| De dentro e de fora: as diferentes dinâmicas sociais e seus reflexos nos usos do espaço em uma aldeia urbana Mbyá Guarani |
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*Amanda Alves Migliora migliora This e-mail address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
[...] devemos prestar alguma atenção aos hesitantes relatos etnográficos sobre os povos indígenas que se recusavam tanto a desaparecer quanto a se tornar como nós. [...] Pois ao menos aqueles povos que sobreviveram fisicamente ao assédio colonialista não estão fugindo à responsabilidade de elaborar culturalmente tudo o que lhes foi infligido. Eles vêm tentando incorporar o sistema mundial a uma ordem ainda mais abrangente: seu próprio sistema de mundo. (Sahlins, 1997: 57)
voltar ao topoIntrodução
Com este trabalho trataremos das relações entre mbyás e juruás (termo traduzido como “homem branco” pelos mbyá) não somente na aldeia urbana Tekoá Mboy’ty, localizada na Região Oceânica de Niterói, Rio de Janeiro, mas, também, daquelas que são travadas por seus membros nas redondezas. Tentaremos evidenciar as formas como estes vivenciam a cidade e como diferentes juruás, com diferentes intenções, vivenciam a aldeia. Vale enfatizar que, conforme observamos em campo, as formas de lidar com a cidade variam dentro do grupo, de acordo com critérios como gênero e idade. Inseridos numa lógica distante daquela que regeria as práticas e comportamentos tidos como “originais” ou “tradicionais” e inevitavelmente colocados em relação constante com a mesma, movimentos de transformação, diálogo e ressignificação do mundo são produzidos no grupo para dar conta da realidade que assim se coloca. Estes se dão concomitantemente a um processo do que chamam de um “fortalecimento da cultura” ou “preservação do costume”. “Aldeia urbana” será, portanto, a categoria de maior rendimento analítico para entendermos tal situação. Pretendemos tratar por meio dela de uma série de mediações que são estabelecidas entre o grupo e o meio circundante na configuração e afirmação de sua própria identidade. Defenderemos adiante que o segundo modelo de interação, aquele que se dá com a inserção de juruás na lógica da aldeia, se fundamentaria nos termos postos pelos mbyás. Estes termos seriam observáveis especialmente na configuração espacial da aldeia, materializados em sua arquitetura. Os dispositivos de mediação estabelecidos pelo grupo estariam, pois, inscritos num modo de pensar esse “outro” que, embora algumas vezes se lhes mostre hostil, em determinadas circunstâncias constitui mesmo um interlocutor desejável. Vale adiantar que o uso constante dos termos juruá e mbyá nos discursos de mbyás sobre os mais diversos âmbitos da vida social, por si só já evidencia o quanto é marcada essa relação de oposição no modelo nativo de explicação de seu mundo, o que acabaria sendo relativizado por meio de uma análise mais profunda destas relações na prática. A lógica de oposições e complementaridades se estende a outras esferas, sendo elemento fundamental da cosmologia do grupo.
