| A cidade de São Paulo e as suas dinâmicas religiosas |
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Por Pierina Soratto
Sabemos que as religiões conservam e ampliam a sua força nos tempos atuais e em grandes metrópoles como a cidade de São Paulo. O fato de que as religiões inventam novas e criativas formas de sobreviver em meio a um contexto social cada vez mais dominado por novas tecnologias, avanços científicos e globalização não representa nenhuma novidade nos estudos sobre os fenômenos religiosos. Contudo, ainda é interessante perceber como a organização e as características de grandes cidades podem suscitar formas características de evangelização, como, por exemplo, a organização de eventos de massa destinados especificamente para tais constituições urbanas. Podemos dizer que as grandes cidades amedrontam e atraem os líderes religiosos, pois representam, simultaneamente, uma ameaça para o seu poderio e uma possibilidade de novas conversões ou de “salvar almas”, para usar os termos nativos. Neste sentido, poderíamos classificar o evento realizado pela Comunidade Canção Nova no dia 16 de agosto de 2009 como uma tentativa moldada, fundamentalmente, para a cidade de São Paulo, pensando em seus habitantes, em suas formas de organização e em suas dinâmicas. O nome do evento era “São Paulo em missão: Deus habita esta cidade”, em alusão não só ao nome da cidade, igualmente ao nome do santo católico – São Paulo- que se tornou o novo padroeiro dessa arquidiocese. Como o próprio nome sugere, o evento visava a mostrar que, mesmo em uma cidade do porte de São Paulo, as pessoas religiosas estão presentes e não desistem de sua atuação, por isso a necessidade de afirmar que “Deus habita esta cidade”. Tendo em vista a relevância de eventos como este para ilustrar os modos de atuação das religiosidades urbanas contemporâneas, o presente relato tem como objetivo expor uma imersão etnográfica que realizamos no “São Paulo em missão”, o qual uniu tecnologia, alianças políticas, diversidade de movimentos católicos, uso de espaços públicos para fins proselitistas e de marketing religioso.
O “São Paulo em missão” aconteceu na Praça do Campo de Bagatelli, no bairro de Santana, zona norte da cidade de São Paulo. Sua realização mobilizou várias autoridades laicas e religiosas, abarcando desde a Arquidiocese de São Paulo, diversos “novos movimentos eclesiais” e “comunidades de vida e aliança no Espírito Santo”[1], até a prefeitura da cidade de São Paulo, representada pelo seu prefeito Gilberto Kassab, que participou de boa parte da programação e foi lembrado pelo discurso de agradecimento feito pelo administrador da Fundação João Paulo II, mantenedora da Comunidade Canção Nova: Quero agradecer ao Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, e ao prefeito da cidade, Gilberto Kassab, pois em momento algum eles tiveram dúvidas de dizer 'sim' à Canção Nova. Se não fosse a colaboração deles, este evento não aconteceria, pois a Canção Nova não teria condições de organizar isso sozinha (parte do discurso de Wellington Silva Jardim, durante o evento “São Paulo em Missão”, que pode ser encontrado em www.cancaonova.com). Percebemos que a realização de eventos de massa em cidades como São Paulo exige a mobilização de diversas formas de poder. Desse modo, não podem ser vistos como eventos puramente religiosos, pois envolvem várias outras alianças e contatos que precisam ser feitos para que a sua execução seja possível. O evento contou com missa, com momentos de louvor e adoração, e, ainda, com o discurso político de autoridades como o prefeito de São Paulo e o vereador mais votado dessa cidade, Gabriel Chalita, católico e colaborador da Canção Nova.
