Outra ação de destaque no bairro é o projeto “Quem tem fome?”, que consiste na arrecadação de alimentos nas feiras-livres e sua posterior distribuição às famílias carentes, tanto às que são considerados judias como às goym.

Em ida a campo, participei com Mordechai da coleta na feira. Fiquei encarregado de transportar o carrinho, enquanto o líder da comunidade conversava com os feirantes. Ele usava uma boina, em cima da kipá, pois, segundo ele, tal estratégia diminuiu o “preconceito do pessoal”. Cumprimentava todos, de maneira muito alegre:

“Olá, como vai, querido (a)? Tem algo para nos ajudar hoje? Como vai sua família? Espero que todos estejam com as bênçãos do Eterno, assim como você.”

Muitos sorriam, cumprimentavam-no e davam alimentos, enquanto que outros pediam para que ele passasse no final da feira. Outros simplesmente ignoravam ou respondiam que “hoje não”. Aquele que entregava algum item recebia uma bênção de Mordechai. A maior parte dos entrevistados disse que gosta de ajudar, pois a doação ajudará pessoas carentes e também porque gostam de receber uma benção de Mordechai que, segundo eles, por ser judeu, tem uma “palavra forte”.

“Eu gosto muito de receber as bênçãos dele, uma vez, minha filha tava doente, ele pediu por ela e rapidinho melhorou. Aí eu vi que é um homem de Deus, que tem uma fé muito forte. Então ajudo com todo gosto, pois sei que é uma boa ação e que ainda recebo graças do Senhor.” (Dona Marilda, 48 anos, feirante).

Um dos principais problemas enumerados pelos nativos é a dificuldade de seguir a alimentação kasher. Muitos produtos podem ser encontrados em sites de entidades como o BDK – Beit Din Kashrut, que verifica a produção de diversos alimentos, a fim de classificá-los como apropriados para o consumo, de acordo com as leis dietéticas judaicas. Porém, produtos como, por exemplo, carne e vinho, além de artigos religiosos, não são vendidos na zona leste.

A obtenção desses bens torna necessária a realização de trajetos pela metrópole, o que obriga os anussim a sair de seu pedaço e deslocarem-se ao Bom Retiro, bairro mais próximo de São Mateus, onde existe uma rede de comércio de artigos judaicos e também de comida kasher.

“Geralmente, todos me tratam muito bem. Já me conhecem, mesmo não sendo dali, eles vêem a kipá[11], o tsitsit[12], conversam comigo em hebraico, aí percebem que sou judeu. E outra, por que eu iria comprar comida kasher se não fosse judeu? Às vezes pensam que sou judeu egípcio, ou árabe, por ser negro”. (Mordechai Moré)

A maior parte dos deslocamentos é feita de ônibus, que leva até ao metrô Carrão, de onde partem até a Estação Luz. As compras são feitas para toda a comunidade e a carne é armazenada no freezer da sinagoga, podendo ser retirada pelos membros posteriormente. Entretanto, muitas vezes o trajeto não é realizado apenas por Mordechai, mas por um grupo, pois são muitos itens para carregar, principalmente garrafões de vinho kasher. Dessa forma, como frisa Magnani em Festa no Pedaço (1998), essa viagem não é completamente “fora do pedaço”, pois se vai ao Bom Retiro, no caso, em grupo. Às vezes, tentam conseguir um carro, com algum membro da comunidade, principalmente para transportar o vinho armazenado em barril.

Alguns nativos já fizeram o trajeto, mas por questões de trabalho. Esdras, 30 anos, ajudante de pedreiro, trabalhou por cerca de cinco meses em uma obra na região. O Minchá, reza da tarde, era durante sua jornada de trabalho, o que dificultava sua relação de trabalho com os colegas.