voltar ao topo1. O grupo:
O grupo em questão localiza-se no sítio arqueológico denominado Sambaqui de Camboinhas, na Região Oceânica de Niterói, desde 2008, quando teve de sair da Terra Indígena de Paraty-Mirim por conta de uma divergência com a liderança local. Liderados pela sua matriarca rumaram para Niterói, onde se estabeleceram e construíram a aldeia que foi chamada Tekoá Itarypu. Esta foi composta por cinco casas (OO’s) até julho do mesmo ano, quando um incêndio, que se acredita ter sido criminoso, destruiu praticamente tudo o que tinham. A aldeia foi então reconstruída, reinaugurada e rebatizada, recebendo o nome de Tekoá Mboy’ty (Aldeia Plantação de Sementes) e adquirindo sua configuração atual. Embora passe por constantes transformações, essa configuração, ao que parece, persiste num modelo determinado. Trata-se de uma família extensa cujo ponto central é a chefe e pajé do grupo, ou seja, a maioria dos moradores está ligada a ela por laços de consangüinidade ou afinidade. Há, além dos membros diretos da família, alguns indivíduos a ela associados. É uma população que gira em torno de 60 pessoas e, embora, em número, o grupo também varie, pode-se identificar uma unidade característica entre seus membros, que parece ser ao mesmo tempo espiritual e de “substância”, como uma análise da religião mbyá poderia sugerir. Todos eles falam o dialeto Mbyá, do idioma Guarani, que pertence à família Tupi-Guarani, do tronco lingüístico Tupi. Quase todos falam também o português, mas, a não ser que um juruá participe da conversa, a comunicação entre eles se dá completamente em guarani. À beira da praia de Camboinhas, entre o mar e a lagoa, o local onde o grupo se encontra é alvo não somente do interesse científico, dos arqueólogos principalmente, mas também de grande interesse imobiliário. Parte do sítio arqueológico foi destruída para a construção de edificações de luxo. O futuro do local é incerto, como já o constatava, em 2006 (dois anos antes da chegada do grupo Mbya-Guarani na região), o então deputado, Carlos Minc na justificativa de seu projeto de lei 3375/2006[1] : “O sítio Arqueológico Duna Pequena é alvo de um grande empreendimento imobiliário que, se aprovado, trará 25.000 novos moradores para a região do Sítio descaracterizando-o por completo.” A esse contexto adiciona-se ainda o interesse dos Mbya-Guarani, que acreditam que o local é “sagrado”, pois seria um antigo cemitério de seus ancestrais[2].
voltar ao topo2. Dinâmicas SociaisAs relações estabelecidas fora da aldeia foram divididas, com fins analíticos, em dois tipos. Ao primeiro chamamos de “relação com a cidade”, este diz respeito ao vivenciar a cidade, especialmente, na busca por serviços e na relação com o comércio local. Ao segundo chamamos de “relação com o entorno”, este se refere aos relacionamentos estabelecidos ali mesmo, na praia de Camboinhas, seja com moradores, banhistas mais assíduos, comerciantes ou funcionários, que por ali circulam cotidianamente e que tendem a ser trazidos para a aldeia. Há ainda a oferta de serviços específicos fora da aldeia, estes também poderiam ser encaixados na tipificação acima proposta. Contudo as informações obtidas quanto a este tipo de atividade são menos densas, e por isso seus relato e análise, por hora, se dará num registro mais superficial.
voltar ao topo2.1 Relações com a cidade
Muitas vezes a cidade foi tema de longas conversas. Geralmente estas se iniciavam com uma mesma pergunta direcionada a pesquisadora: “Onde você mora?”. Usando as lojas do comércio local, o posto de saúde, a delegacia e o quartel do corpo de bombeiros como pontos de referência, sempre se chegava, mais ou menos, a uma idéia vaga de onde se localizava a residência. As tentativas de explicação que fugiam a esse modelo, entretanto, não davam em nada. De qualquer maneira, a pergunta sempre voltava em outras conversas. O mapa mental que tinham daquela região (Mauss, 1906) parecia evidenciar-se em tais ocasiões. Na verdade, tratar-se-ia de variados mapas mentais. As variações derivariam das formas de vivenciar a cidade. Um dado poderia ser utilizado com segurança para tratar o tópico, a importância dos fatores de gênero e idade em tais variações. Outra