O transporte público costuma ser entendido como infraestrutura: linhas, horários, capacidade. Etnógrafos que pegam a mesma linha de ônibus por meses enxergam outra coisa — um mundo social recorrente, com sua própria etiqueta, hierarquias e pequenos rituais de civilidade entre desconhecidos.
A disposição dos assentos, por exemplo, codifica regras não escritas sobre quem cede lugar a quem, e essas regras mudam conforme o horário, a linha e a cidade. O mesmo banco ferozmente disputado no horário de pico é oferecido de bom grado a um passageiro idoso uma hora depois.
O transporte coletivo também comprime a distância social de um jeito que poucos outros espaços públicos fazem. Passageiros que jamais interagiriam em outra situação são pressionados a compartilhar espaço físico durante o trajeto, produzindo encontros breves e densos entre classes e origens diferentes — encontros que pesquisadores já usaram para estudar tolerância, conflito e cooperação urbanas.
Como uma linha de transporte se repete diariamente, ela também oferece algo raro no trabalho de campo: um cenário controlado e comparável, em que a mesma cena social pode ser observada manhã após manhã, até que seus padrões se tornem legíveis.