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Dia do Surdo na Avenida Paulista: etnografando a mobilização política pelas escolas especiais PDF

César Augusto de Assis Silva,

Cibele Barbalho Assênsio

Leslie Lopes Sandes

Priscila Alves de Almeida

A Avenida Paulista é conhecida por ser um dos mais importantes centros financeiros do país e também constitui um importante espaço para lazer, festividades e manifestações políticas. Na manhã do dia 26 de setembro de 2009, como de costume, contava com uma grande circulação de veículo e transeuntes. Além disso, paulatinamente, na calçada do Parque Trianon, situado em frente ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), algumas pessoas começavam a se reunir, sobretudo jovens, munidas de faixas e cartazes, que eram estendidos momentaneamente no chão.

Discursante em lingua brasileira de sinais - a Libras

Mais uma vez, uma manifestação política teria por palco esse famoso cartão postal da cidade de São Paulo. O número de participantes era relativamente tímido, se comparado a outras manifestações que costumam ocorrer no local, contudo, suficiente para tomar toda a calçada do Parque Trianon. Quem observava mais atentamente, percebia algumas particularidades na forma de comunicação das pessoas que se aglomeravam. Os manifestantes se comunicavam por meio de língua de sinais e, apesar de haver um carro de som no local, o foco de atenção estava voltado sobretudo para as pessoas que discursavam em língua de sinais, em pé, sobre as lixeiras de concreto da avenida, que serviam como palanques improvisados, a fim de tornar visíveis os seus sinais para as demais. Aquela concentração, aos poucos, demonstrava o seu objetivo em tomar parte da avenida: tratava-se de uma manifestação pelos diretos do que as pessoas denominam comunidade surda. Quando alguns surdos, representantes de associações, discursavam, o carro de som propagava a interpretação para o português realizada por um intérprete. Inversamente, quando alguns ouvintes discursavam, o intérprete presente ocupava o palanque improvisado interpretando o dito para libras.

Manifestante da passeata dos surdos com cartaz em que se le: Dia 26 de Setembro - dia do surdo!!

A data escolhida para o evento, 26 de setembro, não foi aleatória, pois nela comemora-se o Dia Nacional do Surdo, reconhecido oficialmente pela Lei Federal 11.796. Como já havia ocorrido em anos anteriores, a manifestação contou com a presença de membros de associações de surdos – Associação de Surdos de São Paulo (ASSP) e Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (FENEIS) –, alunos, professores e funcionários de escolas especiais para surdos – Instituto Santa Teresinha, Escola para Crianças Surdas Rio Branco, Escola Neusa Basseto, Divisão de Educação e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação (DERDIC), entre outras – bem como intérpretes e familiares de surdos. Nas semanas que antecederam o evento, circularam pela internet convocações para essa mobilização, assim como o anúncio de seu tema: surdo na luta por uma inclusão mais justa.

A surdez e a língua brasileira de sinais (libras) têm ganhado cada vez mais visibilidade no cenário atual. O movimento social surdo – conformado pela atuação de associações representativas, intérpretes de libras, instituições religiosas e intelectuais –, fortaleceu-se desde as últimas décadas do século XX, culminando no reconhecimento da libras como meio legal de expressão e comunicação, de acordo com a Lei Federal 10.436 de 24 de abril de 2002.

Paralelamente ao reconhecimento dessa particularidade lingüística relativa à surdez, consolidou-se desde a constituição de 1988 uma legislação integradora da pessoa com deficiência. No que tange à educação especial, isto é, a educação voltada para as pessoas com deficiência, configurou-se a inclusão escolar. A prioridade de garantir a educação especial nas escolas regulares é algo amplamente ratificado pela legislação nacional e por declarações internacionais[1]. Esse processo é legitimado no contexto da universalização e democratização da educação, o que tem exigido modificações estruturais nas escolas para garantir acessibilidade às pessoas com deficiência. O ideal que essa legislação desenha é que todas as escolas regulares estejam preparadas para incluir alunos com quaisquer deficiências.

Esse sólido enquadramento jurídico gera a controvérsia que motivou a mobilização na avenida Paulista no Dia Nacional do Surdo. Na medida em que a legislação referente à educação especial ratifica a prioridade do Estado pela educação de pessoas com deficiência nas escolas regulares, as escolas especiais correm o risco de serem extintas. Assim, o principal objetivo da manifestação era performatizar uma crítica a essa legislação, explicitando a defesa do direito dos surdos de estudar em escolas especiais.

