| Excursões populares e turísticas: um enfoque sobre quase grupos e práticas de lazer na praia |
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Adjane Araújo - Mestranda do Programa de Pós-graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento - Prodema/UFPB. This e-mail address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it Maristela Oliveira de Andrade - Professora da UFPB - Universidade Federal da Paraíba This e-mail address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it
voltar ao topoRESUMO
Este ensaio propõe um estudo sobre o sentido simbólico do lazer na prática do excursionismo, a partir de uma análise sobre a praia como cenário de lazer e sociabilidades. Excursionismo é aqui definido como sendo os passeios e/ou viagens temporárias organizadas de forma coletiva, permitindo a formação de quase grupos que exercem uma sociabilidade ocasional. Nessa perspectiva, traçamos a caracterização de dois segmentos de excursionistas, os populares conhecidos como “farofeiros” e os turistas, que se diferenciam nas suas formas de vivenciar a praia e pelos seus distintos padrões de consumo. Com base nesta distinção, buscou-se analisar a implementação de políticas públicas de turismo que atuam na exclusão das classes populares, através de medidas de restrição que disciplinam o acesso dos excursionistas aos espaços da praia.
Palavras-chave: Excursionismo, lazer, exclusão.
voltar ao topoABSTRACT
This essay proposes a study on the symbolic meaning of leisure in the practice of one day tourism from an analysis on the beach as scenery for leisure and sociability. Popular tours are here defined as tours organized collectively, allowing the formation of groups engaged in an occasional sociality. In this perspective, we drew the characterization of two segments of day trippers popular known as "farofeiros" and the tourists, who differ in their ways of experiencing the beach and its distinct patterns of consumption. Based on this distinction, we sought to examine the implementation of tourism policies through measures that constrain the access to the beach in exclusion of “farofeiros”, from popular classes.
Keywords: Popular tours, leisure, exclusion
voltar ao topoINTRODUÇÃOA proposta deste ensaio é analisar o sentido simbólico do lazer de acordo com as categorias sociais envolvidas em sua prática. Para tanto, tomamos como referência o estudo do excursionismo, particularmente, a excursão à praia, pelo fato do excursionismo de praia ser uma das mais tradicionais atividades coletivas de recreação e a praia se constituir um espaço de sociabilidades. Apesar de se tratar de uma simples prática de lazer, falar sobre passeios e/ou viagens de excursão não é tarefa fácil, pois poucos são os trabalhos acadêmicos que tratam sobre esses fenômenos. Para a análise proposta neste ensaio, consideramos aquelas excursões de um dia – também conhecidas como excursões bate-volta – e dialogamos, especialmente, com o trabalho de Alcantara (2005) por ser um dos poucos estudos que faz uma abordagem etnográfica do excursionismo, sobretudo, as excursões populares. Utilizamos o termo quase grupos nos apoiando em Mayer (2010) em razão das excursões se encaixarem no conceito do autor, uma vez que, envolve pessoas que se reúnem em torno de um interesse comum, isto é, vivenciar um dia de lazer na praia, mas que não constituem grupos definidos que mantêm alguma forma de associatividade entre seus membros. Essa forma de relação social será analisada como condição inerente ao processo associativo desta modalidade de lazer coletivo. Visamos com esse trabalho contribuir para a discussão das distinções sociais reproduzidas no lazer e suas implicações no usufruto dos espaços da praia. Sobretudo, diante da implementação de políticas públicas que, visando à gestão do turismo no espaço litorâneo, atuam como mecanismo de exclusão dos segmentos sociais menos favorecidos. Nesse sentido, traçamos uma breve reflexão sobre a construção da praia como um espaço de lazer, e uma análise comparativa entre as excursões populares e turísticas, a fim de conhecer os elementos simbólicos que perpassam as práticas desta atividade.