“Eu me afastava para rezar e ia trabalhar de kipá. Eles (outros funcionários da obra) estranhavam. O problema é que a hora da reza batia bem com o horário do almoço. Alguns levavam marmita e outros comiam em um marmitex[13] próximo. Eu sempre levava minha comida, por que eu como kasher. Mas era complicado, pois ficavam cantando, ou botando música no celular, na hora que eu rezava e isso me atrapalhava. Cheguei até a discutir. Aí pensei, se tô aqui e tem sinagoga perto, vou rezar em uma. Mas perguntaram quem eu conhecia, quem eu era. Expliquei que eu era judeu, mas não me deixaram entrar. Acho que deve ser por que tenho muita cara de árabe, né? Aí eu pedi para um rapaz da rua bater uma foto minha em frente à sinagoga”. (Esdras)

Apesar de não conseguir entrar para rezar, Esdras sempre mostra, orgulhosamente, sua foto em frente a uma sinagoga. Isso garante um determinado capital simbólico dentro do grupo anussim, ajudando-o a conquistar certo status na comunidade, pois atravessou a cidade (Guaianazes, no extremo leste, até o Bom Retiro) e foi fotografado na frente de um templo distante. Algo que, para muitos nativos, é um grande feito. Segundo a lógica do grupo, a expressão religiosa no espaço público, seja nas ruas do pedaço, ou fora dele, é considerada como uma prova de fé, pois o cumprimento das mitzvot[14] nas situações e ambientes mais adversos mostra a força da crença e o orgulho em torno da identidade judaica.

Velas para o shabat na cozinha de Esdras Velas para o shabat na cozinha de Esdras Tanto é verdade que Esdras não teve somente problemas ao trabalhar fora de seu bairro de origem (Guainazes). Ele perdeu o emprego “de carteira assinada”, pois o patrão não aceitava que ele saísse mais cedo às sextas-feiras para cumprir o shabat[15]. É interessante notar como o habitus desses agentes é moldado pelo conteúdo religioso e acaba por influenciar a conduta e a expressão de opiniões na esfera do trabalho e também na própria periferia.

“Habitus, uma estrutura mental que, tendo sido inculcada em todas as mentes socializadas de uma certa maneira, é ao mesmo tempo individual e coletiva; uma lei tácita da percepção e da prática que fundamenta o consenso sobre o sentido do mundo social, fundamenta o senso comum”. (Bourdieu, 2007, p.127.).

Segundo Esdras, ele não aceitou a proposta do antigo patrão (sair com uma hora de antecedência), pois ele não teria tempo para tomar banho e deixar a casa arrumada para o shabat. Sendo assim, optou por “pedir as contas”.

“Pra mim, tá muito claro. Eu trabalhava muito, mas ganhava pouco, não tinha prosperidade, pois tinha que sacrificar o shabat. Aí percebi que se eu cumprisse a lei de HaShem, eu que seria rico, não meu ex-patrão. Ele disse que eu era louco por largar o emprego por causa de religião. Mas, na verdade, ele queria era que eu não rezasse pelo meu D-us, pois aí eu continuaria fraco, nas mãos dele”. (Esdras).

A mezuzah[16] na soleira da porta de sua casa.O cumprimento do shabat passou a ser tanto para Esdras como para outros, um dos principais fatores na escolha de um emprego, já que é necessário encontrar uma ocupação com horários flexíveis. Além disso, o habitus judaico também promove uma rede de sociabilidade específica. O principal passatempo dos anussim entrevistados é assistir à televisão, principalmente programas judaicos e partidas de futebol. A conversa após o shabat, na sinagoga, também é apontada como um importante momento de lazer dos membros. Em espaço separado do ambiente de culto, há um local separado para a confraternização dos fiéis. Conversam sobre jogos de futebol, religião, situações no emprego, a política em Israel, trocam informações sobre vagas de trabalho, tocam violão, cantam e bebem juntos.