Cartaz na Passeata do Dia dos Surdos em que se le: Inclusao social sim, inclusão na educação não

As faixas que os manifestantes carregavam faziam referência a esse objetivo, como exemplo, “Inclusão social sim Inclusão na educação não”, “Inclusão na escola regular: opção do surdo e da família”, “Sim inclusão social, não inclusão escolar”, “Chega de ilusão com a inclusão, sim a realidade!!!!”. De acordo com os discursos proferidos pelos representantes das associações de surdos, a legislação que ratifica a inclusão escolar não garante a igualdade ou a inclusão social dos surdos. O surdo, entendido como falante de uma outra língua, a libras, não encontra condições igualitárias de educação em uma escola regular. O fato de estar em uma sala de maioria ouvinte e com professores ouvintes, somente reforçaria a sua condição minoritária e de exclusão.

De outro modo, a escola especial é afirmada como aquela que garante a inclusão social plena dos surdos. A educação por meio de libras (como primeira língua), a sociabilidade com os pares e a presença de professores surdos e ouvintes fluentes nessa língua garantiriam uma educação de qualidade aos surdos, algo que somente as escolas especiais para surdos poderiam prover. Essas escolas geralmente são vistas como espaços fundamentais para a consolidação das línguas de sinais, além de constituírem pontos de encontro e referência importantes para a chamada comunidade surda.

Cartazes na Passeata do Dia dos Surdos

Muitas outras faixas compunham o cenário político. Algumas faziam referência ao Dia do Surdo, outras apresentavam reivindicações explícitas, todas vinculadas à educação e à libras. Dentre elas, podemos destacar: “LIBRAS A segunda língua do Brasil Lei Federal 10.436”; “CONAE Atenção aos surdos”; “Nos postos de saúde, hospitais, bibliotecas, é preciso LIBRAS”; “O surdo tem direito a ser educado na língua de sinais”; “Comunicação Direito de todos”; “Cadê nossa educação de surdos!!!!!”. Outras faixas traziam palavras sem conectivos, como exemplo: “Intérpretes Comunicação Educação Dignidade LIBRAS Respeito Cidadania Telefone de Surdo”.

Muitos discursos frisavam a necessidade de ação por parte de todos os sujeitos surdos. Em diversos momentos, foi feita a comparação com a Parada do Orgulho Gay, certamente a maior performance política e festiva que anualmente toma essa avenida. Segundo a fala de um dos líderes do movimento, assim como aquele evento começou sem o apoio ou aprovação de muitas pessoas, mas, aos poucos, conquistou seu espaço e reuniu milhões de participantes, o mesmo deveria acontecer com a passeata dos surdos.

Uma particularidade digna de nota do evento foi o recolhimento de dinheiro por parte de membros da associação organizadora. Para fazer a coleta, passou-se uma sacolinha de plástico entre os participantes, o que de certo modo lembrou uma performance religiosa. De acordo com os representantes, o dinheiro recolhido seria utilizado para pagamento do aluguel do carro de som.

Diferentemente de outras passeatas, os manifestantes foram impedidos pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de caminhar pelas vias da avenida. Questionado sobre isso, um funcionário de tal órgão nos respondeu que não poderia permitir essa ocupação, uma vez que ela não havia sido comunicada previamente, e que, portanto, não poderia se responsabilizar caso acidentes acontecessem. A alternativa encontrada pelos organizadores foi seguir pela calçada. Se os manifestantes desobedecessem a CET e tomassem a rua, a Associação de Surdos de São Paulo, organizadora do evento, seria multada.

Cartaz na Passeata do Dia dos Surdos em que se le: Viva o dia do Surdo

Com faixas e cartazes erguidos, os manifestantes caminharam do Parque Trianon até a Rua da Consolação e, após isso, retornaram para as proximidades do metrô Brigadeiro. Ao longo desse trajeto, quando os semáforos ficavam vermelhos, alguns manifestantes tomavam a faixa de pedestres e exibiam seus cartazes aos motoristas, retirando-se quando os semáforos abriam. Por fim, uma das últimas atividades da manifestação foi um registro fotográfico com os participantes do evento. Depois disso, os manifestantes começaram a dispersar.

Assim, os membros do Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo (NAU-USP) etnografaram essa manifestação política relativa à surdez na avenida Paulista. No evento, identificou-se o fortalecimento de algumas lideranças surdas, a performatização de objetivos políticos desses que se afirmam como sujeitos de direitos, a reiteração de laços entre pessoas de igual condição e o posicionamento de associações representativas frente a questões que estão em pauta nas atuais políticas de educação.