voltar ao topoA PRAIA: ESPAÇO DE DISTINÇÕES E SOCIABILIDADES
A história da relação do homem com o mar é descrita como um processo simbólico, onde a repulsa pela natureza selvagem, aparentemente sem beleza e utilidade, transformou-se em volúpia, criando novas sensibilidades e aproximando o homem das virtudes da natureza marítima (Corbin, 1989). Seguindo a cronologia de alguns autores, durante o século XVIII e metade do século XIX, os fins medicinais e terapêuticos associados aos banhos de mar foram os motivos iniciais para o despertar de práticas e desfrutes que mais tarde criaram novos valores à harmonia do corpo como o ambiente marítimo (Corbin, 1989; Machado, 2000; Rauch, 1995). Nesse imaginário, a vilegiatura marítima que se tornava uma prática social por proporcionar benefícios físicos – como a possibilidade de respirar bem, de acalmar a ansiedade, de curar febres, insônias e melancolias – acabou por despertar prazeres estéticos, tais como o estímulo ao espírito de aventura, o desfrute da agradável paisagem, o desporto ao ar livre, a distração em meio a um público elegante, entre outras emoções (Corbin, 1989). Machado (2000) e Rauch (1995) explicam que essa passagem da praia terapêutica para a praia lúdica é entendida a partir da mudança ocorrida nos horários de utilização da praia, pois enquanto que os potenciais terapêuticos se associam aos elementos frios da natureza, a ideia hedonista corresponde à valorização dos elementos quentes do ambiente a beira-mar. A luz e o calor do sol ganham um grande relevo na estruturação dos códigos de apreciação da natureza marítima. À medida que a praia começa a ser freqüentada na altura do dia em que o “quente” se sobrepõe ao “frio”, chega-se mais tarde à praia, permanece-se mais tempo e desenvolvem-se outras atividades além do banho de mar. A praia é cada vez mais entendida como um espaço de convívio, de alegria, de lazer. Progressivamente, a praia assume um caráter de espaço público (Machado, 2000, p. 213). O desejo pelas praias e o mar começa, então, a incitar o deslocamento de um fluxo de pessoas e o surgimento de práticas de lazer para usufruto desses espaços. A esse contexto, autores destacam a transformação da praia num espaço moderno e associam a esse processo a crescente urbanização acentuando a idealização de ambientes mais tranquilos e saudáveis; a consolidação do modo de produção capitalista proporcionando novas fontes de poder econômico; a ascensão da burguesia industrial; e, consequentemente, o desejo e a busca das elites por práticas sociais distintivas (Cardoso 2008; Corbin, 1989; Machado, 2000). É nessa perspectiva que a praia se torna um espaço de sociabilidades, no qual se configuram novos hábitos coletivos, novos esquemas de apreciação e modelos de comportamento – maneiras de postar-se, permanecer na praia, sentar-se, estender-se na areia (Corbin, 1989). Além desses elementos estéticos, somam-se as casas de praia representando um refúgio ao repouso na estação de verão; as vestimentas e os acessórios ditando modas; a exposição do corpo revelando intimidades e anseios sentimentais; o ato de fotografar possibilitando a apropriação da natureza através da imagem; e o estímulo de estudar sobre a natureza e biologia marítima funcionando também como sinal cultural e simbólico de status social (Cardoso, 2008; Machado, 2000; Rauch, 1995). Assim, a estadia na praia passou a significar, sutilmente, um estilo de vida distintivo e uma prática ostentatória daqueles que sabem usar o tempo livre e daqueles que podem gozar de um tempo livre. (Cardoso, 2008; Machado, 2000). No entanto, uma série de mudanças ocorridas na sociedade industrial repercutiu no caráter elitista dos balneários de praia. A melhoria das estradas e do sistema de transportes, os meios de comunicação propagando os locais de veraneios, a diminuição da carga horária de trabalho, o dinheiro sob forma de salários e a conquista das férias por parte dos trabalhadores, induziram a mobilidade de parcelas da sociedade industrial, proporcionando o rápido crescimento do lazer de massa e, consequentemente, a vulgarização dos balneários, outrora locais exclusivo dos grupos sociais dominantes (Krippendorf, 2001; Urry, 2001). No decorrer dessas transformações, o turismo se moderniza pela consolidação das primeiras entidades e associações no setor de