importante observação é a de que esse mapa parecia estar, a cada conversa, cada vez mais detalhado. Isto poderia ser entendido como o indício de um gradual processo de conhecimento daquela região que lhes seria, de certo modo, nova. Nos discursos sobre a cidade de Niterói duas atitudes ficavam bem delineadas. Aquela, mais freqüente, que tentava entendê-la e discuti-la em sua configuração atual e uma outra, que remontava ao tempo dos antigos ancestrais. Neste segundo tipo de discurso o argumento central se voltaria para o bairro de Icaraí, cuja pronuncia em português era sempre corrigida, pela matriarca, para a forma mbyá de falar. Este teria sido o local onde se concentravam os grandes sábios mbyá, os Karaís, daí seu nome. Niterói, antigamente, teria sido um território mbyá, do qual eles estariam atualmente ocupando o cemitério, embora muito pouco se fale sobre isso. Supermercados, hortifrutis, lojas de material de construção costumavam figurar entre as falas nas discussões relativas ao espaço urbano atual. As sextas-feiras pela manhã costumavam sair, a matriarca e alguns de seus filhos, para fazer compras para a aldeia. Ocorriam, também, uma vez por semana, as visitas regulares de crianças, acompanhadas de algumas mulheres ao posto de saúde, com o pessoal da FUNASA. Essas saídas femininas eram precedidas de uma produção mais elaborada, como se a saída da aldeia fosse uma saída de casa, uma ida a rua. As saídas masculinas pareciam mais despojadas. Saíam os meninos de bicicleta toda vez que algo faltava, iam comprar fumo, carne, entre outros itens obteníveis nas redondezas. Em dada ocasião, quando se teve uma oportunidade de sair com dois irmãos, uma menina e um menino, para comprar milho, a diferença ficou bem clara. O menino parecia conhecer várias pessoas na rua, mesmo bem longe da aldeia, além disso, ele conhecia os caminhos e vários pequenos “sacolões” mais escondidos. A menina não desconhecia as ruas, mas era bem menos desenvolta, neste aspecto, do que seu irmão. Os mais velhos geralmente saem por motivos específicos, ou simplesmente não saem. A saída dos meninos sofre uma sensível regulação por parte da matriarca do grupo, mas esta não é absoluta. Eles saem bem mais do que elas, mas suas saídas, como vimos, possuem um outro perfil, uma outra abrangência do espaço da cidade, outras finalidades geralmente. O trabalhar na cidade é mais restrito do que o trabalhar no entorno, os exemplos dos quais tomamos conhecimento resumiram-se a apresentações do coral da aldeia em eventos e escolas e algumas atividades isoladas em centros culturais, universidades ou no Museu do Índio. Notou-se que nestas atividades as mulheres tinham alguma primazia, mas isso não pode ser afirmado categoricamente.
voltar ao topo2.2 Relações com o entorno
As relações tendem a se intensificar na medida em que se aproximam da aldeia. Há fortes vínculos entre alguns freqüentadores da praia, funcionários dos quiosques, ambulantes que trabalham nas redondezas entre outros trabalhadores que tiram seu sustento daquele lugar, como pedreiros e jardineiros. Com os outros moradores de Camboinhas as relações cotidianas não transparecem muito. Foram vistos casos de moradores solícitos, e tem-se também conhecimento daqueles que se posicionam contra a aldeia. Apesar dos misteriosos incêndios, um em 2008, e outro em dezembro de 2010, pouco se especula sobre um possível envolvimento desta parcela de moradores. Não foi presenciado nenhum evento negativo envolvendo moradores e habitantes da aldeia durante o campo, embora seja do conhecimento de todos os que se envolvem com o caso em questão que os mbyás não são bem quistos por todos que os circundam. Como dissemos acima, alguns homens trabalham no entorno, muitas vezes com a manutenção dos quiosques de sapê da orla da praia, mesmo material utilizado na construção de suas casas. Foram conhecidos casos em que trabalharam como ajudantes de pedreiros amigos. Fica claro, daí que estes trabalhos são ocasionais, mas as relações que os possibilitam executar tais atividades são duradouras. Além da praia, há a lagoa, que uma vez atravessada leva a praia de Itaipu. Variadas atividades são desempenhadas nestes locais, como a pesca e a