[1] Cf. Constituição Federal 1988, artigo 208, III; Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei Federal 8.069/90, Art. 54, III; LDB, Lei Federal 9394/96, capítulo V; Plano Nacional de Educação, Lei Feral 10.172/01, cap. 8; Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, resolução nº2/2001; Declaração de Salamanca (1994).

 
A cidade de São Paulo e as suas dinâmicas religiosas PDF

Por Pierina Soratto

freiras e fieis

Sabemos que as religiões conservam e ampliam a sua força nos tempos atuais e em grandes metrópoles como a cidade de São Paulo. O fato de que as religiões inventam novas e criativas formas de sobreviver em meio a um contexto social cada vez mais dominado por novas tecnologias, avanços científicos e globalização não representa nenhuma novidade nos estudos sobre os fenômenos religiosos.

Contudo, ainda é interessante perceber como a organização e as características de grandes cidades podem suscitar formas características de evangelização, como, por exemplo, a organização de eventos de massa destinados especificamente para tais constituições urbanas. Podemos dizer que as grandes cidades amedrontam e atraem os líderes religiosos, pois representam, simultaneamente, uma ameaça para o seu poderio e uma possibilidade de novas conversões ou de “salvar almas”, para usar os termos nativos.

Neste sentido, poderíamos classificar o evento realizado pela Comunidade Canção Nova no dia 16 de agosto de 2009 como uma tentativa moldada, fundamentalmente, para a cidade de São Paulo, pensando em seus habitantes, em suas formas de organização e em suas dinâmicas. O nome do evento era “São Paulo em missão: Deus habita esta cidade”, em alusão não só ao nome da cidade, igualmente ao nome do santo católico – São Paulo- que se tornou o novo padroeiro dessa arquidiocese. Como o próprio nome sugere, o evento visava a mostrar que, mesmo em uma cidade do porte de São Paulo, as pessoas religiosas estão presentes e não desistem de sua atuação, por isso a necessidade de afirmar que “Deus habita esta cidade”.

Tendo em vista a relevância de eventos como este para ilustrar os modos de atuação das religiosidades urbanas contemporâneas, o presente relato tem como objetivo expor uma imersão etnográfica que realizamos no “São Paulo em missão”, o qual uniu tecnologia, alianças políticas, diversidade de movimentos católicos, uso de espaços públicos para fins proselitistas e de marketing religioso.

palco do evento

O “São Paulo em missão” aconteceu na Praça do Campo de Bagatelli, no bairro de Santana, zona norte da cidade de São Paulo. Sua realização mobilizou várias autoridades laicas e religiosas, abarcando desde a Arquidiocese de São Paulo, diversos “novos movimentos eclesiais” e “comunidades de vida e aliança no Espírito Santo”[1], até a prefeitura da cidade de São Paulo, representada pelo seu prefeito Gilberto Kassab, que participou de boa parte da programação e foi lembrado pelo discurso de agradecimento feito pelo administrador da Fundação João Paulo II, mantenedora da Comunidade Canção Nova:

Quero agradecer ao Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, e ao prefeito da cidade, Gilberto Kassab, pois em momento algum eles tiveram dúvidas de dizer 'sim' à Canção Nova. Se não fosse a colaboração deles, este evento não aconteceria, pois a Canção Nova não teria condições de organizar isso sozinha (parte do discurso de Wellington Silva Jardim, durante o evento “São Paulo em Missão”, que pode ser encontrado em www.cancaonova.com).

Percebemos que a realização de eventos de massa em cidades como São Paulo exige a mobilização de diversas formas de poder. Desse modo, não podem ser vistos como eventos puramente religiosos, pois envolvem várias outras alianças e contatos que precisam ser feitos para que a sua execução seja possível. O evento contou com missa, com momentos de louvor e adoração, e, ainda, com o discurso político de autoridades como o prefeito de São Paulo e o vereador mais votado dessa cidade, Gabriel Chalita, católico e colaborador da Canção Nova.

faixa da cet: sao paulo em missao, evite multas, não estacione em local proibido

Atividades como o “São Paulo em missão” são planejadas para atingir um número relativamente grande de pessoas já participantes da igreja, até mesmo pessoas que possam se converter a partir desses momentos. Por isso, tais atividades proselitistas geralmente são realizadas em locais públicos e espaçosos, com grande visibilidade e fácil acesso. Apenas as organizações religiosas não poderiam dar conta da estrutura necessária para sua realização, não só por causa do elevado custo dos palcos e equipamentos de som usados, e inclusive porque, muitas vezes, elas requerem ruas e vias de circulação pública fechadas e comandos policiais acionados para fazer a segurança.