meios de hospedagem, guias turísticos e eventos, pelas viagens organizadas com a finalidade única de lazer e recreação, e por um enxame das excursões de um dia direcionadas, especialmente, para os balneários da moda, de forma que, nitidamente o público das viagens itinerantes se diferenciava daqueles que tinham estadia na praia no período de alta estação (Rejowski et al. , 2002; Urry, 2001). Nesse sentido, desenvolveu-se uma hierarquia do balneário e um grau nítido de segregação de classes. À medida que os balneários mais acessíveis às grandes e pequenas cidades industriais iam se popularizando, os visitantes de status social mais elevado iam se distanciando a procura de paisagens, acomodações e tons sociais mais superiores (Urry, 2001). Corbin (1989) ainda destaca que a chegada de novas categorias sociais, além de levar muitos aristocratas a se refugiarem em novas praias, criou o hábito distingué nos meses de freqüentar os balneários. Segundo o autor, efetuou-se uma modificação no calendário das temporadas, de forma que, se no verão a praia se tornava abarrotada e barulhenta, os meses de agosto e setembro se tornam estações mais nobres para a alta sociedade. No entanto, essas estratégias não foram suficientes para diminuir a diversidade na praia e restringir o acesso dos segmentos populares, Urry (2001), por exemplo, cita que em alguns balneários na Europa foi necessário cercar o terreno e instalar guarita, com entrada paga, a fim de excluir as classes populares da praia, ou facultar o acesso apenas para aqueles que tinham condições de se acomodar em determinado meio de hospedagem da localidade. Por esse motivo, apesar da ocorrida popularização do lazer a beira-mar, o usufruto da praia continuou sendo socialmente seletivo e relativamente restrito em função dos diferentes tons sociais que se configuravam na conquista dos e dos melhores espaços (Urry, 2001). Tais estratégias de distinção e medidas de controle mediante a cobrança de taxa de turismo são também percebidas nos dias atuais e isso acontece tanto em função do valor paisagístico – paisagem natural e romântica, na qual se pode contemplar com deleite (Urry, 2001) – quanto devido ao interesse dos diversos atores que buscam se agrupar com os demais de acordo com suas semelhanças e diferenças, construindo um grau nítido de inclusão e exclusão social nos espaços da praia. Para essa compreensão, Bourdieu (2007) explica que o mundo social pode ser representado em forma de um espaço, no qual podemos recortar classes sociais que ocupam posições de acordo com suas atitudes e interesses semelhantes. A posição de um determinado agente no espaço social é definida pela posição que ele ocupa nos diferentes campos econômico, cultural, social ou simbólico, e na distribuição dos poderes que atua em cada um deles. Dessa forma, as relações sociais se organizam e os agentes se distribuem, espontaneamente, no espaço, segundo a lógica da identificação e da distinção, que tendem a funcionar simbolicamente como espaços dos estilos de vida (Bourdieu, 2007). Assim, a praia como espaço social não só passa a significar lócus de lazer, como também, inaugura distintas formas de sociabilidades. A presença simultânea de distintas classes sociais reflete as diferenças de estilos de vida entre aqueles que na praia circulam, particularmente visíveis nas formas de consumir. Pois, seguindo uma cronologia do sentido do uso da praia de terapêutico para lúdico, pode-se dizer que num terceiro momento a praia se transforma num lugar que atrai para diversas formas de consumo, e se efetiva como palco de disputas simbólicas de poder na apropriação e usufruto de seus espaços. Essa discussão envolve a produção e gestão do turismo em espaços litorâneos que, muitas vezes, transformam os espaços da praia para um público seleto – que se encaixa nas novas configurações sócio-espaciais e nos padrões de consumo –, em detrimento dos segmentos sociais não compatíveis com a transformação da praia em um destino turístico (Alcantara, 2005). Trataremos tal perspectiva adiante a partir da caracterização de dois públicos de excursionistas, que se reúnem na busca de um momento de lazer e divertimento na praia, no entanto, que se diferenciam por representarem de um lado um modelo de lazer alternativo e de outro um lazer agenciado por empresas de turismo.