“A sinagoga sempre é pensada para ter um espaço livre, para conversa do pessoal. Isso é importante para a vida em comunidade, para o próprio judaísmo. Tanto que sempre tem lugar para dormir, com colchões, para que os que vem de longe possam passar o shabat aqui. É sempre uma festa, com conversa e alegria, após o serviço religioso. Também gostamos muito de assistir a filmes que tenham algo a ver com a parashá[17] da semana, filmes sobre judaísmo, para promover um debate entre nós. Agora, temos a intenção de formar um cinema comunitário, para incentivar a cultura e também diminuir o antissemitismo”. (Mordechai)

Esdras mostrando o SiddurEsdras mostrando o SiddurAos domingos, muitos têm o costume de ir a casamentos ou a casa de parentes, já que sábado é “dia de sinagoga”. Esdras conta que gosta de visitar  parentes em Itaquaquecetuba, município da Grande São Paulo, próximo da zona leste da capital.

“Vou lá, tomo uma cerveja. Visito meus cunhados, às vezes vou na casa do meu irmão, aqui em Guaianazes mesmo. O problema é que eles são evangélicos. Sempre dá alguma discussão, por conta de religião, então eu evito falar disso. Na maior parte das vezes, eu não posso comer porque a comida não é kasher. Mas é legal ver os parentes. Tem vezes que eu vou a casamentos, mas só na festa, não entro na Igreja, porque não é permitido no judaísmo, lá é lugar de idolatria”. (Esdras)

Dessa forma, o habitus judaico do fiel faz com que seu relacionamento com a dinâmica do pedaço tenha uma natureza distinta. Há festas em que não podem ir, por conta da data e/ou do local, empregos que não aceitam por conta dos esquemas de percepção religiosos, além de não poderem realizar qualquer tipo de favor que se caracterize como trabalho, no sábado.

Essa interação social, restrita em alguns pontos, ainda causa estranhamento nas pessoas do bairro, que não compreendem certas ações dos anussim, como a recusa em ser padrinho de casamento, ir à Igreja, ou a alguma festa no shabat. Daí a preocupação da comunidade com a realização de projetos de divulgação da cultura judaica na zona leste, pois acreditam que isso deixará a população mais esclarecida quanto às práticas do judaísmo, diminuindo a resistência que ainda existe por parte de alguns moradores.

voltar ao topoYetzer Hara: o teste constante na periferia

De acordo com Mordechai, ser judeu ortodoxo é algo difícil, pois exige muitos sacrifícios. Mas, segundo ele, na periferia é que a prática ortodoxa do judaísmo é uma verdadeira provação. Aquele que consegue enfrentar todas as adversidades, seja por conta do Yetzer Hara[18], impedimentos socioeconômicos, dificuldades para obter alimentos kasher, entre outros problemas, mostra que realmente ama HaShem por cumprir seus mandamentos em um bairro que coloca inúmeros entraves à vivência judaica.

“Temos que ser sinceros: ser judeu na zona leste é muito mais difícil do que na zona sul (a maior parte dos nativos refere-se assim às regiões nobres de São Paulo). Aqui é o Yetzer Hara atacando o tempo todo, por isso, precisamos estar bem-alimentados na fé. Na periferia é baile funk, mulher com roupa justa e decotada, completamente atiradas. Não que não tenha isso em outros lugares da cidade, mas igual ao que tem aqui? Não mesmo. Aqui o cara prova se é judeu observante mesmo, pois as coisas são cumpridas com mais dificuldade. Aqui tem anti-semitismo mais presente. Sem contar que aqui você tem que se dar bem com todo mundo. Não tem essa de ser fechado somente com os seus. Deixa de cumprimentar alguém aqui para você ver, se o cara for do PCC[19] – Primeiro Comando da Capital, tá lascado. Se você não cumprimentou a mulher, ou irmã dele, aí segura a bucha. Na zona sul não tem PCC. Na maioria das vezes, me trataram bem em Higienopólis e Bom Retiro, mas as comunidades de lá são mais fechadas. Aqui a gente é mais aberto até porque precisamos ser. O Talmud diz que temos de nos adaptar a viver em um local. É o que fazemos”. (Mordechai)

As dificuldades apontadas por Mordechai indicam como a lógica do bairro também interfere na dinâmica da religião. Por conta de certas regras vigentes no pedaço, os anussim não podem se recusar a cumprimentar uma mulher, ou seja, são obrigados a tocá-la, ao dar um aperto de mão, o que não é permitido no judaísmo ortodoxo. A justificativa dos nativos é que a Torá determina que o homem deve abrir mão de certos preceitos, caso isso seja necessário para a manutenção da própria vida. O contato com o sexo feminino seja na questão do toque, ou até mesmo no estabelecimento de um diálogo, é percebido e vivenciado de maneira distinta, em relação ao circuito Higienópolis – Bom Retiro.