travessia dos banhistas de canoa, estas últimas também ocasionais. Vale ainda esclarecer que a praia em questão, apesar de não ser oficialmente fechada, é de relativo difícil acesso. A entrada de ônibus no bairro de Camboinhas é vedada, o que dificulta o acesso a praia. O bairro é inteiramente pavimentado e abriga a parcela mais rica da população da região. Há ali um apart-hotel que pode ser visto da aldeia. E mesmo o terreno onde ela se localiza possui um imenso valor econômico, e apesar de ser uma área de preservação, há uma construtora que reclama seus direitos sobre aquela terra para a construção de outros empreendimentos de mesmo tipo.[3]
voltar ao topo3. Usos sociais do espaço na aldeia
voltar ao topo3.1 Tekoá Mboy’ty: espaços e circulações
Atualmente a aldeia é composta por uma parte alta e uma parte baixa. Na primeira localizam-se uma lojinha de artesanato (ajakaovendeaty), um bar, as casas da matriarca e de dois de seus filhos, uma cozinha e três banheiros. Exploraremos melhor essa configuração adiante. O sustento do grupo é proveniente, em boa parte, da venda de artesanatos. Todo aquele que produz uma peça recebe seu valor quando esta é vendida na lojinha da aldeia. Aquele que faz artesanato é chamado mbyá’pó vaé. Daqueles que trabalham fora, para os juruás, se diz: oo mbaiapó juruá pé (foi trabalhar para o branco). Algumas vezes o dinheiro é gasto ali mesmo, no bar, onde são vendidos biscoitos, refrigerantes, amendoim em saquinho, água de coco, etc. Como esclarecemos nos tópicos anteriores, para a compra de carne, danoninho e outros itens muito pontuais, aos quais não se pode ter acesso ali dentro da aldeia, recorrem ao comércio da região. Cabe observar a diferença entre o dinheiro ganho individualmente e o dinheiro gasto no sustento da aldeia como um todo. Esse último diz respeito à comida feita e dividida entre seus habitantes, às roupas recebidas por meio de doações, freqüentemente de organizações religiosas ou outros grupos específicos que variam bastante. A comida que é distribuída na aldeia é comprada no mercado local, embora recebam também contribuições para a merenda, por meio da secretaria municipal de educação, e algumas ocasionais doações. Na aldeia são criadas algumas galinhas e, recentemente, obtiveram sucesso no plantio do milho naquele desafiador solo arenoso, o que trouxe muita alegria e orgulho aos mbyás. Como aludimos brevemente acima, atualmente a aldeia é dividida em uma parte alta e uma parte baixa. A primeira, onde se situa a entrada oficial, fica de frente para a estrada de acesso, e parece mediar o contato da aldeia com o mundo externo. Chamaremos este espaço de “complexo transicional”. É lá que funciona a loja (ajakaovendeaty) onde são vendidos artesanatos aos visitantes. O momento da venda é também aquele no qual se decide se os visitantes poderão, ou não, descer para “conhecer a aldeia”, objetivo principal, na maioria dos casos, deste tipo de interlocutor curioso. Localiza-se ali também o recentemente construído bar que é administrado por um segmento do grupo. Naquele espaço ficam ainda as moradias da chefe e pajé do grupo (num galpão de alvenaria, onde funcionava, antes da chegada dos mbyá, uma escolinha de Windsurfe), de um de seus filhos e de uma de suas filhas, separadamente e cada qual com sua respectiva família nuclear. Além dos banheiros utilizados por quase todos os residentes da aldeia, também preexistente e feitos em alvenaria. Finalizando existe uma cozinha de uso comunitário e um orelhão, que, apesar da existência de vários aparelhos de telefone celular, é constantemente utilizado. A segunda parte mostra-se como o lugar onde se reproduz a vida cotidiana de maneira mais “tradicional”. Lá se localizam, por exemplo, a Opy (casa de reza) e as casas (oo) da maior parte de seus membros. Ao todo, somando-se partes alta e baixa, existem hoje na aldeia 19 construções independentes do galpão, contando com as casas construídas na subida, com a cozinha que fica na parte de cima, e com a estrutura onde ficam a loja e o bar. Esta última contando com um padrão arquitetônico similar ao das outras construções, a saber, vigas de eucalipto tratado com amarrações de sapê em arame, fixadas com pregos.