voltar ao topoO DOMINGO DE SOL NA PRAIAPassar o domingo na praia é uma prática de lazer bastante vivenciada pelas camadas populares, principalmente, porque para muitos o domingo representa o dia de folga do trabalho e a praia uma opção de lazer de baixo custo. A combinação lazer e praia, além de uma alternativa pouco dispendiosa, é uma oportunidade de diversão coletiva (Rodrigues, 2001), em especial, quando o passeio é realizado por excursão. As excursões populares são passeios e/ou viagens organizadas sem uso de grandes recursos e empreendidas por indivíduos de baixa renda, que munidos de alimentação – comida e bebida – arcam com as despesas mínimas do transporte utilizado na viagem e pouco consomem produtos e serviços no local de destino (Alcantara, 2005; Aoun, 2001; Bruhns, 2000; Rodrigues, 2001). A organização coletiva da viagem é uma característica que traz a ideia de quase grupo, pois, as excursões geralmente envolvem a participação de membros de grupos diferenciados, isto é, o vizinho de um, o irmão de outro, e assim por diante. Mayer (2010) explica que no quase grupo as interconexões não são permanentes, estão centradas num propósito comum e seus membros possuem laços sociais em função de participarem de outros grupos, fundamentados, por exemplo, em grau de parentesco e de amizade, seita religiosa, clube esportivo, partido político, entre outros. Contudo, apesar de não estarem envolvidos por uma associatividade fixa, Alcantara (2005) coloca o compartilhar como elemento fundamental nas relações e experiência do passeio de excursão das camadas populares. O uso de depósito de isopores, a repartição do alimento que inclui até mesmo a divisão do ato de cozinhar, os custos da viagem, a propaganda boca a boca, as brincadeiras na praia e durante a viagem, o cantar e o contar piadas. Todas essas práticas, além de ser compartilhadas, acabam sendo um motivo a mais para o passeio (Alcantara, 2005). Magnani (2003) inclui as excursões populares na categoria de rede de lazer – na qual é tecida toda uma rede de relações e interações entre familiares, amigos, colegas e desconhecidos – e também ressalta as animadas conversas, o circular do lanche, o acolhimento aos integrantes que aparecem de última hora para o passeio, e o entusiasmo pela perspectiva de passar um dia diferente na praia. Segundo o autor, ao descrever a organização das excursões, tudo se passa como uma preparação para uma grande festa. Primeiramente, o aviso afixado na padaria do bairro informando preço, local, dia e hora da saída; depois a contratação do ônibus [...]; a venda da passagem a colegas, vizinhos e parentes; finalmente, a preparação do imprescindível farnel o encontro e a curta mais animada viagem (Magnani, 2003, p. 124). Mayer (2001) também utiliza o conceito de rede quando se refere ao quase grupo, já que no quase grupo os indivíduos, mesmo sendo transitórios e diferentes, se articulam em torno de um propósito pelo fato de possuírem relações externas que são definidas no âmbito de uma rede social. Por esse motivo, na dinâmica das excursões populares, mesmo não havendo a permanência e regularidade da participação dos seus membros, estabelecem-se relações de troca e sociabilidades que são visíveis nas formas de descontração e de ocupação dos espaços da praia: “futebol na areia, banho de mar, pescaria, caminhar pelas pedras, apreciar o movimento, saborear o lanche” (Magnani, 2003, p. 125). No entanto, tais práticas e características comuns ao público das excursões populares, não só expressam o caráter alternativo de passar um dia diferente na praia, como constroem, no senso comum, a imagem de um segmento social conhecido e identificado por “farofeiro”. O termo bastante popular é designado àquelas pessoas que vão à praia em caravana e levam todos os mantimentos necessários para o dia de lazer, no entanto, Alcantara (2005) chama atenção para o fato de que tal imagem acaba reproduzindo uma desqualificação simbólica associada ao excursionista de baixa renda, pois, seus momentos de farra, descanso e descontração são muitas vezes interpretados como desordem, bagunça e invasão. Os excursionistas que chegam à