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A relação entre ciência e senso comum: para uma compreensão do patrimônio cultural de natureza material e imaterial

[1]Sandra Siqueira da Silva - This e-mail address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it

 

voltar ao topoResumo:

O presente artigo tem a finalidade de discutir o conceito de ciência, sua relação com o senso comum, e a crise da ciência dentro da racionalidade moderna. A partir destes conceitos, será analisada a relação entre racionalidade, conhecimento científico e senso comum na determinação do patrimônio cultural material, catalogado conforme conhecimentos científicos estabelecidos; e do patrimônio imaterial, definido de acordo com as crenças e saberes cotidianos, frutos do senso comum.

Palavras Chave: Ciência, Senso Comum, Racionalidade, Patrimônio cultural material e imaterial.

 

voltar ao topoAbstract:

This article aims to discuss the concept of science, its relationship to common sense, and the crisis of science within modern rationality. From these concepts, we will analyze the relationship between rationality and scientific knowledge and common sense in determining the cultural heritage material, cataloged according to established scientific knowledge, and intangible heritage, defined according to the beliefs and daily knowledge, the fruits of common sense.

Keywords: Science, Common Sense, Rationality, tangible and intangible cultural heritage.

 


voltar ao topoIntrodução

 

O patrimônio cultural é constituído por certos saberes, lugares, monumentos, objetos, modos de fazer, etc. Frente a este campo do conhecimento, temos a clareza de que a ciência tem influência direta na delimitação do patrimônio cultural material. No caso do patrimônio de natureza imaterial, sua delimitação é baseada de acordo com os saberes do senso comum.  Entretanto, como conciliar conhecimentos tão antagônicos que não se imbricam, na compreensão do patrimônio cultural? Este é, portanto o objetivo do presente trabalho, que tem por finalidade discutir o conceito de ciência, e sua relação com o senso comum, a hegemonia da ciência moderna, a crise da ciência dentro da racionalidade moderna, e a importância da interpretação hermenêutica. De acordo com a perspectiva de Santos (1989), Denzin e Lincoln (2006), Carvalho (2000) e Luz (1988).

A partir da abordagem destes conceitos e destas perspectivas, analisaremos a relação entre o conhecimento científico e o senso comum na determinação do patrimônio cultural material, catalogado de acordo com os conhecimentos da arquitetura, história, arqueologia, antropologia, sociologia; e também do patrimônio imaterial, definido de acordo com as crenças e os saberes locais, representados pelos modos de fazer da culinária, das festividades, dos locais, instrumentos, rituais e das crendices populares. Este trabalho objetivará a conceituação, distinção e análise de ambos os termos. Para que assim, no desenvolvimento deste texto aconteça a identificação de qual é o papel e a função da ciência e do senso comum na definição e delimitação do patrimônio cultural de natureza material e material, a fim de se ter uma compreensão sobre o patrimônio cultural.

 

voltar ao topo1) O conhecimento científico e o senso comum no contexto da racionalidade moderna.

 

Até a idade média a religião era quem determinava o que era verdade, e era quem possuía todas as explicações sobre todos os fenômenos. Atualmente a ciência ocupou o lugar da religião. E a religião passou a produzir verdades por adesão, ou seja, só as adere quem acredita nelas. A ciência nasce no século XVII, o fazer ciência acontece com a observação da realidade. A partir desta ação, busca-se levantar hipóteses. A ciência busca a produção de verdades, e se a teoria em questão é confirmada de acordo com os procedimentos pertinentes ao conhecimento científico, tal teoria é tomada como uma verdade, embora na ciência as verdades sejam provisórias, porque com o passar do tempo elas deixam de ocupar o seu lugar como verdade. Entretanto, a única verdade da ciência reside no seu método. Segundo a perspectiva de Luz (1988), a razão é a grande produtora de verdades acerca do conhecimento sobre a natureza e dos seus inúmeros aspectos e peças. Para este autor, a ciência tem a função de ordenar o grande quebra-cabeça cósmico.