voltar ao topo3.2 Parte alta (ou complexo transicional)
Procuramos explorar os significados e possível papel estruturador nas relações mencionadas na introdução do espaço chamado aqui de “complexo transicional”. Este agiria como um mecanismo de transformação do outro em possibilidade de nós, o que esperamos comprovar com a exposição e análise dos dados etnográficos. Apesar de se tratar de um espaço reto, quase sem barreiras materiais que impeçam a livre passagem, as relações ali estabelecidas são muito diferentes entre si. Parece haver uma demarcação espacial muito sutil que indica o grau de possibilidade de trânsito naquela área. As trocas seriam o meio principal de se determinar que tipo de recepção e possibilidade de circulação será conferido ao estrangeiro. No bar é possível ver clientes habituais que não circulam além dali, apesar do amplo espaço “livre”. A troca que se estabelece com este tipo de juruá é imediata e não implica uma relação mais profunda com seus anfitriões. Para alguns destes clientes se coloca a possibilidade de uma troca outra, o namoro, com vistas a uma futura ligação por parentesco (que possui significados diferentes para os dois lados envolvidos). Neste caso, a forma de circulação se modifica e ele passa a ocupar uma mesa que fica além da loja, a mesa “fixa” da matriarca do grupo, que avalia a situação do pretendente de modo bastante simpático e, ao mesmo tempo, agudo. Neste momento, juntam-se livremente, na mesma mesa e na mesma conversa, vários outros membros do grupo. A circulação diferenciada no interior da aldeia também é permitida a um juruá por meio de alguns outros fatores. Quando este é considerado um “amigo” ele pode andar por quase todo lado, exceto nas casas para as quais não foi convidado e na casa de reza fora de hora. Embora com restrições quase nulas, alguns protocolos devem ser respeitados, mesmo por aqueles que têm permissão para entrar na aldeia pela parte baixa. É essencial a visita ao complexo transicional na chegada, antes de qualquer outra forma de movimentação. As características arquitetônicas deste espaço de mediação são quase as de um corredor de exposição, uma galeria. Trata-se de uma estrutura retangular aberta em ambas as extremidades cobertas com sapê em dois telhados diferentes, sobre os quais falaremos mais adiante, sustentados por vigas de eucalipto tratado. O chão de cimento foi feito em grande parte por juruás que tem alguma relação com os membros do grupo, o que poderia indicar que esta seria uma especialidade da arquitetura juruá, em oposição aos discursos relativos à arquitetura “do índio” e a categoria moral “Xingu”, que diz respeito ao modelo das casas daquela aldeia e aos materiais utilizados em sua construção. Existem ainda duas paredes laterais feitas de um trançado de folhas que parecem ser de coqueiro. Há no telhado uma divisão que demarca a diferenciação entre o local onde fica nossa personagem principal (a chefe/pajé do grupo) e as duas esferas de trocas comerciais. Entre estes dois telhados de formatos bastante diferentes há uma junção com uma calha plástica embaixo, que, aparentemente, serve para evitar que chova ali dentro. Olhando de qualquer extremidade, a impressão que se tem é a de se tratar de um só espaço. Se muito, poderíamos considerar que se há ali uma divisão esta seria concretizada pelo bar que, voltando-se para a estrada, dá de costas para o resto da aldeia. Defendemos aqui, entretanto, que a separação arquitetônica mais relevante é a menos visível. Aquela que só é vista se olharmos para o alto, os diferentes telhados. Finalmente, podemos dizer que o telhado do espaço que chamamos de complexo transicional o divide em três espaços de fins e características diferentes e relativamente bem delimitados, o bar, a loja e o ponto fixo. Seria, portanto, dotado de agência no sentido da efetuação da transição do “outro” (o juruá) para possibilidade de eu/nós. Olhando da estrada para dentro da aldeia, na parte que fica sob o primeiro telhado parece constituir-se como uma esfera de trocas imediatas com os consumidores do bar e os compradores de artesanato. Tudo sob a vigilância e o controle de sua observadora “fixa”, mas não diretamente com ela, que delega tais funções a quem estiver por perto. É plausível cogitarmos tratar-se de uma organização tripartite, cujos limites seriam demarcados por um lado pela parede dos fundos do bar (que marca a separação também no telhado com uma bandeira do flamengo) e por outro pela divisão entre os telhados acima mencionada. Entre o bar e o espaço localizado sob o segundo telhado, ao qual chamaremos daqui em diante também de terceira seção, estaria a lojinha (ajakaovendeaty), como que significando um meio termo entre o de dentro, membros do grupo e juruás aceitos em seu seio, e aqueles que permanecem fora, apesar de espacialmente dentro. Assim, essa dita configuração tripartite funcionaria de acordo com uma lógica de gradação da profundidade das relações, marcada pelo tempo das trocas. Arriscaríamos afirmar ainda que tal configuração se daria por meio de mecanismos conscientes e inconscientes. Nestes termos, em uma oposição entre as trocas financeiras imediatas dos produtos genéricos do bar e as trocas de favores e presentes, cujo tempo da reciprocidade