No pedaço, a interação entre homens e mulheres é praticamente obrigatória, pois não conversar ou apertar a mão de uma mulher é encarado como algo extremamente ofensivo pelos agentes pertencentes a esse espaço social, segundo seus esquemas de percepção. Dessa maneira, os anussim tiveram que adaptar seu habitus à lógica vigente no pedaço, a fim de ingressar nessa rede de sociabilidade específica e também para evitar uma possível represália. Entretanto, essa obrigação de cumprimentar gerou uma necessidade de explicar, teologicamente, que tal atitude era permitida.

Isso levou a burocracia religiosa do grupo a pensar e debater o mandamento que se refere à interação entre homem e mulher no espaço público, ou seja, entre pessoas que não possuem laços de parentesco. Buscaram explicações na Mishné Torá, obra que tem a compilação das leis judaicas, realizada pelo rabino e filósofo judeu Maimônides, também conhecido como Rambam. Segundo a interpretação que fizeram do texto, não há mal algum em cumprimentar uma mulher, desde que não haja nenhuma intenção sexual, e que a mulher não esteja nidá[20]. Dessa forma, tentam explicar aos vizinhos e pessoas mais próximas do pedaço de que não as cumprimentam somente nesse período. Tal medida pode não resolver completamente o impasse existente, mas o argumento é mais bem aceito pelos moradores de São Mateus, ao entender, após explicações, que para a comunidade judaica a mulher encontra-se impura, durante esse período.

Esse esforço pode ser encarado como uma tentativa de construir um sistema de crenças e práticas religiosas, por meio da estratégia da leitura e interpretação de Rambam, a fim de legitimar sua percepção de mundo e criar um discurso que atenda a uma categoria particular de necessidades próprias dos anussim. (Bourdieu, 2006).

A necessidade do trabalho específico do corpus religioso para justificar uma nova situação acaba reforçando as estruturas do poder da burocracia religiosa, tornando claro, aos fiéis, sua importância e a exclusividade de competência para decidir e pensar o religioso. Logo, a interferência da lógica do bairro no campo religioso não enfraquece a instituição. Ao contrário, fortalece o processo de racionalização da produção de bens religiosos, reforçando a importância e exclusividade da burocracia religiosa. Tudo isso acaba por acentuar o processo de institucionalização da Beith Israel, com a formação de quadros específicos para pensar e dar respostas às questões emergentes no processo de interação com e no pedaço.

voltar ao topoBibliografia

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VALADARES, Paulo. A Presença Oculta: Genealogia, Identidade e Cultura Cristã-Nova Brasileira nos Séculos XIX e XX. Fortaleza: Fundação Ana Lima, 2007.

WACHTEL, Nathan. A fé da lembrança. Lisboa: Editora Caminho, 2003.

WEBER, Max.. Ensaios de sociologia. 4ª.ed. Rio de Janeiro : Zahar, 1979.

______. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Cia das Letras, 2004.

______.Economia e Sociedade. São Paulo: Editora da Universidade de Brasília, 2004, vol 1.

______.Economia e Sociedade. São Paulo: Editora da Universidade de Brasília, 2004, vol 2.

[1] Procedimento que consiste na retirada do prepúcio (pele que recobre a glande do pênis).

[2] Os judeus se dividem em três grupos étnico-religiosos: ashkenazitas (oriundos da Europa Central),  sefarditas (da Península Ibérica) e os Mizrachim ou orientais (da região do Norte da África e Oriente Médio). Há distinções nas tradições religiosas dos grupos, além de lutas pela hegemonia da interpretação “correta” da Torá. O presente trabalho não tratará de todas essas questões, mas irá abordá-las de modo hierarquizado ao problema que este projeto desenha.