Pois, “Para a racionalidade moderna, a partir do século XVIII, só há uma grande certeza, um dogma: o da ciência como caminho único para a obtenção da verdade. Portanto, para o processo de sua produção.” (p. 36). Ao situarmos os contextos de produção do conhecimento; sabe-se que “O conhecimento científico é produzido num contexto específico, a comunidade científica.” (SANTOS, 1989, p. 155). Já o senso comum é um conhecimento prático, produzido em nosso cotidiano, e é por meio dele que orientamos as nossas ações. O senso comum representa a realidade em que estamos inseridos, é um conhecimento fértil, representa as inquietações do sujeito. A ciência rompe com o senso comum, porque o considerou superficial, ilusório e falso. “(...) É certo que o conhecimento do senso comum tende a ser um conhecimento mistificado e mistificador, mas, apesar disso e apesar de ser conservador, tem uma dimensão utópica e libertadora que pode ser ampliada através do diálogo com o conhecimento científico.” (SANTOS, s/d, p. 21). A relação entre ciência e senso comum é abordada por Santos (1989) na concepção de que a ciência se opõe a opinião. Pois, para essa nada é dado, tudo se constrói. O senso comum representa a experiência imediata, o conhecimento vulgar; as opiniões. Ou seja, tudo o que se precisa romper para se tornar possível o conhecimento científico, racional e válido. “A paixão é incompatível com o conhecimento científico, precisamente porque a sua presença na natureza humana representa a exata medida da incapacidade do homem para agir e pensar racionalmente.” (IDEM, p. 117-118).Cada modelo de produção de conhecimento tem suas particularidades no tocante à obtenção de suas verdades. Inicialmente a humanidade iniciou suas crenças a partir das concepções do senso comum, e posteriormente através da razão e da racionalidade modernas, apropriou-se das premissas da ciência.

De acordo com Carvalho (2000), a investigação teórica sobre a ciência recebeu ao longo dos anos as seguintes denominações: epistemologia, filosofia da ciência e metodologia. Para a teoria da ciência um conhecimento é classificado como científico quando se repousa em bases sólidas e seguras, capazes de assegurar certezas e verdades indubitáveis. A atividade do cientista é semelhante à de um solucionador de quebra-cabeças, ao se propor solucioná-lo sabe-se de antemão que nele há uma solução a ser encontrada. Entretanto, a meta da ciência não deve basear-se na busca de certezas indubitáveis, mas sim na construção de hipóteses que propiciem a solução de problemas.

 

É certo que deixa de ter sentido a busca de uma verdade absoluta, de uma cópia integralmente fiel da realidade. O conhecimento é sempre falível, a verdade é sempre aproximada e provisória. Contudo, nem todo conhecimento é igualmente falível, e o fato de o conhecimento e o mundo material serem realidades qualitativamente diferentes não significa que não haja relações entre eles. (SANTOS, 1989, p. 72).

A ciência alcançou tamanha legitimidade em nossa sociedade, que hoje acreditamos e seguimos somente o que é ciência. É somente ela que produz verdades, pois, confiamos plenamente nas receitas e nos remédios prescritos, nos laudos dos exames médicos, nas previsões da meteorologia, nas descobertas da arqueologia, nos cálculos da engenharia para a construção de edifícios sólidos, nos índices e porcentagens das pesquisas das mais diversas áreas. Abandonamos todo o nosso conhecimento prévio e a nossa vivência para aceitar e acreditar plenamente nas certezas produzidas pelo conhecimento científico. A racionalidade científica moderna é pautada na idéia hegemônica da ciência como portadora e produtora de verdades absolutas, e também como fim e meio para solucionar todas as inquietações e problemas da humanidade, estas idéias hegemônicas foram construídas nas relações sociais, para que os indivíduos tomem tais preceitos como verdade. Assim, temos uma percepção muito clara através de nossa vivência cotidiana, que a ciência criou em torno de si uma hegemonia, ela é sempre a última palavra.