praia trazendo sua alimentação e utensílios domésticos; as sobras do farnel que são descartadas nos espaços da praia; os ônibus mal conservados que ocupam espaços significativos na orla e muitas vezes transportam pessoas além da sua capacidade; a concentração do comércio ambulante para atender o perfil socioeconômico desse público; as conversas em tons altos, os gritos das crianças, as bebedeiras. Tudo isso faz com que o “farofeiro” seja considerado como mal educado, poluidor e bagunceiro, que não contribui para a circulação de renda na localidade, consome apenas os espaços e promove despesas públicas e prejuízos ambientais. (Alcantara, 2005). Segundo o autor, essa imagem estigmatizada do “farofeiro”, torna o excursionismo popular uma prática de lazer desvalorizada e uma atividade ambientalmente impactante. Bruhns (2000) também discute essa questão e baseada no estudo de Macedo e Figueiredo (1986), explica que três aspectos são destacados como a imagem que se tem do excursionista “farofeiro”: eles são apontados pela falta de modos e respeito por fazerem de cozinha, dormitório e banheiro os espaços da praia e do mar; são poluidores pela produção de barulho, pela sensação de invasão na praia causando feiúra e deselegância; e são considerados uma praga que espanta a boa clientela em função da sua condição socioeconômica que não permite a utilização dos empreendimentos turísticos e comerciais locais. Somando-se a esses estigmas, por não serem organizadas por alguma agência ou promotor de viagens as excursões populares são apenas consideradas e conhecidas como excursões de “farofeiros”, domingueiras, piratas e/ou clandestinas (Rodrigues, 2001; Aoun, 2001). Assim, o excursionismo popular acaba sendo classificado como uma prática de lazer irregular e enquadrada no setor informal da economia (Alcantara, 2005; Rodrigues, 2001). Vale lembrar que, em alguns casos, o extra que o motorista do ônibus e o organizador da excursão recebem pela viagem comprova que o passeio tem mais a finalidade de usufruto da praia e descontração coletiva do que um fim lucrativo, o que reforça o caráter lúdico da atividade. No entanto, a visão estigmatizada da prática popular do excursionismo tem sido uma das principais causas para justificar certos processos de privatizações da praia, pois, diante do surgimento de impactos ambientais pela presença desse segmento social, os atuais modelos de planejamento público buscam estabelecer barreiras e restrições à mobilidade dessas pessoas, como por exemplo, adotar cobrança de taxa de turismo para a entrada, circulação e permanência dos ônibus de excursão na praia (Alcantara, 2005). A arrecadação está direcionada, principalmente, ao excursionismo em várias praias do litoral brasileiro, e é justificada no sentido de gerar receita adicional para ser revertida em melhoria de infra-estrutura, disciplinar a massificação do lazer e assegurar a preservação ambiental da praia enquanto estância turística. Contudo, tal medida adotada em muitas faixas litorâneas pelo poder público municipal, além de impor novos modelos de organização e uso do território, inviabiliza o acesso dos “farofeiros” as áreas balneares, já que suas limitações de renda não permitem o pagamento da taxa de turismo. Vale destacar que para os “farofeiros” a escolha e motivação para freqüentar uma determinada praia provem de referências familiares ou de amigos e, em alguns casos, a praia se torna estância tradicional das excursões populares, isto é, um lugar onde todos se encontram, se conhecem e restabelecem relações sócio-espaciais antigas. Uma vez submetidos ao pagamento de uma taxa para ter acesso à praia, os excursionistas se vêem obrigados a procurar novas paisagens para novamente transpor suas formas de sociabilidade em outros espaços. Assim, podemos considerar que a transformação da praia em destino turístico legitima novos processos de exclusão, pois, o controle do acesso dos ônibus de excursão de um dia à praia, mediante o pagamento de taxa de turismo, promove a segregação das classes populares, aprofunda as desigualdades e pouco soluciona os problemas ambientais advindos da atividade de lazer.
