| Etnografia em uma escola brasileira no Japão |
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Alvaro Katsuaki Kanasiro e-mail: This e-mail address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it
Esse artigo versa sobre uma etnografia realizada no Japão, em janeiro de 2011, junto a uma escola brasileira cujos alunos matriculados são filhos de trabalhadores dekassegui. O motivo principal da viagem, que durou cerca de 75 dias, foi passar as férias de fim de ano visitando familiares (a etnografia durou cerca de 45 dias). Ocorreu que um parente tinha contato com a diretora da escola citada e a partir daí surgiu a oportunidade do trabalho de campo. Na época eu estava terminando de escrever o relatório final de Iniciação Científica com bolsa FAPESP, cujo tema era o retorno de dekasseguis ao Brasil tendo em vista o contexto da crise financeira entre 2008 e 2010. Os dados coletados através dessa experiência foram fundamentais para a escrita do relatório final. Na entrada do prédio principal todos tinham que tirar os sapatos. Na hora do intervalo ou das aulas, o chão ficava forrado de tênis coloridos e de várias marcas. Na parte da tarde os meninos do grupo de dança ensaiavam ao som de música coreana. Havia o líder do grupo, que executava os movimentos com graciosidade, e os demais membros procuravam repeti-los. Havia ainda uma banda formada pelos alunos que havia tocado na festa de formatura [pouco antes de minha chegada à escola] sem que eles tivessem tido tempo para ensaiar direito. Converso bastante com o Dj da banda, um rapaz de 16 anos. Há dois que está no Japão. Ele quer seguir carreira aqui, pois “no Brasil não dá para o que eu quero”, revela. Contatei a diretora da escola e ela me recebeu muito bem, aceitando de imediato minha solicitação. Em contrapartida, ela sugeriu que eu desse algumas aulas para os alunos, pois minha aproximação poderia ser de alguma forma benéfica para os adolescentes. Aceitei, e assim comecei a dar aulas de Filosofia e Sociologia para o nono ano do ensino fundamental e as três séries do ensino médio - primeiro, segundo e terceiro ano. Esse contato foi de grande ajuda, pois despertou minha atenção para questões que eu não havia formulado. As turmas que peguei eram multisseriadas, ou seja, o nono ano dividia o mesmo espaço físico com o primeiro ano do ensino médio; e o segundo e terceiro ano compartilhavam outra sala. Embora a escola fosse distribuída em três prédios, não havia espaço e salas suficientes para todas as séries. A mesma situação podia ser vista no ensino fundamental, em que a quarta série do ensino fundamental dividia sala com a quinta série - porém, aqui havia uma divisória que cortava a sala em duas metades. No caso das salas do ensino médio e nono ano não havia divisão, cada série ficava separada por um vão entre as carteiras. Detalhe: o estacionamento da escola também dividia espaço com a área recreativa e de lazer. Ademais, as outras séries do ensino fundamental ocupavam uma sala cada uma. Em comparação com as escolas no Brasil, as turmas são bem menores: no nono ano haviam 4 alunos, no primeiro ano do ensino médio 9, no segundo ano 6 e no terceiro ano 5 alunos. Conversando com os professores, fiquei sabendo que parte deles dava aula para várias séries diferentes (por exemplo, para o sexto ano do ensino fundamental e para as turmas do médio), ainda, eles lecionavam mais que uma disciplina. A professora que dava as aulas de Filosofia e Sociologia também dava aulas de Inglês, Química e História. Ela possui formação superior no Brasil, mas foi ao Japão para trabalhar em fábrica. Seu caso é o de quase todos os outros professores da escola (inclusive a diretora): eles saíram do chão de fábrica para tentar preencher uma lacuna muito difícil de ser suprida, a de profissionais qualificados para trabalhar como educadores nas comunidades dekasseguis. Segundo relatos, o professor brasileiro no Japão ganha mal, menos do que se trabalhasse na fábrica. Muitas vezes ele cumpre o papel não só de pedagogo (já saturado devido às várias disciplinas que leciona e das várias salas que cuida), mas também atua como motorista e faxineiro, entre outras funções.
Num dos primeiros dias de aula, algo interessante aconteceu. O conteúdo a ser transmitido era a produção de favelas no Rio de Janeiro. Comecei a aula perguntando quem conhecia o Rio de Janeiro. Ninguém levantou a mão. Em seguida perguntei quem já havia visto uma favela ou entrado em alguma, apenas dois ou três alunos (de onze) levantaram a mão. Fiquei alguns instantes sem reação e percebi que aquele grupo de adolescentes era muito mais heterogêneo do que poderia imaginar. A apostila que a escola utilizava vinha do estado do Paraná (Sistema Positivo) e foi construída para atender determinado perfil de aluno, que, de fato, não era aquele que estava a minha frente. Além de a escola ter carência em termos de profissionais qualificados (na verdade os professores se sacrificavam muito para promover aulas em que os alunos pudessem se entusiasmar e sentir gosto pelo conteúdo), havia um problema com o material didático utilizado. Como remediar tais questões, fundamentais para o andamento de qualquer escola? Há a Associação das Escolas Brasileiras no Japão (AEBJ), mas de acordo com relatos ela não tem a força necessária para coordenar as atividades das escolas brasileiras no Japão. Cada escola atua de forma bastante independente, se adequando ao contexto no qual está inserida. Não há policiamento da qualidade do ensino pelo governo brasileiro (embora o MEC tenha sancionado várias escolas) e muito menos por parte do governo japonês, que não enxerga essa questão – pra ser bem direto - como um problema seu. A escola etnografada passa por sérios problemas. Até arrisco dizer que várias outras instituições educacionais estão neste patamar ou encontram-se em situação pior. Mas não podemos analisar essa situação deixando de atentar para o fato de que as escolas brasileiras no Japão não recebem ajuda adequada por parte do governo brasileiro e pelo governo japonês. Segundo críticos, o primeiro não demonstra estar muito interessado em criar políticas que deem alicerce para as escolas; não há o menor indício de interesse em melhorar a qualidade do ensino, reciclar o corpo docente e instaurar um órgão que policie as atividades das escolas e que fomente políticas e planejamentos educacionais. De acordo com declarações e tendo em vista as políticas migratórias adotadas pelo governo japonês frente à recessão econômica, os dekasseguis estão sendo tratados como uma classe social cujo valor se atém ao trabalho no setor produtivo. O Projeto Arco-Íris, mencionado anteriormente, foi implementado de forma verticalizada, sem que houvesse discussão aprofundada de seu conteúdo e formato com as escolas brasileiras, principais canais de recepção de alunos – mais importantes até do que as escolas regulares japonesas que recebem alunos estrangeiros. As mudanças no panorama de como os dekasseguis serão vistos e recebidos pela sociedade japonesa passa pelas salas de aula e corredores das escolas brasileiras. É neste espaço que se concentra e dilata diversas tensões atinentes à experiência migratória; não que na escola japonesa não houvesse esse mesmo tipo de conflito, mas porque a escola brasileira adquiriu um papel social extremamente fundamental no seio das comunidades dekasseguis espalhadas pelo arquipélago japonês. Assim como as escolas públicas no Brasil pintam um retrato das mazelas sociais de nossa sociedade, a sala de aula da escola brasileiro no Japão retrata da mesma forma os problemas contidos nas comunidades migrantes.
[1] Dados de 2009 [2] Cotação de Dez/2011 [3] Cotação de Dez/2011 [4] Cristophe Dejours, 1991. A loucura do trabalho. |