“(...) a noção de hegemonia, de Antonio Gramsci, é central para a pesquisa crítica. Gramsci compreendeu que o poder dominante do século XX nem sempre é exercido simplesmente pela força física, mas também por meio de tentativas psicológicas sociais de ganhar o consentimento das pessoas para a dominação através de instituições culturais como a mídia, as escolas, a família e a igreja.” (DENZIN, LINCOLN, 2006, p. 285).

 

De meados do século XIX até hoje a ciência adquiriu total hegemonia no pensamento ocidental e passou a ser socialmente reconhecida pelas virtualidades instrumentais da sua racionalidade, ou seja, pelo desenvolvimento tecnológico que tornou possível. A partir desse momento, o conhecimento científico pode dispensar a investigação das suas causas como meio de justificação. Socialmente passou a justificar-se, não pelas causas, mas pelas suas conseqüências. (SANTOS, 1989, p. 28)

 

Na perspectiva de Denzin e Lincoln (2006), um dos aspectos mais importantes de uma pesquisa qualitativa, inspirada na teoria crítica, envolve o domínio da interpretação de informações. O ato hermenêutico baseia-se no entendimento do que foi observado; com a finalidade de se comunicar a compreensão. A pesquisa e a percepção dos resultados da mesma são atos de interpretação. Esta é, portanto, a finalidade da hermenêutica: interpretar os fatos, mas também desconfiar de qualquer modelo de interpretação que afirme revelar a verdade final. De acordo com Santos (1989), o uso da hermenêutica para uma compreensão crítica da ciência moderna tem uma justificação específica. Na dimensão hermenêutica há o envolvimento entre o sujeito e o objeto, como uma relação marcada pelo ir e vir, um movimento incessante. Já na dimensão epistemológica há o distanciamento entre ambos. A hermenêutica proporciona uma circularidade, a possibilidade de se ressemantizar a teoria do conhecimento, torna a ciência de um objeto estranho a um objeto familiar, mas tal possibilidade apenas é permitida a hermenêutica crítica. A hermenêutica se constitui o contrário da epistemologia, que proporciona certa linearidade. Pois,

 

A reflexão hermenêutica visa transformar o distante em próximo, o estranho em familiar, através de um discurso racional (...) orientado delo desejo de dialogo com o objeto da reflexão para que ele “nos fale”, numa língua não necessariamente a nossa, mas que nos seja compreensível, e nessa medida se nos torne relevante, nos enriqueça e contribua para aprofundar a autocompreensão do nosso papel na construção da sociedade, ou, na expressão cara a hermenêutica, do mundo da vida. (p. 12).

A partir da década de 1940, com o desencadeamento das guerras mundiais, a ciência passou a ser questionada, principalmente após o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Estes questionamentos se iniciaram porque a ciência passou a ser usada a serviço do mal, para os objetivos da guerra e pela guerra, passa agora a ser vinculada a uma dimensão imperialista. Visto que, até este evento, a ciência era vista e percebida como fonte produtora de bem-estar para a humanidade. “No entanto, a máquina de guerra, longe de esmorecer, transformou-se nos anos seguintes numa indústria florescente, e a ciência, sobretudo a que se designa hoje por big science, colocou-se zelosamente a seu serviço.” (IDEM, p. 130). Assim, tendo como marco histórico este evento, surge a perfeita união entre a ciência moderna e o capitalismo, a partir da chamada industrialização da ciência. Em que esta se comporta de acordo com as exigências do sistema vigente.