voltar ao topoO TURISMO DE SOL E MARÁgua, sol, calor e paisagem, além de constituírem um singular atrativo e funcionarem como motivação básica para o lazer em praias, são recursos apontados como uma das principais e primeiras motivações para as viagens de férias e turismo (Rejowski et al. , 2002; Urry, 2001). Por esse motivo, o tradicional turismo de sol e mar é predominantemente praticado e a utilização dos espaços litorâneos para o desenvolvimento de atividades turísticas possui uma tendência marcante de massificação (Andrade, 2002; Urry, 2001), sobretudo, quando a atividade acontece por meio do excursionismo, já que essa modalidade envolve um fluxo grande de pessoas em sua prática. O excursionismo é classificado por viagens temporárias na qual o visitante chega e sai no mesmo dia do local de destino (Andrade, 2002). Quando realizado para atender um público de turistas, possui uma demanda concentrada no período de verão e, frequentemente, é organizado para garantir que o turista hospedado numa determinada localidade tenha a oportunidade de conhecer os atrativos do entorno, com razoável conforto e dispensado de gastos excessivos. O preço da excursão não só inclui o transporte, como também a assistência de um guia e as tarifas para visitação dos atrativos turísticos. Viaja-se, na maioria das vezes, com todo o itinerário da viagem programado e os excursionistas acabam se envolvendo com horários pré-determinados, visitas a locais pré-selecionados, alimentação em bares e restaurantes conveniados, entre outros serviços. “Geralmente as programações são contínuas, compactas e, de certo modo cansativas, por causa da pressa ou da obrigação de cumprimento do roteiro e dos compromissos assumidos por contrato de viagem” (Andrade, 2002, p. 57). O turista excursionista, também conhecido por visitante de um dia, não possui ramificações que o ligam e o levam a participar da excursão, apenas compra um passeio – city tour –, através de uma agência ou promotor de viagem, para conhecer um ou vários destinos turísticos. Nesse caso, encontramos características que se encaixam no perfil de um quase grupo, pois, o critério para participação na excursão não requer a interação entre seus membros (Mayer, 2010). Daí o sentido da presença de um guia na excursão para incentivar algum tipo de animação e possibilitar alguma socialização entre os indivíduos. Outra estratégia de socialização é o agenciamento de excursões para públicos homogêneos, no sentido de atender a necessidades comuns e oferecer serviços específicos para os integrantes que eventualmente viajam juntos, como por exemplo, o segmento da terceira idade, o estudantil, o desportivo, etc. Estes arranjos favorecem a sociabilidade e a formação de quase-grupos. Contudo, nos diversos segmentos algumas práticas são semelhantes entre os participantes das excursões turísticas. Os excursionistas chegam à praia trazendo consigo diversos acessórios, como por exemplo, a câmera fotográfica e a filmadora; o óculos de sol, o chapéu e a bolsa de praia; os protetores solares. Consomem no local de destino, utilizam os equipamentos de alimentos e bebidas, compram o souvenir, ou a lembrança do artesanato local, e tudo isso funciona como uma forma distintiva de usufruto dos espaços da praia. A esse respeito, Urry (2001) destaca que o consumo é um elemento característico da experiência do turista, pois, para que o mesmo possa vivenciar o lugar é necessário a produção de uma série de serviços para atendê-lo. Por esse motivo, tem-se a concentração de hotéis e pousadas, bares, quiosques e restaurantes, lojas de artesanatos e de artigos para práticas esportivas (windsurf, kitsurf, mergulho, caiaque, etc.), clubes, boates, cinemas, entre outros estabelecimentos para oferecer produtos e serviços nos padrões de consumo desse público. Outra característica que leva o turista excursionista a uma apropriação diferenciada do espaço é o fato das excursões serem mais itinerantes, isto é, buscam percorrer mais de um atrativo por viagem a fim de captar o maior número possível de paisagens. Essa mobilidade demonstra a superficialidade do contato do turista com o lugar visitado, e nos faz lembrar as reflexões de Bauman (1998) quando o autor utiliza a figura do turista como metáfora para explicar o jogo da mobilidade na pós-modernidade. De acordo com o autor, os turistas que valem o que comem realizam a façanha de estar dentro e fora do lugar que estão visitando ao mesmo tempo, guardando sua distância como se estivessem dentro de uma bolha de osmose, podem sair de novo em busca de outros destinos quando sua diversão parecer ter-se exaurido. Contudo, exatamente em função do consumo e da sucessão de paisagens que são visitadas, a viagem confere status aqueles envolvidos em sua prática (Krippendorf, 2001; Urry, 2001), e os turistas excursionistas são vistos como visitantes de mínimo impacto e são bem vindos nos locais de destinos. Além disso, diferentemente das excursões populares, as excursões turísticas são agenciadas por empresas de turismo, são regularizadas e enquadram-se no setor formal da economia. Nesse contexto, o excursionismo quando praticado por esse segmento social se encaixa no discurso vigente do turismo como fonte de geração de divisas e, mesmo que se trate de uma atividade de massa possível de gerar impactos ambientais, o fato de ser um indicador de receitas faz com que essa modalidade turística seja sócio-economicamente aceita e estimulada. Por esse motivo, as atuais medidas de controle às atividades de lazer na praia não inclui restrições ao acesso deste público excursionista, em alguns casos a única cobrança é a garantia da utilização de algum empreendimento turístico da localidade, o que implica a comprovação de se tratar de turistas consumidores de um dia.
