Muito antes de ter um nome, caminhar já era um método de pesquisa. O flâneur do século XIX — observador sem pressa perambulando pelas passagens de Paris — legou à antropologia urbana uma de suas imagens fundadoras: conhecimento produzido não numa mesa, mas num ritmo lento o bastante para notar.
Pesquisadores contemporâneos transformaram o caminhar em algo mais disciplinado que um simples passeio. A entrevista 'caminhada acompanhada', em que o pesquisador percorre um trajeto ao lado de um morador, capta como as pessoas narram seus próprios bairros em tempo real — apontando um atalho, evitando uma esquina, cumprimentando um comerciante pelo nome. A cidade fala de um jeito diferente quando se anda por ela do que quando se descreve de memória.
Caminhar também expõe o corpo do próprio pesquisador ao terreno estudado: o calor de um ponto de ônibus ao meio-dia, o limiar de ruído de uma rua de comércio, o ritmo distinto de uma calçada conforme o horário. Esses não são incômodos incidentais; são dados.
Vários colaboradores desta revista já utilizaram entrevistas caminhadas e mapeamento de trajetos como métodos primários, tratando o ato de se deslocar pela cidade como inseparável dos sentidos que os moradores atribuem a ela.