Para ter acesso ao local do evento era necessário passar primeiramente por missionários e voluntários que, de jalecos alaranjados, foram incumbidos de recepcionar todos os participantes com sorrisos, abraços e informações sobre o evento. Após passarmos pelos missionários responsáveis pela acolhida, devíamos transpor uma barreira de policiais civis fardados. Esses policiais revistavam todos os participantes do local e regulavam todas as entradas, pois havia pontos específicos para entrar e para sair, não sendo permitido entrar com objetos pontiagudos, guarda-chuvas muito grandes e nenhum tipo de instrumento cortante.

A dinâmica do local em que se realizou o evento permitia que qualquer um pudesse entrar e assistir às atividades. Como algumas autoridades públicas estavam participando, a segurança foi reforçada. O interessante é que nossa etnografia permitiu perceber que apenas no período da manhã, quando alguns políticos estavam presentes, a segurança foi bastante reforçada; posteriormente, era possível entrar sem sequer ser revistado.

cavalaria da policia sao paulo

religiosos catolicos

O evento ocorreu no domingo em que os católicos celebram a Assunção de Nossa Senhora. Por isso, entre a diversidade de congregações e comunidades que participaram, destacou-se a presença dos Arautos do Evangelho fazendo a entrada de uma procissão com a imagem da Virgem Maria.

Além dos Arautos do Evangelho, o evento contou com a presença de membros de ordens religiosas tradicionais, membros da comunidade Aliança de Misericórdia, da Fraternidade O Caminho, entre outros.

A possibilidade de ampliar o escopo de sua atividade de evangelização não é desconhecida pelos organizadores do evento. Ao contrário, não há uma preocupação em esconder esse objetivo e a importância de um local como o Campo de Bagatelli para essas atividades. O próprio administrador e missionário da Canção Nova fez questão de ressaltar esse aspecto em seu discurso:

Wellington Jardim, administrador da Canção Nova, também reconheceu que o evento é uma ótima oportunidade para evangelizar a cidade de São Paulo. Afirmou que era uma porta aberta e que os católicos tomariam posse do lugar todos os anos e estariam sempre ali, no Campo de Bagatelli, no dia da Assunção de Maria (trecho do diário de campo, Pierina, 16/08/2009).

Além disso, a etnografia nos sinalizou, não apenas para o que acontecia no interior do evento, no palco, nas pregações dos padres e nos discursos das autoridades presentes, como, possibilitou que observássemos o contexto e os locais próximos. Desse modo, assim, à nossa chegada, o primeiro fato que nos chamou a atenção foi que ao redor do local onde se realizou o “São Paulo em missão”, havia várias lojas que vendem automóveis e que, naquele dia, estava acontecendo uma feira de carros usados, que atraiu pessoas, vendedores ambulantes e uma grande agitação, com pessoas bebendo, namorando e comprando carros ao lado de onde ocorria o evento de evangelização.

No evento as pessoas eram incentivadas a se alimentar apenas nas barracas montadas para a comercialização de alimentos pelos próprios organizadores da atividade. Porém, percebemos que muitas pessoas vindas para o evento preferiram não fazer as suas refeições nas barraquinhas montadas no local, e sim nos bares e restaurantes vizinhos.

Portanto, a realização da etnografia possibilitou ao nosso olhar apreender as regras de certas dinâmicas religiosas suscitadas pela cidade de São Paulo. Além disso, o olhar etnográfico possibilitou a percepção, também, de como essas regras podem ser reinventadas e apropriadas pelos atores sociais. Constatamos não apenas as características do público e organizadores, como, igualmente, foi possível observar de que forma a evangelização de grandes cidades, muitas vezes, exige que os movimentos religiosos façam contatos, mobilizem outras organizações e entrem em espaços que não são estritamente religiosos.

[1] Os novos movimentos eclesiais, entre os quais se encontram as “comunidades de vida e aliança no Espírito Santo”, são organizações católicas formadas a partir da iniciativa de um líder carismático, que mobiliza os fiéis em torno de uma missão especifica e atribuída a uma inspiração divina. Tais pessoas passam a viver em casas comunitárias, dividindo recursos, bens e um cotidiano comum. O diferencial dessas comunidades com relação às antigas ordens e congregações católicas é o fato de aparecerem como iniciativas de leigos católicos.