é bem mais longo, há a lojinha, onde entram aqueles que se interessam por uma expressão da cultura, uma parte do ser deles, de seu “patrimônio” (Gonçalves, 2003). A troca que propõem se inscreve num registro de valorização e interesse por esse patrimônio mbyá. Por isso, estes estariam a meio caminho entre aqueles que estão ali como meros consumidores e aqueles que se colocam ali enquanto pessoas que buscam uma amizade, ou coisa do tipo, com aquelas outras pessoas. Dentro deste esquema uma personagem é especialmente mal vista, é aquele que não compra nada, mas quer entrar a qualquer custo para “ver os índios”, como num zoológico ou num museu de cera, não querem saber das pessoas, não estabelecem trocas ou relações de qualquer outro tipo, e, por isso, são geralmente vetadas. A parte onde se senta a responsável pela organização de todo esse circuito de movimentações em sentidos diversos é aberta para frente e para trás, como o resto do complexo. Conta ainda com uma abertura para um dos lados, pois a partir do início do segundo telhado uma das paredes de folha trançada é interrompida de modo que se tem uma visão direta do galpão onde ela mora junto com parte de sua família. Isso possibilita que monitore quase todas as atividades da parte de cima, ou pelo menos, aquelas de caráter comunal, como a saída dos meninos de bicicleta para ir ao comércio local, ou as atividades de limpeza e preparação da comida, na cozinha anexa, que fica logo ali ao alcance de seus olhos. Os shows de forró, eventos que passaram a ocorrer periodicamente na aldeia, fornecem a clara imagem do que afirmamos aqui. Visto que circunscreve todas as personagens que participam dos processos ora analisados e as faz compartilhar este espaço, todos a um só tempo. Observou-se que, quando ocorrem tais shows, as posições ocupadas por juruás, mbyás e especialmente pela Chefe e Pajé do grupo correspondem àquelas descritas estruturalmente com base na observação da vida diurna do grupo. Assim, segunda e terceira seções passam por pequenas adaptações para receber o show, de modo que, os artesanatos são retirados e no limite interno do telhado na terceira seção é montado o equipamento de som. No espaço da lojinha dançam juruás e mbyás, a chefe do grupo permanece em seu ponto “fixo”. A maior parte dos juruás que não estão dançando fica perto do bar e os mbyás que não estão dançando ficam entre a cozinha e os banheiros, sob o céu e no escuro, e não sob o telhado, ou seja, depois do complexo. Assistem, “de dentro” da aldeia e de fora do referido complexo, àquele evento que não é de dentro, nem é de fora. Aqui é necessário fazer dois adendos: (1) a banda que toca nesses shows é composta por cinco membros do grupo, dos quais quatro são filhos da chefe e pajé do grupo e (2) o juruá que quiser dançar com um mbyá geralmente pede para a matriarca, mesmo que deseje somente sentar-se entre eles. Entendemos este espaço enquanto um “complexo transicional” por conta de seu caráter classificador do outro. Este outro, o juruá, só passa a ter acesso ao universo ao qual nos referimos aqui mediante a operação nele, em seu status perante ao grupo, de uma transição. Somente assim ele pode ser liberado para transitar por ali, somente se submetendo à avaliação e julgamento e se disponibilizando a trocas específicas com eles. Esse espaço seria, pois, um espaço de mediação. Realizaria uma mediação especialmente necessária no contexto de uma “aldeia urbana”, tal como definimos na introdução. Num contexto perpassado por conflitos de variados teores com variados agentes, algumas mediações se fazem necessárias para a reprodução de uma identidade especifica e mesmo para uma autopreservação em relação a uma alteridade predadora. O passaporte para esse mundo mbyá, para sua manutenção, requer a observação de uma série de prescrições comportamentais, em especial aquelas que dizem respeito à uma certa reverência que se deve ter para com a chefe do grupo, se reportando a ela de maneira respeitosa e, preferencialmente, dadivosa (tanto no sentido da reciprocidade, ofertando-lhe algo, quanto no tempo estendido da retribuição, característico desse tipo de troca), ou seja, atualizando sua atuação enquanto agente de trocas de longo termo. O reconhecimento dos habitantes da parte baixa do caráter mediador, e classificador do outro enquanto alguém com quem seria possível relacionar-se seguramente, manifestou-se irrefutavelmente num episódio ocorrido no dia 07 de junho de 2010. Na parte baixa, conversava com uma moradora quando uma turma escolar de adolescentes passou com um professor do lado de fora da cerca que delimitava o perímetro da parte baixa da aldeia. A moradora com quem falava ficou muito assustada e pediu insistentemente que falasse com eles que não poderiam entrar na aldeia pela parte de baixo. Repetia que era preciso que falassem com a chefe e pajé do grupo, e que obtivessem sua permissão para que pudessem circular naquele espaço. O susto da senhora mbyá e a menção ao que chamamos aqui de complexo transicional e aquela que consideramos aqui como a principal agente dessas mediações, além do posicionamento de outros moradores que se juntaram no mesmo local e corroboraram com sua fala, tiveram um valor fundamental na análise ora apresentada.