[3] Em hebraico: filho dos forçados

[4] Do hebraico: mestre, professor.

[5] Todos os nomes dos entrevistados foram  preservados com pseudônimos, para não prejudicar os nativos. Somente o nome de Mordechai foi mantido, pois já se tornou uma figura pública, por conta do blog da instituição e também na reportagem na Folha de S.Paulo e no Programa Mosaico, voltado à comunidade judaica.

[6] Em hebraico: retorno ao Criador.

[7] Em ambos, o indivíduo é circuncidado - no caso dos homens - e passa por uma micvê,  pequena piscina de água para purificação espiritual .-Sendo mulheres, há apenas a passagem pela micvê. A diferença está na benção proferida em ambos os rituais. Ela é diferente tanto para o converso quanto para o judeu que está retornando à religião, pois se considera que o convertido está recebendo uma neshamá (alma) judaica, enquanto que o judeu que retorna já a possui; ele somente passa por um processo de purificação, que limpa o pecado de idolatria, cometido enquanto se encontrava em outra fé. O judaísmo não é uma religião proselitista, ou seja, não tenta buscar novos adeptos. A conversão nem sempre é fácil, pois o contato com os rabinos é, geralmente, dificultado. Além disso, há um preço cobrado, cerca de R$ 2.500,00 nas sinagogas liberais. Já as ortodoxas não cobram, mas o processo deve ser finalizado em Israel, o que implica em gastos com viagem, estadia, alimentação etc.

[8] Termo em hebraico para designar outros povos não-judeus.

[9] Segundo Novinsky, um em cada três portugueses que vieram ao Brasil teria origem judaica e a maior parte  concentrou-se na região Nordeste.

[10] Em hebraico, propício, de acordo. Apesar de a palavra ser mais associada ao uso de comida também é utilizada em outros contextos como, por exemplo : “Este pergaminho está correto. Logo, ele é kasher”. Kashrut é o termo relacionado às leis alimentares do judaísmo, que serão abordadas em momento mais oportuno.

[11] Kipá é o nome dado ao chapéu redondo que os judeus utilizam. É um símbolo da religião e pelo Talmud (livro sagrado para o judaísmo) é uma forma de mostrar o temor a D’us, reconhecendo a superioridade do Criador sobre a criatura.

[12] Espécie de regata, utilizada pelos homens e meninos, por baixo da roupa, com franjas pendentes, que ficam para fora da vestimenta. Os judeus sefaradi deixam-no dentro da calça. É um mandamento, no judaísmo ortodoxo: (Bamidbar 15:37-40): “Eles usarão pequenas franjas nos cantos de suas vestes…”

[13] Termo  para se referir a restaurantes que vendem refeições a baixo custo, geralmente, servidas em embalagens descartáveis de alumínio.

[14] Em hebraico, mandamentos. São 613, pela Halachá (lei judaica).

[15] Período que compreende o pôr-do-sol de sexta feira ao pôr-do-sol de sábado. Em hebraico, shabat tem relação com shavat, que significa parar, cessar. Dessa forma, o shabat é o dia em que não se trabalha e não se realiza uma série de atividades que, segundo o Talmud, estão relacionadas a formas de trabalho. Uma das principais proibições é com relação à produção de fogo.

[16] Mandamento da Torá que determina seja afixado no umbral das portas um pequeno rolo de pergaminho   contendo as duas passagens da Torá que ordenam este mandamento, "Shemá" e "Vehaiá" (Deuteronômio 6:4-9 e 11:13-21).

[17] Nome dado à porção semanal de textos da Torá.

[18] Em hebraico, inclinação para o mal, para testar o homem com desejos e vontades inadequadas. É um inimigo da fé e, ao mesmo tempo, um aliado, pois é necessário o desvio, justamente para que o ser humano o contorne e siga o caminho correto indicado pela Torá.

[19] Uma das maiores facções criminosas do país. Ver Biondi (2010).

[20] Em hebraico, mulher que está no período menstrual.