Para Santos (1989) tal fato contribuiu para a chamada proletarização dos cientistas no interior dos laboratórios, expropriados dos meios de produção passaram a depender de chefes “invisíveis”. A situação dos cientistas nos laboratórios das indústrias tornou-se crítica, pois, vivenciam as pressões do capital a fim de obterem cada vez mais a chamada rentabilidade industrial da investigação. Com a abertura da ciência a exploração do capital, até mesmo a classe dos trabalhadores da ciência, representada pelos cientistas, sofreu com tal abertura. Estes profissionais acabaram perdendo o seu status, restando à classe dos cientistas, aceitarem o seu novo lugar social como proletários. “Hoje, indivíduos ou grupos inteiros podem ainda se arruinar devido a forças econômicas cegas; mas estão são representadas por elites mais poderosas e organizadas.” (HORKHEIMER, 2007, p. 160). Diante deste contexto, são abertos questionamentos a cerca do papel da ciência, a história mais uma vez comprovou que nem sempre as descobertas e as ações realizadas em nome da ciência têm resultados positivos para a humanidade.

O compromisso da ciência com o modo de produção material acarretou o seu compromisso com o sistema social e, portanto, a sua co-responsabilização na criação e gestão das contradições e conflitos dele emergentes (e nele recorrentes) e suas repercussões, quer ao nível interno, quer ao nível internacional. Estava, pois, aberta a crise da ciência.” (SANTOS, 1989, p. 130).

 

Alguns homens, Marx e Freud, com uma passagem considerável na construção do conhecimento científico fizeram alguns questionamentos sobre a ciência, são os chamados mestres da suspeita. Para Marx a ciência tem atuado de forma ideológica, na expropriação da classe dos trabalhadores. Ela se mostra como uma atividade que não é neutra, pois, o seu casamento com o capitalismo está levando a destruição da humanidade e do meio ambiente, ou seja, o conhecimento que aparentemente é caracterizado pela racionalidade, mostra-se completamente irracional. Para Freud o pensamento tradicional toma a ciência como produtora de verdades. A sua crítica reside em se ter a ciência como produtora de verdades, pois, não se é possível ter a certeza nem mesmo do conhecimento que é produzido em nossas mentes. Segundo a visão de Freud usamos mais o inconsciente do que o consciente.

Percebe-se, portanto, que este contexto nada mais é do que um reflexo da atual racionalidade moderna. Segundo Horkheimer (2007) atualmente nossa vida é cada vez mais submetida às forças da racionalização e do planejamento. Não há mais possibilidades de se escapar do sistema. As forças de mercado e uma minoria planejadora controlam o mundo, e os sujeitos devem obrigatoriamente ajustar-se ao sistema. Pois, quanto mais intensa é a preocupação do indivíduo com o seu poder sobre as coisas, mas essas coisas o dominarão.

 

O indivíduo outrora concebia a razão como um instrumento do eu, exclusivamente. Hoje, ele experimenta o reverso dessa autodeificação. A máquina expeliu o maquinista; está correndo cegamente no espaço. No momento da consumação, a razão tornou-se irracional e embrutecida. (IDEM, p. 133).

 

A ciência teve seu surgimento, sua ascensão e sua crise. A partir do que foi exposto, fica a indagação de qual o seu papel na definição do patrimônio cultural. Até onde considerar a análise científica e os saberes produzidos pelo senso comum na determinação do patrimônio cultural. Como conciliar o conhecimento científico e o senso comum na determinação e delimitação do patrimônio, a fim de se alcançar uma compreensão do patrimônio cultural. Estas questões serão o objeto de análise para a seção seguinte.


voltar ao topo2) A ciência e o senso comum na delimitação e determinação do patrimônio cultural


O patrimônio cultural é dividido entre patrimônio material e imaterial. A primeira categoria representa os bens que consideramos visíveis e concretos. A segunda categoria representa os bens perceptíveis, vividos, que podem ser transmitidos e que são intangíveis. Catalogar o patrimônio cultural é um fazer que se constrói e se apóia em bases científicas. Pois, o estudo, conservação, restauração, preservação, tombamento e patrimonialização destes bens culturais dependem da atuação e do trabalho em conjunto de várias áreas do saber, representadas por distintos e específicos conhecimentos científicos. Entretanto, a ciência somente não comporta em sua análise alguns saberes provenientes de certas formas culturais. Nesta área, onde a ciência não pode intervir, outro tipo de conhecimento se apropria deste espaço: o senso comum. Estes conhecimentos, provenientes deste campo do saber, são fundamentais para a compreensão do patrimônio cultural material e imaterial. Antes de iniciar o desenvolvimento deste assunto, é importante determinar e diferenciar alguns conceitos chave sobre o tema em questão.