voltar ao topoConclusão
A mediação e a afirmação de uma determinada identidade são feitas no mesmo lugar por um motivo. O conflito, a oposição, a mediação e a classificação do outro são todos aspectos de um mesmo processo, de uma mesma relação. O colecionamento inerente à noção de patrimônio com a qual trabalhamos aqui, os contornos semânticos que adquire neste caso, se referem a práticas em constante perigo de perda no discurso nativo. Há, portanto, especial necessidade de reafirmá-los no momento em que seu principal fator de risco se lhes apresenta. A oposição ao outro é concomitante a afirmação de si, essa é a nossa chave de compreensão, por exemplo, das fotografias (de dias festivos, de momentos em que se dedicam a atividades mbyá, em que o mbyá em cada um assume sua forma máxima com a adoção do máximo de elementos distintivos em relação aos juruás) espalhadas por todo o “complexo transicional”. Este espaço cheio de mensagens defende uma identidade cultural específica, por meio de um patrimônio, organizando-se ainda como um museu que reivindica para si toda uma carga de significados que se projeta sobre “o índio”. São mensagens sobre si para o outro e para si mesmos, como que para relembrar constantemente no que consiste ser mbyá, um meio de fortalecer a cultura em si mesma, neles mesmos. O juruá que desejar estar ali por um período mais longo do que o de uma visita deve entender e aceitar aquela imagem, aquele modo de ser, é necessário, para tanto, que passe por uma transição, num espaço determinado para isso, por meio do acesso, da exposição, ao “patrimônio mbyá”. Deste modo, podemos concluir que a centralidade da pajé e chefe do grupo neste tipo de situação, assim como o xamã tradutor, geógrafo, decifrador, descrito por Carneiro da Cunha (1997), desempenha tais facetas simultaneamente à mediação da qual fizemos foco de análise, numa tentativa incessante de pôr em sintonia a perspectiva do outro com seu próprio código e vice-versa.
Figuras
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voltar ao topoReferências bibliográficas
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[1] Acesso em: agosto de 2009. [2] Embora apareçam enquanto principal fator para a escolha daquele sítio arqueológico especificamente, a relação com os ancestrais que ali estariam enterrados raramente é tematizada pelos mbyá. Vale ressaltar que muito pouco se falou sobre morte, de maneira geral, mesmo quando o tema era levantado pela pesquisadora. [3] A headline de uma matéria de jornal sobre um episódio ocorrido nas imediações da aldeia pode ser interessante para compreender a relação entre moradores, empreiteira e aldeia e, sobretudo, para compreender o posicionamento de uma parte da imprensa em relação à aldeia:“Índios da Aldeia Tekoa Mboy-ty e vizinhos de Camboinhas voltam a ter problemas. Indígenas alegam que uma construtora foi responsável pelo fechamento e cercamento da área.”Por: SorayaBatista,07/07/2011.In:http://jornal.ofluminense.com.br/editorias/cidades/passagem-cercada-de-misterio> Acesso em: julho de 2011. |