 
Impressões etnográficas do Tribunal do Júri do assassinato de Aline Silveira Soares: o caso da morte do RPG PDF

Ana Letícia de Fiori

graduanda em Ciências Sociais/USP

Após sucessivos adiamentos, nos primeiros dias de julho de 2009 foi realizado o julgamento do “caso Aline”, atraindo novamente olhares de todo o país para a histórica cidade de Ouro Preto, cenário do terrível assassinato ocorrido oito anos antes. A capixaba Aline Silveira Soares foi assassinada em 14 de outubro de 2001 durante a tradicional Festa do 12, promovida pelas repúblicas estudantis da cidade. As circunstâncias em que a vítima foi encontrada, nua e esfaqueada, abandonada em um cemitério da cidade supostamente em posição de crucificação, foram ao longo das investigações unidas a uma série de elementos, construindo diferentes especulações e narrativas caleidoscópicas, veiculadas pelos operadores do direito e pela imprensa, alimentando o mistério em que o caso foi envolvido. Tais narrativas convergiram e foram performatizadas e avaliadas após oito anos, durante o julgamento dos quatro acusados, três rapazes então estudantes da cidade e a prima da vítima. Este julgamento foi eleito como objeto de pesquisa de mestrado em antropologia social, em uma intersecção da antropologia urbana, da antropologia da performance e da antropologia do direito. Intersecção que proporciona levantar, a partir de um estudo de caso, questões pertinentes a diferentes linhas temáticas e a temas caros à disciplina, como família, gênero, as relações entre mídia e o Estado, dimensões estéticas e simbólicas de práticas institucionais. Ao longo da pesquisa, pretende-se discutir como as diferentes narrativas produzidas em função do “caso Aline”, em suas diferentes montagens, promovem o encontro de experiências sociais e imaginários diversos em um esforço coletivo de produzir sentidos e reparação, mas que deixa um rastro de ruídos e tensões, de questões abertas. Busca-se analisar como um julgamento extraordinário, até para os atores para quem o Tribunal do Júri é parte de um cotidiano, cria em suas tensões e obscuridade epistemológica um locus para uma muldimensionalidade de narrativas que alinham elementos dispersos em uma narração capaz de preservar o inacabamento do passado e a imprevisibilidade do presente.

Para uma aprendiz de antropóloga como eu, estranha à cidade, nas visitas a Ouro Preto sentia ainda as incertezas da atitude apropriada ao novo campo, a de flâneur que se deixa perder ou a de caminhante atenta, buscando sentido em cada passo sobre os paralelepípedos rotos. Um longo caminho ladeira abaixo conduz da rodoviária ao Fórum, passando pela Praça Tiradentes e a Rua Direita, sistema nervoso central da cidade, de onde partem impulsos para os circuitos e trajetos de Ouro Preto. Antes porém encontra-se o largo da Igreja Nossa Senhora das Merçês e Misericórdia - ou Mercês de Cima - e seu pequeno cemitério, ponto em que alguns turistas paravam para se recuperar do calor atípico de julho, das caminhadas íngremes e para bater fotos panorâmicas da cidade, em sua maioria sem saber que foi aí que se desenrolou o crime. O olhar informado reconhece que o muro que esconde o cemitério não faz parte do cenário original, também ele parece uma pequena anomalia em uma história maior e mais antiga. No começo do dia, percorre-se a cidade mais depressa que a luz do sol, que gasta boa parte da manhã para alcançar as casas e ruas mais estreitas. O serviço no Fórum começa cedo, mas em seus quatro dias o julgamento só iniciou seus trabalhos sob o augúrio da luz vespertina.

Policiais isolaram a rua, contendo o círculo mágico do julgamento no quarteirão entre a esquina do Fórum e o prédio cor de rosa da Promotoria Pública. Era preciso evitar o que ocorreu no último adiamento de 25 de maio, quando um grupo revoltado vaiou e acossou os réus e um parente da vítima foi preso, o que levou os advogados a pedir – sem sucesso – o desforo do caso e sua transferência para Belo Horizonte. Dentro do círculo estavam também estudantes de direito e curiosos. E salientando a proporção dos eventos para os transeuntes e turistas, os jornalistas, com os carros e vãs de suas respectivas agências, uma amostra dos principais veículos de comunicação do estado e do país. A expectativa pela chegada dos réus era grande; seus advogados observavam, concediam entrevistas; os populares tentavam transportar seus olhares para a lente das câmeras da imprensa, que pareciam ter mais certeza de onde apontar. As câmeras mobilizam diversos discursos e práticas, são parte importante na construção dos sentidos que o evento do julgamento proporcionou. Os advogados de defesa buscavam proteger a imagem de seus clientes, reforçando que os réus se mostrariam apenas quando as câmeras fossem desligadas.