Atividades como o “São Paulo em missão” são planejadas para atingir um número relativamente grande de pessoas já participantes da igreja, até mesmo pessoas que possam se converter a partir desses momentos. Por isso, tais atividades proselitistas geralmente são realizadas em locais públicos e espaçosos, com grande visibilidade e fácil acesso. Apenas as organizações religiosas não poderiam dar conta da estrutura necessária para sua realização, não só por causa do elevado custo dos palcos e equipamentos de som usados, e inclusive porque, muitas vezes, elas requerem ruas e vias de circulação pública fechadas e comandos policiais acionados para fazer a segurança. Para ter acesso ao local do evento era necessário passar primeiramente por missionários e voluntários que, de jalecos alaranjados, foram incumbidos de recepcionar todos os participantes com sorrisos, abraços e informações sobre o evento. Após passarmos pelos missionários responsáveis pela acolhida, devíamos transpor uma barreira de policiais civis fardados. Esses policiais revistavam todos os participantes do local e regulavam todas as entradas, pois havia pontos específicos para entrar e para sair, não sendo permitido entrar com objetos pontiagudos, guarda-chuvas muito grandes e nenhum tipo de instrumento cortante. A dinâmica do local em que se realizou o evento permitia que qualquer um pudesse entrar e assistir às atividades. Como algumas autoridades públicas estavam participando, a segurança foi reforçada. O interessante é que nossa etnografia permitiu perceber que apenas no período da manhã, quando alguns políticos estavam presentes, a segurança foi bastante reforçada; posteriormente, era possível entrar sem sequer ser revistado.
O evento ocorreu no domingo em que os católicos celebram a Assunção de Nossa Senhora. Por isso, entre a diversidade de congregações e comunidades que participaram, destacou-se a presença dos Arautos do Evangelho fazendo a entrada de uma procissão com a imagem da Virgem Maria. Além dos Arautos do Evangelho, o evento contou com a presença de membros de ordens religiosas tradicionais, membros da comunidade Aliança de Misericórdia, da Fraternidade O Caminho, entre outros. A possibilidade de ampliar o escopo de sua atividade de evangelização não é desconhecida pelos organizadores do evento. Ao contrário, não há uma preocupação em esconder esse objetivo e a importância de um local como o Campo de Bagatelli para essas atividades. O próprio administrador e missionário da Canção Nova fez questão de ressaltar esse aspecto em seu discurso: Wellington Jardim, administrador da Canção Nova, também reconheceu que o evento é uma ótima oportunidade para evangelizar a cidade de São Paulo. Afirmou que era uma porta aberta e que os católicos tomariam posse do lugar todos os anos e estariam sempre ali, no Campo de Bagatelli, no dia da Assunção de Maria (trecho do diário de campo, Pierina, 16/08/2009). Além disso, a etnografia nos sinalizou, não apenas para o que acontecia no interior do evento, no palco, nas pregações dos padres e nos discursos das autoridades presentes, como, possibilitou que observássemos o contexto e os locais próximos. Desse modo, assim, à nossa chegada, o primeiro fato que nos chamou a atenção foi que ao redor do local onde se realizou o “São Paulo em missão”, havia várias lojas que vendem automóveis e que, naquele dia, estava acontecendo uma feira de carros usados, que atraiu pessoas, vendedores ambulantes e uma grande agitação, com pessoas bebendo, namorando e comprando carros ao lado de onde ocorria o evento de evangelização. No evento as pessoas eram incentivadas a se alimentar apenas nas barracas montadas para a comercialização de alimentos pelos próprios organizadores da atividade. Porém, percebemos que muitas pessoas vindas para o evento preferiram não fazer as suas refeições nas barraquinhas montadas no local, e sim nos bares e restaurantes vizinhos. Portanto, a realização da etnografia possibilitou ao nosso olhar apreender as regras de certas dinâmicas religiosas suscitadas pela cidade de São Paulo. Além disso, o olhar etnográfico possibilitou a percepção, também, de como essas regras podem ser reinventadas e apropriadas pelos atores sociais. Constatamos não apenas as características do público e organizadores, como, igualmente, foi possível observar de que forma a evangelização de grandes cidades, muitas vezes, exige que os movimentos religiosos façam contatos, mobilizem outras organizações e entrem em espaços que não são estritamente religiosos. [1] Os novos movimentos eclesiais, entre os quais se encontram as “comunidades de vida e aliança no Espírito Santo”, são organizações católicas formadas a partir da iniciativa de um líder carismático, que mobiliza os fiéis em torno de uma missão especifica e atribuída a uma inspiração divina. Tais pessoas passam a viver em casas comunitárias, dividindo recursos, bens e um cotidiano comum. O diferencial dessas comunidades com relação às antigas ordens e congregações católicas é o fato de aparecerem como iniciativas de leigos católicos. |