voltar ao topoCONSIDERAÇÕES FINAIS
Podemos diferenciar as formas de vivenciar o lazer na praia, partindo do ponto de vista de Urry (2001) que adota a ideia do olhar, que pode ser um olhar romântico, isto é, direcionado a tranqüilidade e ao contemplar individual da paisagem, e um olhar coletivo, que está direcionado a agitação, ao animalesco e ao apreciar do lugar onde todos se encontram. Podemos ainda interpretar o primeiro como o olhar dos turistas e o segundo como o olhar das classes populares. No entanto, o propósito da ida a praia de ambos os segmentos, mesmo diante de elementos distintivos, assume motivações simbólicas que se identificam. O prazer de mostrar as fotos ou de relatar sobre a viagem, de relembrar os lugares, os encontros e as paisagens, por exemplo, pode ser considerado uma das grandes satisfações que perpassam o universo simbólico da viagem dos integrantes de ambos os segmentos excursionistas. O consumo e as características de estilo de vida são os princípios que traduzem as distinções simbólicas para que o lazer adquira novos contornos (Bourdieu, 1994). Assim, são as posturas corporais, as formas de se alimentar, de se vestir, de falar, as preferências musicais, as práticas esportivas, etc. que exprimem distinções sociais e esquemas de classificação (Bourdieu, 1994) nos espaços da praia. São também os elementos que produzem os sistemas de disposições, habitus, no qual as pessoas se identificam e reafirmam seus gostos de classe e, principalmente, mantém suas distâncias e aversões sócio-espaciais (Bourdieu, 1994). Evitar, por exemplo, a praia aos domingos é uma maneira bem sutil de não se misturar e de se opor aos públicos populares mais pobres e menos sofisticados, isto é, os “farofeiros”. A partir dessas considerações, o enfoque das excursões nos permite concluir que no primeiro caso os indivíduos se articulam para um lazer vinculado a possibilidade de diversão e descontração coletiva, por esse motivo na sua prática se desenrolam laços de sociabilidades. No segundo os indivíduos se agrupam para uma prática turística associada a diversas estratégias de consumo, já que, em paralelo a potencial atratividade da praia, a oferta de uma gama de produtos e serviços turísticos orienta para formas distintas de vivenciar o lazer no espaço praial. No entanto, tais características não descartam a ideia de que a ida à praia seja um dos padrões sociais incorporados pelas classes populares nas suas formas de divertimento, mesmo porque, os primeiros registros apontam o lazer na praia como uma prática das classes sociais privilegiadas (Corbin, 1989; Machado, 2000; Rauch, 1995). Vale destacar ainda que, diante da difusão de elementos “[...] capazes de ditar moda e estilos de vida a serem imitados” (Aoun, 2001, p. 79) – tais como o corpo bronzeado, a cerveja gelada, os trajes de banho, e até mesmo a atração da praia como um lugar de encontros e contatos sociais – vivenciar um dia de lazer na praia acaba ganhando significados simbólicos, mesmo para aqueles que aparentemente não se encaixam nos padrões sociais de consumo comuns dos destinos turísticos. A caracterização das excursões populares e turísticas, não só permite visualizar os estigmas e as caricaturas criadas em torno dos segmentos que buscam o lazer na praia, como também contribui para a discussão dos atuais mecanismos de exclusão dos freqüentadores cujas práticas estão em desacordo com os padrões sociais e espaciais impostas pelo modelo turístico. A implantação de políticas públicas de turismo impõe mecanismos de apropriação do espaço para os públicos excursionistas de forma diferente, pois, o controle na maioria das vezes é imposto exclusivamente aos populares, já que o arroz, a farofa e o frango assado não combinam com as paisagens que atraem para o consumo. Desta análise podemos concluir que a praia, como cenário social, torna-se um espaço de inclusão e exclusão entre o rico e o pobre, o sujo e o limpo, o feio e o bonito, não só em função de distintos padrões de sensibilidades, como também pelos desiguais padrões de consumo que acabam repercutindo diferentes interesses em disputa, sobretudo quando a praia se torna um ponto de atração turística. Além disso, a implantação de barreiras materiais e simbólicas para excluir os excursionistas pobres, infringe o direito de ir e vir dos cidadãos e contradiz a ideia corrente no Brasil da praia como um espaço público e democrático.
voltar ao topoREFERÊNCIAS
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