Subindo as escadas e passando pelos balaústres pintados com cores primárias e pela sala de audiência, convertida em quartel da imprensa, chega-se ao salão do julgamento. Antes da sessão começar a assistência conversava animada ou espiava a rua nos balcões. Alguns liam o jornal do dia enquanto esperavam para testemunhar a manchete do dia seguinte. Outros comentavam as roupas chamativas da promotora, que diziam ser brava como a juíza, uma figura vistosa de cabelos negros como a toga e olhar severo. No maior Júri da história recente de Ouro Preto, mesas extras foram necessárias para acomodar os quatro co-réus e seus advogados. Os familiares e conhecidos de Aline chegaram ao salão portando suas camisetas brancas, com a foto de Aline e dizeres pedindo justiça. Seus corpos encarnavam a indignação, a injustiça e o cansaço pela longa espera, ainda que entre o grupo estivessem crianças que provavelmente não eram nascidas na época do crime. A alegada morosidade parecia mais um motivo para a condenação, pois acessava o imaginário da impunidade presente nas representações sobre o judiciário brasileiro. Na fileira oposta de bancos, um outro grupo experimentava um drama intenso, a ser decidido naquele julgamento. As mães dos réus rezavam de cabeça baixa, chorando contidas, atraindo olhares de comiseração suspeita.

O começo do julgamento foi a encenação de um grande embate jurídico, no qual os advogados de defesa esgrimavam com a Justiça, entregando requerimentos e questionando procedimentos tomados. Executavam o playtest das regras do jogo antes que sua parte principal se iniciasse propriamente. Os estudantes de direito acompanhavam atentos, comentando as mudanças no Código do Processo Penal, que constitui as principais regras formais do jogo. O resto da assistência, com pouco entendimento dos lances, trocava versões que correm pela cidade sobre o caso. Dizia-se que havia “muito desse negócio de RPG na cidade e o delegado, que era meio maluquete, queria dar um jeito no RPG”. Outros narram o encontro de Aline com um traficante. Um dos advogados de defesa argumentou fazendo ironias e chacotas com os autos do processo, “isso é um samba do crioulo doido!”, atraindo de volta a atenção de todos. A juíza advertiu a assistência que ria avisando que “isso aqui não é teatro!”. Na entrada dos réus os pescoços se esticam e se comenta “parece um casamento”. A aparência comum dos réus decepcionou alguns, indignou outros, despertou outras metáforas cênicas, como “isto aqui é uma palhaçada”.

As narrativas no julgamento floresciam das peças, dos testemunhos, das evidências e dos argumentos que reúnem em status de presente elementos dispersos pela ótica linear do tempo, interrompendo com um “choque” o fluxo contínuo da história para aproxima-los numa imagem de constelação. Os corpos dos réus eram a materialização deste choque, sendo submetidos a uma economia de poder que as câmeras da imprensa tentavam apreender. Surgiram dispositivos de construção do criminoso, da personalidade voltada para o crime. As testemunhas de acusação descreveram hábitos estranhos de ré,  roupas pretas, gostos duvidosos. À testemunha que afirmava a agressividade da ré por seus cabelos tingidos de vermelho foi chamada a atenção por sua própria coloração, digna de uma tintura tonalidade 6.66. Morte em família e a espetacularização do crime promoviam a conexão da ré com a figura também loira de Suzane Richtoffen, condenada pelo assassinato de seus pais. No corpo de outro réu, buscavam-se evidências de oito anos atrás, se trocou de roupa, se as marcas de seu corpo são fruto de um encontro heterossexual legítimo com uma das testemunhas de acusação, um encontro homossexual inconfessável, insinuado por pessoas da assistência, ou marcas da brutalidade praticada, como defendia a promotoria. Os “chupões” são um dos pontos altos de polêmica do primeiro dia de acusações e uma das ambiguidades em torno dos quais se configuraria a disputa.