Conforme Pereiro (2006) é importante ressaltar algumas diferenças entre o patrimônio e o patrimônio cultural. Principalmente porque este tem um sentido voltado para a coletividade, o público, e aquele têm um sentido restrito, familiar, voltado para o lado privado e particular. O patrimônio cultural é algo permanente, ao contrário da cultura que está em constante mutação. Esta é apenas estudada, não pode ser patrimonializada, pois, com esta ação estaríamos fadados a viver como nossos antepassados.De acordo com Choay (2006) o patrimônio está ligado a estruturas familiares, econômicas, jurídicas de uma sociedade, situadas no tempo e no espaço.

 

A expressão designa um bem destinado ao usufruto de uma comunidade que se ampliou a dimensões planetárias, constituído pela acumulação contínua de uma diversidade de objetos que se congregam por seu passado comum: obras e obras-primas das belas-artes e das artes aplicadas, trabalhos e produtos de todos os saberes e savoir-faire dos deres humanos. (CHOAY, 2006, p. 11).

 

Na delimitação do patrimônio cultural, entende-se que este engloba duas categorias: a de natureza material e imaterial, a Constituição federal[2] define o patrimônio em seu artigo 216º como: “Os bens de natureza material e imaterial, portadores de referência à identidade, I- as formas de expressão; II - os modos de criar, fazer e viver (...)”. (p. 39). Durante Conferência Geral da UNESCO, em 15 de novembro de 1989, a Recomendação Paris, sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular, reconhece a cultura popular e tradicional como parte do patrimônio cultural.  Definiu-se que:

A cultura tradicional e popular é o conjunto de criações que emanam de uma comunidade cultural fundadas na tradição, (...) e (...) respondem às expectativas da comunidade enquanto expressão de sua identidade cultural e social (...). Suas formas compreendem a língua, a literatura, a música, a dança, os jogos, a mitologia, os rituais, os costumes, o artesanato, a arquitetura e outras artes. (IPHAN: Cartas Patrimoniais).[3]

 

Para o IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional; representa o patrimônio imaterial: “As práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos (...) reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural.” (IPHAN: patrimônio imaterial). [4]

O patrimônio imaterial é representado e catalogado através de saberes, crenças, práticas, e modos de fazer, originados a partir da prática cotidiana de uma determinada comunidade. O patrimônio imaterial é representado pelos conhecimentos resultantes da experiência cotidiana do senso comum, ou seja, são conhecimentos que são praticados e reproduzidos sem a necessidade de um contato prévio com o saber científico. Estes saberes pertencentes ao campo do senso comum são vivenciados, experienciados, e transmitidos de gerações em gerações, e durante toda a vida por um determinado grupo. Desta forma, fica claro que estes conhecimentos são representados por:

 

Outras formas de expressão humanas de significados (ou de verdades), como as artes, a política, a moral, a filosofia, a religião, serão reordenadas social e epistemologicamente pela razão cientifica. Elas têm como ponto de partida comum fontes impuras para a produção do conhecimento cientifico: a imaginação, os sentimentos, os sentidos, as paixões, a especulação e a fé. (LUZ, 1988, p.36).

 

Segundo a perspectiva de Luz (1988) essas outras formas de conhecimento, tão pertinentes ao senso comum são consideradas impuras para a produção do conhecimento científico, porque tem por base princípios que são completamente rejeitados pela ciência: a imaginação, os sentimentos, os sentidos, as paixões, a especulação e a fé. Ao contrário do que prega a ciência, estes princípios são norteadores para a criação e formatação do patrimônio cultural de natureza imaterial. Que é baseado em toda a experiência cotidiana, permeado pela imaginação, crenças, paixões, medos, mitos, costumes, superstições.

Todo o conhecimento produzido pelas populações tem a finalidade de determinar e caracterizar o seu modo de vida; é uma representação de como uma cultura local pode manter-se e se conservar viva. E o meio para que tal fato aconteça é através da definição e delimitação do patrimônio imaterial. Este é produzido e determinado através dos conhecimentos do senso comum. Pois, as concepções do senso comum são totalmente incompatíveis e inconcebíveis ao conhecimento científico. Assim, a determinação do que é, e como é representado o patrimônio imaterial, fica sob o olhar e determinação do senso comum, pois este compreende claramente os aspectos inconcebíveis a ciência. O patrimônio material é composto por um conjunto de bens culturais classificados segundo sua natureza nos quatro Livros do Tombo: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; belas artes; e das artes aplicadas. Eles estão divididos em bens imóveis como os núcleos urbanos, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; e móveis como coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos. (IPHAN: patrimônio imaterial).[5]

Ao contrário do patrimônio imaterial, regido pelo senso comum; o patrimônio material é determinado pela ciência. É ela que determina o que pode e o que deve ser tombado, quais as formas aplicáveis de conservação e restauro e os materiais propícios para esta atividade, e em quais circunstâncias devem ser realizadas, como devem ser as técnicas de escavação de sítios arqueológicos, qual o valor a ser atribuído a determinadas obras artísticas, enfim, é a ciência que estipula o que é o patrimônio material e como, porque e para que deve ser patrimonializado, tombado e restaurado.

A delimitação científica do patrimônio cultural material é determinada pela união dos conhecimentos das mais diversas áreas; literatura, música, história, arquitetura, arqueologia, direito, engenharia, pautados em conhecimento específicos dotados de clareza e objetividade.

 

Os hermeneutas críticos percebem que um aspecto central de sua análise sociocultural envolve o exame minucioso de como as pessoas estabelecem ligações entre suas experiências cotidianas e as representações culturais dessas experiências. (DENZIN, LINCOLN, 2006, p. 290).

 

Segundo Luz (1988), para se alcançar este apaixonado ideal de abstração, e para a satisfação da necessidade de conhecimento, há na ciência moderna um único caminho: o método científico. Estas formas de conhecimento científico, responsáveis por determinar o patrimônio cultural e sua conservação, têm em comum as características do conhecimento por elas produzido e o seu método, o caminho para se chegar ao conhecimento.

Ciência e senso comum possuem papéis distintos, mas ao mesmo tempo complementares na compreensão do patrimônio cultural.  A seu modo cada categoria compartilha da definição e da delimitação do patrimônio cultural. O senso comum compreende todo o conhecimento produzido pelas populações, determina e caracteriza o seu modo de vida, representa o meio pelo qual uma cultura local pode manter-se e se conservar viva; estes saberes são materializados através do patrimônio cultural imaterial. A ciência usa das suas verdades, do seu método, e do conhecimento produzido pelas várias áreas do saber para determinar e administrar o patrimônio material. Ciência e senso comum contribuem para a compreensão do patrimônio cultural, e de acordo com a sua área de atuação tem o objetivo de delimitá-lo.


voltar ao topoConsiderações Finais

 