Enquanto as vidas cotidianas de vítima, co-réus e testemunhas eram recriadas e postas em exame para dar sentido àquela morte extraordinária, até o que é dado como certo cobria-se de ambiguidades. O tempo é colocado em disputa. O tempo dos procedimentos e diligências da justiça; o tempo em que os réus permaneceram presos durante as investigações; O Tempo, um dos jornais mineiros responsáveis pela cobertura do caso; e principalmente o tempo que deveria situar as ações e deslocamentos dos réus. Na noite do crime, a mudança do horário de verão teve o efeito de criar narrativas paralelas sobrepostas, como um borrão na reconstituição dos fatos, confundido versões já incertas dada a margem de várias horas delimitada pelos peritos para a hora mortis de Aline. Nesse fluxo, os advogados de defesa argumentavam que também era impossível se produzir um álibi se não havia acusações claras, ou segundo o jargão imputação genérica, falta de individualização da conduta. Descompassos entre um sistema penal voltado para culpas individuais e um mundo empírico no qual pessoas e ações diversas podem concorrer para uma prática legalmente sancionada. A disputa era também pelo tempo de jogo, dos operadores do direito conseguirem ou não apartes, de todos resistirem às horas arrastadas do julgamento, à fome e ao cansaço. A fronteira entre a assistência e o resto do julgamento era burlada por pacotes de bolacha, garrafas de refrigerante e comprimidos para dor de cabeça.

A quantidade de testemunhas e informantes (desobrigados de dizer a verdade) de acusação excediam as testemunhas de defesa. A oitiva mais aguardada no segundo dia era a da mãe de Aline, a quem foi dispendido um cuidado maior por parte de todos. No julgamento efetivava-se a metonímia de mãe e filha enquanto vítimas e as narrativas produziam sobreposições de imagens. Os jornalistas avidamente buscavam registrar Maria José, que tivera a filha imolada tal qual os personagens de quem recebera seu nome. Acima da cadeira da juíza, Jesus Cristo representado em sua cruz criava uma montagem das narrativas de morte. Enquanto Maria José expunha sua dor renovada por ter a vida já interrompida da filha também em julgamento, a juíza chorava discretamente desvelando a venda da Justiça em seu rosto de mulher.

Nos intervalos e final das sessões, aqueles que já haviam sido ouvidos podiam falar à imprensa. A defesa reuniu antigos colegas dos réus falando de sua convivência em Ouro Preto e uma professora da UFOP, que além das condutas dos réus defendeu também os jogos de RPG, sendo posteriormente chamada pelo assistente de promotoria de “doutora em artes cênicas e pós-doutora em artes cínicas”. Este depoimento também revelou a mobilização, em defesa dos réus, de alguns cursos da “federal”, que designou o então professor Marinho para defendê-los. O segundo dia foi o único em que a sessão não se aproximou da meia-noite, de modo que os jurados foram atendidos em sua solicitação de romper a incomunicabilidade para assistir ao jogo Cruzeiro X Grêmio, cujo empate alçou o time mineiro à final da Copa Libertadores da América.

No terceiro dia um a um foram ouvidos os co-réus, enquanto os outros aguardavam fora da sala. Seus corpos e vozes oscilavam entre o desespero, a tentativa de objetividade e a indignação. Um a um alegaram não saber de que estavam sendo acusados, fazendo com que a juíza ou o escrivão lessem a peça acusatória. Os três rapazes relataram a seqüência dos dias de outubro de 2001, entre a greve da universidade, as atividades artísticas e a vida em república. Contaram do encontro com a vítima e sua prima e dos dias posteriores à morte de Aline, descrevendo as ameaças recebidas. Todos enfatizavam o absurdo das acusações e da maneira como a investigação foi conduzida. Falavam também sobre o sofrimento de suas famílias e das dificuldades em construir uma vida sob o peso das acusações. O assistente da promotora perguntava sobre elementos do RPG que pudessem fazê-los falar sobre coisas semelhantes às imagens do crime.

A última a ser ouvida foi a prima de Aline, que fora fotografada rindo pelos jornais. De todos os acusados, ela foi quem mais recebeu atenção da mídia, quem passou mais tempo presa e de quem a assistência mais fala com convicção da culpa, amparados talvez pela violação dos vínculos familiares. Apenas a ela os jurados dirigiram perguntas, por escrito. Sua oitiva foi conduzida pelas brigas de família, pela relação com a vítima, pelos dias da visita a Ouro Preto que culminaram no assassinato não presenciado e pela falta de emoção demonstrada no enterro e as pressões da investigação.