Diante da exposição destes conceitos, fica claro que a partir do momento em que a comunidade local, começa a se identificar e a valorizar o seu patrimônio local, ele conseqüentemente passa a ser valorizado, protegido, revitalizado e torna-se uma ferramenta para o desenvolvimento local. Assim, “A cultura saía de um longo ostracismo, pois durante décadas havia sido considerada mais como um fator capaz de paralisar a mudança do que como um possível ponto de apoio do desenvolvimento.” (HERMET, 2002, p. 85-86).Conforme Hermet (2002), ao se levar em conta a cultura e a diversidade cultural; aboliu-se a dimensão hierárquica do desenvolvimento, regida pelo padrão ocidental da modernidade, dando-se voz a maioria dos habitantes do planeta que se situavam fora deste padrão. Assim, nestas sociedades tidas como “menos desenvolvidas”, no desenvolvimento de suas atividades, elas mantém a sua identidade, o orgulho e a coesão do grupo, e o seu patrimônio coletivo corresponde também ao seu capital social.

Desta forma, ao se apropriar do seu patrimônio imaterial, produzido pelo senso comum, as comunidades tem reforçadas a sua identidade e coesão. E na apropriação do patrimônio material, produzido através do conhecimento científico das mais diversas áreas, através da patrimonialização e de seu reconhecimento e conservação, a sociedade encontra além da sua identidade, a oportunidade de se obter retorno turístico, social e econômico dos bens culturais. Enfim, a ciência e o senso comum podem trazer no campo do patrimônio cultural muito mais que sua compreensão, tem também a função de se constituírem como vetores do desenvolvimento.


voltar ao topoReferências

 

BRASIL, Constituição (1998). Constituição da Republica Federativa do Brasil, 1988. Texto consolidado até a Emenda Constitucional nº 42 de 19 de dezembro de 2003. Brasília: 2003 54 p. Disponível em: . Acesso em: 24/07/2010.

CARVALHO, MARIA C. M. DE. Construindo o saber - metodologia científica: fundamentos e técnicas. 9 ed. Capinas: Papirus, 2000, pp. 63-86.

CHOAY, FRANÇOISE. A Alegoria do Patrimônio. 3 ed. São Paulo: Unesp, 2006, 282 p.

DENZIN, NORMAN, K; LINCOLN, YVONNA, S. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2006, pp. 281-313.

HERMET, GUY. Cultura e Desenvolvimento. Petrópolis: Vozes, 2002, 204p.

HORKHEIMER, M. Eclipse da razão. 7 ed. São Paulo: Centauro, 2007, 192 p.

IPHAN, Cartas patrimoniais: Recomendação Paris. Disponível em: . Acesso em: 24/07/2010.

__________________, Patrimônio Cultural Material. http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do?id=10852&retorno=paginaIphan. Acesso em 24/07/2010.

__________________, Patrimônio Cultural Imaterial. http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do?id=12297&retorno=paginaIphan. Acesso em 24/07/2010.

LUZ, MADEL, T. Natural, racional, social: Razão médica e racionalidade científica moderna. Rio de Janeiro: Campus, 1988, pp. 15-41.

PEREIRO, XENARDO. (2006): Património cultural: o casamento entre património e cultura, em ADRA n.º 2. Revista dos sócios do Museu do Povo Galego, pp. 23-41. Disponível em: http://home.utad.pt/~xperez/ficheiros/publicacoes/patrimonio_cultural/Patrimonio_Cultural.pdf. Acesso em: 24/07/2010.

SANTOS, BOAVENTURA DE SOUZA. Introdução a uma ciência pós-moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1989, 176 p.

_________________; Um discurso sobre as ciências. Disponível em: http://www2.pelotas.ifsul.edu.br/cead/metodologia/pdf/outros/DiscursoCiencias.pdf. Acesso em 28/07/10.

 

 


[1] Mestranda do Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Social – PPGDS/Unimontes.

[2] www.camara.gov.br/internet/infdoc/publicacoes/html/pdf/constituicao.pdf

 

[3] http://portal.iphan.gov.br/ IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional.

 

[4] (http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do?id=10852&retorno=paginaIphan). Acesso em 24/07/2010.

 

[5] http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do?id=12297&retorno=paginaIphan. Acesso em 24/07/2010.