No quarto e último dia de julgamento foram dispostas caixas arquivos amarelas, contendo as evidências recolhidas na república dos réus, no cemitério e nas ruas de Ouro Preto. A chamada gravada pelo repórter do Jornal Hoje avisa que seria exibida uma reportagem sobre os jogos de RPG, a pedido dos telespectadores pelo Twitter, ambiente de microblogagem na internet. É o twitter de uma ex-moradora da cidade que primeiro noticia o resultado do julgamento, na manhã do dia seguinte. Foi estabelecido que haveria nove horas de debate no total, mas entre réplicas e tréplicas o julgamento se estendeu madrugada adentro.

A promotora iniciou entregando aos jurados um volume encadernado com fotos de Aline e trechos dos autos do processo, que tem dez volumes e cerca de quatro mil laudas. As fotos da cena do crime foram exibidas em powerpoint na tela de um laptop, exibindo em luzes vermelhas o corpo de Aline, o que causa grande impacto e faz com que parte da assistência se aglomere do lado direito do salão para ver. Depois de sublinhar sua dedicação ao caso e competência, e apelar à comunidade católica de Ouro Preto, a promotora passou a questionar a defesa que se fez do RPG, enquanto havia “uma mãe chorando, família partida, e uma cidade patrimônio da humanidade e cheia de estudantes, que às vezes incomodam, mas são jovens. O jogo se tornou mais importante que uma morte”. Seus argumentos buscavam construir a inteligibilidade da morte a partir da extrapolação do jogo, realizando montagens entre o RPG, a Bíblia Satânica e o crime. Seu assistente, por sua vez, conclamava os jurados “Senhores jurados, após quase oito anos, chegou o dia de limpar a mancha de sangue que ficou em Ouro Preto com o manto da Justiça”. Um segundo assistente, indicado pela maçonaria a qual pertencera o avô de Aline, trouxe um tom melodramático e pitoresco ao debate, chamando os réus e o primeiro promotor que rejeitara o caso de “nerds”, e afirmando que “o jogo continua, mas não é o Vampiro, é um jogo construído pelo nerd Cassiano”. Em sua fala o RPG foi explicitamente caracterizado como uma ferramenta de arregimentação do demônio e de destruição de lares.

As falas da defesa usaram um tom de enunciação marcadamente racionalizante e didático, começando por conclamar a todos para “voltar à sanidade neste ambiente e trazer fatos concretos”. Em uma lousa, elaborou-se uma cronologia desde a chegada das primas a Ouro Preto até as investigações e depoimentos na delegacia em 2001 e 2002. As evidências, livros de RPG e gibis, foram menosprezadas em seu valor de prova, pois até mesmo os advogados tinham ítens semelhantes em suas casas. A estratégia passou a ser desqualificar o trabalho do Ministério Público falando sobre Direito Penal e acusando-os de retórica vazia e de delegar o trabalho de investigação à imprensa. O delegado foi acusado de usar o caso para autopromoção e para desviar a atenção dos processos aos quais ele mesmo respondia na época. A mãe de Aline foi descrita como alguém que foi terrivalmente enganada e a alguém que se deu falsas esperanças de justiça. Um dos advogados de defesa, um homem negro imponente, falou sobre a injustiça que se cometeu contra Tiradentes em Ouro Preto, e sobre crimes de preconceito como o que estava ocorrendo. O advogado da prima da vítima mencionou o caso do jornalista José Cleves da Silva, que sofreu linchamento moral por um crime do qual foi inocentado.

As quatro horas da manhã de domingo foram lidos os quesitos da acusação de homicídio triplamente qualificado. O salão foi esvaziado, e cerca de sessenta pessoas esperou diante do prédio do fórum pela sentença. No retorno, familiares subiam nos bancos para poder ver para além da muralha de filmadoras a leitura do primeiro quesito, que apontava a participação na prática do crime. Na ordem em que foram acusados e ouvidos, os co-réus foram absolvidos. Entre flashs, choros, preces, abraços, cumprimentos cordiais e entrevistas, o julgamento era encerrado e pouco aos poucos finalmente o Fórum foi esvaziando, enquanto surgia por entre os morros uma aurora morna para iluminar o dia.

Após testemunhar o longo julgamento que se iniciou em uma quarta-feira ao meio-dia e se encerrou ao nascer do sol de domingo, os grandes veículos da imprensa encerraram sua cobertura repetindo as acusações do Ministério Público e atribuindo à absolvição por falta de provas. Diferente é minha proposta, do qual este relato é apenas um primeiro ensaio, de contemplar o ritual do Tribunal do Júri do “caso Aline” como um esforço coletivo e fragmentado de rememoração, de retomar e salvar pela palavra um passado que, de outra forma, desapareceria no silêncio e no esquecimento.